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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Maternidade Faixa Branca



Não era para hoje essa crônica. Nem para ontem. Na verdade, estou em débito com alguns leitores desde a semana passada e há apenas dois segundos, eu ainda tinha a minha filha caçula pendurada no meu pescoço. Até que eu pedi "cinco minutinhos pra mamãe escrever uma crônica" e elas partiram para a sala. Nesse exato momento, estão morrendo de rir de algo que não sei bem o que é (um arrepiozinho de preocupação aqui). Sobre o que, então eu queria falar há tantos dias? Sobre o conceito de Mãe Faixa Preta e seu derivado a Mãe Faixa Branca.

A primeira vez que vi essa expressão, foi num livro da Marian Keyes. Uma personagem usou esse termo para falar sobre o quão difícil era lidar com a vizinha - que tinha uma vida toda estruturada, filhos lindos, polidos, educados, talentosos, atarefados e poliglotas. A infeliz sempre sabia o que fazer, tinha tudo sob controle, nunca se exasperava, os filhos não choravam, não davam birra e já escreviam o próprio nome em mandarim (ok, exagerei). E eu preciso confessar: como eu me identifiquei com a sofrida personagem mãe faixa branca!

Outro momento que me fez refletir muito foi a visita a uma grande amiga que acabara de receber a credencial de mãe. Liguei para ela e ofereci ajuda - resumindo, eu ficaria com o bebê para que ela pudesse tomar um banho, dormir cinco minutos, comer algo, essas coisas que a gente precisa fazer e pouco realiza quando se está com um bebê pequeno. Na ocasião, minha amiga me disse - e me sinto traída e traidora até hoje - que ninguém nunca havia falado sobre as partes difíceis. E foi quando eu me dei conta: no que se refere à maternidade, temos a mania de exaltar o que é lindo e jogar o que não for assim tão glamouroso para debaixo do monte de fraldas (porque o tapete já não pode ser usado; sabe como é, o bebê tem alergia). Até aí, todo mundo faz. Mas, convenhamos, tem gente que exagera.

Minha sensação é que, desde o primeiro comercial de margarina e talvez bem antes disso, a imagem de família perfeita venha se refinando e se tornando cada vez mais inatingível. São apenas momentos lindos de puro lazer e deleite, com luz bem posicionada e várias fotos nas redes sociais. As pessoas foram se aprimorando na arte de fazer crer e, corrijam-me se eu estiver enlouquecendo, fizeram dos pimpolhos pequenos troféus que carregam para cima e para baixo. São as mães faixa preta.

Agora a criançada sai das fraldas cada dia mais cedo - afinal de contas o filho da vizinha já saiu. É menina que aprende a ler quando nem sabe que terra não é comida, menino que vira um videogame do avesso aos dois anos e meio, criança que usa termos tão complexos que Ruy Barbosa teria lá suas dificuldades em lidar com ela. Nada contra. Juro, juradinho. Só não entro nessa barca. Sou uma mãe faixa branca.

Entenda, leitor. Eu amo ser mãe. Faço isso com todo o meu coração e não saberia fazer outra coisa da minha vida. Mas confesso não ser perfeita. Frequentemente, acontecem coisas que me fazem pensar "e agora, José?". Cinco vezes por dia, eu respiro um pouco mais fundo. E simpatizo do fundo do coração com uma amiga que certa vez me disse já ter considerado roubar galinhas para ir para a prisão - direto para a solitária - e dormir uma semana inteira. Maternidade é uma coisa boa como não consigo explicar, mas ninguém se engane sobre ser fácil.

E é por isso que eu amo quando me encontro com as minhas amigas que também têm filhos. Aí elas contam sobre os meninos que acordam de noite, sobre os pratos de comida que demoram a eternidade para findar, sobre o banho que nunca começa e depois nunca acaba, sobre o cabelo que aguarda uma ida ao salão há um mês. Minhas amigas que estão na turma de mães faixa branca têm coragem de assumir que ficaram bravas, que os filhos demoram pra fazer o dever de casa e que as toalhas não voltam automaticamente para o banheiro. Elas são solidárias, quando falo sobre aquele livro há meses aguardando ser lido, e sobre o fato de o banho ter virado um momento de lazer.

Quando encontro mães faixa branca, o que acontece é uma sensação de acolhimento, de pertencer e de normalidade que fazem um bem danado ao coração da gente. O que ocorre é que você percebe finalmente: sou uma mãe normal, com crianças normais, numa casa normal, com uma família de verdade. Existimos. Temos uma rotina e alguns atritos, mas amor suficiente para deixar todos os perrengues de lado e seguirmos felizes.

A crônica ficou pronta uma semana depois. E não pense que foi escrita em dois ou três minutos. Entre uma e outra frase, pedi para que o volume da televisão fosse abaixado, preparei leite, precavi contra acidentes diversos e ameacei mandar as crianças mais cedo para a cama. Agora pergunte se eu queria outra vida...

Sobre ser mãe, eu citaria Djavan e Caetano para encerrar o raciocínio: "se tivesse mais alma pra dar, eu daria. Isso pra mim é viver".

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Levanta-te e anda, Brasil!



Ontem minhas filhas me perguntaram por que estava todo mundo nas ruas, brigando. Para responder à questão, falei brevemente sobre os impostos que pagamos e sobre o destino inapropriado que muitas vezes esse dinheiro recebe. Discorri um pouco sobre o que é corrupção e sobre a importância de se votar com consciência. Para elas, isso foi o bastante; para mim não.

Passei o dia todo refletindo, incomodada com pensamentos recorrentes acerca de como a gestão do país historicamente favorece uma minoria em detrimento da massa. E cheguei a uma pergunta: como vou explicar isso para as minhas filhas? Como vou dizer que vivo num país em que o dinheiro de quem ganha um salário mínimo vai parar na cueca de gente sem escrúpulos? Como vou explicar por que tanta gente morre nas filas dos hospitais, por falta de recursos, profissionais, remédios e - não vamos tampar o sol com a peneira - boa vontade? Como é que se explica o fato de termos pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, enquanto obras são superfaturadas e BIlhões são desviados vá saber para onde?

Mas a pergunta que me incomodou mais foi "como deixamos isso acontecer?". Quero dizer, sempre soubemos que nossos impostos eram altos demais e que o retorno era muito pouco. Sempre soubemos que havia gente impune ditando as regras; assim como sabíamos que nossas escolas estavam em situação abaixo esperado. Sempre soubemos que os professores eram desvalorizados, que o cidadão está cada vez mais preso e a bandidagem está mais solta que o arroz da minha mãe. Por que permitimos?

Recordo-me das aulas de geografia na escola, quando tive um dos melhores professores por quem passei. Era uma figura ímpar, parecidíssimo com o Patropi, chamado Zé Pereira. Esse professor fez por mim algo que nunca vou poder agradecer propriamente: ele me ajudou a pensar um pouco melhor. Foi em suas aulas que ouvi falar de mais valia e pilantragem generalizada. E foram essas aulas que me fizeram olhar com novos olhos as fotografias das manifestações políticas por que o nosso Brasil passou. Confesso: depois do Zé Pereira, passei a sentir uma pontinha de inveja daquelas pessoas nas fotos em preto e branco.

Cheguei à conclusão de que aquelas pessoas tinham mais coragem do que eu; que tiveram voz e que por sua luta algumas coisas acabaram por mudar. E lembro-me de pensar que eu vivia em uma geração que não tinha assim, tanta graça.

E é por isso que estou orgulhosa de ver o povo indo às ruas: porque sempre imaginei que minha geração seria marcada por cuecas endinheiradas, contas no exterior e falcatruas no Congresso Nacional. Pensei que não teríamos nenhum capítulo nos livros de história, mas (delícia das delícias!) me enganei.

Espero que quando os levantes arrefecerem, não nos esqueçamos dos motivos pelos quais eles começaram. Torço para que o recado das ruas fique gravado no coração dos brasileiros, para que alguma mudança efetiva se processe. Espero sinceramente ver coisas práticas acontecendo, a honestidade virando moda e a consciência sendo despertada.

Estou orgulhosa do meu povo. Sim senhor! Fique aqui o recado: minha geração pode até ser aquela que desce até o chão; mas também sabe ir às ruas.

Levanta-te e anda, Brasil!

Fê Coelho




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