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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre Quebra-cabeças e a Vida

Dia desses, pensei que viver é algo como montar um quebra-cabeça sem nunca ver o desenho na caixa. Peça vai, peça vem, a gente vai montando os dias sem nunca saber ao certo o que vai ser. Podemos imaginar, supor, tentar prever. Todavia, o desenho completo, colorido e rico, só nos é apresentado lá bem longe,  onde a vida faz a curva.

Não nos é dado antecipar o quadro pronto; apenas uma pecinha por vez. Um dia, um sorriso, um encontro, um curso, uma decepção, uma coisa de cada vez. Cada novidade, uma peça que tentamos encaixar sem saber muito bem a que parte do todo ela pertence.

E assim vamos vivendo, comemorando cada parte que se encaixa e lamentando tudo aquilo a que não conseguimos dar sentido.

E nesse ponto vale a experiência daqueles cujos quebra-cabeças já estão mais adiantados: algumas partes não se ajustam agora, mas logo se adaptarão. Vale entender que alguns momentos parecem desconexos pela falta do que ainda virá,  do que trará o sentido a esse desenho parcelado a que chamamos vida.  Vale compreender a arte da espera, a habilidade de não insistir na peça que teima em não servir. É necessário entender o processo e saber que tudo tem o lugar e o momento oportuno.  A gente só não sabe qual é ele. Pelo menos não até que a conexão se apresente.

E não adianta tentar se guiar pelo quebra-cabeça do vizinho. O desenho dele é outro, com cores diferentes e pedaços diversos.  Ele não é mais bonito ou menos interessante; é apenas feito para outra pessoa. E, exatamente por isso, seria uma tolice sem tamanho montar a sua vida como se fosse a de outro alguém.

Talvez a tal felicidade passe por isso: encaixar cada peça da vida com alegria,  na certeza de se tratar de um momento único.  Porque a cada pedaço da vida que juntamos, solidificamos o passado. E esse, meu bem, não muda nunca.

O que quero dizer é que,  no fim das contas, não há garantias. Nunca houve. Tudo o que sabemos é que vivemos de não saber. Nos arriscamos na expectativa de que, afinal, sejamos um desenho bonito. E que nossa vida seja um quebra-cabeça que valha a pena ter sido montado.

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Maternidade Faixa Branca



Não era para hoje essa crônica. Nem para ontem. Na verdade, estou em débito com alguns leitores desde a semana passada e há apenas dois segundos, eu ainda tinha a minha filha caçula pendurada no meu pescoço. Até que eu pedi "cinco minutinhos pra mamãe escrever uma crônica" e elas partiram para a sala. Nesse exato momento, estão morrendo de rir de algo que não sei bem o que é (um arrepiozinho de preocupação aqui). Sobre o que, então eu queria falar há tantos dias? Sobre o conceito de Mãe Faixa Preta e seu derivado a Mãe Faixa Branca.

A primeira vez que vi essa expressão, foi num livro da Marian Keyes. Uma personagem usou esse termo para falar sobre o quão difícil era lidar com a vizinha - que tinha uma vida toda estruturada, filhos lindos, polidos, educados, talentosos, atarefados e poliglotas. A infeliz sempre sabia o que fazer, tinha tudo sob controle, nunca se exasperava, os filhos não choravam, não davam birra e já escreviam o próprio nome em mandarim (ok, exagerei). E eu preciso confessar: como eu me identifiquei com a sofrida personagem mãe faixa branca!

Outro momento que me fez refletir muito foi a visita a uma grande amiga que acabara de receber a credencial de mãe. Liguei para ela e ofereci ajuda - resumindo, eu ficaria com o bebê para que ela pudesse tomar um banho, dormir cinco minutos, comer algo, essas coisas que a gente precisa fazer e pouco realiza quando se está com um bebê pequeno. Na ocasião, minha amiga me disse - e me sinto traída e traidora até hoje - que ninguém nunca havia falado sobre as partes difíceis. E foi quando eu me dei conta: no que se refere à maternidade, temos a mania de exaltar o que é lindo e jogar o que não for assim tão glamouroso para debaixo do monte de fraldas (porque o tapete já não pode ser usado; sabe como é, o bebê tem alergia). Até aí, todo mundo faz. Mas, convenhamos, tem gente que exagera.

Minha sensação é que, desde o primeiro comercial de margarina e talvez bem antes disso, a imagem de família perfeita venha se refinando e se tornando cada vez mais inatingível. São apenas momentos lindos de puro lazer e deleite, com luz bem posicionada e várias fotos nas redes sociais. As pessoas foram se aprimorando na arte de fazer crer e, corrijam-me se eu estiver enlouquecendo, fizeram dos pimpolhos pequenos troféus que carregam para cima e para baixo. São as mães faixa preta.

Agora a criançada sai das fraldas cada dia mais cedo - afinal de contas o filho da vizinha já saiu. É menina que aprende a ler quando nem sabe que terra não é comida, menino que vira um videogame do avesso aos dois anos e meio, criança que usa termos tão complexos que Ruy Barbosa teria lá suas dificuldades em lidar com ela. Nada contra. Juro, juradinho. Só não entro nessa barca. Sou uma mãe faixa branca.

Entenda, leitor. Eu amo ser mãe. Faço isso com todo o meu coração e não saberia fazer outra coisa da minha vida. Mas confesso não ser perfeita. Frequentemente, acontecem coisas que me fazem pensar "e agora, José?". Cinco vezes por dia, eu respiro um pouco mais fundo. E simpatizo do fundo do coração com uma amiga que certa vez me disse já ter considerado roubar galinhas para ir para a prisão - direto para a solitária - e dormir uma semana inteira. Maternidade é uma coisa boa como não consigo explicar, mas ninguém se engane sobre ser fácil.

E é por isso que eu amo quando me encontro com as minhas amigas que também têm filhos. Aí elas contam sobre os meninos que acordam de noite, sobre os pratos de comida que demoram a eternidade para findar, sobre o banho que nunca começa e depois nunca acaba, sobre o cabelo que aguarda uma ida ao salão há um mês. Minhas amigas que estão na turma de mães faixa branca têm coragem de assumir que ficaram bravas, que os filhos demoram pra fazer o dever de casa e que as toalhas não voltam automaticamente para o banheiro. Elas são solidárias, quando falo sobre aquele livro há meses aguardando ser lido, e sobre o fato de o banho ter virado um momento de lazer.

Quando encontro mães faixa branca, o que acontece é uma sensação de acolhimento, de pertencer e de normalidade que fazem um bem danado ao coração da gente. O que ocorre é que você percebe finalmente: sou uma mãe normal, com crianças normais, numa casa normal, com uma família de verdade. Existimos. Temos uma rotina e alguns atritos, mas amor suficiente para deixar todos os perrengues de lado e seguirmos felizes.

A crônica ficou pronta uma semana depois. E não pense que foi escrita em dois ou três minutos. Entre uma e outra frase, pedi para que o volume da televisão fosse abaixado, preparei leite, precavi contra acidentes diversos e ameacei mandar as crianças mais cedo para a cama. Agora pergunte se eu queria outra vida...

Sobre ser mãe, eu citaria Djavan e Caetano para encerrar o raciocínio: "se tivesse mais alma pra dar, eu daria. Isso pra mim é viver".

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Como os ipês



Se hoje alguém me pedisse um conselho, apenas um, eu diria: seja como os ipês.

Tenho uma queda por eles, é verdade. Não escondo de ninguém o fascínio que essa árvore me provoca quando está florida. É uma época bonita aqui no cerrado: céu azul, ipês rosas e amarelos, alma leve - e umidade do ar abaixo do aceitável. São dias secos, muito secos. A paisagem toda se transforma e o tom predominante passa a ser algo entre o verde e o palha - com uma tendência para esta última tonalidade. E é quando os ipês se apresentam, majestosos, enchendo os olhos e fazendo sorrir sem querer.

Por isso eu digo: seja como os ipês. Tenha raízes fortes e profundas, saiba onde estão elas e busque sempre o que te faz crescer. Creia que suas bases te podem manter de pé. Aproxime-se de sua família. Cerque-se de bons amigos. Tenha raízes vigorosas e vá adiante, buscando sempre a luz.

Tenha a aparência encantadora e o cerne resistente. Saiba ser agradável aos olhos, amistoso e atraia as pessoas. Traga cor e alegria aos ambientes e às relações. Ilumine tudo quanto estiver ao seu alcance. Seja suave. Mas tenha o cerne duro. Seja forte e esteja preparado para resistir aos ventos de agosto. Relacione-se com os amigos, familiares, colegas e desconhecidos de maneira suave e gentil. Mas faça-se forte e esteja preparado para quando a vida chamar. E não se engane: ela chama. Aqui e acolá o cerne de cada um de nós é posto a prova e é bom que ele esteja resistente, ou toda a árvore virá abaixo.

Não se misture à paisagem. Tenha lugar, luz e cores próprias. E não tente impor suas nuances aos outros. Esteja ali e floresça. Mesmo que tudo mais esteja seco. Na adversidade, as flores são mais bonitas. Tenha coragem para se mostrar vivo e presente. Isso é mais do que muitos podem oferecer. Apenas decida não sucumbir às intempéries e siga. Deixe cair as folhas - o tempo se encarregará de trazê-las de volta. E até que isso aconteça, simplesmente floresça.

Entenda que assim como há várias cores de ipê, há vários dons. Descubra o seu tom e se pinte com ele. Dê o seu melhor naquilo que decidir fazer. E não perca tempo tentando ser um ipê roxo, se tudo que há em ti pede para ser amarelo. Exerça os dons que tiver. A todo tempo. A seu modo. E traga para o mundo o colorido que você - e só você - pode dar. Seja um sucesso. Aceite a beleza que há em cada um dos seus talentos e simplesmente continue.

E não se desespere para caber na fôrma. Eucaliptos são bonitos a seu modo - regulares, simétricos, bem distribuídos e disciplinados - mas nenhum deles traz consigo a exuberância de um ipê.

Por fim, deixo de dar conselhos e faço um pedido: seja, por favor, um ipê. Eles não são muitos na mesma região. Todavia, bastam um ou dois para transformar completamente a paisagem.

Na expectativa de que muitos ipês estejam do lado daí, eu me despeço.
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eu que não falava de amor.



E eu, que não falava de amor, agora decidi embarcar nesse trem. Eu, que não falava de amor, resolvi que talvez não doa fazê-lo. Ora, o amor - tema pintado, declamado, aclamado, e estudado é apenas um assunto. É mais uma das faces desse diamante que lapidamos durante anos; um que chamamos vida.

Nunca falei de amor, é verdade. Pelo menos não daquele sentido por duas pessoas que decidem se amar e construir uma história juntos. Não expressando minhas impressões a esse respeito. Houve alguns escapes, é verdade; mas se falei de amor, foi em histórias fictícias. Falei de um amor de mentirinha, daquele que a gente cria para a ficção. O amor da vida real é outra coisa.

Sempre me questionei o motivo de minha relutância. E recentemente tenho pensado ainda mais a esse respeito. Ora, tantas pessoas já esgotaram esse tema! Tantos se debruçaram sobre ele e compuseram mais do que poderíamos supor. Tanto já foi dito, que talvez eu ainda não houvesse encontrado minha própria forma de falar de amor. Creio que nunca tenha compreendido bem o processo, afinal.

Amar não é algo que se aprenda como conteúdo de prova. Não é algo em que se possa provar habilidoso; não em termos acadêmicos e racionais. Pode-se refinar os modos, os hábitos e as crenças. E creio que esse refinamento seja o responsável por produzir um amor sobre qual não haja motivo para censura.

O amor não é algo que se aprenda como conceito. Não. Ele é, antes, algo que se viva com consciência e verdade. Amar é entregar trechos de vida, pensamentos e intenções. É ter consigo um sentimento do qual se orgulhar e para o qual voltar. Todos os dias.

E sim, é amor, aquele bem-querer quentinho no peito da gente. É amor aquele buscar com os olhos e aquela vontade de fazer feliz. É amor aquela paz que te acomete e te diz que o coração encontrou pouso. E é amor a coragem de se admitir enamorado, sem o medo do arrependimento. Sem a censura fria de quem não tem assim tanta certeza.

A gente se preocupa demais com definições, quando - na verdade - o amor só demanda honestidade, verdade de sentimento. Ora, amor é quando a gente sente. E sentir já é o bastante para definir.

Beijinhos
Fê Coelho.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Escritora com Nome de Bicho



Era a escritora miudinha. Pequenininha, com um ou dois degraus subidos, mas com uma vontade enorme de conhecer a escada. Era a escritora miudinha, ainda tentando entender o processo. Peixe pequeno se aventurando fora do coral.

Tem sobrenome de bicho, essa escritora. E tem consigo essa simplicidade; esse não saber, que de tanto não saber acaba descobrindo alguma coisa. Não consegue usar as formas mais rebuscadas da língua. Não sabe jogar purpurina pra todo lado. Toda ela é meio assim, sem rodeios. Pensa o que quer dizer, sente a forma como quer que sintam e escreve. Descomplicada essa escritora com nome de bicho.

Já pensou que queria ser cantora, mas cantora não pôde ser. Não conseguia saber a diferença entre tons e ritmos, nem se adequar ao som. Mas ela sempre viu o pôr do sol em forma de texto. Sempre se encantou com tudo o que viu, com as histórias que encontrou e com as formas de contá-las. Gostava de poesia, aquela criança miudinha, e de livros, e de arte. Nunca soube classificar bem as coisas, mas sentia todas elas. Vive um eterno sentir, essa criatura.

E talvez seja por isso que ela escreve: porque sente além da conta; porque pensa e vira frase a cada esquina do caminho; porque transforma tudo em texto. Alguns ela guarda consigo, outros ela encerra no coração. Mas alguns ela manda espiar o mundo, como a pomba do dilúvio, meio que para saber se é seguro. E os textos obedecem. Fluem, saem e voam. Encontram corações e fazem morada. Ou ficam por apenas um segundo. Ou não ficam. Mas eles seguem viagem. E voltam trazendo notícias do mundo de lá.

Curiosa essa escritora com nome de bicho, que gosta de crianças; que quer ter sempre o olhar como o delas. E que, se dizendo escritora infantil, mesmo assim se sente em dívida de sinceridade com o amigo leitor adulto. Escritora teimosa que fala de tudo, mas que teima em não falar de amor.

Ah escritora danada. Aprende que não é você que escolhe as palavras; elas é que fazem morada no seu coração e passeiam pelos seus dedos. Aprende escritora com nome de bicho. Nessa brincadeira, você é sempre a pega.

Feliz dia do escritor.
Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pedra e Flor: reflexões sobre ser Enfermeira.



A enfermagem é a arte e a ciência de cuidar; isso é sabido. O que eu ainda não sabia é que a enfermagem, como arte ou ciência, é obra que leva a vida toda sendo construída.  Há coisas e fatos que aprendi durante meus cinco anos em período integral de faculdade. E há outras tantas coisas que compreendi em meus quase nove anos de profissão. Há coisas que foram fáceis de aprender e outras com as quais luto até hoje. E tremo em pensar sobre o quanto ainda há para saber, fazer e sentir.

Percebi - e ando me debatendo com esse fato nos últimos dias - que o enfermeiro é muitas vezes o olho de outro profissional sobre o paciente. Como estamos lá em tempo integral, somos quem decide se algo é simples de se resolver, com os recursos de que se dispõe na hora, ou se é momento de chamar outro profissional. Creiam: nem sempre é fácil fazer isso. Para saber a quem e quando chamar, é preciso conhecimento e discernimento. Reconhecer as grandes e pequenas necessidades daqueles sob nossos cuidados e garantir para que elas sejam atendidas é algo laborioso, que pode nos custar, em alguns casos, até a paz de espírito.

Entendi que não há limite para o que se pode aprender. Academicamente falando, ou não. Cada contato com uma pessoa é o momento oportuno para crescer; não importa se como profissional ou como ser humano. Um bom enfermeiro cresce. O tempo todo. E usa essa capacidade em prol dos que se confiam a ele.

Descobri que muitas vezes, pouco é tudo o que podemos fazer; contraditoriamente, nesses momentos, pouco pode querer dizer exatamente isso: tudo. Não é fácil ouvir os agradecimentos de filhos cuja mãe você não pôde salvar. Esse é o tipo de coisa que dói de um jeito estranho. Dói até você compreender que as pessoas morrem, mas que a maneira com que foram tratadas até que isso aconteça é fundamental. Dói até você entender qual é o seu papel diante de cada par de olhos com os quais você cruza. E até você pensar que aprendeu e se encontrar com uma nova dor, fruto do inesperado. E até você entender que, muitas vezes o coração do enfermeiro é remendado; mas continua acolhedor.

Compreendi que um novo trabalho é uma nova oportunidade; um caminho a trilhar, com suas particularidades, surpresas, vitórias e agruras. E entendi que um antigo trabalho será sempre uma escola, herança e origem para a qual olhar sempre que necessário. No fim das contas, acolher o futuro e honrar o passado continua sendo um bom meio de vida.

Aprendi com a dor, com a incerteza, com a beleza que se esconde bem longe do óbvio. Tive como mestres a convivência de pessoas, o que elas fizeram, o que deixaram de fazer, o afeto e a falta dele. Aprendi com o fazer, com o agir, o ouvir, o esperar, o observar, o sentir. Aprendi muito. Em cada momento de doação, em cada segundo de incerteza e ao final de cada dia, com a cabeça no travesseiro, certa de minha sorte por estar saudável.

Lembro-me ainda das palavras de um dos meus mestres na faculdade, o Dr. Marcelo Medeiros. Certa vez ele nos alertou que um dia seríamos pedra e, no outro, janela. Nunca me esqueci disso. Nunca deixei de pensar que num dia eu cuido e noutro posso estar ali, frágil, janelinha da Silva. E ainda me espanto com a beleza da profissão que exerço: uma que pode ser pedra, mas que opta de todo coração por ser flor.

Feliz dia do Enfermeiro a todos os meus colegas.
Me orgulho da profissão que exercemos.
Beijinhos,
Fê Coelho.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Se você me fizer sentir gratidão.



Se você passar pela minha vida e me fizer sentir gratidão, vou me lembrar de você sempre. Se fizer meu coração rir baixinho, você terá sempre um lugar especial, a mesa posta, os lençóis limpos e as janelas amplas abertas para um lindo jardim. Meu coração é generoso com quem enfeita suas paredes com quadros de amor e amizade.

Se você me fizer sorrir à lembrança do seu olhar, vou querer te ligar no meio da tarde. Vou me preocupar com seu bem-estar e dedicar a você uma boa dose de bem-querer. Vou me interessar pelo seu dia e prometo fazer um esforço grande para me calar e ouvir o que você tem a dizer. Porque se sua passagem pela minha vida tocar meu coração, vou querer ser uma pessoa melhor por causa de você e isso inclui reconhecer meus defeitos (entre eles o de falar demais).

Se você deixar um pedaço de si comigo, vou cuidar bem dele. Ou vou, no mínimo, me esforçar nesse sentido. Provavelmente vou cometer falhas e dar mil mancadas. E vou me sentir em falta com você. E mesmo que passemos um tempo sem nos falar - porque a vida anda corrida para todo mundo - você estará nos meus melhores pensamentos e nas minhas orações. Porque você me fez sentir gratidão e isso é algo que sempre tem volta.

E quando nos falarmos vou querer saber como anda a vida; vou perguntar como estão as coisas no trabalho, as crianças, a reforma do apartamento; vou tecer os elogios que fiz mentalmente ao ver uma foto sua no Facebook. E vamos rir. Sei que não é muito. Quem traz gratidão ao meu coração merece muito mais que isso. Nesse ponto entra um pedido de desculpas. E se você fizer o meu coração sentir amor, vou dizer isso quando desligarmos o telefone. Porque se você me fez sentir especial, vou retribuir isso e vou querer que você se sinta igualmente reconhecido.

Por outro lado, se você passou pela minha vida e pichou as paredes, espalhou as coisas pelo chão e deixou tudo meio cinza, vou reformar a casa; vou pintar tudo e pôr quadros novos; vou espalhar botões mimosos por todo canto até que não me lembre mais do que você fez. E, principalmente, vou deixar que você se vá para longe e para sempre. Meu coração não retém hóspedes inoportunos e nem cultiva lembranças desnecessárias.

Meu coração é lugar de bons amigos, familiares amados e amor retribuído. É casa simples, caiada de branco, ensolarada e acolhedora; uma casa que só abriga quem a ela trouxer nada menos que gratidão.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Das Coisas simples



Sabe, eu gosto de coisa simples. Gosto daquelas partes da vida em que tudo anda meio descomplicado, quando a gente olha e sabe bem o que vê. Tenho apreço por casa arrumadinha e aconchegante, mas que também te dá vontade de ficar à vontade. Gosto de poesia que fala com a gente, como quem conversa ao final da tarde, tendo o pôr do sol à frente.

Descobri que gosto de textos simples, daqueles que me fazem sentir exatamente o que se quis dizer. Gosto de sorrir ao ler. E se for pra chorar, tudo bem também. O que me deixa feliz é ler a verdade em cada parágrafo. Gosto de escrita que faz carinho na alma da gente. E creia-me, minha alma aprecia um bom cafuné.

Sabe, gosto de gente descomplicada, do tipo que não cobra aquilo que não pode ser entregue. Gosto de gente tranquila, verdadeira, cuja companhia é nada menos que um presente. Amo sorrisos francos, abraços apertados, olhos nos olhos e risada solta.

Andar de mãos dadas, picolé de limão, por do sol, música leve, cheiro de filho, filme com pipoca (e cobertas), lembrança boa no meio da tarde: tudo tão simples e tão bom.

Tenho medo do que andam fazendo por aí, transformando a vida num amontoado de coisas que se precisa ter e ser. Tremo diante das metas que me estabeleceram sabe-se lá onde, porque a maioria delas não me inspira a menor felicidade. Dizem que preciso ser magra, forte, bem-resolvida, sarada, inteligente, pós-graduada, bem-sucedida, bem-amada e bem-nascida. Dizem que preciso sorrir o tempo todo e que se não for assim, talvez eu precise mesmo de um antidepressivo.  Estão tentando me convencer de que, ai de mim, preciso receber declarações de amor publicadas no youtube, ou não vou saber bem o que é ser amada de verdade.

Pois eu digo que pouco me importa o que andam dizendo por aí. Sinto muito mais alegria num dia comum, que em lindos rompantes dourados. Confio mais no que é estável, no que se solidifica. Amo a doçura do cotidiano e das pequenas gentilezas; o sonho que se compartilha, a doação gratuita, a sensação de pertencer que só se encontra quando se pertence de verdade.

Sabe, amo a vida assim, sem tantos penduricalhos. Amo saber que sinto o que está ali para ser sentido, que aprecio o momento que tenho para apreciar. Gosto demais de viver de verdade. Tenho um gosto por demais refinado; um crivo fino, pelo qual só passa aquilo que for suficientemente simples.

Beijinhos
Fê Coelho




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Das Negativas



Estive aqui pensando sobre os revezes com os quais muitas vezes somos brindados pela vida. Estive aqui refletindo sobre quantos trancos uma pessoa tem que aguentar nessa sucessão de dias, fatos e saberes que é a existência de cada um. E matutei sobre as coisas que recebi de amigos e parentes. E acabei me detendo nos presentes que ganhei dos meus pais até hoje. A conclusão a que cheguei foi de que o maior de todos os tesouros que já recebi foi o Não.

O não, bem aplicado, me mostrou que existe uma coisa chamada limite. Fez-me compreender que posso ir até certo ponto com as pessoas; mas dali em diante, não! Entendi que é assim mesmo. Todos possuem um limite claro, ou pelo menos deveriam. A negativa mostra que não podemos tudo, não sabemos tudo, e não, não somos os melhores em tudo. O advérbio de negação ensina. Ah! Como ensina.

Quando criança eu sempre soube que não tinha exatamente os mesmos brinquedos que as outras crianças, pelo simples fato de alguns deles estarem fora do nosso poder de compra. Meus pais nunca tentaram nos dar coisas que não podiam e nos comunicavam claramente os motivos. Isso trouxe algumas consequências terríveis: aprendi a ser honesta no que digo; entendi que não posso ter tudo quanto queira; tornei-me feliz pelo que tenho, deixando o que não está em minhas mãos para lá. Horrível, eu sei.

Além disso, o não dos meus pais me deu forças para enfrentar as negativas da vida. Chamam isso de resiliência - que no bom português, é a capacidade de aguentar trancos, de voltar ao estado inicial depois de algum impacto. E não se engane, a vida nega. E como nega! Seu aumento não sai. O carro que você quer comprar só pode ser entregue na semana que vem. Você é reprovado em algum concurso por uma questão. O vestido lindo só está disponível num tamanho dois números menor. A fila demora. O dinheiro acaba. Algum amigo se afasta. A pessoa por quem você suspira simplesmente não te ama. Ou não te ama mais. Ou trai a sua confiança. Ou todas as coisas juntas. E não, você não vai poder gritar com o gerente, nem bater na velhinha que leva um ano pra atravessar a faixa de pedestre quando você está atrasado. Você não vai poder sair da sala do chefe batendo a porta, nem quebrar o braço da mocinha na balada porque ela não quis te beijar.

O não, aplicado na infância, é como vacina. Ele nos deixa mais fortes e resistentes às frustrações. E aplicado na vida adulta ele nos permite crescer. Vacina dói. O não também. Mas existem dores que se vão indo tão de mansinho para longe, que você só percebe que elas se foram quando já nem se lembra mais de procurá-las. E o que sobra é aprendizado.  

Não é pessoal. A maioria das vezes é só o vento soprando do jeito errado. Ou o tempo do outro que está reduzido. Ou o dinheiro. Ou os motivos. Ou a vontade. Ou quem sabe seja mesmo pessoal. Mas quem disse que podemos agradar sempre? Esse é só mais um não que a vida nos empresta, para nos lembrarmos que não somos o centro do universo. 

Por fim, preciso dizer o mais importante: o não me ensinou o valor do sim. E é a ele que me agarro todos os dias. Sim, o dia está lindo. Sim, tenho mil motivos para sorrir. Sim, tenho amigos leais. Sim, estou viva, forte e cheia de possibilidades de construir uma vida repleta de cor e luz. Sim, posso agregar tanto amor quanto queira. Porque sou responsável pelas escolhas que faço.

Acolho o não como professor. Recebo as negativas da vida como lição.

E a maior de todas as lições é que não preciso ser correnteza brava, que destrói as pedras pelas quais passa. Posso ser regato manso, que contorna os obstáculos e simplesmente vai. Pra frente, pra longe. E se perde da vista da gente, nalgum ponto alaranjado de ocaso.

Beijinhos
Fê Coelho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Da Finitude



Há muito, leitor, tenho contigo uma dívida de sinceridade. Várias vezes expus tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar. Algumas delas, todavia, permaneceram inconfessas. Tenho essa característica, que para um escritor pode se tornar um defeito: tenho ciúmes de certos pensamentos. Alguns deles são tão meus, tão profundamente meus, que sinto pesar em dividi-los. Ocorre que algumas vezes o copo transborda e não há maneira de sossegar as ideias, a menos que alguns pensamentos sejam compartilhados. Pois bem, falemos sobre o fim.

Nunca fui pessoa de escrever sobre relacionamentos. O maior motivo para isso é que não se consegue nunca um distanciamento ideal - nem de assunto, nem de fatos, nem de tempo ou de encarnação. Ainda assim, creio que já possa dizer uma ou duas coisas com propriedade. Talvez isso alimente em mim a sensação de estar me tornando uma escritora mais honesta. Falemos, leitor querido, da finitude.

Então acabou. Tudo o que deveria silenciar é dito e, ironicamente, aquilo que não se quer ouvir são as únicas palavras disponíveis. As verdades e mentiras piedosas se penduram no silêncio, como um móbile a entreter um interlocutor meio pasmo. Os clichês vão chegando em fila indiana e nada mais faz sentido, porque é oficialmente o fim.

Você pode escolher vários caminhos: tomar seis (ou seriam sete?) latas de cerveja em sequência, ligar para todas as amigas (disponíveis ou não) e chorar até virar do avesso. Como queira. O fim é seu e você faz dele o que bem entender, certo? Até certo ponto, sim.

Acontece que a vida bate à nossa porta. Ela sempre bate. Os dias continuam sua interminável sequência de amanhecer e anoitecer. O cotidiano exige. E lá se vai você, não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido. A vida acontece apesar de nós, de tudo o que sentimos, desejamos ou lamentamos. A vida simplesmente é.

Pode-se resistir, deitar-se e chorar por colo e mingau de aveia? Ora, sim. Mas não recomendo. Reter a tristeza traz amargor. Tanto quanto fingir que ela não existe.

Depois do fim, iniciamos um processo de nos encolhermos para ser novamente apenas um, ou de nos expandirmos para valer por dois. E embora saiba que todos os dois processos são doloridos, posso dizer que tenho preferência pelo segundo, pois sinto que crescer e enfrentar seja algo mais bonito que se encolher até que os problemas deixem de perceber sua existência.

Então você reavalia, repensa, refaz. Você inventa uma maneira de preencher vazios e de substituir coisas que eram tão suas. Porque, de repente, não há mais aquelas tardes de domingo, nem o estar deitado no sofá da sala por não se ter outra ideia melhor. De uma hora para outra, os planos se desfazem e faz-se mister reinventar uma rotina que tinha se adaptado para agregar.

Então o fim chega e você sabe que, de alguma forma, algo seu se foi com outra pessoa. E percebe que se importa com o tratamento que será dispensado a esse pedaço seu. Depois do fim, pode ser que sobre um desejo contido de que aquele pedaço seu que se foi ainda seja capaz de produzir algum encanto. Por outro lado, o fim, quando apresentado repetidas vezes, pode nos ensinar que tudo o que o outro leva de você é um alívio enorme. Cruel, talvez. Mas que atire a primeira caixinha de lenços quem nunca se sentiu assim.

Fico imaginando do que, afinal, sentimos falta quando o fim acontece.

Como num filme realmente bom, daqueles que nos fazem lamentar os créditos, o término nos tira de um estado de contentamento. Momentos bons são recolhidos e a sensação (tenhamos cinco ou cento e cinco anos) é de que foi tudo prematuro. A vida se estica e encolhe; você sofre, chora, sorri e se refaz. Então percebe que a saudade maior é a que você sente de você mesmo; da versão de você que tinha o contato com o outro. A saudade é da felicidade que chegava junto com os olhos nos olhos, com o beijo na mão, com o abraço apertado e com o beijo que só ocorreu porque você não encontrou motivo para recusá-lo. A saudade é da sensação de benquerência; da ilusão de ser o primeiro pensamento de alguém. O pesar é pelo que não volta.

Mas a vida é essa. A finitude permeia tudo quanto nosso coração alcança, nos lembrando da característica quimérica dos nossos dias. A finitude é certa. Tudo mais é lucro e sorte. Tudo mais são apenas tentativas.

Quem disse que seriam apenas flores? Bem que uma grande amiga uma vez me disse: "o coração do outro é terra que ninguém pisa".

Beijinhos
Fê Coelho


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Véspera - uma crônica sobre novos sonhos



A meio passo de realizar um sonho cultivado por anos, com empenho e olhos brilhantes, me pergunto: e agora, José? Sei que parece estranho; que a realização dos sonhos deveria ser uma espécie de guia nessa sequência de abrir e fechar de olhos que é a vida. Sei de todas essas coisas. Todavia, hoje, às vésperas de ver o fruto do meu trabalho, me questiono. E agora?

Véspera sempre foi uma palavra que me intrigou, desde criança: a véspera de natal, véspera de provas, véspera do aniversário. Ora, pareceu-me durante muito tempo que a véspera era mais importante que a data esperada em si. E não seria? Afinal de contas, até percorrermos os segundos pelos quais esperamos, tudo o que temos são possibilidades. Ah, leitor, o universo das possibilidades é encantador e amedrontador em medidas iguais. Tudo pode ser: bom ou ruim; realidade ou apenas monstros embaixo da cama. A véspera é aquilo que ainda não é palpável. É uma espécie de fronteira entre o que era sonho e o que se torna realização.

Disseram-me, uma vez, que eu estaria riscando um  item da minha lista, ao realizar um sonho. Acontece que não foi isso o que ocorreu. A possibilidade de conseguir algo há muito tempo esperado se tornou o index para inúmeras outras aspirações. É como se sentir um degrau sob meus pés houvesse me dado a certeza de que ali há uma escada - uma que eu sempre quis conhecer.

E é por isso que eu vou, leitor, mesmo sentindo uma pontinha de medo; mesmo correndo o risco de me decepcionar. Se tem uma coisa que andei aprendendo é que decepção é um risco que assumimos para viver bonito. Não há garantias. Nunca houve. Não há meios para saber até onde vai o caminho de cada um de nós. Porque a vida é assim mesmo, melindrosa, afeita às surpresas.

Traduzindo e citando livremente uma música de que gosto bastante, afirmo que que "não posso dizer onde a jornada vai terminar, mas sei onde ela começa". E ela começa aqui. Nesse ponto que não sei muito bem qual é, mas que sinaliza o início de muito trabalho e de uma busca por uma carreira que - acredito eu - vá se mostrar a mim, um degrau após o outro.

Esta não é apenas a véspera da realização de um sonho, mas do surgimento de tantos outros. E se isso trouxer o risco inerente da decepção, tudo bem. Porque mais importante que o sonho realizado e pronto, entregue prêt à porter, é a construção de cada um deles.

Muito mais bonitos que um sonho que se realiza, são os que nascem a partir daí.

E vamos em frente!
Beijinhos
Fê Coelho


sábado, 23 de novembro de 2013

Mingau de leite - uma crônica sobre a memória do amor.



De todas as coisas simples, uma das mais singelas que conheço é a lembrança do amor que recebemos. Ela pode estar contida em qualquer objeto; pode se esconder em qualquer paisagem e se revelar com qualquer sabor, cheiro ou toque. A verdade é que a lembrança do amor está em tudo o que pudermos experimentar, mesmo que seja uma colherada de mingau.

O leitor não me julgue doida. Ou julgue, como queira. Fato é que hoje, numa colherada de mingau de leite encontrei a lembrança de amor que precisava para acalentar uma noite de sábado, apreciada entre um e outro plantão de doze horas, longe de todas as pessoas que eu queria ter por perto. Mingau poderoso? Não, leitor. Poderosas são as lembranças de uma infância e uma vida repletas de amor.

Mingau de leite me lembra dias e dias na companhia de minha mãe - linda, tão linda quanto meus olhos infantis podiam enxergar - cansada, depois de horas de trabalho e ainda assim, amorosa o suficiente para se esforçar um pouco mais e ir para o fogão fazer mingau para os filhotes. E me lembra de dias de chuva, quando eu e meus irmãos pouco tínhamos para fazer, exceto jogar baralho com nossos pais e brigar por coisas vãs. Sabores simples, de uma vida simples e saborosa.

A memória do amor que recebemos é alimento para o amor que entregamos. É lembrete que o coração deve ler todos os dias, antes de pensar em fechar as portas. É o próprio amor, assumindo o lugar de professor e nos ensinando a amar. A memória do amor é remédio contra o amargor; é amortecedor para a dureza da vida. É aquilo que confere valor genuíno a uma lembrança que, sem esse sentimento, seria apenas legalzinha.

O amor que recebi é tão bonito, tão leve e tão simples, que consigo encontrá-lo até numa colher de mingau fumegante. Só posso concluir que o amor não seja algo assim tão complicado, afinal.

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre o que nos guia



A estrada costuma se apresentar a mim como um bom lugar para pensar. Talvez por estar sempre sozinha, talvez porque a vastidão do horizonte me faça refletir. Ontem, entre uma curva e outra, atenta à sinalização horizontal, praticamente perseguindo uma faixa branca contínua, um pensamento se apresentou: no final das contas, todos temos uma linha que nos guia vida afora.

Muitas vezes, esse guia é um objetivo, um plano bem traçado, ou uma ideia insistente. Noutros casos, o que nos serve de referência é a religiosidade. E há quem se paute apenas por princípios. Fato é que algo se presta a nos orientar o caminho, as curvas e as escolhas.

Entendo que amiúde queiramos nos referir à vida como algo caótico, sem sentido, solto no espaço e no tempo. Algumas pessoas podem, inclusive acreditar que vivem, de fato, à deriva. Todavia, essa escolha de não se guiar por nada já é traçar um referencial sobre o qual serão vividas as horas e meses.

Estrada sem orientação é ambiente propício para acidentes. Nau sem farol é propícia à deriva. E pessoa que não reconhece aquilo que a impulsiona não sabe muito bem para onde ir.

Não que precisemos olhar a faixa branca o tempo todo.  A estrada só pode ser aproveitada por olhos que consigam captar tudo quanto ela oferece. A vida é mais bonita quando nos prestamos a vivê-la em sua plenitude. Mas vez ou outra, numa curva perigosa, num momento de decisão, é bom nos atentarmos para aquilo que nos guia. Manter os olhos fixos no que nos orienta é uma boa forma de seguir o caminho para onde deixamos nossos sonhos.

E que venham as curvas, os morros e as longas faixas brancas. Pois a vida é presente. E presente a gente aproveita!

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ser ou estar?



Hoje me ocorreu algo que ainda não havia percebido: o quanto discordo da clássica pergunta "o que você vai ser quando crescer". Eu mesma já me fiz essa pergunta em outras ocasiões, quando pensava - em vão - que havia crescido o suficiente para respondê-la. Dirigindo para casa hoje, enquanto olhava as curvas da estrada e os montes muito à minha frente, compreendi que crescer é muito mais um processo do que uma finalidade.

Não concordo com esse hábito que temos de classificar o crescimento como um ponto fixo a ser alcançado, como um trono onde se assenta e reina para sempre. Crescemos toda vez que fazemos uma escolha, mas principalmente quando lidamos com os resultados dela advindos. Crescemos quando aprendemos a valorizar as pessoas que vivem ao nosso redor e quando compreendemos que amar é mais que apenas estar ao lado. E quem dirá que não crescemos quando as lágrimas percorrem seu curso? Muitas vezes o sofrimento é professor mais eficaz que a bonança.

Com tudo o que vejo, cresço um pouco mais - em memórias, em conhecimento, em ideias e num tesouro que é só meu. Cada abraço que recebo ou distribuo me torna maior em afeto; a cada sorriso, cresço em contentamento. Cada nova pessoa que passa a compartilhar de meus dias acrescenta vida a eles. Cada música que ouço me faz crescer em emoções. Toda risada me faz ser maior. Toda vez que me doo, cresço. E a cada perrengue que enfrento, cresço em possibilidades de resistir.

Crescer, às vezes, dói. Incomoda. Assusta. Sempre foi assim - vide o primeiro dia de aula, o primeiro emprego, o primeiro beijo e outras tantas estreias. Enfrentar aquilo com que não ousamos sonhar é uma das formas mais bonitas de crescer e uma das mais difíceis. Aceitar que não estamos prontos requer humildade para nos reconhecermos pequenos. E talvez nisso resida a verdadeira grandeza.

Pode ser que eu esteja errada, como tantas vezes já estive. Quem sabe, essas ideias de hoje sejam apenas um sopro, um vislumbre de algo maior - que eu, em minha pequenez, ainda não consigo compreender. Perdoe-me o leitor, se me perceber no engano. Todavia, tenho cá comigo, hoje, a impressão de que não importa tanto assim o que queremos ser quando crescermos; interessa, sim, saber como queremos estar, enquanto crescemos.

Beijinhos
Fê Coelho.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre intenções, barcos de papel e o tempo.



Não foi sem querer que me atrevi a sonhar. Nem foi por acaso que resolvi me tornar uma pessoa com quem gosto de conviver. Não foi sem perceber que minha imagem no espelho foi se adequando aos meus gostos. Nem foi sem sentir que fiz dos meus dias algo que me orgulhe de relembrar. Estive pensando a esse respeito esta tarde; e a conclusão a que cheguei é que se há algo em nossa vida que faz a diferença, é a intencionalidade.

As pessoas - e aqui me incluo - podem ser muito injustas com o tempo, colocando sobre ele uma responsabilidade além da que lhe compete. Dizem que o tempo cura, que apaga, promove ou degrada. Dizem que o tempo é o senhor de todas as coisas. Hoje eu desconfio que ele simplesmente passa. Nós é que agimos, enquanto ele se vai.

O tempo é correnteza que não se deixa deter, que não se permite represar. É um regato, onde nós depositamos barquinhos de papel que lá se vão para o futuro: um sonho, um fato, uma oportunidade, afetos, expectativas. Ele carrega, mas não faz nenhum dos barcos. Tudo o que jogamos em seu leito precisou, primeiro, ser criado por nós - seja por nossas escolhas, ou pela falta delas. É a tal da intencionalidade.

Creio que viver de propósito seja um dos maiores presentes que podemos nos dar. E falo de coisas pequenas, como enxergar o ambiente à sua volta, sentir o cheiro das coisas, fazer escolhas conscientes, ouvir as pessoas atentamente, fazer o seu melhor no trabalho, apreciar o sabor dos alimentos e - por que não -  sonhar de verdade. Ora, se vamos mesmo encher os dias de barcos de papel, por que não fazê-lo com aqueles que escolhemos usar? Por que não colorir a correnteza do tempo com as nuances que nos aprazem?

Não podemos controlar tudo. Seria infantil esperar que pudéssemos. Todavia, há um ou outro ponto da vida que estão, sim, disponíveis para escolhermos. E são esses, os que fazem a diferença entre as pessoas que estão vivendo e as que apenas existem . A cada vez que nos voluntariamos para assumirmos a responsabilidade por nossas próprias escolhas, uma frota de dias selecionados a dedo é colocada nessa correnteza que passa apesar de nós.

Não importa de quantos barquinhos seja feita a nossa história. O que interessa é quantos deles foram realmente dobrados por nós. E se há uma falha da qual a consciência nunca deveria ter a oportunidade de nos acusar, que seja a de ter vivido sem querer.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sobre Mudanças



Quem disse que mudança é fácil provavelmente nunca sentiu um chacoalhão da vida. Quem afirma que é simples abandonar o status quo, desconfio eu, nunca se viu diante de um legítimo "e agora, José?". Quem jura nunca ter se acovardado ou tremido diante do desconhecido, ou é doido, ou um mentiroso daqueles.

Se tem algo que pode ser considerado a mola do mundo, são as mudanças. E se precisamos mencionar algo que tensione essa mola, citemos o medo. Grandes mudanças geram grandes medos. E grandes temores, quando superados, proporcionam resultados incríveis. Se é fácil? Claro que não. Desconfio que muitos primatas devem ter morrido de fome, sem coragem suficiente para descer das árvores. 

Mudar é difícil, chato, dolorido e incômodo. É uma época em que olhamos para nossa própria vida e tudo se sacode, gira e muda de cor, como se os dias houvessem se transformado num caleidoscópio manuseado por mãos infantis. Ficamos preocupados, confusos, amedrontados e, amiúde, gostaríamos de poder dormir até que o processo acabasse. Quem nunca? Por várias vezes, eu já passei por isso. E se há uma coisa que a experiência tem me mostrado é que, apesar de angustiantes, mudanças costumam trazer consigo muitas benesses. 

Uma delas é a oportunidade de passar o saco de lixo, quer seja nas gavetas, quer nas lembranças, nos velhos hábitos, no que se leva da vida. O que quer que se guarde - material ou não -  pode ser reavaliado durante o processo de mudar. Quero dizer, quando se passa de um ponto a outro, nem tudo precisa vir junto; nem tudo é valioso o suficiente para se carregar. Por outro lado, o que se preserva adquire novo valor, por ter sido revisto e mais uma vez amado. 

Mudar é uma chance de acolher o novo, com coragem e bom ânimo. É olhar para uma nova etapa e poder dar as boas-vindas aos dias que virão. É uma possibilidade de não mais ficar nessa de belém-belém com a vida, mas apertar-lhe a mão, com direito a cusparada, para firmar uma parceria de crescimento e novidades.

Difícil? Muito. Incerto? Quase sempre. Incômodo? Frequentemente. Aí eu pergunto: não fosse a metamorfose, como teríamos borboletas?

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Crônica de Quinta: A Fé e a Escada




Disse Martin Luther King Jr., "Dê o primeiro passo com fé. Você não tem que ver toda a escada. Você só precisa dar o primeiro passo". Sabem de uma coisa? Eu acredito nele. Quem me conhece pessoalmente, quem acompanha meus dias sabe disso: andei vivendo pela fé. Subi degrau por degrau, uma escada enorme, cujo fim eu não tinha a menor ideia de onde ficava; mas subi. E acontece que cheguei ao final de um dos lances. Acredito que isso me dê um mínimo de propriedade para falar com vocês sobre um assunto delicado: a fé.

Não pretendo discutir doutrina, religião ou divindades. Quero falar apenas da fé - essa capacidade que temos de acreditar em algo que não é palpável, que não se pode ver ou provar. Quero falar dessa certeza que temos cá dentro do peito e que tantas vezes guia nossos passos. Falemos do primeiro degrau, quando não se vê a escada, mas tem-se a confiança de que ela está lá. Na maior parte das vezes não é fácil fazer isso. Permita-me o leitor, descartar as atrocidades que já foram cometidas em nome de crenças ou pela falta delas e concentrar-me nos efeitos que eu experimentei em função da fé.

De imediato, acreditar que a estrada vai - como diz a música da banda Los Hermanos - além do que se vê, me permitiu o consolo. Quando os dias são muito difíceis, é preciso ter algo que amenize a situação. A fé fez isso por mim. Nos momentos mais complicados, eu me recordava que nem por um segundo eu estava sozinha; havia alguém que olhava por mim e que trabalhava a meu favor. Crer fez com que eu tivesse a sensação de que cumpria passos para algo maior, como se tomasse um remédio amargo que faria passar uma dor crônica. Essa certeza de que havia um plano me sustentou, manteve meu sorriso e permitiu que eu subisse um degrau por vez. Eu não podia ver todo o caminho; mas a cada curva que se revelava, crescia a confiança de que dias melhores viriam. A isso, eu chamo esperança.

Viver pela fé me permitiu exercitar a paciência. Por mais que queiramos, nem sempre podemos apressar as coisas. Os melhores frutos são os que amadurecem a seu tempo. E eu tive que aprender isso. Aprendi também que se você está trabalhando por algo, sendo digno e verdadeiro, cultivando amizades valiosas e acreditando sem reservas, as chances de sucesso são enormes. Boas sementes dão bons frutos. O que precisamos entender é que elas necessitam do seu tempo para se fortalecerem e só então procurarem a luz do sol.

Ah! leitor, mas quando as coisas acontecem... Quando finalmente enxergamos o caminho que trilhamos e entendemos que não, nossa vida não foi um amontoado de dias aleatórios, esse é um dia feliz além da conta! Ter passado pelo crivo da fé me ajudou a saborear as vitórias. Ter acreditado tanto e, justamente por isso, batalhado incansavelmente, deu um sentido absolutamente novo a tudo o que fiz nos últimos anos.

Acho que é mais ou menos isso: um degrau por vez, acreditando que a escada está lá. Porque no final das contas a decisão de não desistir já é uma forma de ganhar.

Beijinhos
Fê Coelho.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Concede-me essa dança?



De todos os sentimentos que experimentamos ao longo da vida, um em particular me intriga sempre que o encontro: o medo. Dizem que ele é uma forma de alerta aprendida ao longo de infinitas transmissões de DNA, pelas gerações afora. Acredito. Juro que creio nessa explicação. Assim como acredito que nenhum sentimento é puramente mau - más são as escolhas que fazemos a partir do que sentimos. Eu explico.

Quando algo nos acontece, sentimentos são mobilizados a respeito desse fato; coisas que podem ser momentâneas, ou durar por muito tempo. Nossas reações podem ter um cunho positivo, quando geram atos construtivos ou o contrário, quando nos levam à destruição - de nós mesmos ou do outro. O que me impressiona no medo é essa ambiguidade que ele trás consigo. O temor pode ser tanto o que te protege, quanto o que te paralisa; pode ser o que impede ou impulsiona. Tudo depende da escolha, da forma de ver e encarar a vida.

Por que estou falando dessas coisas? Porque preciso pensar a respeito. Vamos aos fatos.

Todo mundo diz por aí que a pessoa precisa plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Fiz as três coisas, sendo a última a mais recente delas. E essa noite, enquanto conversava com uma amiga a respeito de como pretendo fazer o lançamento do livro, tomou-me de assalto um medo enorme. O coração acelerou, as mãos ficaram geladas e um iceberg resolveu fazer morada no meu pobre estômago. Em tese, não haveria motivo para temor, afinal de contas o lançamento de um livro é algo para se comemorar, certo? O que me atemorizou, entretanto, foi a possibilidade de fracasso. E se as pessoas não forem? E se não gostarem do livro? E se eu ficar sentada diante de uma mesa, acompanhada apenas do barulhinho dos grilos? E se? E se não? Acredito que o leitor já tenha passado por algo semelhante.

Pus-me então a refletir sobre o medo que eu sentia e, acreditem ou não, uma alegria enorme preencheu o meu coração. Percebi que o fato de estar atemorizada não significa que precise ficar paralisada. E compreendi algo ainda mais bacana: o medo do fracasso só aparece quando caminhamos na direção de algo importante para nós. Temer falhar é privilégio de quem está tentando, de quem está se movendo. Na zona de conforto não há desafios, medos, monstros ou riscos; mas não há louros. O medo da derrota é inerente a quem luta, a quem se joga nos sonhos. E isso é bom, porque confere ao dono do temor a escolha a respeito de como agir.

Reconhecer o que nos atemoriza é o primeiro passo, visto que não há luta justa contra o desconhecido. Depois disso, devemos compreender o motivo de temermos. Feito isso, vem a ação. Enfrentar é bonito, nobre e libertador. Enfrentar é dizer à vida que, sim, você concede a ela essa dança - mesmo que não saiba dançar, mesmo com medo de cair. Realizar é aceitar bailar com os sonhos, mesmo num ritmo desconhecido.

Ora, a vida é um baile que ocorre apesar de cada um de nós. Ela toda é movimento, ritmo e ciclos. E acontece. Simplesmente acontece. A questão fundamental é a escolha que fazemos entre dançar com ela ou observá-la sentados a um canto.

Se cair, levanta. Se der errado, tenta de novo. Se não for como o esperado, aprende, refaz e vai de novo. Vai com medo, mas vai. Dança sem saber o ritmo, mas dança. Vive, leitor! Baila com os sonhos. Vive!

Beijinhos
Fê Coelho.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta a um Vestibulando



Caro vestibulando.

Você, que talvez tenha à sua frente, numa gaveta qualquer ou quem sabe apenas no pensamento, um daqueles formulários para escolha do curso a que se vai candidatar - espere um momento antes de marcar o X. Gostaria de conversar um pouco contigo.

Sei o que disseram sobre essa escolha iminente: ela vai marcar sua vida como nada nunca marcou; vai definir o seu futuro; é um caminho para a vida toda; é algo que se pode mudar, caso queira. Preciso pedir algo, agora que estamos assim, conversando. Olhe bem para os quadradinhos à sua frente e reflita. Farei, então, uma pergunta: está pensando em marcar a opção "Enfermagem"? Se sim, temos muito o que conversar. Se não estiver, continue lendo essa carta assim mesmo- nosso assunto não para por aqui.

Talvez você precise saber que os profissionais de enfermagem são responsáveis pelo maior contingente de trabalhadores da área da saúde. E talvez precise pensar sobre o que isso quer dizer. Fazer parte da equipe com o maior número de membros dentro de um serviço significa que você vai ter que saber trabalhar em equipe. Vai ter que se virar num grupo heterogêneo, em que cada pessoa traz consigo uma história de vida e de formação. Você vai precisar saber dialogar, porque numa equipe de enfermagem nada se resolve sozinho. Algumas decisões - ou muitas, a depender de como você conduza as coisa - poderão ser tomadas; elas podem inclusive ser arbitrárias e contrariar a sua equipe, mas não vão te levar muito longe. Porque num plantão, a equipe é tudo. Perca a sua e terá perdido sua capacidade de realizar muito do que gostaria. E você precisa entender que não é fácil aprender essas coisas.

Se você pretende ser enfermeiro, compreenda que vai lidar com as mazelas do outro. Ele vai reclamar, vai chorar e sentir dor. Você vai lidar com o medo, o abandono, a velhice, a doença, a frustração e a esperança prolongada. Talvez você precise lidar com as perdas, talvez com com as vitórias. Em alguns momentos você é que vai perder, inclusive. Coisas vão sair errado. Planos vão se frustrar. E o fundamental é: você não pode permitir que isso lhe tire a doçura! Estou falando de uma batalha diária, contra tudo aquilo que nos despersonaliza, contra o que nos torna menos humanos. E sabe porque você vai ter que lutar? Porque dificilmente vai atender a uma pessoa só. Outros seres humanos estarão sob os seus cuidados e você vai precisar tratar a cada um conforme suas necessidades. Sorrisos são terapêuticos e será necessário aprender a distribuí-los.

E se você pretende terminar a sua faculdade, pendurar o diploma na parede da sala e dizer "dever cumprido", vou te pedir um favor: não marque o X no quadradinho que sinaliza a enfermagem. Se você não está disposto a estudar  muito, por favor, não se torne um enfermeiro. Sabe, essa coisa de ver a profissão apenas como sacerdócio funciona bem para comover, mas no dia a dia não basta ser amável. Seu conhecimento é o caminho que te permite ir além, sem vacilar. Entenda: conhecimento e empatia são indissociáveis num bom enfermeiro. Um não sobrevive sem o outro. Acho que isso é um dos pilares da tão almejada competência.

Por falar nisso, esqueci de te informar: se você se tornar enfermeiro, estará em contato com todas as outras equipes e precisará ser competente para lidar com cada uma delas. Você precisará de argumentos sólidos, bons motivos e de uma boa postura profissional.

E saiba que muitas vezes você será aquele que vai ficar, depois que todos se forem. Porque o enfermeiro é o profissional do cuidado, da continuidade, da constância.

Se depois de tudo dito, e entenda que muito ficou oculto, você ainda pensa em ser enfermeiro, seja bem-vindo. O tempo se encarregará de ensinar o que só se aprende atuando. Por outro lado, se decidiu não ser um profissional do cuidado, tome a reflexão para si. Observe a profissão de que eu falei e compreenda que, por trás de um bom dia, um banho, um curativo ou até mesmo um pedido de silêncio, existe um ofício embasado em conhecimento, competência, luta e incansável dedicação.

Meu abraço a todos os colegas enfermeiros nesse dia. Que vocês possam honrar e engrandecer sempre a profissão que abraçaram. Parabéns pela escolha!

Beijinhos
Fê Coelho

sábado, 27 de abril de 2013

Em Paz



Existe uma sensação que de vez em quando me acompanha, chegada não sei bem de onde, nem por que motivo; uma coisa boa, que me faz um bem danado. Essa sensação vai chegando de mansinho, às duas da tarde de uma terça feira qualquer, ou às nove de uma segunda feira. Ela não escolhe dia ou hora. Só quer chegar.

Existe um sentimento que aparece de mala e cuia, vindo das profundezas do infinito, dum lugar que ninguém sabe onde fica. É uma sensação peregrina, que não gosta de fixar residência, mas que sempre volta a me visitar; e quando chega, espalha as malas pelo chão, encontra um vestido de algodão, chinelos de dedo e se faz em casa. Toma conta de tudo o que há em mim, abre meus olhos - janelas da alma - para deixar entrar as cores do dia; escancara meu sorriso - porta entreaberta - para deixar passar o que há de bom e me transforma outra vez.

Estou falando de uma sensação de que tudo vai bem, e de que tudo vai dar certo. Falo de um contentamento moderado e gostoso como lagartear num dia de inverno, quando o sol tempera aos poucos a frieza da noite e colore o dia com cores inesperadamente vivas.

Existe, sim, um sentimento que nos arrebata de mansinho; um que vem chegando aos poucos como criança que se enfia por baixo das cobertas dos pais. Existe, sim, essa sensação que vai crescendo dentro da gente e fazendo morada; uma que fique conosco enquanto tiver permissão para ficar.

Esses dias, resolvi perguntar seu nome, por não saber como classificá-la. "Não sei por que nome devo te chamar", eu disse. A sensação me piscou longos cílios  e brindou-me com um sorriso arrebatador ao responder "vocês, humanos, complicam muito as coisas". Nada disse, apenas olhou para o céu, espreguiçou-se longamente, suspirou e voltou a sorrir. Fiz o mesmo e descobri: o nome desse sentimento que anda me fazendo companhia esses dias é pequeno, simples e precioso ao extremo.

Quem fez morada aqui comigo, tornando meus dias mais bonitos; quem me faz sorrir sem motivo é uma sensação quentinha como ficar ao sol num dia de inverno. E esse sentimento atende pelo singelo nome de Paz!

Um bom final de semana a todos
Beijinhos,
Fê Coelho
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