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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Toda mãe



Existem coisas que acontecem com tanta gente, que acabo pensando que ocorrem com todo mundo. Existem conceitos tão arraigados, que eu acabo crendo serem parte de uma verdade universal. Sei que nem é isso que ocorre, mas gosto de pensar que todas as mães têm algo em comum, além do fato de terem filhos.

Penso que toda mãe tem consigo um amor desvelado, daqueles que não consegue decidir entre um filho ou outro; nem entre os filhos e a própria vida. Penso que esse amor é uma espécie de motor de arranque para os dias e para as decisões. E creio, também, que toda mãe em algum momento faz aquilo que tem que ser feito - apesar da dor, da dificuldade ou da aparência impossível.

Toda mãe, aqui na minha cabeça, tem olhos aguçados - daqueles que veem sujeira atrás da orelha e tristeza escondida atrás do sorriso. Toda mãe capta nuances que ninguém mais percebe, porque o amor amplifica a visão. Ela sabe a hora de abraçar e de dar a bronca; e se não sabe, vai tateando com o coração até descobrir. Ela enxerga o perigo que ninguém mais vê, o amigo que nem é tão amigo assim e o potencial que nem mesmo a gente sabe que tem.

Toda mãe, no meu entender, - e quero muito crer que seja verdade, ou seria realmente muito triste estar num barco sozinha - já errou tentando acertar e já acertou com medo de errar. Todas nós já nos sentimos perdidas, frustradas, amedrontadas e recompensadas na mesma medida. Toda mãe já sentiu dó e se preocupou com a passagem do tempo. Toda mãe já chorou e sorriu; e já sentiu o dia se iluminar à vista de um sorriso.

Creio que são essas coisas que fazem das mães uma espécie de instituição, algo sólido em que se pode confiar. Acredito que essa série de intersecções nos aproximam e criam um dialeto de amor, que só se compreende de fato quando se gera um filho - no ventre ou no coração.

Porque o que fala por nós, mães, é um afeto grande demais para ser traduzido. O que nos move é um coração cheio de um amor transformador, capaz de se doar e de perceber a beleza em frações de segundo.

Penso que toda mãe consegue guardar consigo pequenos trechos de eternidade. Porque toda mãe eterniza consigo as memórias mais refinadas de amor.

Feliz dia das mães!
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 26 de março de 2013

O Ciclo dos Dentes - um texto sobre amor



Não foi hoje que a ideia para essa crônica surgiu. Na verdade, o argumento que pretendo explorar vem se apresentando a mim gradativamente ao longo dos últimos nove anos e alguns meses - a saber, o tempo decorrido desde o dia em que adquiri a credencial mais importante da minha vida: uma em que está escrito "Mãe". O que tenho pensado, por quase uma década é que a vida se apresenta em ciclos - com trajetórias maiores ou menores, mais ou menos óbvias, felizes ou nem tanto - movimentos de vida que vão a algum ponto e retornam, trazendo consigo os aprendizados e encantamentos que lhe são próprios.  As pessoas surgem e desaparecem, a terra se aproxima do sol e recua, as marés têm sua dança própria, relações são construídas e desfeitas, para daí a um tempo ressurgirem com outra cara, outro sotaque, outras pessoas. A verdade é que a vida dança à nossa frente e deixa conosco alguns sinais de sua coreografia. E nesse bailado, vendo minhas filhas crescerem, cheguei à conclusão de que o amor de mãe acompanha o que passei a chamar de "O Ciclo dos Dentes".

Eu explico.

Quando minha primeira filha nasceu, fiquei apaixonada por ela de uma maneira tão sobrenatural, que gostaria que ela permanecesse daquela forma em que eu a encontrei para todo o sempre. Eu tinha em minhas mãos uma boneca semitransparente, praticamente careca e banguela. Tudo naquela criança era a expressão do meu encantamento. Tudo era novidade e representava a maior perfeição que eu jamais observara. Daí meu desejo de que nada mudasse. E uma noite eu sonhei que a minha pequena sorria para mim com a boca cheia de dentes. Nunca vou conseguir explicar a ninguém, leitor querido, a ira que me acometeu no sonho. Eu queria saber quem era responsável por todos aqueles dentes no meu bebezinho banguela. E queria que a pessoa que inventou tudo aquilo providenciasse a remoção de todos aqueles indícios de que o tempo passaria, mesmo que eu quisesse retê-lo.

E acontece que o tempo, de fato, passou. A parte boa é que, quando os dentinhos de leite lá foram marcando presença no sorriso de minha filha, o encanto só aumentava. Lá estava a mãe babona, exibindo os dentinhos da filha como se fossem o maior troféu do mundo. E eles eram! Aquelas perolazinhas eram a expressão de como o tempo transforma as coisas, as pessoas, os sorrisos e o amor - que naquele caso só fazia crescer.

Durante muito tempo apaixonei-me por aquele sorriso cheio de dentes de leite, pequenos e delicados. Até que foi chegando a época de dar adeus a eles, aceitar a visita da fada do dente e entender que a vida é assim mesmo, cíclica - sempre substituindo algo, levando coisas e trazendo outras em seu lugar. Assim, os dentinhos de leite deram lugar a dentões que pareciam chicletes numa boquinha pequena, num rosto delicado e tremendamente infantil que - valha-me Deus! - está mudando para um rosto de adolescente.

Que maravilha, observar essas mudanças e ver o quanto esse sorriso está ficando parecido com o meu. Sabe, leitor, acho que as mães nunca deixam de procurar traços de si nos filhos. Eles são como espelhos que nos mostram que algo de nós transcende, tapeia o tempo e vai além. O sorriso novo de minha filha me mostra que, sim, a vida muda; e não há nada que possamos fazer, a não ser observar sua beleza. E o que mais poderíamos fazer?

Com minha filha mais nova, o processo já está começando também. As banguelas vão surgindo, trocando meu bebê por uma menina - que vai crescer, viver, amar, cometer seus erros e acertos e que - queira Deus! - terá a oportunidade de contemplar esse mesmo ciclo no rosto infantil e absurdamente terno de filhos gerados em seu ventre.

A vida é assim, não é? Os dias se sucedem, modificam e desenrolam. Os ciclos acontecem. O que existe para ser mostrado sempre aparece. E o que existe para ser memória para lá vai depressa.

Afinal, o amor não é matéria que diminua com o tempo. Não o amor do qual eu estou falando. Esse tipo de amor, você deve saber, leitor querido, é do tipo que só aumenta. Especialmente porque as mudanças trazem coisas novas pelas quais o amor vai sempre se encantar.

Sou feliz por acompanhar esse ciclo virtuoso de mudanças e de vida. Sou grata pela vida que se modifica diante dos meus olhos, acompanhando meus sorrisos e mandando-me beijos lindos e sempre renovados. Porque acho que é disso que o amor se faz. É disso que preciso para viver bem feliz.

Uma excelente noite a todos.

Beijinhos
Fê Coelho


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Penúltimo



- Isso é cara para se comparecer ao fim do mundo? - pensou Marilu, enquanto se olhava no minúsculo espelho do quebra sol, acima do volante de seu carro financiado até o fim dos tempos.

Ela já estava cansada de aguardar os finais - da faculdade, da semana, dos domingos na casa da sogra, do jogo de futebol narrado pelo Galvão e embalado pelos gritos de Chupa! da vizinhança inteira. Já estava cansada de ansiar pelo término do financiamento do carro, e das prestações que fizera para os armários novos da cozinha. A verdade é que Marilu estava exausta!

Olhou-se novamente no espelho, observou que suas olheiras já estavam quase sendo promovidas a "queixeiras", sacou um corretivo da bolsa e tentou ajeitar o estrago. Começou pelo olho esquerdo. Quando ia corrigir o lado direito, lembrou-se do cachorro da vizinha que havia latido a noite inteira e que era tudo culpa dele, se ela precisava usar seu corretivo novinho da M.A.C. numa quinta-feira pela manhã.

Quinta-feira, dia vinte... Ela estava esquecendo de alguma coisa... vinte de dezembro... Ah, droga! Estava atrasada para a consulta com a nutricionista. Havia perdido dois quilos na primeira semana e engordado três nas semanas seguintes. Deixou o corretivo de lado, engatou a primeira marcha e saiu praguejando até o consultório, certa de que aquela magricela impiedosa da Dra. Alice (recalque, é verdade) chamaria sua atenção para o ganho de peso. O que a nutricionista sabia das coisas, afinal? Ela não tinha dois filhos em idade pré-escolar, que iam a um aniversário cheio de guloseimas por semana. E não tinha um marido muito amado, chamado  Mário Henrique, que fazia a melhor picanha do mundo aos domingos e que a deixava com tanta raiva nos outros dias da semana, que ela explodiria se não comesse um chocolate.

A consulta foi como ela imaginava. Com muito jeito, a Dra Alice pontuou a necessidade de estabelecer um padrão alimentar mais saudável, com a introdução de fibras e alimentos crus, integrais, desnatados, com pouco sódio, naturais e inacessíveis. Explicou que seu índice de massa corpórea estava aumentando e afirmou ter certeza absoluta de que Marilu conseguiria se manter saudável. Afinal de contas, ela tinha dois filhos pequenos e precisava se manter bem para criá-los.

Ah, meleca! Os filhos. Já estava atrasada para a reunião da escola, evento esse que iniciava o período de maior terror na vida de Marilu: as férias escolares. Com quem ela deixaria os dois filhos? Como encaixaria um mês de atividades para os gêmeos? Arrumaria uma colônia de férias, uma babá, um milagre, duas avós, três tias e um atestado médico por insanidade mental. Afinal de contas, não poderia levar os garotos para o Fórum.

Céus! O Fórum! Teria uma audiência complicadíssima naquele dia.

As coisas não estavam indo muito bem, ela pensou. Talvez devesse conseguir uma passagem só de ida para Marte, já que as coisas por aqui acabariam em um dia. Às vésperas do fim do mundo, tudo o que ela queria era o fim daquele fotoperíodo. Estava um trapo. Um farrapo de gente. Morta com farofa. Na lona. Acabada. Só o pó da capa, entre outras formas pra dizer que se precisa de uma ida ao salão urgente.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos. Ela ligara para Mário Henrique, avisara que as crianças eram todas dele. Explicou que havia comida na geladeira, roupas no armário dos gêmeos, água no chuveiro, um microondas ligado na tomada e uma esposa ameaçando entrar em autocombustão se não separasse duas horas de prazo para si. Ou três. Ficaria loira, faria as unhas, a sobrancelha, o buço, leria todas as revistas de fofoca do mundo inteiro e quem sabe quisesse uma massagem. Ou não. Talvez ela nem soubesse dizer seu nome completo àquela altura dos acontecimentos.

Voltou para casa. Os gêmeos assistiam Discovery Kids pendurados no lustre da sala. Exagero, ok, mas pulavam no sofá. Havia um prato de brigadeiro na mesa e um Mário Henrique muito concentrado atrás da coluna de esportes do jornal. Foi para o quarto. Quando olhou-se no espelho, quis chorar. O cabelo ficara ótimo, a sobrancelha também. Mas ela passara o dia todo com apenas um lado do rosto sem olheira. Corrigira somente o lado esquerdo. Sentia-se mono-olheira-à-direita. As lágrimas se formaram. Ia desaguar todo o cansaço ali mesmo.

Foi quando sentiu um par de braços a envolver-lhe a coxa. Um dos gêmeos a olhava de baixo pra cima, com cara de adoração e um sorriso de derreter qualquer pessoa.

- Mamãe linda! - ele de derramou em admiração.

E Marilu jogou fora toda sua contrariedade. Com ou sem olheiras, ela era muito amada. E se o mundo acabasse amanhã, como os malucos apregoavam por aí, ela estaria linda, loira e feliz.

- Quem quer acampar na sala? - ela gritou e se atirou para cima dos filhos.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sabe a vida? Algumas reflexões sobre sucesso.



Sabe a vida? Aquela sucessão de dias, acontecimentos, sonhos, o que foi e o que não foi, o que se pensa que deveria ter sido e aquilo que se espera que seja, sabe? Ela pode ser bem bonita, se olhada com o filtro correto.

Tenho visto muitas pessoas se julgarem um fracasso pelos motivos errados. Tenho observado que amiúde, o sucesso no campo profissional tem sido parâmetro para definir o quanto os dias têm valido a pena. Não discordo de quem avalia os fatos por esse prisma; o campo profissional é algo importantíssimo em nossa vida, afinal. O que me deixa intrigada é a definição que se tem dado para sucesso e a exclusividade com que se separa o campo profissional como parâmetro.

Ora, se uma pessoa define como meta ensinar uma turma de quatro anos a escrever o próprio nome em letra de forma e consegue isso, quem dirá que não houve sucesso? Se um homem decide plantar uma horta, colher, vender o produto do seu trabalho e, com isso, manter sua família, será considerado sem sucesso por não exportar alimentos? E mais, uma mulher que consegue conquistar o mundo inteiro e não consegue uma boa comunicação com os filhos, será assim tão poderosa?

Estes são apenas pensamentos que me ocorreram agora há pouco, quando encontrei uma série de cartinhas, desenhos e mimos diversos que minhas filhas têm me entregado ao longo do tempo. Esses são tesouros que fazem com que eu me recorde quem sou e por que tenho feito boa parte das coisas que faço. Estou falando de afeto, leitor querido. Estou falando de um amor tão grande que é capaz de dar sentido à vida. Estou falando de um objetivo claro: o de ser uma boa mãe para essas duas crianças que Deus me confiou e por quem eu seria capaz de me superar todos os dias. Isso para mim é sucesso.

No meu ingênuo entender, o sucesso é algo que se pode encontrar nas menores coisas. Pode-se vê-lo na maneira como se constrói uma amizade, na forma como se relacionam as pessoas, no "bom dia" que se deseja. Tudo depende da intenção, da inclinação do pensamento. Tudo parte daquilo que se traçou por meta.

São as metas, o que guia nosso agir. Talvez aí esteja o cerne de todas as coisas, sobre as quais refleti nesse breve momento - entre ver os traços infantis de minhas filhas e traduzir de maneira superficial a infinidade de sentimentos e impressões que se pode experimentar nessas horas. Entendo que o estabelecimento de metas seja condição sine qua non para se definir sucesso. Até porque o êxito tem como precursores o objetivo, a perseverança, a sabedoria e a esperança.

Estabeleci como meta me orgulhar de minha vida, dos meus dias e do amor que entreguei aos que me são caros. Defini como objetivo poder, lá na velhice, ter anedotas cheias de encanto para contar. Escolhi passar a vida pelo filtro da ternura, para depois guardá-la comigo, como um álbum de retratos que faz sorrir a todos que o olham. Por que, sabe a vida, aquela coisa que temos e que é nossa responsabilidade? Ela pode ser bem bonita, se olhada pelo seu melhor ângulo

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Uma janela chamada Felicidade



Alguns conceitos gostam de se revelar assim, do nada, numa manhã de quinta-feira qualquer. São ideias fugidias que vêm meio sem palavras, que se anunciam tão rápido quanto se retiram e podem fazer valer o dia. Estou falando de breves momentos de clarividência, daquele instante mágico no qual se compreende algo importante. Algo com o poder de mudar conceitos, fazer pensar ou - no mínimo - fazer sorrir.

Foi assim hoje. Sem que nada de especial (em tese) acontecesse, consegui formular um conceito do que para mim é a felicidade. Veja bem, estamos tratando de uma manhã sem qualquer atrativo especial: a primeira do inverno, um dia paradoxalmente quente, com céu limpo, sem vento ou novidades. Eu estava na cozinha da casa de meus pais, um lugar conhecido desde sempre, por cuja janela se filtra uma luminosidade dourada capaz de desenhar pequenos quadradinhos de luz no chão molhado, cheirando a produto de limpeza e tranquilidade. Minha filha correu para longe de mim, após devolver-me o copo vazio e ainda morno pelo leite. Ouvi música e entendi: a felicidade é uma janela que fica sempre aberta, mas sobre a qual nem sempre nos debruçamos.

Esse pode parecer um conceito estranho, mas para mim calhou perfeitamente. Visualizei-a como se estivesse exatamente à minha frente: uma janela aberta, por onde passa luz dourada e oblíqua, em cujos raios se pode ver suspensos os grãos de poeira num eterno balé. Mais adiante um campo, verde, florido e vivo. É como se ela sempre estivesse lá, mas passássemos apressados demais para prestar-lhe atenção. Até que um dia, numa manhã comum de uma quinta-feira qualquer, por algum motivo, eu tenha resolvido demorar-me à sua frente; como se houvesse resolvido me aproximar e olhar o que está contido em minha própria felicidade.

E me vi cheia de motivos para estar feliz. Pensei em minha família unida, bela e em paz; recordei os amigos, meu trabalho, ouvi a risada de minhas filhas e sorri. Estiquei meus braços, enchi os pulmões de ar, movimentei as pernas, peguei um brinquedo jogado no chão e agradeci. Senti-me profundamente grata pelo que sou e tenho, pela família em que fui inserida, pelas raízes que compartilhamos, pelos princípios que guiam minha existência e por cada uma de minhas memórias.

Penso que deve ser algo realmente triste, quando a pessoa se fecha muito demoradamente na escuridão do pessimismo, das reclamações e se foca sempre naquilo que falta. Isso faz com que não se consiga suportar a luminosidade de dias delicadamente felizes. Acredito que fizeram à felicidade uma grande injustiça, elevando-a a um patamar inatingível de bens ou sensações psicodélicas, quando - a bem da verdade - ela está o tempo todo esperando ser apenas reconhecida.

E é esse o ponto em que quero chegar, finalmente. A felicidade é simples por essência. Delicada e mansa, ela não necessita de tantos adereços quanto se prega por aí. Não é preciso que se faça da vida uma Drag Queen de anseios e sensações. Porque para ser muito sincera, acredito que a felicidade seja mesmo uma janela sempre aberta. Tudo o que precisamos fazer é escolher nos debruçarmos sobre ela.

Beijinhos
Fê Coelho

sábado, 12 de maio de 2012

Sobre o amor que se constrói.



Não sei se vou conseguir explicar aqui, com meu vocabulário restrito, o que ocorre quando nos tornamos mães. Aliás, sobre o que realmente quero discorrer é o processo pelo qual uma mulher se torna mãe - ou mais particularmente o processo pelo qual me tornei mãe. Nada de fisiologia, pessoas. Estou falando do campo afetivo. Sei que vai ser difícil montar o discurso, mas sempre se pode tentar, não?

Quando me vi esperando minha primeira filha, após o susto e o - vamos assumir - pânico de uma gravidez em uma idade tenra, acabei num primeiro momento aceitando a ideia. Depois disso, me apaixonei por ela - a ideia. Eu me tornaria mãe. Subiria um degrau na hierarquia. Seria um pouco mais adulta, por assim dizer. Acariciei essa possibilidade com todo o amor que eu tinha para oferecer àquela época. Cuidei de mim, cuidei do bebê que Deus formava em meu ventre e tentei me fazer forte para ser a mãe que esse bebê precisava.

E amei essa ideia. Amei esse conceito de mãe e essa relação de maternidade que se estabeleceria. Dediquei a esse bebê que se formava em mim todo o afeto que eu estava preparada para dedicar.

E acontece que os bebês nascem. E engana-se, no meu parco entendimento de mãe de duas filhas, quem diz que nesse exato momento nasce uma mãe. Por definição, sim. Mas não foi uma coisa cósmica, o surgimento do meu amor. Amor é coisa que demanda conhecimento. É algo pessoal, íntimo demais. Sou assim, um pouco devagar para começar a amar e absolutamente desvelada no amor que construo, no amor que conquisto.

Quando vi aquele bebezinho careca, pelo qual senti dores terríveis, dormindo e depois, com sua boquinha morta de esfomeada, eu gostei da ideia. Eu quis aquela menina e quis amá-la com tudo o que eu podia.Talvez não soubesse muito bem como fazê-lo, mas eu queria - com toda minha alma.

Então passaram-se os minutos, as horas e os dias. E eu aprendi a amá-la pelo seu nariz arrebitado, pela maneira como ela dormia, pelo som do seu choro, pelo toque da sua pele e por todo o resto. A mágica se fez. Eu amava aquela criança como provavelmente não poderia amar a mais ninguém no mundo. Eu precisava de minha filha. Precisava saber que ela estava bem, precisava do seu sorriso e do som da sua voz. Eu precisava fazê-la dormir. Eu necessitava dessa convivência, como jamais imaginei necessitar de algo.

Então eu me vi esperando outra menina. Tecnicamente, não haveria motivo para surpresas - considerando que eu já era mãe. Mas eu tive muito medo. Como seria possível amar alguém com a mesma intensidade, com a mesma devoção que eu dedicava à minha primeira filha? Impossível! E temi não conseguir amar minha segunda filha, ou preteri-la em favor da outra, ou o contrário. Passei muitos momentos pensando a respeito, atemorizada, mortificada, curiosa.

E ela nasceu. Que coisa maravilhosa, ver minha primeira filha segurando a segunda no colo, como se dissesse "olha, mamãe, a boneca nova que eu ganhei". E o amor foi se fazendo aos poucos, novamente. E uma vez mais, ele se fez maravilhoso, forte, desvairado e para sempre. E aprendi a amar uma filha na outra. Aprendi a amar o cuidado que uma tem com a outra, o companheirismo. Aprendi que é possível, sim, amar duas pessoas desesperadamente e dar tudo de si e mais um pouco, sem que isso signifique um esforço.

Acho que é isso o que nos torna mães: conhecer, amar e descobrir a cada dia que esse amor só aumenta. Acredito que essa é a maior surpresa da vida: um afeto que te assusta, de tão forte, de tão sublime. Um amor que te explica o amor que você recebeu, que te aproxima dos seus pais e te mostra como amar os seus irmãos.  Acho que ser mãe é o que passa a nos mover, quando acontece.

É por isso que eu confio no amor que tenho. É por isso que acredito que vai dar tudo certo, porque temos o amor por guia e um vínculo que só se fortalece, que só aumenta, que só encontra mais e mais motivos para existir. Porque agora eu amo mais que antes. Sempre mais. Sempre mais bonito. Sempre mais intenso. Porque me torno, a cada dia que passa, mais e mais mãe - se é que isso é possível. A questão fundamental é: impossível é uma palavra muito pouco usual no vocabulário de uma mãe.

Feliz dia das mães a todas vocês, mulheres que estão fazendo o melhor que podem, porque simplesmente não conhecem outra forma de agir.
Parabéns pelo amor que entregam e pela maneira que o fazem.

Beijinhos
Mamãe Coelho ^^)


quinta-feira, 10 de maio de 2012

No Colo da Mãe da Gente



No colo da mãe da gente cabe o mundo inteiro. Cabem nossas angústias, nosso melhor carinho, nosso sorriso mais sincero e nossas lágrimas mais bem escondidas. No colo da mãe da gente cabe tudo aquilo que quisermos entregar, tudo o que quisermos confessar. Ali cabemos nós, do jeito que somos, da maneira que estivermos.

No colo da mãe da gente estão seguros nossos segredos, nossas limitações e nossos medos. Ali se podem aninhar nossas impressões falsas sobre as pessoas, o mundo e nós mesmos. Ali se escondem nossos vexames impagáveis da infância e nossos belos dias de rebentos bochechudos. No colo da mãe da gente se esconde uma outra versão de nós - uma mais perfeita, delicada e bem intencionada - passada pelo filtro do amor incondicional.

O colo da mãe da gente ensina a amar - não com tratados sobre o amor ou coisa que o valha. Nada disso. No colo da mãe da gente, o amor é ensinado pela doação, pela simples entrega. É como se a mãe da gente dissesse: olha, filhote, é assim que se ama. E nos amasse para ensinar, para transmitir essa paz que só a mãe da gente tem para oferecer.

No colo da mãe da gente, ouvimos conselhos - que muitas vezes serão deixados de lado para depois serem recolhidos, polidos e amados como os maiores tesouros que já pudemos receber. Porque no colo da mãe da gente se esconde a sabedoria. É para lá que podemos sempre ir quando as coisas vão mal. E quando vão bem. Porque o colo da mãe da gente também é lugar de festa!

No colo, somos amados, acolhidos, reconhecidos e direcionados. Sempre rumo ao amor. Sempre tendo a paz por bússola.

Porque o colo da mãe da gente é o melhor lugar que já inventaram. É onde provavelmente a felicidade vive. E se não vive, passa todos os finais de tarde, com o poente à sua frente e o vento em seus cabelos. Porque o colo da mãe da gente é o lugar onde cabemos direitinho para sempre. O colo da mãe da gente é um recanto sagrado que atende pelo nome de Amor!

sábado, 17 de março de 2012

Colecionemos


Durante muito tempo, eu imaginei que deveria ter uma coleção. Sempre supus que fosse algo para se orgulhar, algo cultivado e querido, guardado com carinho num canto especial de casa, algo para se mostrar para as visitas. Via minhas amigas com suas coleções enormes, perfumadas e multicoloridas de papel de carta e pensava “Poxa vida! Eu devia colecionar alguma coisa”

Acontece que o tempo passou e nada disso ocorreu. Todas as minhas tentativas de juntar os papéis de carta foram para o brejo. Principalmente porque eu sempre encontrava alguém muito querido para quem eu quisesse mandar um bilhete. E, claro, esse bilhetinho deveria ser escrito no meu melhor papel. Porque eu, desde girino, sempre tive essa coisa de dar o que eu tenho de melhor para as pessoas. Enfim. Minha coleção de papeis de carta foi um solene fiasco.

Partindo dessa experiência, decidi que coleções poderiam ser perda de tempo, até sentir uma vontade enorme de colecionar Matrioshkas - aquelas bonecas russas que vão saindo uma de dentro da outra. Acredito que esse desejo apareceu no dia em que percebi que elas são a melhor metáfora que eu poderia encontrar para os seres humanos: pessoas dentro de pessoas. Porque na verdade, tudo o que se vê de alguém é a casca, aquilo que é vendido. O que se sabe sobre o outro é aquilo que ele permite que se saiba.


Mas não se engane. Cada um de nós guarda tantas outras versões de si quantas forem possíveis, cada uma com seu tamanho e seu encanto. E isso é belo. Belo no sentido de que nunca se sabe de quantas camadas uma pessoa é feita. Nunca se sabe o quão complexo um ser humano pode ser, até que você decida conhecê-lo.


Trata-se de um processo de descoberta delicioso, com suas boas e más surpresas, com seus aprendizados e suas benesses. E foi pensando nisso, que descobri a coleção que pretendo realmente fazer.


Não abandonarei a ideia de ter algumas bonecas russas. Mas o que desejo mesmo colecionar são memórias. Quero juntar pensamentos, lugares, situações, risadas, cheiros, vozes, fotos, abraços, imãs de geladeira e tudo o que me ajudar a fixar minhas memórias. Quero adesivar os lugares por onde passo em minhas retinas, para que sempre me acompanhem, para que estejam disponíveis para quando eu precisar deles.

Quero lembranças que me façam sorrir quando meus dias se tornarem tenebrosos. Porque descobri que esses períodos sempre aparecem e que é um tolo aquele que passa a vida na esperança de não sentir-se nostálgico ou triste. Quero ferramentas para lidar com a dureza desse abrir e fechar de olhos que é a vida. Quero colecionar memórias, para enfeitar o Fantástico Mundo de Fernanda: um lugar maravilhoso, para onde eu gosto de ir e onde sempre me sinto em paz, lá onde o pensamento faz a curva.

E será com muito orgulho – espero em Deus – que vou mostrar minha coleção de memórias para minhas filhas e os filhos de minhas filhas. Vou poder contar histórias e falar de coisas que aprendi, de coisas que vivi e dar conselhos vãos. Espero sinceramente ter muitos itens em minha tão querida coleção e poder me orgulhar desse ato divino, sofrido e tão recompensador que é Viver.


Desejando exatamente o mesmo a você, leitor querido, me despeço.


Beijinhos


Fê Coelho

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sobre marketing e germes



Começou a temporada de crônicas sobre o natal, a beleza das festas de fim de ano e os balanços-gerais acompanhados de metas para o ano que vem. A despeito disso, e talvez por isso, resolvi não escrever sobre esse tema específico. Pode ser que eu chegue lá. É provável que escreva uma carta ao Bom Velhinho, solicitando a bondade de não me presentear com meias e lenços (devido à aquisição de habilidades masculinas, tais como consertar varais, desentupir pias e ralos, entre outras coisas). Fato é que, no momento, não tenho a pontinha de uma unha de vontade de escrever sobre o final do ano. Ao invés disso, resolvi falar sobre a eficiência da equipe de marketing das marcas de sabonete antisséptico.

É de conhecimento público que foi declarada uma guerra aos germes. Bactérias que sempre conviveram em paz com os humanos e até ajudavam a proteger a pele - a chamada microbiota residente - foram colocadas num regime de apartheid asséptico nunca antes presenciado. As propagandas ressaltam a necessidade de exterminar as bactérias de todas as superfícies, ambientes, centímetros de pele e sabe Deus mais de onde.

E aí vem o golpe de mestre: colocar as propagandas em canais infantis! Essa foi a ideia do século, uma que vem sendo utilizada em campanhas educativas diversas, mas não em veículos de comunicação tão eficientes como a televisão. É sabido, o poder de convencimento que as crianças têm sobre os pobres (e ávidos por agradar) pais. Tanto é, que as escolas são alvos de campanhas para conscientização sobre doenças, hábitos de higiene, alimentação e educação no trânsito. Sabe-se que uma criança convencida de uma ideia vai aporrinhar todos os adultos num raio de cinco quilômetros de alcance, até conseguir alguns adeptos.

Dessa estratégia decorrem súplicas e mais súplicas no supermercado, para que os genitores comprem o sabão em pó X, o sabonete Y e o desinfetante Z. O motivo? "Ah mamãe, esse mata meeeesmo os germes". Eu sempre resisti bravamente. Acho um pouco desnecessário essa coisa que querer pôr o mundo inteiro numa termodesinfectora. Provavelmente por birra não compro os tais sabonetes, a menos que tenha um bom motivo - como quando minhas filhas tiveram catapora. Naquela ocasião, as bactérias seriam ruins. Em outras, o que não mata, fortalece.

Acontece que fomos ao parquinho de areia, eu, minhas filhas, minha irmã e meus sobrinhos. Na volta, ao chegar à casa da minha irmã, fui dar um banho nas crianças. Preciso contar uma coisa: "de mamando a caducando", todas as quatro crianças comemoraram o fato de que iam tomar banho com o tal sabonete antisséptico da tampa vermelha. Não parecia um banho, aliás. Era, antes, um batismo de limpeza, uma passagem de uma vida com germes para outra sem eles.

Fiquei de queixo caído com a adesão das crianças à propaganda. Tanto que precisei experimentar. Eu tinha que saber o que acontecia. Esperei, inclusive, que saíssem fagulhas ou tocasse uma musiquinha ou algo do tipo. Mas nada aconteceu. Continuei com a pele sobre o tecido subcutâneo e este sobre os músculos que se inserem nos ossos. Não fiquei mais bonita ou mais rica. Não fiquei mais saudável, nem mais doente.

OK. Escritora de pouca fé. As bactérias são invisíveis a olho nu.

Concordo, mas recuso-me a acreditar que fui enganada durante tantos anos. Quer dizer, por duas décadas - quase três - acreditei que ficava limpa tomando o bom e velho banho com bucha e sabonete comum. O que foi feito disso agora? Será que eu passei a vida suja, ou as coisas estão tomando um rumo exagerado hoje? São respostas que eu não tenho para fornecer. Tenho cá minhas suspeitas, que provavelmente não poderiam ser expressas sem o risco de um processo.

Uma coisa é certa: das crianças que eu conheço, uma boa parte passou por uma lavagem cerebral antisséptica.

Beijinhos
Fê Coelho

domingo, 8 de maio de 2011

A beleza que se esconde do outro lado



Todos nós, seres viventes e razoavelmente pensantes, já descobrimos que temos uma tendência a enxergarmos apenas o nosso lado das situações. Não que isso seja um defeito: é apenas um fato. Costumamos prestar atenção e sentir o nosso amor, o nosso ódio, a nossa pressa. Enfim: os sentimentos são expressos na primeira pessoa do singular, via de regra.

Digo via de regra porque, em alguns momentos, nos pegamos prestando atenção ao outro lado. A isso chamam empatia - essa capacidade de se colocar no lugar do outro e imaginar como a situação se mostra para ele.. Se, por um lado, posicionar-se no lugar de outra pessoa pode ser uma furada - visto que pessoas assim como eu, com tendência a Madre Teresa ( em outro post vou falar sobre isso), podem se deixar manipular pelos outros -, por outro lado, esse modo diferente de pensar pode ser um presente, um  momento de clarividência que pode tornar um dia - ou uma vida - melhor. Eu explico.

Já falei aqui no blog sobre as delícias da maternidade. Já discorri sobre o amor incondicional e desvairado que toma conta de nós mulheres no momento em que adquirimos a credencial de mãe. Expliquei o quanto sou feliz e realizada por desempenhar esse papel que - pela minha parca experiência de vida, pude perceber - é uma vocação.

Inúmeras vezes, já me peguei a pensar sobre como poderia ser feliz sem ter alguém para receber esse amor tão grande e intenso. Sim, porque o amor de mãe exige ser entregue. Ele não se aquieta até que o tenhamos externado. Então, leitores que não têm filhos, paciência. Tenham paciência quando suas mães lhes disserem pra pegar a blusa de frio, quando reclamarem de seus horários ou implicarem com algum amigo que vocês consideram MARA. O amor que as mães sentem beira o divino. E, por isso, acho que Deus nos concede uma visão mais apurada das situações.

De qualquer maneira, esse texto não se destina a falar do nosso amor. Hoje eu quero falar da contrapartida. Vamos falar do amor dos filhos, só pra variar.

Como filha, já passei por várias fases, até chegar ao momento em que tudo se tornou claro pra mim. Já fui adolescente reclamona e já deixei de seguir os conselhos maternos. Acreditem: isso não compensa! Hoje vejo meus pais de uma maneira que nunca vi antes: como pessoas, assim, de carne e osso, sem a aura divina e a capa de super-heroi. Vejo meus pais como dois seres humanos magníficos que Deus, sabendo de minhas limitações, escolheu para me guiarem por esse mundão afora. Compreendo que eles têm seus defeitos, mas que têm uma experiência de vida que eu só vou adquirir daqui a uns bons anos (isso se). Entendo o amor maluco que eles têm por mim e que tudo o que mais querem é que seus filhos sejam felizes. Porque é isso o que os pais fazem: eles se descabelam entre um compromisso e outro, entre um conflito e outro, ao longo dos dias, tentando acertar, só para que possamos ser felizes.

Enxergar isso, por si só, já seria motivo para muita felicidade. Acreditem: nem todos os filhos conseguem transpor a barreira da adolescência e passam a vida tentando se distanciar dos pais. O que gostaria de falar hoje, é sobre um momento maravilhoso que experimentei essa semana: o de me ver, enquanto mãe, testemunhando o amor de uma filha.

Comparecer à homenagem do dia das mães tem dessas coisas: as crianças todas eufóricas, com olhinhos ansiosos, cada uma procurando sua genitora. E quando isso acontece... Mamãããe! Aquele grito sai como se fosse arrancado do peito, e a criança se põe a mostrar a sua mãe para os amigos: olha lá, ela veio, eu disse que ela vinha! É dispensável dizer que eu, chorona de carteirinha, fui pródiga em lágrimas.


 A apresentação foi linda, mas o inesquecível mesmo foi ver minha filha cantando e olhando diretamente pra mim! Sim, gente, pra mim e só pra mim! E então entendi que, naquele momento, ninguém mais no mundo era tão importante quanto eu. Ninguém mais no mundo era tão encantadora e tão revestida da mesma aura que eu via nos meus pais. Nenhuma outra mãe era digna daquele olhar de devoção que, de graça, eu merecia.

E foi a beleza de poder enxergar o outro lado das situações me fez perceber que eu nunca me sentira tão amada em toda minha vida.

Um feliz dia das mães para todas vocês que desempenham com amor essa vocação. E para vocês, filhos, parabéns por serem dignos de um amor tão puro.

Beijinhos
Fê

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Resumo da Felicidade


Então aquilo não era um sonho. Estava mesmo sob aquela luz pálida de um dia que nasce. A pouca claridade se filtrava pelas frestas da janela e ela suspirava, tentando assimilar a grandiosidade de tudo o que se passara.

Sua vida seria outra dali para frente. Teria outro sentido. Ela se recostou melhor nos travesseiros e sorriu. Tranquilamente. Esperando por respostas que passaria a vida para tentar encontrar. Antecipando o sabor de cada descoberta. O futuro lhe sorria, misterioso, imprevisível, inabalável. Ela não tinha medo.

Queria acertar. Desejava poder fazer tudo certo e aproveitar cada um dos dias que se descortinavam à sua frente, como as promessas de uma manhã ensolarada, sem nuvens ou perturbações.

Seria o melhor que pudesse. Sensata, corajosa, amorosa, criativa, brava, carinhosa, responsável. Erraria querendo acertar, acertaria quando achasse que estava errada. Teria hábitos saudáveis, mudaria o mundo, faria greve de fome, de sono e de compra de sapatos. Viraria o rosto se passasse por uma vitrine em liquidação. Faria mil coisas ao mesmo tempo. E não se cansaria de tentar, de repetir e de viver.

Virou o rosto para o lado. Viu os primeiros raios de sol do dia, iluminando aquele pequeno ser de respiração acelerada, de olhos fechados e boca entreaberta, imerso num sono tão tranquilo, que só poderia ser o resumo da própria felicidade.



Para quem gostou do assunto, vale dar uma olhada em algumas reflexões sobre a maternidade e também na maneira como aprendi a diferença entre agradecer e se sentir grato.


Beijinhos
Fê

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Depois que me tornei mãe


Depois que me tornei mãe muitas coisas mudaram  em mim. Coisas que eu não imaginava e que não pensava serem possíveis.

Me tornei mais tolerante, mais consciente de mim mesma, dos meus sentimentos e pensamentos. Passei a admirar mais a singeleza de cada momento e a singularidade de cada pessoa.

Depois que me tornei mãe, não durmo como antes, não me alimento como antes, nem me desligo da realidade como antes. Tenho horror aos noticiários e às tragédias distribuídas em escala além da industrial, transimitidas ao vivo e amplificadas. Deixei de assistir às novelas e passei a me inundar de programação infantil. E, por incrível que pareça, descobri que não me importo com isso. Aprendi que posso ser a bailarina mais desengonçada da história, que posso ser uma princesa, uma cabeleireira, uma cliente e uma professora na mesma noite. Compreendi que poucas vezes antes fiz coisas tão simples com o prazer eufórico de uma primeira vez constante.

Porque os filhos mudam alguma coisa fundamental em nós. Porque sempre será a primeira vez deles em algo. Porque eles nos transformam em pontos cruciais e alteram toda nossa psique.  Os filhos nos ensinam que existe algo mais importante que nós mesmos e que o agora importa muito, principalmente na medida que ele constrói um futuro que será compartilhado.

Depois que me tornei mãe - valha-me Deus - virei adepta dos clichês. Aceitei que os filhos são tudo em nossa vida, que uma pessoa nunca amou ninguém até ter um filho, que não há mal que dure para sempre, que não existe mãe sem peso na consciência, que tudo o que fazemos é pensando no melhor para os filhos. E o pior de tudo: compreendi que minha mãe não me ameaçava quando me dizia que certas coisas eu só entenderia quando tivesse filhos. Sim, pessoas, eu sou um lugar comum ambulante.

Não que isso seja ruim. No fim das contas, acho que esses clichês são cheios de uma verdade tão grande que irrita mesmo. Porque na maioria esmagadora dos casos, não há como discordar deles.

E descobri que se me fosse dada a chance de escolher outra vida, outro caminho e outras circunstancias, eu provavelmente declinaria a oferta. Eu certamente ia querer o que tenho, da maneira que tenho: com as vantagens, com o cansaço, as lágrimas, os sorrisos, abraços, risadas, sonhos, brincadeiras, broncas, choro, febres, aprendizados e realizações.

Porque são exatamente essas coisas que me permitem dizer, sem medo de errar ou de parecer hipócrita, que sou uma pessoa extremamente feliz.

Beijinhos
Fê

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Epifania da Jabuticaba

Jabuticaba tem gosto de infância. Foi essa a frase que me veio à mente ontem, no caminho de volta para Brasília, após sentir o sabor da primeira bolinha negra da estação.

Provavelmente, quem me conhece ou acompanha meus textos, já conseguiu perceber que eu tenho dessas coisas. De repente acontece alguma coisa e pronto! Eu simplesmente preciso escrever sobre aquilo. Vira uma agonia que não passa até eu por o pensamento em forma de palavras.

Voltemos à jabuticaba e à epifania. Quem assistiu ao filme Ratatouille, lembra-se de quando Anton Ego experimenta o prato de sua infância e volta imediatamente à sua antiga e simples casa, onde vivera dias aparentemente felizes. Pois foi exatamente isso que me aconteceu.

Bastou uma mordida e fui direto para lugares onde estive há alguns anos - sem especificidades, por favor. Lembrei-me, com uma precisão incrível, das fazendas que costumava visitar quando criança. Era como se sentisse a temperatura amena, o cheiro e o sabor das jabuticabas. Daquelas jabuticabas degustadas com paladar de criança, buscadas no pé com mãos pequenas e ágeis - ávidas por pegar as maiores e sabidamente mais doces bolotas. Recordei a preocupação infantil com a roupa que não poderia ficar manchada, mas que no final das contas já não contava mais.

E as lembranças foram se desdobrando: um banho de bica, uma manhã brincando num trator desligado, um passeio a cavalo, tardes na rede, chuva, cheiro de mato e de gado, noites de estrela, fogueira, acampamentos, a vida se modificando, crescer, direitos e responsabilidades adquiridos, o despertador, gestações, as crianças.

Ah, as crianças. Olhei para o banco de trás. La estavam elas, com seus sorrisos luminosos e seus olhinhos vivos. Comendo jabuticaba e estalando os lábios. Construindo memórias que as acompanharão pela vida toda.

Ocorreu-me que, de fato, a vida nos dá presentes a todo momento. Basta que estejamos atentos o suficiente para perceber. Como foi gostoso perceber que uma coisa tão simples como uma jabuticaba pode ser um ponto de intersecção entre as minhas memórias e as de minhas filhas. Como é gratificante perceber que, mesmo tendo nascido em séculos diferentes, sempre teremos algo em comum. E como é gostoso saber que a simplicidade da vida e a infalibilidade do tempo se encarregam de nos mostrar essas afinidades.

Porque um dia todo mundo percebe: Jabuticaba tem gosto de infância.


Beijinhos
Fê

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

De como percebi a diferença entre agradecer e se sentir grato



  Há algum tempo me aconteceu um momento de contemplação. Havia chegado do trabalho cansada. O dia fora longo e os pacientes exigentes. Foi necessário contornar um ou dois problemas e distribuir alguns sorrisos a mais – alguns demandaram mais esforço, outros menos. Sempre canto no caminho para o metrô, mas naquele dia nem uma notinha se manifestou – nem mesmo a marcha fúnebre. Estava vazia, esgotada de verdade. A sensação desses dias é de que deixei tudo com as crianças no trabalho, de que me esvaziei por completo. Cem por cento de doação.

Chegando a casa, rotina normal. Meu marido estava na sala, assistindo a um reality show, desses em que a equipe constrói uma casa em uma semana para alguma família cheia de problemas. Pensei: todo mundo tem problemas, mas nem todo mundo ganha uma casa. Ai que fome. Meu marido e eu fomos a uma dessas carrocinhas de cachorro quente, pioramos a situação de nossas artérias e fomos buscar as meninas numa festinha de aniversário.

Festinha animada. As crianças estavam eufóricas. Saíram, as duas, com uma coroa de princesa e um pote de guloseimas cada – um clássico das festas infantis. Voltando para casa, chegou o momento de lidar com o choro. A quantidade de sono de uma criança e o número de decibéis do choro é diretamente proporcional. Paciência. Crianças não têm como lidar com irritação da mesma maneira que os adultos deveriam. Para a mais nova, um banho rapidinho, mamadeira, fralda e pijaminha – do Mickey. Para a mais velha, o mesmo pacote, com exceção da mamadeira e da fralda.

Foi então que meu humor começou a mudar. “Mamãe, posso deitar na sua caminha”, a minha caçula pediu. “Claro, filhota”. Exceção à regra. Meu marido levantou a sobrancelha. Eu ignorei. Fiquei ali, deitada, com os bracinhos da minha pequena ao redor do meu pescoço. A perninha dela descansava sobre o meu quadril. Pude observar o movimento leve dos seus olhos – aparentemente já estava sonhando. Fiquei maravilhada com a maneira como sua boquinha entreaberta deixava entrever os dentes, com o desenho das sobrancelhas e as curvas das bochechas, com o som de sua respiração, com o toque macio dos seus cabelos. Admirei minha filha com todos os meus sentidos, tentando guardá-la daquele jeito na memória. Foi quando observei que havia me emocionado. Chorei diante daquela parcela de paz, da serenidade que se pode experimentar quando se está disposto a isso. Percebi que raras vezes dei tanto valor a coisas que não havia perdido.

Valorizei a integridade do meu corpo e minha capacidade de raciocinar e amar. E me senti grata pelos meus problemas diários, pelo meu trabalho e, especialmente e primordialmente, pela minha família.

Coloquei minha pequena no berço e passei para a rotina de sono da mais velha. Rezar e cantar. E desta vez, a parte dos agradecimentos foi mais extensa. Percebi que temos muito a agradecer. Não porque é de praxe, mas porque tive, naquele dia, uma pequena amostra da maravilha que é o sentimento de gratidão. Rezamos e ao colocar minha outra filha na cama, cantei uma das suas canções favoritas: Como é grande o meu amor por você.

Suspirei e me permiti ser, por uma noite, apenas feliz.


Foto: Public Domain Pictures


Beijinhos
Fê

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Reflexões sobre a maternidade


Se tem uma coisa sobre a qual tenho pensado muito essa coisa é o ofício de ser mãe. Tantas coisas acontecem e mudam em nossas vidas desde que adquirimos a credencial de mãe, que às vezes ficamos meio pasmas. Está aí uma definição que gosto de usar: ser mãe é a arte de se bestificar continuamente.

A primeira de todas as bestificações é o resultado positivo do exame de sangue. Sim, porque por mais que imaginemos ter dado entrada no processo para adquirir a já citada credencial, nunca acreditamos que isso seja realmente um fato consumado. Quando soube que iria ser mãe pela primeira vez, se é que isso de primeira ou segunda vez existe, acho que fiquei pasma. E, para ser sincera, não creio que tenha me recuperado até hoje.

Ficamos bestificadas com o amor que um pequeno ser ainda sem rosto pode nos despertar. E quando ele mexe a primeira vez então, tudo isso é elevado ao quadrado. A primeira ultrassom é uma coisa. Aquele bebezinho cabeçudo, com um corpinho minúsculo e um coraçãozinho que bate. Não existe bebezinho de utrassom melhor que o nosso.

Depois vem o nascimento e a série "meu primeiro": meu primeiro sorriso, primeiro dente, primeira vez que sentei, que disse mamãe (aliás, dizer mamãe antes de papai é uma questão de justiça - que me perdoem os pais), que andou... e por aí vai.

O primeiro dia na escola. A chegada de um irmãozinho. Aí vem a segunda onda de bestificações.

É inacreditável a quantidade de horas que podemos dedicar a olhar dois rostinhos sem enjoar deles. Incrível como podemos fazer tantas coisas ao mesmo tempo e ainda achar graça de tudo isso. E contar a mesma história vinte vezes. E falar tudo errado. E tentar fazer tudo certo. E viver para dar o exemplo. E errar tantas vezes.

Ser mãe é bestificar-se diariamente. Com o quanto uma criança pode ser observadora, com o quanto pode ser encantadora. Com o quanto você pode se irritar com alguém e, mesmo assim, nunca ter vontade de voar no seu pescoço.

É ficar pasma por perceber que passou um bom tempo torcendo para que os primeiros dentinhos não nascessem (para manter o bebezinho banguela mais gostoso do mundo juntinho com você) e depois se orgulhar dos dentinhos brancos que nasceram. E quando a criança já tem seus seis anos, ficar na maior expectativa, porque os dentinhos lá se vão caindo outra vez. E vibrar quando, novamente, você vê um dentinho novo.

Enfim. Ser mãe é manter-se bestificada e beatificamente em paz.
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