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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cartas para Ninguém - Felipe e a Vó


Oi Vó.

Choveu aqui hoje. Eu sei que essa não é uma informação que vá modificar o seu dia, mas mudou o meu. A chuva caiu e me lembrei da senhora, com aquele croché infinito nas mãos, olhando pro pasto molhado e se preocupando com as galinhas e as mil goteiras do galinheiro. Aí deu uma saudade sem tamanho e resolvi escrever.

As coisas por aqui são mais ou menos o que eu esperava. A gente estuda, trabalha, se embriaga umas cinco vezes por semana. Às vezes três. Esquece essa parte, Vó. A gente não se embriaga, mas diz que sim, que é pra manter o moral. Na verdade, eu vivo com um livro na mão e me mato de trabalhar na lanchonete, pra receber uns trocados.

Eu pensei que fosse ser mais fácil. Pensei que a vida dos rodeios não fosse me fazer falta. Achei que nunca me arrependeria de bater o pó das botas e ir me encher de manias da cidade. No fundo a gente sempre se ilude um pouco, né? Mas me disseram que a caneta é mais leve que a enxada e eu acreditei. De fato ela é, Vó. O que pesa é essa saudade enorme do tempo em que eu podia apenas estar; de quando eu tinha tempo de ver a vida. O que pesa é a falta que me faz aquela risada que nós deixamos de dar, as discussões que deixamos de ter. O maior fardo, Vó, é o tempo que não aproveito ao seu lado.

A vida tem dessas coisas, eu acho. A gente vive escolhendo e se agarrando às escolhas que faz. Algumas delas são levinhas e a gente traz elas penduradas no canto do sorriso. Mas outras são como aquelas toras que a gente buscava pro fogão de lenha - pesadas e desconjuntadas; difíceis de carregar, mas úteis afinal.

Estou me esforçando, Vó. Logo, logo eu vou ter dinheiro para reformar o galinheiro.

Me espere para o natal. Chego uns cinco dias antes. Mentira. O dono da lanchonete me confisca o fígado se eu fizer isso. Chego provavelmente na véspera de natal, levando comigo uma cesta básica, as guloseimas que a senhora tanto gosta, uma garrafa de cidra (que a gente vai bebericar devagarinho, pra sentir as bolhas estalando na língua) e todo o meu amor.

Com carinho,
Felipe.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Terceira Carta ao Senhor Futuro



Vi você ontem à noite, senhor Futuro, rapidamente. Foi quase uma fração de segundo, mas vi você, zombeteiro, parado num canto do quarto, observando-me derreter de amor enquanto mirava uma foto em preto e branco - artifício do Instagram.

Talvez você nem tenha percebido, mas vi brincar em seu sorriso enviesado a ironia de quem já viu algo se repetir infinitas vezes. Um bebê. Meu sobrinho. Eu olhando a foto e me desmanchando em ternura; pensando em quão mágico é ver a continuidade, o renovar da vida.

Você sorriu. Segurou a aba de seu chapéu, acenando com a cabeça um cumprimento que só vi pelo canto do olho, para logo em seguida desaparecer. Comigo, ficaram apenas o senhor Passado e dona Esperança - visitas sempre mais demoradas.

O senhor Passado gosta de contar anedotas. Sentou-se aos pés da cama e falou-me de quando eu, ainda criança, observava os adultos olhando fotos. Recordou-me o quão divertido era vê-los rir de suas fotos, cabelos e roupas que ninguém mais usava. O Passado estava sorridente; bem-humorado, até. Falou-me de lembranças douradas e quentinhas como colo de mãe. Explicou-me que também ele já havia sido futuro um dia. E disse-me que não me importasse tanto com o que há de vir. "Tudo vem a seu tempo, afinal" - disse, estalou a língua, ajeitou seu casaco e se foi.

Em seu lugar, ficou dona Esperança - linda em seu vestido verde, bordado de sonhos. Fizemos inferências e planos reluzentes. Falamos de possibilidades e de como imaginamos os dias vindouros. Revimos fotos, sorrimos e chegamos à conclusão de que Raul Seixas estava certo ao dizer que tudo acaba onde começou.

Sei que você sorriu ao me ver, senhor Futuro. Sei que em seu sorriso dançavam mil segredos. Não te peço que me revele nada, ou que se adiante. Tome o seu tempo. Esteja à vontade. Peço, todavia, que cada pedaço seu que se for tornando passado, deixe comigo uma memória bonita para aquecer o coração.

Seja leve, senhor Futuro. Seja suave e alegre. Venha risonho e cheio dos atributos com os quais dona Esperança lhe pintou.

A gente se encontra - numa tarde ao sol ou numa noite qualquer; numa música, numa risada ou numa foto. Fato é que de vez em quando a gente acaba se encontrando.

Até lá, receba um beijo cheio de ternura.

Fê Coelho.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta Aberta ao Meu Irmão Caçula



Não pedi por você. Nunca me perguntaram se eu queria um irmão menor, branquelo, de bochechas enormes e vivíssimos olhos escuros. Não checaram meu interesse em levar para casa um menino que ia roubar meu colo, pegar meus brinquedos, chorar o tempo todo e fazer os adultos falarem feito bobos. Ninguém quis saber a minha opinião, mas você foi pra casa assim mesmo. A barriga da mamãe sumiu e você apareceu. O jeito foi lidar com a situação.

Durante vários anos, tive um passatempo: implicar com você. Ah! vai dizer que não era bom?! Pobre dona Marlene, tendo que aturar um desenho do Tom & Jerry ao vivo, todos os dias. Era implicância demais, por motivo de menos. "Olha ele me olhando!"; "olha ele me encostando!"; "olha ele existindo! Não dá pra devolver?". Claro que também brincávamos, quando não estávamos brigando. Como nunca fui uma pessoa de muito mimimi, você era a chance de brincar de golzinho, corrida de tampinha e subir em árvore. Nunca te expliquei muito bem, mas mesmo àquela época, eu já te amava desesperadamente. É que esses conceitos são muito vagos para os corações infantis. Criança não precisa de tanta definição.

Prova de que, não, eu não queria te devolver, é o sentimento de proteção que sempre tive por você. Não sei bem como a gente explica certas coisas. Tem palavra que não aceita cair do pé. Embora eu gostasse muito de brigar contigo, esse era um direito só meu. "Não mexa com o meu irmão" - esse era o espírito. Sempre fui ruim pra brigar com outras pessoas, mas não me esqueço um dia que bateram em você na escola. Acho que poucas vezes eu consegui ficar tão brava até hoje. E assim se desenrolou uma história de estica e puxa, em que a gente cresceu, amadureceu, aprendeu a conversar e fortaleceu laços e amor. 

O tipo de amor que se tem por irmãos mais novos é engraçado. Ali tem um pouco de tudo: amor de amiga, amor de irmã mais velha, de irmã mais nova, de tiete e até de mãe. É bonito demais ver alguém que nem dentes tinha - que chorava se esquecia o dever de casa - crescer, se desenvolver e virar um Homem. E veja bem, não estou falando moço, nem rapaz. Estou dizendo Homem de verdade, do tipo íntegro, responsável e provedor. Estou falando do tipo de homem que eu admiro e que, sem nem saber, torcia para que você se tornasse. Como dizemos no nosso Querido Estado de Goiás, você não deitou com as cargas! Foi construindo um caminho admirável, se tornando sempre melhor. Bom poder dizer isso: tenho orgulho de você.

Sei que o que temos é um amor que nos une, que vai e volta. Sei que você também tem essa coisa de proteger. Há um dia específico em que você foi um pai. Tenho certeza de que você se lembra e quero que saiba que não me esqueço. Pois rasguemos a seda do mundo inteiro! Estou muito orgulhosa das suas conquistas, do futuro que você está construindo. Não li uma linha do que você leu, não chutei uma só pedra do caminho que você percorreu, mas permita-me pegar carona na sua felicidade.

Como eu disse pra Geo há uns dias, "te amo muito mais do que poderia caber num texto curto, escrito por uma pessoa de vocabulário reduzido".

Arrocha, Dinho!
Te amo.

Beijão
Nanda 
(ele não me chama de Fê Coelho, fazer o quê. rsrsrs)












quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta a um Vestibulando



Caro vestibulando.

Você, que talvez tenha à sua frente, numa gaveta qualquer ou quem sabe apenas no pensamento, um daqueles formulários para escolha do curso a que se vai candidatar - espere um momento antes de marcar o X. Gostaria de conversar um pouco contigo.

Sei o que disseram sobre essa escolha iminente: ela vai marcar sua vida como nada nunca marcou; vai definir o seu futuro; é um caminho para a vida toda; é algo que se pode mudar, caso queira. Preciso pedir algo, agora que estamos assim, conversando. Olhe bem para os quadradinhos à sua frente e reflita. Farei, então, uma pergunta: está pensando em marcar a opção "Enfermagem"? Se sim, temos muito o que conversar. Se não estiver, continue lendo essa carta assim mesmo- nosso assunto não para por aqui.

Talvez você precise saber que os profissionais de enfermagem são responsáveis pelo maior contingente de trabalhadores da área da saúde. E talvez precise pensar sobre o que isso quer dizer. Fazer parte da equipe com o maior número de membros dentro de um serviço significa que você vai ter que saber trabalhar em equipe. Vai ter que se virar num grupo heterogêneo, em que cada pessoa traz consigo uma história de vida e de formação. Você vai precisar saber dialogar, porque numa equipe de enfermagem nada se resolve sozinho. Algumas decisões - ou muitas, a depender de como você conduza as coisa - poderão ser tomadas; elas podem inclusive ser arbitrárias e contrariar a sua equipe, mas não vão te levar muito longe. Porque num plantão, a equipe é tudo. Perca a sua e terá perdido sua capacidade de realizar muito do que gostaria. E você precisa entender que não é fácil aprender essas coisas.

Se você pretende ser enfermeiro, compreenda que vai lidar com as mazelas do outro. Ele vai reclamar, vai chorar e sentir dor. Você vai lidar com o medo, o abandono, a velhice, a doença, a frustração e a esperança prolongada. Talvez você precise lidar com as perdas, talvez com com as vitórias. Em alguns momentos você é que vai perder, inclusive. Coisas vão sair errado. Planos vão se frustrar. E o fundamental é: você não pode permitir que isso lhe tire a doçura! Estou falando de uma batalha diária, contra tudo aquilo que nos despersonaliza, contra o que nos torna menos humanos. E sabe porque você vai ter que lutar? Porque dificilmente vai atender a uma pessoa só. Outros seres humanos estarão sob os seus cuidados e você vai precisar tratar a cada um conforme suas necessidades. Sorrisos são terapêuticos e será necessário aprender a distribuí-los.

E se você pretende terminar a sua faculdade, pendurar o diploma na parede da sala e dizer "dever cumprido", vou te pedir um favor: não marque o X no quadradinho que sinaliza a enfermagem. Se você não está disposto a estudar  muito, por favor, não se torne um enfermeiro. Sabe, essa coisa de ver a profissão apenas como sacerdócio funciona bem para comover, mas no dia a dia não basta ser amável. Seu conhecimento é o caminho que te permite ir além, sem vacilar. Entenda: conhecimento e empatia são indissociáveis num bom enfermeiro. Um não sobrevive sem o outro. Acho que isso é um dos pilares da tão almejada competência.

Por falar nisso, esqueci de te informar: se você se tornar enfermeiro, estará em contato com todas as outras equipes e precisará ser competente para lidar com cada uma delas. Você precisará de argumentos sólidos, bons motivos e de uma boa postura profissional.

E saiba que muitas vezes você será aquele que vai ficar, depois que todos se forem. Porque o enfermeiro é o profissional do cuidado, da continuidade, da constância.

Se depois de tudo dito, e entenda que muito ficou oculto, você ainda pensa em ser enfermeiro, seja bem-vindo. O tempo se encarregará de ensinar o que só se aprende atuando. Por outro lado, se decidiu não ser um profissional do cuidado, tome a reflexão para si. Observe a profissão de que eu falei e compreenda que, por trás de um bom dia, um banho, um curativo ou até mesmo um pedido de silêncio, existe um ofício embasado em conhecimento, competência, luta e incansável dedicação.

Meu abraço a todos os colegas enfermeiros nesse dia. Que vocês possam honrar e engrandecer sempre a profissão que abraçaram. Parabéns pela escolha!

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Um Bilhete a Morfeu



Chega de mansinho esta noite, Morfeu, trazendo consigo meus sonhos mais lindos? Se aninha ao meu lado e  canta uma canção nova, cheia de doçura e de novidade? Me fala de coisas que não sei se existem, de lugares novos e me ajuda a voar bem de leve, bem longe, bem livre?

Não tenha pressa, Morfeu, que a noite é toda nossa. Se demora, que a aurora está longe, que os sonhos ainda nem começaram. Derrama um bocadinho de areia em meus olhos e me embala, pra presente, pra entrega, pra viagem, pro que os sonhos quiserem. E fica aqui. Entre as cobertas, entre os segundos e além do tempo, fazendo o hoje virar ontem; fazendo o amanhã virar hoje. Sempre mais suave e mais belo.

Acolhe, Morfeu, meu cansaço e faz dele poesia.

E quando o dia raiar, se esconda. Vá embora levando consigo o som de minha respiração distraída, despreocupada. Deixa comigo essa espera por novos sonhos, por novos dias e por um amanhã reluzente de esperança. Tempera o dia com o sabor dourado do crepúsculo, quando provavelmente estaremos esperando um pelo outro.

Boa noite.
Fê Coelho

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Carta aberta à melhor irmã do mundo



Conheço você desde que me entendo por gente. Aprendi a andar ao seu redor, ou seria para fugir de você? Aprendi a falar para te pedir alguma coisa, ou para contar à mamãe alguma maldade que você tenha feito comigo. Vá saber. O que importa mesmo é que em todos os marcos realmente importantes de minha vida, sua figura sempre se fez presente. Você sempre esteve lá, com esses seus olhos cor de mel e esse sorriso bondoso que quase destoa numa cara de onça brava que só você sabe fazer. E quando penso em nós duas, embora sejamos tão diferentes em tantos aspectos, é como se pensasse em uma coisa só, indivisível, única, uma bagunça que a gente entende tão bem e que não se desfaz.

Com você, amoreco, aprendi a brigar, a dividir e ceder. Aprendi a ouvir, a dar colo, a ser companheira e fofocar. Mas eu diria que uma das coisas mais divertidas que aprendi contigo foi não brigar. Recordo-me exatamente, como se fosse há quinze minutos, de ver sua imagem refletida no espelho, fula da vida, enquanto me ouvia dizer "olha, eu sei que você quer brigar, mas tenho uma novidade: eu não vou brigar. Se quiser, brigue sozinha". Nesse dia, adquiri o hábito de resolver se quero brigar ou não. E sei que te matei de raiva um milhão de vezes com ele. Acontece que brigar contigo nunca foi algo quem me agradasse, porque a bem da verdade, tudo o que eu sempre quis foi a sua aprovação.

Sempre te admirei, amore. Sempre vi em você um exemplo. Você era algo, assim, como uma força da natureza, nunca se conformando muito bem com as coisas, dando um jeito para que os resultados se moldassem à sua maneira.

E o tempo passou. E nessa sanfona maluca da vida, que afasta e aproxima as pessoas, de alguma maneira, sempre estivemos unidas por um amor que não se dissolve.

Hoje sei que tenho em você um lugar seguro para onde ir, sempre que quiser e precisar. Tenho em você uma amiga extremamente fiel, uma pessoa que sempre me lembrará quem eu sou e do que sou feita. Estou falando de raiz, maninha. Daquilo que realmente importa. Sei que sempre terei em você uma pessoa divertida com quem rir e alguém com quem praticar minhas patéticas tentativas de ser um remendo de psicóloga.

Te admiro muito. Pelas pequenas coisas e pelas grandes. Te admiro pela garra com que você abraça a vida, com que desempenha seu trabalho e pelo amor com que se faz mãe. Te admiro pelas palavras doces que entrega de graça, pelo carinho que tem com todos à sua volta, pela maneira com que põe a mesa e decora a casa e por todo o resto.

Obrigada pela amizade, pela fidelidade, por todo o seu amor e por todo o resto. Obrigada por meus sobrinhos e por me ensinar a beleza de se cuidar de duas crianças lindas e estragá-las à vontade - afinal de contas, as tias estão aí para isso mesmo.

Te amo muito mais do que poderia caber em um texto curto escrito por uma pessoa de vocabulário reduzido.

Beijo gigante.
Feliz Aniversário!

Fê


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nova Carta ao Senhor Futuro



Apenas alguns meses passados, Senhor Futuro, e cá estou eu a repetir algumas palavras. Fico imaginando se esse será sempre um hábito - o de me repetir. Considerando o Senhor Passado e o Senhor Presente, talvez eu possa afirmar que essa seja uma tendência natural - minha ou de todos os mamíferos bípedes dependentes de energia elétrica e clichês, vá saber. Prefiro, todavia, não fazer essa inferência, visto que projeções são a sua especialidade e tenho me provado um solene fracasso no desempenho de suas funções.

Permita-me confessar uma coisa, Senhor Futuro: tenho medo do tempo. Assusta-me esse correr vertiginoso de segundos, essa sucessão de fatos e dias, esse turbilhão de momentos - que não controlamos, não retemos e cujos frames simplesmente nos escapam. Amedronta-me esse eterno modificar de bebês, que viram crianças dentro do que parece ser uma reviravolta da Terra - piscadela a que os humanos chamam ano.  Atemoriza-me a capacidade do tempo para modificar, encerrar, ruir, assorear, corroer e, paradoxalmente, fazer surgir coisas.  O tempo traveste as situações, embaça as cores e as mistura de uma maneira que já não sabemos o quão dourado ou escuro algo realmente foi. Ou será o oposto? Acha, Senhor Futuro, possível que o passar do tempo apenas nos mostre as cores reais, sem a falsa ilusão do novo? 

Talvez eu nunca vá saber essa resposta. Nem o senhor. Consideremos que o novo é tudo o que você conhece.  Pensando melhor, nem o novo é sua jurisdição. Seu trabalho, Senhor Futuro, localiza-se no campo das especulações, daquilo que não se sabe, do que não se pode palpar. Realizou-se, virou presente. E o presente é algo absolutamente quimérico. O Senhor Tempo se encarrega de levar o presente pra lá, como a Roda Viva do Chico. 

Andei pensando em fazer um acordo contigo, Senhor Futuro. Andei considerando a hipótese de apenas te aceitar, sem querer torcer seus eixos ao redor das minhas expectativas. Andei pensando sobre a possibilidade de permitir às minhas Preocupações - tão ativas, tão altivas, tão insistentes - um momento de descanso. Andei ponderando sobre isso: quem sabe eu consiga te libertar da obrigação de atender a cada um dos meus planos embrionários para um Futuro Brilhante. Andei pensando em te aceitar. Verbo e ponto final, sem condições. 

Talvez eu consiga. Talvez seja apenas isso o que o Senhor espera de mim. 

De qualquer forma, por precaução, diga ao Senhor Tempo que não me ressinto de sua passagem como sopro. Diga a ele que compreendo sua forma de agir. Apenas peça a ele que me trate com suavidade, que não faça de minha história um amontoado de coisas desconexas. Suavidade, Senhor Futuro, é tudo o que peço ao Senhor Tempo. Suavidade e Sabedoria. Acredito que esses dois ingredientes nos permitirão uma conversa agradabilíssima, quando nos encontrarmos. 

Suavidade e Sabedoria. Acho que deve ser o bastante para nos proporcionar um bom encontro, quando chegar o momento em que tudo se torne Passado.

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Carta ao Senhor Futuro



Senhor Futuro

Escrevo estas linhas sem saber, a bem da verdade, que destinatário há de recebê-las. Não conheço você e acredito que nosso encontro esteja tão próximo quanto o de duas retas paralelas. Considere que o senhor está sempre alguns passos, metros, segundos, dias - que seja - à minha frente. Assim, quando chego a encontrar algo que remeta a você, é um fragmento do presente ou do passado.

Seus hábitos, Senhor Futuro, são difíceis de aceitar, para não dizer entender. Sua presença é algo invariavelmente nebuloso: ora com promessas de campos verdes e infinitas delícias, ora com ameaças de tormentas. Fosse eu um homem, talvez aceitasse o fato de que sua figura é feminina, melindrosa, faceira e perigosa - sempre acenando e piscando longos cílios de promessas que talvez nunca venha a cumprir, postando-se uma esquina à minha frente, travestindo-se a cada momento, usando artimanhas e camuflando o que há de vir.

Não se irrite com essas questões de gênero. Esse é um ponto indiferente para mim. Seja você algo feminino ou masculino, tanto faz. Só peço que seja gentil comigo, Senhor Futuro. Seja, por favor, indulgente com meus erros de agora, em consideração ao aprendizado que virá e você - muito antes de mim - tem como acessar. Não me julgue enfadonha em meus lamentos, nem excessivamente inocente em minhas alegrias. Considere que sou apenas o encontro de você, com aquilo que já foi, com o que veio sendo ao longo dos anos.

Dito isto, me surgiu uma dúvida: quem vai ao encontro de quem? Somos nós que caminhamos para você, sempre buscando, garimpando os dias vindouros; ou você que se deixa para trás, como uma trilha de momentos, procurando ser novamente, aconselhar e reviver? Você é perseguido ou se deixa atrasar?

De qualquer maneira, Senhor Futuro, em nome do Presente - momento em que fingimos nos encontrar, mas que é tão efêmero quanto o passar de uma brisa - eu peço: seja legal. Cuide para que eu tenha uma boa dose de desapego dos dias que não posso mais tocar, dos erros que já foram cometidos e de tudo aquilo que ficou na esquina passada. Providencie uma boa dose de sensatez, para que eu não pinte o Senhor Passado nem mais tenebroso, nem mais dourado do que ele realmente foi.

E quando eu chegar aí, por favor, me receba bem. Tenha a mesa posta, lençóis novos nas camas e uma rede na sombra, para que possamos apenas estar. Não tenha pressa de ir embora; não se inquiete com minha teimosia em querer saber de seus segredos. Apenas se deixe ficar por alguns instantes, Senhor Futuro, porque sua existência me fascina, porque preciso conquistar sua confiança e porque espero despertar o seu apreço.

Um beijo grande, soprado pro infinito, onde - espero eu - você possa estar.
Fernanda Coelho

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Desabafo e Decisão em Tempo de Guerra

Estou pensando muito seriamente em desenvolver o texto abaixo e fazer dele algo maior. É uma personagem que me apareceu há mais de ano e que, volta e meia, vem me perguntar: "Por que é que você ainda não escreveu a minha história?" Acho que estou devendo isso a ela.

Apresento a vocês a Rosa:



Faz frio hoje. Muito frio. Mas o pior de tudo é sentir que isso não é apenas uma condição climática. Sinto afirmar, caro leitor, que hoje lês a carta de uma mulher vazia. Percorres as letras e frases de uma mulher que tudo perdeu e que, por algum tempo, não soube para onde ir. O vento uivando em minha janela nada mais é que um eco fraco do meu desespero, da minha falta de opções. Se tudo pelo que vivi foi-me tirado, pelo que viverei agora?

Esse lugar desconhecido não me é mais estranho que o que sobrou de mim mesma. Sinto que até mesmo a minha imagem no espelho mudou. O mesmo rosto que outrora se mostrava liso e amigável, agora aparece carregado de um amargor indescritível. Não consigo sorrir com a mesma doçura de alguns meses atrás – não que eu tenha tentado ou tenha motivos para isso. Um sorriso que aparece em uma pessoa cuja alma foi tirada não é mais que uma ironia e decorre do torpor em que às vezes nos imergimos.

Dizer que não odeio o lugar onde estou seria uma mentira, mas também não poderia ficar em minha casa. Tudo que me era caro foi-me tirado e sinto que a melhor maneira de me recompor seja ir ao princípio de tudo. Como uma ferida que não pode cicatrizar enquanto houver tecido morto em seu leito, assim tem estado meu coração. Por mais dolorido que seja o processo, sinto que devo limpá-lo de tudo o que for necessário, para que possa novamente ficar inteira. E tal como as grandes feridas, essa deixará uma cicatriz que não poderei esquecer.

Vivi muitos anos em uma grande e imponente casa. Filha de uma família abastada, não conheci muitos motivos para me exasperar. A vida costuma ser bem fácil quando se tem tudo, não é mesmo? Vivi assim protegida durante toda a minha infância e juventude. Dos cuidados de meu pai, fui transferida às atenções de meu jovem e muito apaixonado marido. Tudo como devia ser. Passava os meus dias entre chás, bordados e conversas frívolas com minhas amigas, desempenhando bem o meu papel de respeitável dama. Enchia minhas noites com idas a teatros e conversas ao pé da lareira com meu marido. Ao contrário de minhas amigas, eu não tinha motivos para censurar-lhe os modos ou me encolher ante o seu olhar. Isaac era um homem muito carinhoso e me cercava de todas as atenções que eu podia querer.

Durante o primeiro ano de nosso casamento vivemos sós em nossa casa, sonhando com nosso primeiro filho, que nos foi dado por Deus quando eu completei vinte e um anos. Artur era um menino vigoroso e bom.  Cedo trocou seus primeiros passos e começou a falar. Ainda me lembro bem do som de seus passos e não posso descrever em palavras a solidão que essas lembranças me trazem.

Isaac era um oficial do exército e esse é o princípio de tudo o que ocorreu. Lembro-me da noite em que estávamos todos sentados em frente à lareira, ouvindo rádio. Esse seria um programa totalmente normal para aqueles dias, exceto pelo fato de Isaac se mostrar mais tenso que o habitual. Ao questionar-lhe o motivo de tanta seriedade, recebi um abraço e um beijo. Isaac disse-me que não havia motivo para preocupação. Mas eu podia sentir que algo estava muito errado. Naquela mesma noite, depois de nos deitarmos, ele disse-me que me amaria para sempre, não importava o que acontecesse. E eu senti medo, como se estivesse há um passo de uma grande perda. Hoje eu digo que teria dado minha vida para estar errada, mas eu não estava.

A Guerra havia chegado ao país, com uma força avassaladora. Como uma fábrica de viúvas e órfãos, ela estendeu seus domínios por todos os lugares. E a morte, sua funcionária mais fiel, trabalhava sem descanso. Ao seu lado, operavam a fome e o desespero. Meu marido foi destacado para o campo de batalha e ficamos, Artur e eu, em nossa casa.

A princípio eu tentava manter as coisas o mais normais possível. Brincava com Artur e cuidava da casa para que quando Isaac voltasse, pudesse ter um lar agradável novamente. Mas o tempo passou impiedoso e a miséria começou a andar em nosso encalço. Encontrei trabalho e comecei a me dedicar à tarefa de sustentar meu filho. A cidade entrou em racionamento e faltava comida, água, remédios e empregos decentes. 

O primeiro golpe, do qual tento irremediavelmente me recuperar, foi a perda de Isaac. Aquela noite fora fria e eu e Artur dormíamos juntos na cama que eu e Isaac dividíamos com tanta alegria. Dois homens fardados bateram à porta e, quando eu atendi, entregaram-me o cordão de prata com a plaquinha que identificava meu marido. Junto com isso, entregaram-me a bandeira de nossa Pátria-mãe. Disseram que sentiam muito e eu não pude saber o que eles disseram em seguida. De súbito senti-me fria e meio vazia. Voltei para o quarto e, abraçando o que sobrou de minha felicidade, chorei por horas. Meu inferno pessoal estava apenas no início.

Dois meses se passaram até que eu pudesse chorar apenas escondida. O sentimento de desamparo que se abateu sobre mim era insuportável. Observava meu filho brincando e imaginava mãe é essa, que manda seus filhos morrerem por ela. Então resolvi que seria uma mãe melhor que nossa maldita Pátria. Dediquei-me com afinco a manter meu filho feliz. Fazia-lhe as vontades sempre que possível e adequado. Brincava com ele e pescávamos. Fui para Artur tudo o que podia ser. Ele se tornou meu único motivo para continuar aqui e contemplar o trabalho incansável da morte, sem me entregar à sua carga. Mal sabia eu que ela me observava tão de perto.

Artur estava com três anos, quando adoeceu. Pneumonia, foi o que me disseram. Não havia hospitais ou remédios. Tudo estava desviado para os campos de batalha. A sanha dos homens por poder não tem limites. Quando uma luta por poder é travada, tudo o mais é colocado de lado. Pessoas dão a vida por ideais que não lhes pertencem, recursos são desviados dos que necessitam de atenção. A sensação que eu tinha era de que ao final desse período turbulento, teríamos um país povoado apenas por veteranos de guerra. E eu sequer podia contar com a esperança de encontrar entre eles o meu marido.

Ver meu filho ficar cada dia mais doente e fraco e, por fim, entregar sua vida nas mãos frias da morte foi o fim da etapa sana de minha existência. Algumas coisas simplesmente não podem ser esquecidas; e digo que ver um filho magro e enfraquecido fechar os olhos para a vida e amolecer por completo em seus braços é a pior de todas elas. Jamais poderei me esquecer de que, por um momento pude olhar nos olhos da morte e jurei vingança. Foi quando peguei meus poucos pertences e me alistei no exército, disposta a trabalhar em um Hospital de Campanha.

Não que isso seja um consolo. Passarão muitas vidas antes que eu possa dizer que estou confortada, mas poder vingar a morte de meu filho e me negar aos braços dessa trabalhadora incansável é uma maneira de me levantar todos os dias. Enquanto houver uma vida que eu possa tirar de suas mãos, ali estarei. Enquanto eu puder rir-me de suas costas se afastando, eu o farei. E me lembrarei todos os dias daqueles que ela me tirou. E essa será minha vingança.

Não me julgues feliz, caro leitor. Sinto informar que estou há muitos passos da felicidade. Mas reconhece em mim uma mulher que, mesmo amargurada, resiste.

                                                                    Rosa
                                                            18/02/1946

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta ao motorista logo atrás de mim.



Caríssimo senhor motorista do carro a uma distância de ridículos 20cm do meu pára-choque traseiro.

É muito respeitosa e ironicamente que lhe escrevo esta carta, senhor filho da mãe.

Gostaria de explicar, por meio desta, que não é pessoal o fato de eu não me enfiar em baixo do caminhão cegonha de 42m de comprimento, carregado, localizado imediatamente à minha direita. Acontece que tenho um distúrbio neurológico chamado "amor à própria vida", que me impede sumariamente de atender à sua insistente e luminosa solicitação.

Sinto muitíssimo pelo fato de meu carro não ser capaz de voar, saltar ou coisa que o valha, de modo que o senhor - ser humano que acumula toda a pressa da região - possa passar livremente pela pista que eu ocupo durante um período de tempo equivalente a uma piscadela.

Espero que entenda que não posso dispor de minha vida da maneira que bem me aprouver, visto que sou responsável por menores incapazes. Rogo que compreenda o fato de eu não estar disposta a me envolver em um acidente automobilístico. E, se me permite a repetição, credito essa indisposição ao meu distúrbio neurológico supracitado. Tenho um apego terrível às ações de inspirar e expirar, associado ao pânico gerado pela possibilidade de cessação dessas atividades.

Ressalto que tocar o pedal referente ao freio, ainda que levemente, ou mesmo retirar o pé do acelerador por míseros segundos não há de lhe fazer mal.

Na esperança de que o senhor tenha chegado a tempo de retirar o pai da forca, me despeço.

Acrescente aqui um palavrão e um gesto não muito amigável.

Fernanda Coelho


sábado, 25 de junho de 2011

Eu e a Moça do Espelho





Ei você aí, do outro lado do espelho. Será que pode ter a bondade de se apresentar? Tenho a vaga sensação de conhecê-la, mas você me parece tão diferente, Moça do Espelho, que já não estou mais tão certa assim.


Reconheço os olhos castanhos, os cabelos louros e o sorriso largo. Entretanto, há algo em você que está completamente diferente. Por que é que tenho a sensação de que seus olhos andam escondendo significados? E por que não consigo entender se você ri de mim ou para mim? Quem é você, criatura nova, que me esconde alguns segredos, à medida que deixa migalhas de explicações pelo caminho?


Se é que já fomos apresentadas, quando foi que isso se deu? Em que momento você passou a fazer parte de mim? 


 Sim, querida, porque não me lembro de um dia ter sido assim tão crítica. Nem me recordo de ter sido tão independente. Isso é coisa sua, Moça do Espelho. Isso tudo é novidade. E tudo o que é novo causa rebuliço. 


 Estou cá do outro lado da superfície espelhada, tentando aprender seu jeito de agir e pensar, Moça do Espelho. Estou sinceramente me esforçando para te conhecer, para compreender essas novas cores - tão nítidas - que vieram para substituir seus antigos tons aquarelados. 


 E se tento te compreender é porque estou maravilhada com a sua existência, Você Aí do Outro Lado. Não sabia que você poderia ser assim, tão viva. Não imaginava o quão interessante poderia ser. E, principalmente, não esperava que você pudesse mudar tanto assim. 


 Confesso que, em alguns momentos, você me deixa tonta. E nesses instantes, me afasto. Porque algumas mudanças ainda me assustam. Mas não deixo de retornar à sua companhia, porque aprendi a aceitar suas nuances e a me adequar ao seu ritmo. Volto porque preciso saber e entender quem você é e o que vai ser de agora para a frente, Moçoila do Espelho.



Espero sinceramente que possamos nos dar bem, pois gosto cada dia mais de você. Faço votos de que desculpe as minhas faltas e me ensine a ter a sua coragem.



E, principalmente, desejo que você, Moça do Espelho, louca, corajosa, autônoma e forte, queira viver aqui comigo, do outro lado. Porque acredito firmemente que podemos nos dar muito bem e porque sei que podemos ser uma só.



Um beijo enorme.
Melhor não assinar. Pode parecer coisa de doido!
Para ouvir:
Beijinhos
Fê Coelho

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Rala, superego, que meu id vai passear!


Superego querido.

Você que fica aí entocado em algum lugar escondido da minha própria cabeça, se insinuando vez em quando (ou vez em sempre), me censurando e deixando muito claro o que eu não devo fazer em hipótese nenhuma, sob pena de sanções terríveis, prepare-se.

Não é uma ameaça, meu pequeno déspota interno, o que vou te fazer. É antes um aviso justo de uma pessoa que, por um tempo enorme só lhe deu ouvidos: ponha as barbas de molho, superego, que meu Id anda querendo passear. Sim, essa parte inconsequente, que você deu um jeito de trancafear, de alguma forma andou descobrindo um jeitinho de pôr o nariz de fora. E aí, meu amigo, você já sabe, a confusão está armada!

Vez e outra, quando você está desavisado, ele vem na pontinha dos pés e me sugere que pire, faça algo errado, só pra variar. Vou te contar uma coisa e você acredite: meu id tem uma voz macia, leve e convincente. Ele é muito mais gentil que você, com essa sua cara sisuda. E mais: ele é engraçado! Quando ele se vai, deixando um monte de caraminholas espalhadas pelo caminho, me ponho a rir sozinha. Ele é tão divertido!

Bem. Aí você aparece, trazendo logo uma vassoura, pá e material de limpeza, junta todas as possibilidades que, tão caprichosamente o meu id espalhou, me olha com uma cara de reprovação e me põe de castigo. E o pior de tudo: eu vou! Bufando de raiva, mas vou.

Sei que nesse exato momento você deve estar aí esfregando as suas mãos, sentado em uma poltrona de espaldar alto e rindo da minha cara.

E é exatamente por isso que vou te avisar mais uma vez: amarre as calças, superego querido, que meu id anda passeando por aí. E mais: existe uma chance que eu o deixe livre de vez em quando!

Beijinhos
Fê.

terça-feira, 29 de março de 2011

Carta a uma personagem.

 


Rafaela, querida.

Preciso dizer que estou me despedindo de você – por pouco ou muito tempo, não sei ao certo. As coisas estão um bocado confusas e, sinceramente, não tenho mais a disposição de espírito necessária para bem escrevê-la.

Você precisava de uma autora que fosse puramente feliz, tivesse uma vida que achava ser a ideal. Confesso que, no momento, depois de todas as coisas que me aconteceram, não posso ser o que você precisa. Não tenho mais a nobreza de sentimento, a doçura e a inocência suficientes para falar de você – pelo menos não da maneira que você se apresentou no início de nossa convivência.

Lembro-me daquela tarde, em que você começou a me importunar. Foi engraçado, coisa de esquizofrênico. Você me veio, com seus cabelos cor de chocolate, sua livraria e seu relacionamento perfeito com um pianista – relacionamento esse que, por sinal, não vingou. Falou-me de seus defeitos, descreveu-me seu comportamento e mostrou-me uma vida com a qual eu não poderia sonhar. Ah, Rafa, minha personagem querida, você me falou de um mundo ao qual eu não poderia pertencer, mostrou-me a vida que não era, mas que eu acreditava ser possível. E você me perseguiu com essa sua insistência, que só eu e você conhecemos. Torturou-me com seus dilemas éticos e problemas, deliciou-me com suas histórias; instigou-me com cenários que, embora inexistentes, mostravam-se perfeitamente factíveis. Muitas coisas, posso dizer num momento de extrapolação absoluta, vivemos juntas. Eu estava ali e, sinceramente, não sei quem dependia de quem.

Mas os dias não deixaram de passar e, daqui deste lado da tela, a vida mudou. Hoje não sou a autora que, tão ingenuamente, se deixou levar por seus encantos e por sua vida pintada em tons aquarelados. É pena que você não possa compreender – visto que eu sempre soube dos seus problemas e, ainda assim, não os explicitei – o poder que dias adversos podem ter. Se por um lado é uma pena que você não saiba o que se passou do lado de cá, é pesar ainda maior o fato de eu não ter tido a capacidade de compreender o seu mundo. Porque, a essa altura do campeonato, você bem poderia estar livre de mim, povoando outras mentes que lhe dariam outras feições e outros trejeitos, enquanto folheassem as páginas de um livro doce e bonito. Acredito que, quem sabe – apenas quem sabe – a vida possa ser bastante divertida assim.

De qualquer forma, Rafaela querida, é melhor deixar o lamento de lado. Sempre haverá uma página em branco na tela, onde pisca um cursor matusquela. Haverá sempre uma chance de que você encontre a autora ideal para os seus dramas. E, se fizer questão de que essa autora seja eu, é melhor se preparar para me aceitar como estou e estarei daqui para frente: em transformação. Estarei mais ácida, talvez mais irônica. Acha que poderá lidar com isso?

Se a saudade apertar pra valer, me procure. Estarei sempre aqui, em busca de uma boa história para escrever – história essa que poderá ser a sua.

Um abraço saudoso da sua autora, ouvinte, confidente e criadora.

Fernanda Coelho.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Querido Papai Noel

Achei que não fosse postar nada sobre o Natal, mas tenho recebido um bocado de mensagens carinhosas. Então acredito que pode cair bem, uma cartinha para o Papai Noel.


Querido Papai Noel.

Nesta carta peço coisas para mim, para meus amigos, para pessoas que me são caras e para as que são caras aos meus amigos. Sei que vai parecer muita coisa, mas Papai Noel, sei que o senhor dá um jeito.

Sinto muito e espero que o senhor não se zangue comigo, porque o que vou pedir não se fabrica ou se compra. Aí vai a minha lista:

Para os meus amigos que se comportaram e fizeram tudo certinho, na hora certa e do jeito certo,
traga um bocado de flexibilidade, um tantinho saudável de rebeldia e uma subversão inocente. Traga vontade de experimentar e de viver coisas novas.

Para os meus amigos que fizeram tudo errado, do jeito errado, com a pessoa errada e na hora errada,
traga juízo, Papai Noel, muito juízo. Assim eles vão precisar de menos band-aids emocionais.

Para os meus amigos que só comeram vegetais saudáveis, frutas orgânicas, que malharam todos os dias e que viveram numa busca frenética por uma juventude eterna, traga batata frita, um dia de vadiagem, e um espelho decente que mostre a beleza real que todos temos.

Para os que não fizeram nada disso aí, traga bom senso e vontade de cuidar de si mesmo.

Para as minhas amigas que cuidaram dos filhos, do marido, dos amigos, do trabalho e que, depois de tudo isso, estavam muito cansadas para cuidar de si mesmas, traga um tantinho de egoísmo saudável e o entendimento que só podemos cuidar do outro se estivermos bem.

Para quem se frustrou por esperar demais do outro, traga tolerância e paciência.

Para quem reclamou da vida, traga rédeas e ensine-os a usá-las para que entendam que são os responsáveis pelo próprio destino.

Para os meus amigos blogueiros, traga paz, saúde, amigos e ideias (muitas ideias, Papai Noel).

Para os meus amigos que não leem, traga o hábito da leitura.

E para os que leem demais, traga o hábito do descanso.

Pra todo mundo, traga vários dias felizes e a capacidade de reconhecê-los.

E traga, querido Papai Noel, tudo embrulhado bem bonito, que é pra gente perceber que tudo isso aí em cima são presentes bons e dos grandes.

Um grande beijo pra todo mundo que se aventurou pelo meu mundo meio maluco de palavras e sonhos.
Que vocês tenham um ano maravilhoso.

Beijão.
Fê

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