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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Das gavetas



Alguns textos, confesso, foram destinados às gavetas. Alguns escritos são meus, tão profundamente meus, que se recusam a conhecer as pessoas. São palavras que não cabem na vastidão do mundo interior, que se perdem na agonia de não ser e acabam rompendo caminho dedos afora. Mas feito isso, simplesmente não sabem mais pra onde ir.

Ah! mas essas palavras, atrevidas e melindrosas, se fazem escrever só para se afirmarem; só para mostrar quem manda mais. E depois de escritas se fecham num silêncio devoto, numa timidez infinita, e acabam se escondendo atrás de um outro texto qualquer.

Ah! Se elas aceitassem o olhar do outro... Ah! se decidissem passear gaveta afora. Quem sabe seriam mais felizes, quem sabe mais leves. Quem sabe encantassem mais que outras. Porque são belas. Como são belas, as danadas! Escritora desonesta? Não creio que seja esse o caso. Talvez sejam as palavras que são honestas demais, puras além da conta, desprovidas da couraça de conveniência que vai bem com esse mundo. Talvez sejam palavras em carne viva, que simplesmente estão desprotegidas demais para enfrentar o espaço além da gaveta.

Todo escritor, creio eu, tem seus textos frágeis. Todo mundo tem suas palavras de fio desencapado, prontas pra ferir. E todo mundo tem suas linhas tortas. Cada pessoa guarda sua coleção de verdades inconfessas, de mágoas bem acolhidas e de sonhos embrionários que precisam de proteção.

Todo mundo tem uma parte de si que se mostra e uma que se oculta. Uma verdade que se encolhe e outra que se espreguiça. Cada um tem sua névoa, sua quota de bruma. E somente alguns - os mais brilhantes, os mais libertos, os mais ousados - conseguem trilhar seu caminho para além de tudo isso.

Parte de mim inveja essa capacidade; outra parte comemora. Parte de mim admira, outra parte se atemoriza.

E sinto-me gestante dos textos que não querem nascer.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Escritora com Nome de Bicho



Era a escritora miudinha. Pequenininha, com um ou dois degraus subidos, mas com uma vontade enorme de conhecer a escada. Era a escritora miudinha, ainda tentando entender o processo. Peixe pequeno se aventurando fora do coral.

Tem sobrenome de bicho, essa escritora. E tem consigo essa simplicidade; esse não saber, que de tanto não saber acaba descobrindo alguma coisa. Não consegue usar as formas mais rebuscadas da língua. Não sabe jogar purpurina pra todo lado. Toda ela é meio assim, sem rodeios. Pensa o que quer dizer, sente a forma como quer que sintam e escreve. Descomplicada essa escritora com nome de bicho.

Já pensou que queria ser cantora, mas cantora não pôde ser. Não conseguia saber a diferença entre tons e ritmos, nem se adequar ao som. Mas ela sempre viu o pôr do sol em forma de texto. Sempre se encantou com tudo o que viu, com as histórias que encontrou e com as formas de contá-las. Gostava de poesia, aquela criança miudinha, e de livros, e de arte. Nunca soube classificar bem as coisas, mas sentia todas elas. Vive um eterno sentir, essa criatura.

E talvez seja por isso que ela escreve: porque sente além da conta; porque pensa e vira frase a cada esquina do caminho; porque transforma tudo em texto. Alguns ela guarda consigo, outros ela encerra no coração. Mas alguns ela manda espiar o mundo, como a pomba do dilúvio, meio que para saber se é seguro. E os textos obedecem. Fluem, saem e voam. Encontram corações e fazem morada. Ou ficam por apenas um segundo. Ou não ficam. Mas eles seguem viagem. E voltam trazendo notícias do mundo de lá.

Curiosa essa escritora com nome de bicho, que gosta de crianças; que quer ter sempre o olhar como o delas. E que, se dizendo escritora infantil, mesmo assim se sente em dívida de sinceridade com o amigo leitor adulto. Escritora teimosa que fala de tudo, mas que teima em não falar de amor.

Ah escritora danada. Aprende que não é você que escolhe as palavras; elas é que fazem morada no seu coração e passeiam pelos seus dedos. Aprende escritora com nome de bicho. Nessa brincadeira, você é sempre a pega.

Feliz dia do escritor.
Beijinhos
Fê Coelho

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Véspera - uma crônica sobre novos sonhos



A meio passo de realizar um sonho cultivado por anos, com empenho e olhos brilhantes, me pergunto: e agora, José? Sei que parece estranho; que a realização dos sonhos deveria ser uma espécie de guia nessa sequência de abrir e fechar de olhos que é a vida. Sei de todas essas coisas. Todavia, hoje, às vésperas de ver o fruto do meu trabalho, me questiono. E agora?

Véspera sempre foi uma palavra que me intrigou, desde criança: a véspera de natal, véspera de provas, véspera do aniversário. Ora, pareceu-me durante muito tempo que a véspera era mais importante que a data esperada em si. E não seria? Afinal de contas, até percorrermos os segundos pelos quais esperamos, tudo o que temos são possibilidades. Ah, leitor, o universo das possibilidades é encantador e amedrontador em medidas iguais. Tudo pode ser: bom ou ruim; realidade ou apenas monstros embaixo da cama. A véspera é aquilo que ainda não é palpável. É uma espécie de fronteira entre o que era sonho e o que se torna realização.

Disseram-me, uma vez, que eu estaria riscando um  item da minha lista, ao realizar um sonho. Acontece que não foi isso o que ocorreu. A possibilidade de conseguir algo há muito tempo esperado se tornou o index para inúmeras outras aspirações. É como se sentir um degrau sob meus pés houvesse me dado a certeza de que ali há uma escada - uma que eu sempre quis conhecer.

E é por isso que eu vou, leitor, mesmo sentindo uma pontinha de medo; mesmo correndo o risco de me decepcionar. Se tem uma coisa que andei aprendendo é que decepção é um risco que assumimos para viver bonito. Não há garantias. Nunca houve. Não há meios para saber até onde vai o caminho de cada um de nós. Porque a vida é assim mesmo, melindrosa, afeita às surpresas.

Traduzindo e citando livremente uma música de que gosto bastante, afirmo que que "não posso dizer onde a jornada vai terminar, mas sei onde ela começa". E ela começa aqui. Nesse ponto que não sei muito bem qual é, mas que sinaliza o início de muito trabalho e de uma busca por uma carreira que - acredito eu - vá se mostrar a mim, um degrau após o outro.

Esta não é apenas a véspera da realização de um sonho, mas do surgimento de tantos outros. E se isso trouxer o risco inerente da decepção, tudo bem. Porque mais importante que o sonho realizado e pronto, entregue prêt à porter, é a construção de cada um deles.

Muito mais bonitos que um sonho que se realiza, são os que nascem a partir daí.

E vamos em frente!
Beijinhos
Fê Coelho


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Mundo Miúdo




De todas as lentes que já usei para ver o mundo, a mais bacana é - de longe - aquela que as crianças usam. Não apenas pela vivacidade das cores e pelo encanto da descoberta, mas principalmente porque o mundo visto por olhos infantis é muito mais leve. E foi essa, uma das coisas que me fizeram querer escrever para elas.

Quando escolhemos para quem serão destinados os mundos e personagens que criamos, não estamos selecionando público; estamos, antes, nos pondo a serviço de algumas pessoas e nos dispondo a entregar-lhes algo com que se entreter e se encantar. Um escritor tem a obrigação de oferecer o seu melhor aos leitores e isso passa por enxergar o mundo sob o ponto de vista do outro.

Pensar como as crianças é difícil para nós, adultos, especialmente porque passamos a vida sendo treinados para abandonar esse costume. O mundo - preparado para ser sério, eficaz e efetivo - nos tira pouco a pouco a capacidade de sermos descomplicados. Mergulhamos devagarzinho, quase sem sentir, no mundo das nuances, dos meios tons e das meias verdades. E vamos nos distanciando de velhos hábitos como gostar por inteiro, aceitar ajuda e reconhecer nossos medos, entre tantos outros.

Acontece que para escrever para crianças, é necessário fazer essa viagem magnífica para onde tudo é possível: bichos podem falar, canetas esferográficas fazem greve e o céu chora. Empreender essa cruzada é encontrar-se com o que abandonamos ou esquecemos; é revisitar antigos conceitos e repensar os novos. Quando mudamos a lente com que enxergamos a realidade, ela se transforma. Somos apresentados a infinitas possibilidades que podem, inclusive, ser mais atraentes.

Crianças podem ver os fatos por seu melhor lado. A elas é permitido fazer tentativas sem necessariamente se cobrar um desempenho previamente estipulado. Para os pequenos, tudo é descoberta e novidade; a diversão pode estar escondida em coisas grandes como viagens para a praia e pequenas como papel picado. O universo miúdo é a terra das possibilidades, das palavras simples e da clareza de ideias. Deve ser por isso que minha filha me pede para fazer oração de criança

Visto de baixo pra cima, o mundo pode ser meio assustador, com seus casacões pesados, passos largos apressados e bigodes torcidos; pode ser esquisito com assuntos cheios de números indecifráveis, responsabilidades e conveniências. De minha parte, penso que na maioria das vezes esse ponto de vista é adorável. Porque olhando para cima é que enxergamos o céu.

Beijinhos,
Fê Coelho.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pausa criativa - um momento de aprendizado



Escrever é metade o que você diz ao mundo e metade o que você ouve dele. É uma espécie de conversa contínua com o que existe e com o que se imagina, um equilíbrio constante entre doar e receber; um toma lá dá cá que embala os pensamentos e permite que os sonhos se mostrem. Não que seja fácil ou indolor. Muitas vezes escrever é um revisitar de conceitos, fatos, expectativas, dores, alegrias e frustrações.  Outras vezes não é nada disso. Escrever pode ser apenas uma forma de apascentar palavras irrequietas, traduzindo leveza, mansidão e boas ideias.

Fato é que acredito ser fundamental a existência de pausas entre os períodos de doação. Se uma pessoa só pode falar daquilo que transborda em si, não creio que bons textos possam sair de criaturas exauridas, estressadas e vazias de sua própria companhia. Sou do tipo que não consegue escrever nem o bê-a-bá, se estiver saturada com pensamentos gastos e rotos pelo uso excessivo. Minha mente funciona como uma espécie de mola, que precisa de pequenos alívios, momentos em que eu reduzo a pressão, para que as ideias se renovem.

E foi por isso que eu instituí para mim mesma pequenos momentos do que eu chamo de pausa criativa. Descobri uma coisa recentemente: sinto saudades de mim mesma. Sinto falta de estar em minha própria companhia, em silêncio, apenas observando as pessoas, os lugares, ouvindo os sons, me atentando às mudanças de luminosidade e temperatura. Necessito de instantes para me ligar aos meus próprios pensamentos, sem a necessidade de transmiti-los a ninguém. Preciso me levar para passear, para jantar ou o que quer que seja. Isso me refaz, me alimenta e me coloca de volta nos trilhos.

Hoje fui ao parque. Sentei-me próximo ao lago artificial e observei. O vento fazia pequenas marolas na água  refletindo o ocaso. Havia várias pessoas correndo, conversando e rindo. Todas alheias a mim e eu retribui agradecida o favor. O que na verdade me encantou foi observar os patos, que já se iam recolhendo sabe Deus para onde. Nadavam todos eles em fila indiana, grasnando, batendo asas e enchendo o fim de tarde com esse barulho que, naquele momento, para mim, representava a própria tranquilidade. Respirei, senti a temperatura caindo de mansinho, sorri. Encaixei uma ou duas ideias e pensei que todas as pessoas acabam por seguir o seu curso. Ora, ninguém diz aos patos o que fazer. Ainda assim, eles o fazem.

Acredito sinceramente que cá dentro de nós existe algo que nos diz em que fila devemos entrar. Creio que de alguma maneira, todos encontramos nosso rumo, nossa rota e aquilo que nos fará feliz. Não consigo deixar de lado a crença de que para cada um há o momento propício, a forma adequada e um destino certo. Alguns chamam isso de coincidência. Eu gosto de chamar de a Mão de Deus.

Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Eu e a Julieta




Sem querer menosprezar todas as descobertas científicas feitas até hoje, preciso dizer que conheci uma nova força da natureza. Seu nome? Julieta – criatura imaginária e imaginativa, notívaga por capricho, geniosa por não saber outra forma de ser, pan-polar porque acha que ser bipolar já está meio fora de moda, leitora compulsiva, criativa por nascença, carente por parte de pai, exigente por parte de mãe, detentora das minhas ideias e determinada a fazer de mim o que bem quer.

Descrever o aspecto físico da Julieta é tarefa quase impossível, porque ela muda como o formato das nuvens. Para ser mais específica, acho que nunca soube qual é a sua verdadeira aparência. Algumas vezes, a danada me aparece aqui em casa usando um vestido justíssimo de tecido brilhoso, com cabelo ruivo ondulado, luvas sete oitavos e delineado nos olhos; outros dias ela surge do nada, pulando feito uma pipoca, com cabelo preso num rabo de cavalo, short jeans desfiado e tênis, mascando chiclete e gesticulando feito doida. Já quis ser velha, já virou criança. Já cismou de usar vestido longo de época e citar Jane Austen. De tudo ela já fez, exceto se conformar.

Quando a Julieta resolve que é hora de escrever, eu que me vire, porque não há forma de convencê-la do contrário. Meia noite, duas horas, cinco da tarde, não importa. Às vezes ela sai de algum passeio e pensa “bem que eu poderia ir ver a Fernanda”. E me acha, onde quer que eu esteja, não importa a atividade, a disposição ou o estado de espírito. Quando a Julieta decide que é hora de produzir, é uma loucura.

Acontece que ela está pouco se lixando para o mundo dos adultos. Não quer saber se eu estou trabalhando, comendo, andando de metrô, dirigindo ou cambaleando de sono. O que ela quer é ser ouvida. E obedecida. Aí começa a jogar todas as ideias de uma vez  no chão. Abre todas as minhas gavetas mentais e eu que me vire pra lidar com a bagunça. Vou catando daqui e dali algum trecho, uma fala, um pensamento e juntando tudo até formar um texto - que ela avalia, corrige, comenta e depois aprova -ou não.

Há dias, entretanto, em que ela se esconde. Sai para um passeio com a Dona Expedita, vai às compras com a Isaura ou simplesmente sai andando por aí, observando as pessoas, os lugares, as paisagens e tendo ideias. Nesses dias, posso procurar o quanto queira, a Julieta simplesmente não aparece. Só lá pela meia noite, quando eu já desisti de implorar e estou pronta pra dormir. Aí eu digo que estou cansada e preciso de repouso. Ela me olha com uma cara de cachorro que caiu da mudança, dá duas ou três piscadinhas e explica que teve uma ideia ótima - uma que pode não estar disponível quando o dia amanhecer.

Nem preciso dizer o que acontece em seguida, não é? Sou uma alma fraca, leitor querido. A Galera Aqui de Casa - essa maloca de personagens doidos, geniosos e absolutamente adoráveis - me tem nas mãos e trabalha comigo como quem brinca de massinha.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Escrever, por quê? Um texto sobre tempos bicudos



Se existe uma expressão que me tem procurado várias vezes, desde que me propus a escrever, é o tal do porquê. Com frequência maior que o razoável, surgem-me questionamentos acerca dos motivos para se fazer ou não algo. São dúvidas que surgem em diferentes momentos, por variados motivos e, não raro, vêm do convívio com os amigos, de alguma conversa ou pergunta direta.

Dentre essas questões, uma me intriga em especial, provavelmente pela minha incapacidade em respondê-la: por que escrever?

Em mais de um momento e por mais de um motivo, essa pergunta já me atazanou o juízo, fez perder a fome, o sossego, a concentração e, ainda assim, não tenho uma resposta. Sinto que escrever é como colher palavras: tal qual frutos no campo, elas estão disponíveis para quem as queira usar; entretanto, perecem. Imagino se isso possa estar relacionado à massificação das ideias, que a bem da verdade são a raiz de tudo quanto se escreve.

Enfileirar as letras, utilizar a gramática e criar um estilo que lhe seja próprio parecem-me as partes menos dolorosas do processo de criar um texto. O complicado é ter o que dizer. Talvez nem isso seja o mais difícil. Quem sabe o cerne de toda escrita seja a coragem de dar forma ao entendimento. E mais: creio que o fundamental seja assumir as próprias opiniões, sendo fiel, verdadeiro, justo, compassivo e, ai sim, viver de acordo com o que se acredita.

Convenhamos: numa época de padronização do pensamento, em que as pessoas tendem à superficialidade nas relações, discursos, atitudes e valores, encontrar quem queira refletir é cada vez mais raro. Numa de suas letras, o cantor Almir Sater - por cuja música eu sou absolutamente fascinada - diz "muita gente dá lição com cultura de almanaque". Não discordo. E nem digo que estou isenta. Talvez esse seja o ponto em que volto à pergunta que originou todo o texto: por que escrever?

Sinceramente, leitor, não sei. Continuo sem conseguir acessar essa resposta. Tenho alguns motivos que movem, como a necessidade de organizar o raciocínio, a inquietude da mente e algo como um "transbordar de vida" que me impele a colher palavras e colocá-las dispostas de uma maneira mais ou menos inteligível.

Escrever me faz bem. É a vida tentando virar arte, de um jeito pouco linear e muito pessoal. É o pensamento  atrevido e irrequieto querendo a todo custo ser página. É uma personalidade que do lado de cá da tela não se contém e pula a janela, foge da mente, se esvai pelos dedos, digita e se expõe. São as palavras, esses grilhões tão efêmeros quanto bolhas de sabão, aos quais nos atrelamos voluntariamente.

E se é verdade que tudo já foi feito, dito, pensado e escrito, perdoe-me o leitor por entregar mais do mesmo. São tempos bicudos.

O meu sincero agradecimento a todos pela companhia na iminência dos 50.000 acessos.
Beijinhos
Fê Coelho




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Por que não eu?



Preciso de um pseudônimo, de um nome que me abrigue de minha vida, para dar vazão a coisas que eu gostaria de dizer. Preciso de uma outra alcunha à qual emprestar alguns pensamentos  - uns que se sacodem aqui dentro e não param de me perturbar - sobre os quais eu não pretendo escrever. Preciso de um novo nome, que me proteja do olhar conhecido, que me abrigue das opiniões a meu respeito. Procuro um pseudônimo para que, tendo eu escrito, não se faça julgamento de valor a respeito do que tenha motivado o texto. Quero uma personagem - uma criatura escritora que possa dizer o que quer, sem ter que se explicar.

Eu poderia com tranquilidade criar uma tal Soledad Montenegro e fazer com que ela contasse algumas anedotas. Poderia ajudá-la (ou seria o contrário?) a explicar que, a bem da verdade não sentimos falta das pessoas que se vão, mas de nós mesmos enquanto tínhamos o convívio dos que se foram. Soledad falaria sobre algumas angústias e seria toda nostalgia. Por ela, eu poderia atender a uma amiga especial que sempre me pede para escrever sobre o amor e que vem sendo sistematicamente frustrada.

Porque, senhores, não pretendo falar sobre amor - a não ser que seja aquele que  devotamos aos filhos, à família e à vida. O restante desse discurso, não importa o quão inovadores sejam os nossos pensamentos, acaba virando uma pieguice só. Amor é assunto pra conversa informal, de boteco, de noite de meninas ou do que quer que seja. Mas documentar pensamentos a respeito desse tema é fria. Porque, invariavelmente, o que pode ser apenas um conceito, uma ideia sem destinatário, acaba virando um recado. E aí o circo está armado. Nunca se consegue um distanciamento ideal para falar sobre o amor: nem de tempo, nem de espaço, nem de encarnação. Falou de amor, virou indireta. Mesmo que não seja. Então deixemos esse assunto.

Escrever nem sempre é fácil. Aliás, na maioria das vezes não o é. Há uma censura interna digna do A.I.5 que me impede de escrever livremente. O que fulaninha vai pensar? O que cicraninho vai entender? Que juízo de valor farão de mim, após lerem este texto? Porque, convenhamos, é a minha cara que está ali para baterem. Escrever materializa o que as pessoas apenas supunham, confirma ou refuta o que esperavam que você fosse. E sinto muito em dizer: não consigo lidar com essa coisa de arte pela arte. Não sei deixar de me importar. Mas a Maria dos Cascos saberia.

Maria dos Cascos falaria com propriedade sobre gente ruim e poderia até dar alguns exemplos de situações em que essas pessoas se denunciam. Maria dos Cascos poderia reclamar à vontade, eu não. Porque a Maria dos Cascos é livre. Ela não tem parentes, nem amigos, nem emprego, nem  uma carreira para zelar. A Maria, sim, pode fazer arte pela arte de ser intransigente. Eu não.

A Colombina poderia falar de medos. Sophie Lapin falaria de desejo. João Brutão falaria das chatices das mulheres. Tiana Arranca Toco discorreria sobre as frescuras dos homens. Mariazinha do Dente de Leite listaria motivos que a deixam pau da vida com o mundo dos adultos. E todos seriam eu, sem a carga do olhar de quem me conhece.

Claro que é uma bela forma de covardia. Acontece que tenho "licença poética" para isso. O precedente está aberto. Richard Bachman (Stephen King), Brás Patife (Olavo Bilac) e Boas Noites (Machado de Assis) que o digam. Se eles - que não tinham idiotices a dizer - puderam, porque não eu?




sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Crônica de um papelzinho na janela.






Um conselho: nunca tentem adivinhar o que se passa na cabeça de um escritor, a menos que não se incomodem com o jogo de tentativa e erro. A mente de quem escreve é terreno incerto. É pássaro que não se pode engaiolar. É terra que a ninguém pertence, a não ser aos sonhos. Repito o conselho: nunca tentem adivinhar o que se passa na mente de um escritor.

E se digo isso, não é por vontade de parecer mais imaginativa do que sou. Esse aviso surgiu da constatação inevitável de que a mente de quem escreve é metade imaginação e, bem, a outra metade também.

Nunca espere que um escritor se mantenha aferrado ao mundo real. A realidade muitas vezes é âncora. Não exija que um escritor se abstenha de imaginar uma conspiração, ao ver duas pessoas desconhecidas falando baixinho em uma mesa isolada do restaurante que ele freqüenta. Nem espere que ele deixe de fazer mentalmente a descrição de um dia lindo. Não acorrente um escritor aos fatos. Permita que ele se apodere das nuances e nunca, nunca mesmo, suponha que sabe o que ele está pensando.

Vou dar um exemplo banal, que até a mim surpreendeu. E você, querido leitor, tente não me julgar uma doida de pedra.

Voltando essa noite para casa, percorri meu caminho para o metrô, como tantas vezes fiz. Ouvi música e observei a noite. Tudo absolutamente normal. Enquanto aguardava o trem, tirei as amarras do pensamento e descansei a mente da objetividade exigida para o trabalho. Fiquei quieta, ouvindo uma canção de Jason Mraz e pensando coisas desconexas. Quando o trem parou, entrei e sentei-me. E foi então que aconteceu.

Havia um pedaço de papel imaculadamente dobrado, no batente da vidraça, ao lado do banco onde eu me sentara. Um papel branco, onde se podiam perceber letras impressas, cujo significado era indecifrável. E fiquei olhando o dito papelzinho. Juro que contorci-me em cólicas para saber o que estava escrito, mas não olhei. Ao invés disso, passei a me divertir, imaginando a história do papelzinho.

E foi quando me apareceram dois personagens: Tiago e Lorena. Ele, um homem de trinta e cinco anos, jornalista e fotógrafo, ruivo e meio gordinho. Ela uma estudante de medicina de vinte e seis anos, filha de um empresário envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro.

Ele não a conhecia, a princípio, mas apaixonou-se por sua imagem capturada acidentalmente em uma de suas fotos das praças da cidade. Como era linda, a moça impressa em preto e branco, sentada sob uma árvore, com olhar perdido em algum ponto do horizonte, como se houvesse perdido a vontade de viver! Depois de algum tempo, acabaram se conhecendo num evento beneficente que Lorena organizava anualmente.

Apesar das diferenças, os dois acabaram se apaixonando. Mas não estavam destinados a permanecerem juntos. Tiago trabalhava numa revista influente, que acabou denunciando o esquema de corrupção do qual o pai de Lorena participava.
A moça não sabia dos negócios do pai e ficou horrorizada com a situação. Não poderia negar a desonestidade paterna, nem fechar os olhos para o mal-estar provocado pela denúncia. Tratava-se do fim de um relacionamento muito sonhado. Não houve volta. Os dois nunca mais se viram. Exceto um dia, sem querer, quando tomaram o mesmo vagão no metrô.

Lorena entrou no trem e viu Tiago sentado ao lado da vidraça. Logo que a viu, Tiago pegou um pedaço de papel, escreveu algo, amassou e deixou no batente da janela. Levantou-se e, na primeira parada, deixou o trem. Lorena sentou-se onde estivera o homem que tanto amava. Sentia-se gelada. Tentou engolir. Sua garganta estava seca. Apanhou com dedos trêmulos o pedaço de papel e abriu-o. Uma frase de três curtas palavras puseram seu mundo de cabeça pra baixo: “Nunca te esqueci”. E daquele momento em diante, as coisas jamais seriam as mesmas.

Meia hora de distração, o pequeno pedaço de papel na janela do trem me proporcionou. Trinta minutos em que, juro, ninguém poderia adivinhar o que eu pensava. E é por isso que eu insisto: não tente supor os pensamentos de quem escreve. Não resuma seu sorriso aos conceitos ordinários de triste a alegre. Não simplifique a alma de um escritor, em hipótese alguma. Não porque ele seja algo mais importante. Nada disso. Esse conselho se deve apenas ao fato de que quem escreve costuma ver e imaginar demais. Porque ele não sobrevive de outra maneira. Porque de outra forma nunca será feliz.

O papelzinho, nunca saberei seu conteúdo. Eu jamais cometeria a heresia de estragar a linda história de Tiago e Lorena com a brutalidade de um recibo.

Beijinhos
Fê Coelho

sábado, 31 de dezembro de 2011

Fica? Não fico!



O que se pode fazer com o último dia do ano? Como aproveitar o derradeiro suspiro do calendário que derrubou todas as folhas, uma a uma, numa cascata de vida? O que fazer com a sensação de que o dia deveria durar mais que o previsto?

Agora, assim, na foz do ano, no momento em que ele desemboca na memória para virar lembrança e ensinamento, bateu uma nostalgia danada. Veio uma sensação esquisita de despedida, que eu nunca havia experimentado. Deu aquela vontade de permanecer e eu pedi.

 "Fica, 2011, que a gente ainda tem muito pra conversar. Não vai embora, assim, de uma vez. Senta um pouco e come um pão de queijo quentinho. Fica porque, embora você tenha sido muito bravo, eu aprendi muito. Vamos aproveitar só mais um pouquinho... E não, não faz essa cara de estressado, de pai que chegou na festa de adolescentes no horário combinado e vai ter que esperar mais meia hora no carro, pro filho tentar a sorte com a menininha de vestido rosa. Não olha pra mim desse jeito. Só fica mais um pouco. E se 2012 for carrancudo? E se ele não gostar de mim? E se ele puser o pé na minha frente, pra eu cair?"

E ele me respondeu.

"Deixe de bobagem, menina. Eu vou pro passado, pro lugar que é dos dias vividos, das boas e más lembranças. Vou pro tempo, pro baú. Me deixa passar, querida, que eu já dei o que tinha que dar. Não me prenda, nem se prenda a mim. Tenha coragem, porque se 2012 for bravo, de bravura você entende. Olhe para a frente, ponha um calendário novo na parede, passe as folhas com gosto e faça planos. Veja a vida se abrindo  adiante, num caminho que só depende da maneira que você escolha trilhá-lo. Mas não faça nenhuma lista. Elas são a melhor forma de se irritar um ano. A gente já começa com aquela responsabilidade de atender às suas expectativas e isso, convenhamos, é um saco! Seja justa com o próximo ano. Aceite-o, entenda-o e acolha-o, dia após dia, a cada folha que cair. Faça isso e vocês serão bons amigos".

Fiquei ansiosa e meio amedrontada. Só por garantia, resolvi perguntar: "Acha que eu consigo?"

 2011 me sorriu com uma cara levada, de menino custoso que sabe o jeito de aprontar e respondeu: "De uma coisa eu tenho certeza - você vai fazer o melhor que puder. Sabe por que? Porque você não sabe fazer diferente. Agora chega de besteira e me deixa ir. Não seja tão egoista."

Quando a última folha do calendário ameaçava cair, tentei uma última pergunta: "E o que eu faço com esse dia?"

O ano suspirou. "Faça o que te mais te deu prazer, minha flor. Acorde cedo, veja o dia clareando, caminhe no parque, faça um arrastão na casa, tire tudo o que não serve mais, ajeite os cabelos, coma algo gostoso e acredite. Acreditar foi o que você fez de melhor durante o tempo em que estivemos juntos."

E eu entendi que alguns anos são realmente especiais. Os que conversam com a gente, então, nem se fala.

Desejo a todos vocês um 2012 que converse, que sorria e esperneie. Desejo um ano que os faça sentir vivos, alerta e conscientes. Desejo um ano de realizações e de reconhecimento dos momentos felizes.

Beijo enorme pra todo mundo que me acompanhou neste ano tão querido.
Até 2012
Fê Coelho


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Escrever: Deus do céu, eu faço isso!



Hoje um pensamento tirou-me o fôlego, quando estava na fila do refeitório, às doze horas de uma quinta feira qualquer. Fitei o céu separado de mim pela vidraça, pelo uniforme, pelo relógio de ponto e me perguntei: por que diabos uma pessoa escreve?

Sei que essa é uma pergunta terrivelmente redundante. Mas ela foi tomando forma, peso e importância; foi espiralando em minha mente o suficiente para não me permitir almoçar. E peguei-me a pensar: "Deus do céu! Sou uma dessas pessoas! Sou uma dessas pessoas que se aventuram a digitar pedaços de alma, que se permitem mostrar, letra a letra, a pessoas que sequer conhecem. Faço parte do time das mentes que entregam a única coisa que não pode ser acessada a menos que se revele: o pensamento".

Ah, o pensamento! Esse reduto de tudo o que há de mais seguro, de mais íntimo. O pensamento, lugar recluso, onde se pode ser o que se quer, onde se pode colocar tudo o que foi e não foi; onde ficam as aspirações, opiniões, sonhos, mágoas e as verdades que não se quer (ou não se pode) dizer. As ideias! O que há de mais subversivo, de mais revolto e impalpável. Porque os lábios podem dizer o que quiserem. Podem confessar o que for conveniente e calar o essencial, jogando para dentro - lá para as ideias - o real significado. E isso, por si só, é um ato de silenciosa rebeldia. Quer dizer que podemos nos enquadrar e ainda assim voar por dentro. Significa que podemos ter as dimensões mais adequadas aos olhos alheios e conter inúmeros mundos longe do que os olhos podem ver.

E foi o que me atrapalhou a respiração e a quietude: por que uma pessoa entrega isso aos outros? Por que se submete ao olhar juiz de pessoas que não conhecem sua essência ou sua história? E pensei novamente: "Deus do céu, eu escrevo! Eu faço isso!" E senti-me tão pequena e desprotegida. Senti-me nua em meus sonhos, transparente em minha maneira de ver a vida, entregue em tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar.

Tive medo. Fiquei ansiosa. Pensei. Perdi a fome. Por fim, me conformei.

Acontece que a escrita existe quando o sentir transborda, quando não há mais maneira de segurar as ideias na vastidão do mundo interior. Escrever é quando as palavras se sacodem tanto dentro da gente, que prendê-las seria violentar a alma. Acontece que quem escreve o faz por não sentir escolha, por não ver outro modo de se livrar da angústia que é não o fazer.

Vou te contar um segredo: às vezes as palavras se tornam  atrevidas borboletas em nosso estômago e não há o que fazer, a não ser permitir que elas voem.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quando descobri o prazer de ler



Quando descobri o prazer de ler, um mundo novo se abriu para mim. Passei a ver coisas que não via, a observar a vida de uma maneira que jamais poderia supor. Entendi porque algumas pessoas sorriem do nada e porque eu sentia a mesma vontade: é que a alma precisa voar e não há voo tão suave quanto aquele feito por asas leves, emplumadas de palavras.

Quando descobri o prazer de ler, nunca mais estive só. Onde quer que vá, estarei acompanhada - por um livro, pelas lembranças dos personagens que conheci ou pela perspectiva dos que poderei inventar. Aprendi a não me impacientar com as filas ou com as salas de espera. Na verdade, todos esses momentos se tornaram uma desculpa para me desligar do cotidiano por alguns instantes.

O prazer da leitura fez de mim uma pessoa esquisita, daquelas que observam os lugares, que registram a luminosidade do dia, que tenta gravar o cheiro e a temperatura de cada ambiente. Ler tornou-me uma pessoa estranhamente sensível e cheia de ideias. Fez de mim alguém que imagina personagens nas pessoas que vê no metrô ou pelas quais passa durante uma caminhada. Ler fez de mim alguém irremediavelmente pensante. E aí danou-se.

Danou-se porque não imagino mais viver sem as palavras. Danou-se porque não posso mais me conformar com uma vida plana, isenta de entrelinhas e rasa como uma piscina infantil. Danou-se porque tomei gosto pela sutileza, pela leveza e pelo colorido que só as palavras bem escolhidas podem proporcionar. 

Não digo que não poderia viver sem as palavras. Eu poderia fazer isso. A questão primordial, entretanto, é a seguinte: eu não quero. Não quero abrir mão do suspiro ao encerrar a última página de um livro, nem da saudade que tenho de meus personagens favoritos. Não quero viver sem o cheiro das folhas, ou sem o prazer de apenas deixar que o mundo gire em outra velocidade ou direção, enquanto me ocupo da vida de pessoas que sequer existiram. 

E não importa que eu tenha me tornado uma pessoa destoante das demais. Não me incomoda o fato de ter me transformado numa criatura que chora ou ri às gargalhadas com um livro nas mãos. Conformei-me com essa pequena parcela de desapego da normalidade, com essa pequena fuga dos padrões. E vou além, leitor querido: desejo o mesmo a você

Desejo que você possa colecionar mundos. Desejo que você encontre  pelo menos um personagem para fazer parte de suas lembranças felizes. Espero que você consiga encontrar um cenário para surgir em seus melhores sonhos e que queira visitar novamente nas páginas de um livro muito querido. 

Espero que você consiga, leitor querido. Porque quando descobrir o prazer da leitura, você estará irremediavelmente perdido para uma vida muito mais rica, multifacetada de possibilidades.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Desabafo e Decisão em Tempo de Guerra

Estou pensando muito seriamente em desenvolver o texto abaixo e fazer dele algo maior. É uma personagem que me apareceu há mais de ano e que, volta e meia, vem me perguntar: "Por que é que você ainda não escreveu a minha história?" Acho que estou devendo isso a ela.

Apresento a vocês a Rosa:



Faz frio hoje. Muito frio. Mas o pior de tudo é sentir que isso não é apenas uma condição climática. Sinto afirmar, caro leitor, que hoje lês a carta de uma mulher vazia. Percorres as letras e frases de uma mulher que tudo perdeu e que, por algum tempo, não soube para onde ir. O vento uivando em minha janela nada mais é que um eco fraco do meu desespero, da minha falta de opções. Se tudo pelo que vivi foi-me tirado, pelo que viverei agora?

Esse lugar desconhecido não me é mais estranho que o que sobrou de mim mesma. Sinto que até mesmo a minha imagem no espelho mudou. O mesmo rosto que outrora se mostrava liso e amigável, agora aparece carregado de um amargor indescritível. Não consigo sorrir com a mesma doçura de alguns meses atrás – não que eu tenha tentado ou tenha motivos para isso. Um sorriso que aparece em uma pessoa cuja alma foi tirada não é mais que uma ironia e decorre do torpor em que às vezes nos imergimos.

Dizer que não odeio o lugar onde estou seria uma mentira, mas também não poderia ficar em minha casa. Tudo que me era caro foi-me tirado e sinto que a melhor maneira de me recompor seja ir ao princípio de tudo. Como uma ferida que não pode cicatrizar enquanto houver tecido morto em seu leito, assim tem estado meu coração. Por mais dolorido que seja o processo, sinto que devo limpá-lo de tudo o que for necessário, para que possa novamente ficar inteira. E tal como as grandes feridas, essa deixará uma cicatriz que não poderei esquecer.

Vivi muitos anos em uma grande e imponente casa. Filha de uma família abastada, não conheci muitos motivos para me exasperar. A vida costuma ser bem fácil quando se tem tudo, não é mesmo? Vivi assim protegida durante toda a minha infância e juventude. Dos cuidados de meu pai, fui transferida às atenções de meu jovem e muito apaixonado marido. Tudo como devia ser. Passava os meus dias entre chás, bordados e conversas frívolas com minhas amigas, desempenhando bem o meu papel de respeitável dama. Enchia minhas noites com idas a teatros e conversas ao pé da lareira com meu marido. Ao contrário de minhas amigas, eu não tinha motivos para censurar-lhe os modos ou me encolher ante o seu olhar. Isaac era um homem muito carinhoso e me cercava de todas as atenções que eu podia querer.

Durante o primeiro ano de nosso casamento vivemos sós em nossa casa, sonhando com nosso primeiro filho, que nos foi dado por Deus quando eu completei vinte e um anos. Artur era um menino vigoroso e bom.  Cedo trocou seus primeiros passos e começou a falar. Ainda me lembro bem do som de seus passos e não posso descrever em palavras a solidão que essas lembranças me trazem.

Isaac era um oficial do exército e esse é o princípio de tudo o que ocorreu. Lembro-me da noite em que estávamos todos sentados em frente à lareira, ouvindo rádio. Esse seria um programa totalmente normal para aqueles dias, exceto pelo fato de Isaac se mostrar mais tenso que o habitual. Ao questionar-lhe o motivo de tanta seriedade, recebi um abraço e um beijo. Isaac disse-me que não havia motivo para preocupação. Mas eu podia sentir que algo estava muito errado. Naquela mesma noite, depois de nos deitarmos, ele disse-me que me amaria para sempre, não importava o que acontecesse. E eu senti medo, como se estivesse há um passo de uma grande perda. Hoje eu digo que teria dado minha vida para estar errada, mas eu não estava.

A Guerra havia chegado ao país, com uma força avassaladora. Como uma fábrica de viúvas e órfãos, ela estendeu seus domínios por todos os lugares. E a morte, sua funcionária mais fiel, trabalhava sem descanso. Ao seu lado, operavam a fome e o desespero. Meu marido foi destacado para o campo de batalha e ficamos, Artur e eu, em nossa casa.

A princípio eu tentava manter as coisas o mais normais possível. Brincava com Artur e cuidava da casa para que quando Isaac voltasse, pudesse ter um lar agradável novamente. Mas o tempo passou impiedoso e a miséria começou a andar em nosso encalço. Encontrei trabalho e comecei a me dedicar à tarefa de sustentar meu filho. A cidade entrou em racionamento e faltava comida, água, remédios e empregos decentes. 

O primeiro golpe, do qual tento irremediavelmente me recuperar, foi a perda de Isaac. Aquela noite fora fria e eu e Artur dormíamos juntos na cama que eu e Isaac dividíamos com tanta alegria. Dois homens fardados bateram à porta e, quando eu atendi, entregaram-me o cordão de prata com a plaquinha que identificava meu marido. Junto com isso, entregaram-me a bandeira de nossa Pátria-mãe. Disseram que sentiam muito e eu não pude saber o que eles disseram em seguida. De súbito senti-me fria e meio vazia. Voltei para o quarto e, abraçando o que sobrou de minha felicidade, chorei por horas. Meu inferno pessoal estava apenas no início.

Dois meses se passaram até que eu pudesse chorar apenas escondida. O sentimento de desamparo que se abateu sobre mim era insuportável. Observava meu filho brincando e imaginava mãe é essa, que manda seus filhos morrerem por ela. Então resolvi que seria uma mãe melhor que nossa maldita Pátria. Dediquei-me com afinco a manter meu filho feliz. Fazia-lhe as vontades sempre que possível e adequado. Brincava com ele e pescávamos. Fui para Artur tudo o que podia ser. Ele se tornou meu único motivo para continuar aqui e contemplar o trabalho incansável da morte, sem me entregar à sua carga. Mal sabia eu que ela me observava tão de perto.

Artur estava com três anos, quando adoeceu. Pneumonia, foi o que me disseram. Não havia hospitais ou remédios. Tudo estava desviado para os campos de batalha. A sanha dos homens por poder não tem limites. Quando uma luta por poder é travada, tudo o mais é colocado de lado. Pessoas dão a vida por ideais que não lhes pertencem, recursos são desviados dos que necessitam de atenção. A sensação que eu tinha era de que ao final desse período turbulento, teríamos um país povoado apenas por veteranos de guerra. E eu sequer podia contar com a esperança de encontrar entre eles o meu marido.

Ver meu filho ficar cada dia mais doente e fraco e, por fim, entregar sua vida nas mãos frias da morte foi o fim da etapa sana de minha existência. Algumas coisas simplesmente não podem ser esquecidas; e digo que ver um filho magro e enfraquecido fechar os olhos para a vida e amolecer por completo em seus braços é a pior de todas elas. Jamais poderei me esquecer de que, por um momento pude olhar nos olhos da morte e jurei vingança. Foi quando peguei meus poucos pertences e me alistei no exército, disposta a trabalhar em um Hospital de Campanha.

Não que isso seja um consolo. Passarão muitas vidas antes que eu possa dizer que estou confortada, mas poder vingar a morte de meu filho e me negar aos braços dessa trabalhadora incansável é uma maneira de me levantar todos os dias. Enquanto houver uma vida que eu possa tirar de suas mãos, ali estarei. Enquanto eu puder rir-me de suas costas se afastando, eu o farei. E me lembrarei todos os dias daqueles que ela me tirou. E essa será minha vingança.

Não me julgues feliz, caro leitor. Sinto informar que estou há muitos passos da felicidade. Mas reconhece em mim uma mulher que, mesmo amargurada, resiste.

                                                                    Rosa
                                                            18/02/1946

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Comemoremos!



Vez em quando, gosto de me fazer algumas perguntas. Gosto de questionar o motivo de eu fazer ou deixar de fazer algo e hoje, na iminência dos quinze mil acessos, voltei a me perguntar: por que diabos estou nessa de escrever? A resposta continua parecida com a anterior. Um pouco mais refinada e mais sincera, talvez.

Escrevo porque simplesmente não posso viver sem isso. Viciei-me nas palavras e estou irrecuperavelmente fadada a fazer reflexões e confissões - retratos de alma em forma de letras - até quando minha sanidade mental permitir. Componho textos porque em vários momentos meus pensamentos transbordam, porque eles não conseguem se aquietar. Faço isso porque não consigo pensar em outra maneira de ser.

Talvez o motivo principal seja pura e simplesmente o seguinte: escrevo porque isso me faz feliz.

Deixo aqui o meu mais profundo agradecimento a todos os meus leitores (acho muito chique dizer isso... hahahahahah). Agradeço a cada um que acompanha minhas ideias malucas e que trata com tanto respeito essas palavras que eu deixo por aqui.

Um beijo enorme
Fê Coelho



sexta-feira, 22 de julho de 2011

Entre aspas



Estava aqui olhando as pessoas postarem citações e o pensamento voou. Foi inevitável, como tantas vezes acontece e me vi no meio de um questionamento: será que, quando cita um autor, a pessoa tem noção do que isso pode representar?

Desde a minha infância, passando pela adolescência e chegando à idade adulta, um desejo sempre se fez presente: saber cantar. Eu gosto de música e me sinto feliz cantando. Mas, bem, não ocorreu que eu me tornasse uma cantora. Para ser sincera, não posso nem dizer que encontre facilmente o tom de uma música. 

Então é isso. Não sou uma cantora. Não aconteceu de eu me tornar o que eu tinha imaginado. Por outro lado, ocorreu o inesperado: as palavras me encontraram. E, se digo isso, é porque foi exatamente o que aconteceu. Não saí por aí tentando escrever nadica de nada, simplesmente aconteceu. E, depois de ocorrido, não há como voltar atrás. Virei escritora. Fazer o que, se não consigo mais viver sem isso? Remediar de que jeito, se vez ou outra uma crônica fica batendo na porta da consciência, pedindo pra voar?

E é nesse ponto que quero retomar o pensamento índice do texto. Você aí, leitor, tem ideia da importância que tem para um ser que escreve? Você imagina o quanto um autor te aguarda? Tem noção de que o correr de seus olhos por nossas linhas é uma visita muito esperada? E, dito isso, compreende que a citação é o mesmo que elogiar a comida da avó, ou falar bem do tratamento recebido na casa de um amigo?

Quando vejo palavras entre aspas ladeando um nome, imagino: será que um dia vai acontecer comigo? E me lembro de ter lido em algum lugar que o Caio Fernando Abreu queria ser amado por algo que houvesse escrito. Acho que a coisa toda passa por aí, porque, bem ou mal, todo autor se entrega nos textos. Não importa se a obra é de ficção ou a emissão expressa de opiniões, o autor está lá - nos pensamentos, nas sensações, na escolha das palavras. Um texto é uma espécie de radiografia da alma do autor, que pode até estar desfocada, mas que ainda assim é uma imagem. 

E fico me perguntando: quando é que vou escrever algo digno de aspas? Será que vou deixar de engatinhar e me tornar uma escritora bípede, alta o suficiente para alcançar os dois tracinhos acima das palavras?Acho que essa resposta só poderá ser dada pelo tempo e pelos leitores. 

Enquanto as aspas não vêm, vou fazendo fotos escritas de mim mesma, colocando um pensamento aqui e outro acolá, brincando com as palavras e me divertindo com elas. Elas me encontraram, agora me aguentem.

Beijinhos
Fê Coelho


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Esse é pra comemorar!

Estou comemorando, rindo de orelha a orelha. Cheguei aos cinco mil acessos no blog.
Pode ser que as pessoas, sabendo do fluxo de informações internet afora, estejam até rindo da minha cara, mas, para mim, cinco mil acessos conta muito. Sabem por quê?

Porque quando uma pessoa escreve, ela põe seus sentimentos organizados em agrupamentos de palavras e, convenhamos, nem sempre isso é fácil. Dá trabalho, a gente se expressar da maneira correta. Até porque sempre há uma maneira melhor de fazê-lo. Daí vem outro trabalho: o de aceitar o que se escreve. O editor interno de qualquer escritor é razoavelmente cri-cri, para dizer o mínimo. E tem o senso do ridículo: um inferno. Quem aí escreve e já pensou em deletar tudo? Quem já se frustrou diante de uma tela em branco e uma ideia na cabeça? Quem já teve uma ideia que se recusou a virar palavras?

Pois passei por tudo isso e mais um pouco. Já escrevi rindo, já postei chorando. Já li e reli alguns textos que por um ou outro motivo são muito especiais. Já mandei meu editor interno pro inferno e agora escrevo com um pouco mais de liberdade.

Percebi, neste tempo de blog, que algumas pessoas passam e não voltam. Outras não passam, elas ficam e te fazem companhia. Algumas pessoas só acham interessante, outras enxergam suas mudanças, compreendem suas entrelinhas.

Sendo assim, eu queria agradecer a todos os meus leitores. Gente do céu, que coisa mais chique: meus leitores, assim com a boca cheia. Queria agradecer a todos que, com paciência, participam desse meu mundo maluco e  encantado de sonhos e palavras.

Um beijo enorme pra todo mundo.
Fê Coelho

terça-feira, 29 de março de 2011

Carta a uma personagem.

 


Rafaela, querida.

Preciso dizer que estou me despedindo de você – por pouco ou muito tempo, não sei ao certo. As coisas estão um bocado confusas e, sinceramente, não tenho mais a disposição de espírito necessária para bem escrevê-la.

Você precisava de uma autora que fosse puramente feliz, tivesse uma vida que achava ser a ideal. Confesso que, no momento, depois de todas as coisas que me aconteceram, não posso ser o que você precisa. Não tenho mais a nobreza de sentimento, a doçura e a inocência suficientes para falar de você – pelo menos não da maneira que você se apresentou no início de nossa convivência.

Lembro-me daquela tarde, em que você começou a me importunar. Foi engraçado, coisa de esquizofrênico. Você me veio, com seus cabelos cor de chocolate, sua livraria e seu relacionamento perfeito com um pianista – relacionamento esse que, por sinal, não vingou. Falou-me de seus defeitos, descreveu-me seu comportamento e mostrou-me uma vida com a qual eu não poderia sonhar. Ah, Rafa, minha personagem querida, você me falou de um mundo ao qual eu não poderia pertencer, mostrou-me a vida que não era, mas que eu acreditava ser possível. E você me perseguiu com essa sua insistência, que só eu e você conhecemos. Torturou-me com seus dilemas éticos e problemas, deliciou-me com suas histórias; instigou-me com cenários que, embora inexistentes, mostravam-se perfeitamente factíveis. Muitas coisas, posso dizer num momento de extrapolação absoluta, vivemos juntas. Eu estava ali e, sinceramente, não sei quem dependia de quem.

Mas os dias não deixaram de passar e, daqui deste lado da tela, a vida mudou. Hoje não sou a autora que, tão ingenuamente, se deixou levar por seus encantos e por sua vida pintada em tons aquarelados. É pena que você não possa compreender – visto que eu sempre soube dos seus problemas e, ainda assim, não os explicitei – o poder que dias adversos podem ter. Se por um lado é uma pena que você não saiba o que se passou do lado de cá, é pesar ainda maior o fato de eu não ter tido a capacidade de compreender o seu mundo. Porque, a essa altura do campeonato, você bem poderia estar livre de mim, povoando outras mentes que lhe dariam outras feições e outros trejeitos, enquanto folheassem as páginas de um livro doce e bonito. Acredito que, quem sabe – apenas quem sabe – a vida possa ser bastante divertida assim.

De qualquer forma, Rafaela querida, é melhor deixar o lamento de lado. Sempre haverá uma página em branco na tela, onde pisca um cursor matusquela. Haverá sempre uma chance de que você encontre a autora ideal para os seus dramas. E, se fizer questão de que essa autora seja eu, é melhor se preparar para me aceitar como estou e estarei daqui para frente: em transformação. Estarei mais ácida, talvez mais irônica. Acha que poderá lidar com isso?

Se a saudade apertar pra valer, me procure. Estarei sempre aqui, em busca de uma boa história para escrever – história essa que poderá ser a sua.

Um abraço saudoso da sua autora, ouvinte, confidente e criadora.

Fernanda Coelho.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Textos de mulherzinha?

Ontem à noite, enquanto eu mostrava meu último texto para o meu digníssimo, ele exortou-me a prestar atenção ao que escrevo. Segundo ele, meus textos são demasiado femininos e o público masculino não tem paciência para isso.

E o que é que eu posso fazer em relação a isso? - eu me pergunto. Escrevo sobre meninices, lacinhos, família e cotidiano, pelo simples fato de serem essas coisas que povoam o meu cérebro. E acrescento: seria uma perfeita tapada se começasse a escrever sobre carros, futebol, video-games, política exterior, bolsa de valores, butecos e outras coisas pautadas por níveis altíssimos de testosterona. Não entendo nadica de nada dessas coisas e pedir que eu discorresse sobre elas seria o mesmo que pedir a um rinoceronte que usasse meias finas e dançasse balé com sapatilha de ponta.

Descupem, mas eu não consigo.

De mais a mais, será mesmo tão ruim pensar sobre as coisas sob uma perspectiva mais suave?

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Primeiro capítulo da primeira história que me ocorreu.

Ponderei um bocado antes de postar o texto abaixo. Um bocado de gente já sabe como ele surgiu - como uma espécie de prurido, uma coisa que não te deixa em paz até você ceder e atender ao pedido. Foi assim que a Rafaela me apareceu. 
Não tinha muita certeza de que queria postar, mas um amigo me disse que tinha saudades da personagem, então resolvi. 
Esse capítulo não é mais assim. Reescrevi tudo depois de achar que ficou um bocado amador. Mas a título de nostalgia e de curiosidade, segue o primeiro capítulo da minha primeira história. Um bocado grande para pôr no blog, eu sei. Mas como o domínio e a senha são meus mesmo... Aí vai. A quem se aventurar, tenha o prazer (ou não) de conhecer a Rafaela.
Beijinhos



Você devia parar de fumar. As palavras de seu pai ainda ecoavam em sua cabeça, enquanto Rafaela observava a fumaça de seu cigarro subir em espirais suaves. Sentada numa cadeira confortável em seu home office, os joelhos flexionados contra o tronco, a música suave preenchendo o ambiente, ela ainda se perguntava se estaria suficientemente surpresa com o próprio comportamento, ou se ainda guardara alguma novidade para si mesma. “Claro que não!” – foi a resposta instintiva. Ela não costumava se surpreender consigo mesma. Rafaela era altamente previsível – ao menos acreditava ser.
Ela tinha 32 anos, era alta – quando comparada às amigas, magra – porém sem ser esquálida. Tinha os olhos escuros e o cabelo médio, ondulado, num tom de chocolate “completamente normal”. Era como se descrevia, sempre acrescentando ressalvas. Claro, ela se esquecia de incluir detalhes como um sorriso encantador, um andar envolvente e uma postura tão segura que era, ao mesmo tempo, um convite e um aviso. Era observadora e um tanto reservada. Estudava o momento de falar e se o próprio comentário não passasse no crivo finíssimo de sua autocrítica, o guardava em uma gaveta mental e liberava em seu lugar um sorriso amistoso ou uma resposta educada e “pré-aprovada”.
A escolha de sua profissão foi um daqueles casos em que a pessoa se deixa levar docilmente para um destino certo, tecido e bordado cuidadosamente ao longo do tempo, sem hesitação. Passou toda a vida cercada por livros. A mãe, Andréa, lia muito e dizia que os personagens eram companhias incríveis, com histórias fascinantes. “Uma boa oportunidade para vivermos algo inacreditável, que geralmente não acontece”, ela dizia após contar alguma história lida recentemente. Lembrava-se com saudades das horas passadas antes de dormir, em que era apresentada a outros lugares, pessoas e épocas. Acompanhava com avidez as tramas, encontros e desencontros dos personagens e, por vezes, sentia como se tudo pertencesse ao seu mundo. O barulho das páginas ao serem passadas, o cheiro de cada livro, o suspiro e o espreguiçar ao final de cada história. Tudo era dividido com a mãe, que se mostrava empolgada como se ela mesma houvesse percorrido aquelas páginas. Eram companheiras e dividiam a mesma paixão.
Cedo foi apresentada a personagens como o pequeno príncipe e o aviador, Pollyanna e seu “jogo do contente”, Emília, Narizinho e a turma do Sítio, sem considerar os contos de fadas, que eram de praxe. Mais tarde, enquanto toda a turma do colégio reclamava, Rafaela se encantava com os clássicos. Adorava o cenário da Ilha de Paquetá e as matas por onde andaram Ceci e Peri. Morria de pena de Isaura e até hoje se pergunta se Capitu teria mesmo traído Bentinho. Gostava bastante das personagens de vanguarda. Preferia aquelas mais altivas, menos prudentes e que diziam o que pensavam. Adolescente, ainda se lembrava com admiração de Carolina e tinha particular afeição por Elizabeth Bennet.
Com o tempo e a convivência, os livros passaram a ser uma parte inseparável de quem era. Recomendava-os aos amigos, emprestava-os e foi apenas um passo para que passasse a vendê-los. Com a ajuda dos pais e mediante o espanto da irmã, Luiza, e de sua melhor amiga, Mariana, aos 25 anos, abriu uma pequena loja de livros – O Arco da Velha.
O Arco, como Rafaela apelidara a loja, ficava numa esquina no centro da cidade. Tinha um ar nostálgico, com mesinhas e cadeiras bem dispostas sobre um soalho de madeira, paredes claras, janelas amplas e cortinas com renda, pelas quais se filtrava uma luz tão oportuna, que parecia intencional. As prateleiras estavam por toda parte e eram cheias de livros sobre todos os assuntos. Tudo remetia às histórias que lera há anos e aos saraus dos quais não participara. O lugar era bastante frequentado e logo se tornou uma das livrarias mais concorridas da cidade. Isso, graças à Luiza e seu trabalho primoroso de arquitetura e Mariana com seus biscoitos delicados, servidos com várias receitas de café. Mas o sucesso do Arco se devia principalmente à habilidade de Rafaela em receber os clientes e ao seu dom, quase sobrenatural, de encontrar exatamente o livro certo para cada leitor. Nada escapava – desde crianças até idosos e intelectuais – a todos ela conseguia agradar.
Mesmo o passar do tempo não conseguiu alterar a personalidade, por assim dizer, da livraria. O negócio cresceu e mais duas lojas foram abertas. Todas tinham o mesmo estilo e o mesmo atendimento. Rafaela fazia questão de treinar pessoalmente todos os atendentes – e o fazia com rigor. O pai, Luiz, cuidava da parte financeira e a mãe a auxiliava na escolha dos livros bem como no contato com as editoras. Rafaela se desdobrava para estar nas três lojas.
“Você ainda vai ter um infarto”, Luiz sempre dizia quando Rafaela comia apressadamente para ir para outra filial. “Definitivamente, filha, com a maneira que você treina aqueles funcionários, eles podem passar sem você por alguns dias”. Rafaela apenas sorria. Achava seu pai um tanto moderno e adorava conversar com ele. Ele via as coisas de uma maneira bastante peculiar. Um caleidoscópio. Sempre havia outro modo de enxergar as situações. Bastava apenas girar-las ligeiramente e colocá-las em perspectiva, para obter outro ponto de vista. Luiz era consolador e tinha frequentemente um conselho acompanhado do binômio risada e piscadela. Tinha bastante senso de humor e às vezes acabava por deixar as filhas mais perdidas, uma vez que raramente tinha as respostas ou reações que se esperava de um pai. Quando conversavam, Rafaela acabava por se lembrar do Sr. Bennet, balançava indulgentemente a cabeça e sorria. Depositava-lhe um beijo na bochecha e saía, ainda encantada e grata com o presente que Deus havia lhe dado.
Andréa era mais realista. Embora fosse uma leitora assídua, sempre acrescentava um comentário que mostrasse o lado prático de todas as histórias. Ensinou Rafaela a ler, mas a ensinou também a interpretar e criticar – no melhor sentido da palavra. Não era dada a leviandades ou à maledicência. Foi uma mãe muito justa, que estimulava as filhas a se desenvolverem naquilo que as aprazia. Gastava horas do dia organizando exposições, nas quais Luiza mostrava seus “projetos” aos familiares. No entanto, não deixava de dar suas opiniões, fossem favoráveis ou não aos desenhos da filha. Ao lidar com fornecedores, era implacável. Frequentemente conseguia preços melhores e livros difíceis de encontrar. Por incrível que pareça, raramente ouvia a palavra “esgotado” e os estoques das lojas viviam impecáveis. Outro ponto a favor de Andrea: ela era impossivelmente organizada.
Luiza era sonhadora, tipicamente uma pessoa intuitiva e altamente criativa. Não raro perdia o olhar em algum lugar ou possibilidade que ninguém mais enxergava. Dedicava-se aos desenhos com afinco e estava sempre pronta a reformar. Aliás, adorava modificar tudo – do ambiente e móveis da casa à vida amorosa da irmã. Gastou várias noites projetando o visual do Arco, até que ficou “perfeito”. Foi o que Rafaela disse quando Luiza lhe mostrou o desenho da primeira loja. As duas passaram dias percorrendo antiquários e Luiza, aos poucos, foi encontrando cada peça que se encaixava naquilo que ela definia como “o melhor lugar para encontrar livros, café e boas companhias”. A qualidade que mais inspirava a admiração de Rafaela era a impulsividade quase infantil com que Luiza se entregava a uma novidade. Tudo era motivo para devaneios. Desde uma mesa necessitada de uma demão de tinta ou de um novo tampo, até um olhar diferente ou uma conversa desinteressada de algum cliente novo. Tudo eram possibilidades. Era meio infantil, mas essa vivacidade casava perfeitamente com suas feições frescas e joviais. Era mais baixa que a irmã, tinha as formas bem feitas, os olhos muito vivos, os cabelos curtos, num estilo Chanel bastante repicado e cantava o tempo todo. Tinha seu próprio escritório e assinava a produção de inúmeras casas na cidade.
Mariana sempre fora a melhor amiga das duas irmãs. Eram um trio e tanto – Rafa, Lu e Mari. Cresceram juntas e nunca se separaram. Mesmo depois do casamento da amiga, as duas irmãs continuaram a recrutá-la para as compras e vários passeios, em que falavam de tudo. Mari tinha um casal de filhos: Lilian, que fora apelidada de Lily e Tiago, que foi premiado com o codinome Tico. Vitor fora seu namorado desde sempre e mostrou-se contente em contribuir para “a melhoria da qualidade gastronômica do Arco”. Traduzindo: devorava todos os biscoitos que Mariana fazia e fingia ficar na dúvida entre um sabor e outro, só para comer mais um de cada. Formavam um casal muito divertido. Transbordavam felicidade e harmonia. No geral, a família lembrava a Rafaela algo como um comercial de margarina ou aquelas comédias românticas totalmente “água-com-açúcar”. Uma referência de relacionamento bem sucedido, com direito a beijos estalados, telefonemas no meio da tarde e brigas bobas.
Rafaela teve alguns relacionamentos até parecidos, mas que acabaram por não dar certo. Alguns bem que duraram, mas havia algo que não se encaixava. Era como se faltasse alguma coisa. A maioria dos seus namorados era do tipo certinho. Vestiam-se bem, eram cultos e “incrivelmente chatos”. A opinião de Lu sobre os ternos que visitavam a irmã era invariavelmente ácida. “Pelo amor de Deus, Rafa. Eu tenho certeza de que você não é rabugenta a ponto de só atrair esse tipo de homem. Eles são programados, corretos, nunca se atrasam, são mega responsáveis, estáveis, lêem coisas que nenhum mortal lê, mas, convenhamos, definitivamente não fazem você feliz. Há tempos não vejo você com um brilho diferente no olhar, mesmo estando acompanhada”.
Lu estava certa. Rafaela acabava terminando os namoros, embora os namorados recentes nunca fizessem nada de errado. Talvez fosse isso que faltava – uma pequena dose de inesperado, uma pitada de irresponsabilidade, emoção. Mas ela precisava acrescentar que os últimos acontecimentos foram emocionantes além da medida, e muito sofridos, diga-se de passagem. Já havia feito coisas irresponsáveis antes. Namorara garotos mais velhos e meio encrenqueiros no tempo da escola. Já fugira de aulas, viajara escondido e aprendera a fumar. Mas em nenhum momento as coisas que fizera mudaram drasticamente a pessoa que era. Seu caráter nunca havia sido posto à prova como agora. Além disso, havia mais que uma questão de caráter norteando toda a bagunça em que se encontrava.
Foi então que voltou ao presente. Não havia propósito em ficar lembrando as coisas irresponsáveis que aprontara no colegial. Agora era tudo diferente. Já não tinha mais 16 anos e um namorado irresponsável – tinha exatamente o dobro da idade, estava sozinha, confusa e sofrendo por vários motivos diferentes. Urgh.
Levantou-se da poltrona, acendeu outro cigarro e ficou olhando pela janela. La embaixo, na avenida, a vida se desenrolava em trânsito. Quantas daquelas pessoas tinham uma vida perfeita? Quantas estariam levando arrependimentos para casa? Com relação à primeira pergunta, ela tentava se convencer de que a resposta seria um conjunto vazio. Quanto à segunda, estava fazendo o melhor para acreditar que não pertencia ao grupo.
- Definitivamente eu preciso de um banho. Estou um trapo, disse enquanto se olhava no espelho sobre o aparador.
Terminou o cigarro, caminhou lentamente para o quarto, tirou os sapatos e os guardou – nada de deixar para mais tarde – se despiu e pôs as roupas no cesto. Mais uma olhada no espelho a convenceu de que não tinha mais 16 anos. A mulher que a encarava do outro lado era exuberante e bem bonita, mas hoje se mostrava cansada. Rafaela abanou a cabeça e virou as costas para sua imagem. Ligou o chuveiro e esperou lavar a tristeza com a água do banho.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Eu queria um HD externo.





Eu queria um HD externo para o meu próprio cérebro. Queria poder ter outro lugar, que não fosse a minha cabeça, para armazenar algumas coisas. Seria uma bênção poder me livrar de alguns arquivos e fazer um backup de outros.

Se eu pudesse mesmo ter um HD externo, iria organizá-lo em pastas. Tudo ficaria bem compartimentado e juro solenemente que alguns assuntos não seriam visitados nunca, jamais. 

Iria começar pela pasta do trabalho. Essa ficaria irremediavelmente no HD externo e os arquivos só migrariam para a máquina original quando batesse o cartão de ponto. Eu pararia de me preocupar no meio da madrugada com os exames dos pacientes e com as coisas que poderiam ter sido melhor desenvolvidas. 


Faria uma pasta para meus escritos, principalmente os importantes. Ali, faria um backup de todas as ideias que me aparecem num flash em momentos totalmente inapropriados e se recusam a voltar outra hora. Colocaria nessa pasta também o meu medo de me frustrar e toda a ansiedade que, em alguns momentos, os textos me fazem sentir. Encheria essa pasta com diálogos, observações do cotidiano, situações, descrições e personagens. E buscaria cada uma dessas informções no momento oportuno. Acrescentaria ali algumas gramáticas e técnicas de escrita, bem ao lado do novo acordo ortográfico.


Teria uma pasta para erros. Minha cabeça está lotada deles e eu tenho o hábito intragável de ficar remoendo cada um por dias a fio. Seria um alívio poder me desfazer desse conteúdo de vez em quando.


Faria uma pasta para boas lembranças. Um backup seguro para momentos que gostaria de poder gravar na memória para sempre.

Incluiria uma pasta para sonhos e objetivos.


Teria uma seção de lembretes, coisas a fazer e obrigações.


Faria um espaço com a única finalidade de me obrigar a fazer exercícios físicos e usar o telefone celular.


E a pasta mais importante de todas seria uma totalmente vazia. Não colocaria nada lá. Nada de medos, sensação de impotência, raiva, tristeza, euforia, nada que me lembrasse de compromissos, de erros, de faltas. Essa pasta seria o meu maior tesouro. Seria acessada com frequencia, toda vez que eu precisasse fugir de mim.


Claro que o HD precisaria de uma capacidade enorme, mas sempre se pode sonhar, não?
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