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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Furdunço, Roupa Branca e Revolta



O clima de manifestações generalizadas está afetando as roupas no meu armário. Não, leitor, você não leu errado. E não, eu não estou me enchendo de roupas verdes e amarelas. Acontece que precisei adquirir algumas roupas brancas novas e a confusão foi feia. Se eu estou pirando de vez? E quem prometeu a você uma autora normal?

Tudo começou quando, após passar as novas roupas de trabalho, fui guardá-las. Abri a porta do guarda-roupa, pendurei as camisas brancas, fechei a porta e saí do quarto. Comecei, então, a ouvir um burburinho crescente, como se um circo de pulgas houvesse resolvido promover uma festa rave no diminuto móvel destinado a acomodar minhas vestimentas. Apurando um pouco melhor a audição, para saber o que acontecia, dei com o seguinte diálogo:

- Chega pra lá! – reclamava uma voz esganiçada.
- Chega você, que eu estou recém-passada! – retrucava outra, mais baixa
- Mas você está me apertando. – era a primeira voz
- Os incomodados que se retirem. – a segunda voz disse, resoluta.
- Branquela aguada, sem graça!
- Sua indiscreta!
- Sou como a primavera, baby. Seu recalque bate nas minhas flores e volta.

Nesse ponto, começou um ruído de coisas se batendo. Várias vozinhas agudas e balançantes gritavam em uníssono “pega ela!”, ao passo que outras mais ponderadas cantavam algo a respeito de não-violência, tolerância, paz, amor e – quase posso jurar – Hakuna Matata. Aproximei-me cautelosamente e abri a porta do guarda-roupa.

- Ok – eu disse, incrédula a respeito do que via – posso saber que furdunço é esse aqui?

Chegaram até mim os olhares mais culpados que se pode imaginar em objetos inanimados. Fez-se um silêncio daqueles que a gente pode partir com uma faca de pão.

- Vamos. Estou esperando. – Eu insisti.
- Foi ela! – disseram em uníssono, uma camisa branca e uma florida.

Decidi conversar com a camisa florida primeiro. Ela é mais antiga de casa; tem prioridade.

- Diga, flor, o que está havendo aqui?
- Agora você me trata assim, com jeitinho, né?! Primeiro arruma esse monte de branquelas, enfia aqui em casa, tira todo o meu espaço e depois finge que não aconteceu nada. Eu sabia que, cedo ou tarde, você ia acabar fazendo isso.

Como a camisa florida continuava furibunda, resolvi tentar a sorte com a novata. Tudo o que consegui foi um rolar de olhos e um assovio.

- Alguém? – Nenhuma resposta – Ninguém?
- Por que você não separa as roupas por cores? – arriscou a camisa florida.

Aí foi demais pra mim. Sentei-me na beira da cama e comecei um sermão.

- Olha, gente, eu sei que estamos passando por um período complicado aqui. São mudanças demais, em tempo de menos. Compreendo que vocês estejam assustados, pensando que seria melhor ficarmos como estávamos, bem acomodados em nossa zona de conforto. Acontece que é assim mesmo que as coisas funcionam. Mudanças causam incômodo, mas são elas que impulsionam a vida. Vocês precisam aceitar que estamos num outro momento e trabalhar para lidar melhor com as diferenças. Aceitem os coleguinhas que chegaram e sejam gentis. Tenho certeza de que belíssimas combinações poderão surgir entre vocês. Quanto à ideia de separar por cores, eu sei que os especialistas recomendam; mas isso seria apartheid. E não vou tolerar saber que dentro do meu próprio armário acontece segregação, bullying e essas coisas. Comportem-se!

E para provar que tenho a firme resolução de manter a paz naquele espaço confinado, deixei todas as peças de castigo, se abraçando até que decida usá-las. Difícil, vai ser encontrar os cabides que fizeram greve e se mudaram para a Conxinxina do Sul.

Quem foi mesmo que te prometeu uma autora normal?

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Legislação



Quando acaba a bateria do celular, é como se parasse um marcapasso. Sou capaz de apostar um dente da frente como, em pelo menos algum momento, essa frase já se encaixou perfeitamente na vida de grande parte da população ocidental. A cada novo G que acrescentam à tecnologia de telecomunicações, a cada aplicativo e funcionalidade sinto que ficamos progressivamente atrelados ao telefone móvel. Não é de se espantar que já haja legislação específica, regulamentando os eventos relacionados ao funcionamento do celular: a Lei de Murphy.

Segundo essa lei, se a bateria estiver cheia, o telefone não será necessário. Ele só passará a ser de vital importância quando a carga for reduzida até por volta de 15% do total. Nesse ponto, meu amigo, você começará a esperar por uma ligação importantíssima; ou quem sabe chegue ao supermercado e esqueça sumariamente o que lhe pediram para comprar. Com 15% de bateria, os pneus dos carros furam, os engarrafamentos acontecem, as pessoas se perdem e as tias que moram em São José das Ribanceiras resolvem ligar - exatamente quando você esperava uma ligação para resolver algo importantíssimo.

Outro ponto estabelecido pela Lei de Murphy a respeito das telecomunicações é que se você estiver com o telefone o tempo todo, o número de ligações que vai receber cai pela metade. Isso explica o fato de as pessoas levarem o celular para a cama, para o trabalho, para o banheiro, para o País das Maravilhas e não receberem ligações; ao passo que, esquecendo-o por um período do dia ou ficando sem bateria, elas são contactadas até por entidades do além.

Com relação às mensagens de texto, a Lei de Murphy postula no artigo 547, parágrafo 2º, inciso I que "para cada mensagem importante esperada, há sempre cinco completamente inúteis destinadas; quatro delas de responsabilidade das operadoras de telefonia móvel". É lei, gente! Exatamente por isso, quando estamos ansiosos para receber uma mensagem, somos bombardeados com dicas para arrasar na balada, oportunidades de ganhar tablets e vejam só! carros zero km, assim, do nada.

O sinal da telefonia móvel também é regulado e está destinado a cair quando você precisar responder a uma mensagem, seja por SMS, whatsapp ou o que for. Se for importante que a resposta chegue ou ainda, se a falta dela puder ser interpretada como um silêncio constrangedor, não haverá sinal disponível num raio de 150 léguas.

Ora, então por que diabos ainda insistimos em usar os telefones celulares? Porque apesar de toda essa regulamentação contrária à nossa vontade, eles ainda funcionam bem. São úteis, versáteis e concentram em si uma gama de funcionalidades que nos libera de carregarmos peso extra. Imaginem como seria carregar conosco agendinhas telefônicas, agendas, câmera fotográfica, GPS, notebook, despertador, bússola, edições e edições da Barsa, álbuns de fotografia, CD player e outras tantas coisas que são espremidas sem dificuldade no pequeno aparelho? Difícil, muito difícil...

É por isso que eu digo: estamos perdidos, leitor! Pusemos todos os recursos num dispositivo só. E valha-me Deus, ele é regulado pela Lei de Murphy. É por isso que quando acaba a bateria do celular, e ela finda nos momentos mais impróprios, a sensação que temos é de que parou um marcapasso. Aproveitemos, então, enquanto o pulso ainda pulsa.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Crônica de Quinta: Seu Manoel e Eu



Acredito que a maioria das moçoilas que moram sozinhas conhecem a figura de quem pretendo falar. O senhor Manoel - que eu carinhosamente chamo de Seu Manoel, Maneco ou, se estiver com muita raiva, Mané - é da turma da Isaura. Trata-se de uma das criaturas imaginárias e palpiteiras que fazem parte da Galera Aqui de Casa.

No que se refere a pequenos reparos, nossa sociedade é praticamente unânime: isso é papel de homem! Daí decorrem batalhas homéricas entre donas de casa revoltadas com a capacidade dos maridos para procastinar e maridos embasbacados com o quanto as mulheres podem ser insistentes - especialmente quando eles já disseram que vão dar um jeito em tudo. Acontece, leitor querido, que nem todas as leitoras têm um marido com quem brigar ou uma figura masculina para quem fazer beicinho, prometer vantagens ou argumentar a cada vez que uma pia entope, um varal despenca ou uma lâmpada queima. E é nesse ponto da conversa que surge a figura do Seu Manoel.

Seu Manoel é um distinto senhor, lá pelos seus setenta anos de idade. Viúvo, teve que aprender como educar seus doze filhos, hoje dispersos por esse mundão velho e sem porteira. Desconfio que ele tinha uma veia inclinada às ciências humanas, porque quis viver a experiência de cuidar dos filhos, só pra saber se era possível. E foi. De alguma forma, isso transformou profundamente o sistema de crenças do Seu Manoel e fez dele uma espécie de feminista. Hoje ele se diverte fazendo visitas a mulheres que precisem fazer o que ficou rotulado como "coisa de homem". O objetivo é incentivá-las a serem fortes, independentes e bem-resolvidas. Tenho cá minhas dúvidas sobre a pureza das suas intenções. Todavia, continuemos.

Meu primeiro contato com o Maneco foi durante a faculdade, quando um ralo de banheiro entupiu. Considere, o leitor, que eu morava num apartamento dividido com outras três mocinhas. O ralo estava entupido. O banheiro não funcionava. Ninguém queria pôr a mão para resolver o problema (convenhamos que isso é nojento). Aí o Seu Manoel chegou, usando um paletó xadrez com napa nos cotovelos, um lenço no bolso, e os cabelos grisalhos cheios de brilhantina escondidos dentro de uma boina. Lembro-me de que ele sorriu, olhou no fundo dos meus olhos e disse "Mas fia, isso é facim demais de resorvê! Ocê bota um saco na mão, tira a tampinha do ralo e vai com fé. Bota a mão lá dentro e arranca as tranqueira tudo de lá. Aí depois bota a tampa e vai tomar banho. Té parece que tem dificurdade nisso..." .

É como eu digo, leitor, a Galera Aqui de Casa faz o que quer comigo. Fato é que eu desentupi o ralo e de lá pra cá o Seu Manoel decidiu investir no meu potencial. Já me ensinou a trocar lâmpada, calibrar pneu de carro, consertar varal, ajeitar a TV quando ela resolve chiar, entre outras coisas. Quando eu penso que não vou resolver algo, ele aparece do nada e dispara "deixa de bobagem, fia. Isso aí é facim demais de resolver".

O problema é que ele é meio confuso. Nem sempre sabe bem o que está fazendo. Já peguei o Seu Manoel procurando vídeo tutorial no Youtube e sites do tipo "faça você mesmo". Aí ele se justifica, dizendo que no tempo dele era tudo mais fácil, que as gerações seguintes complicaram tudo. Mas não desiste, o danado! Vai dando um jeitinho, tentando outra forma de argumentar até que me convence. A menos que a Dona Expedita apareça e diga que quer um picolé de limão. Nesses casos, ele me abandona com a chave de fenda na mão e foge, vá saber pra onde.

Não sei se ele é um feminista que busca incentivar as mulheres a expandirem suas habilidades, ou se é um machista querendo convencê-las a darem uma folga aos seus maridos. Seu Manoel é dessas figuras que a gente não entende bem, mas aceita. Até porque quando ele resolve aporrinhar, é pra valer. Disse e repito: sou uma alma fraca, leitor. Trocar a lâmpada não é divertido, mas ver o Seu Manoel explicar até tem a sua graça. E que se registre: a mulher que nunca deu ouvidos ao Maneco, que atire a primeira bolsa!

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 5 de março de 2013

Qual é a do cone?



Disse Arquimedes: dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei o mundo. Pois eu digo: dê aos homens alguns cones e eles tentarão dominar esse mesmo mundo.

Uma coisa anda me agoniando há um tempo: a maneira como o uso dos cones altera o rumo das pessoas em qualquer lugar que se vá. Eles estão em vários locais e, usados em diversas situações, querem basicamente dizer "ei você, não venha aqui; fique exatamente onde está, porque aqui tem um cone e todo mundo sabe que os cones são a máxima autoridade no que se refere ao cerceamento do direito de ir e vir".

Se uma pessoa não quer algo em algum lugar, basta colocar um cone e fim de papo. Especialmente se esse lugar for uma faixa da rua, uma vaga ou até um estacionamento inteiro. Colocou o cone, já era. As pessoas não passam e, normalmente, não questionam. Posso até estar errada, mas raríssimas vezes eu vi alguém desafiar a autoridade que vem dessa forma de demarcação territorial.

Quando eu era criança, existia uma coisa que dava poder aos garotos: ser o dono da bola. Se o dono não concordasse com a brincadeira, ele pegava a bola e ia embora. A molecada ficava toda chateada e acabava, para evitar o transtorno, fazendo tudo o que o pequeno déspota detentor da brincadeira quisesse. Ora, tenho a sensação de que esse conceito, extrapolado para a idade adulta, confere ao dono do cone o poder de gerir, de decidir quem passa onde, quem vai, quem fica e de cercar pequenas porções de mundo.

E não se engane: algumas coisas são condenáveis no mundo dos adultos; outras são inaceitáveis. Por exemplo: xingar algum parente de um segurança pode ser algo condenável; mas derrubar o cone é inaceitável. Esse ato, o de derrubar a demarcação territorial, é uma demonstração de falta de atenção, de desrespeito às regras e à autoridade. Ora, a pessoa precisa ter a tranquilidade de demarcar um lugar e saber que aquela demarcação - embora seja bem mais no plano das ideias (visto que apenas a moral impede que se retire um cone de seu lugar) e muitas vezes nem se justifique tanto assim - vai continuar valendo.

Se por um lado os cones inspiram o respeito dos cidadãos de bem, os mesmos objeto são os alvos da cobiça de gente que não tem muito juízo. Daí surgiu uma mania dos últimos tempos: roubar cones. Vez por outra, ouve-se por aí a história de alguém que tenha se apropriado do cone alheio. Acredito que isso, mais que uma questão de desonestidade e falta do que fazer, passe pela rebeldia, pela aventura de estragar a cerca do vizinho. É como se a pessoa dissesse "olha aqui o que eu faço com a sua dominação do mundo!"  Desconfio inclusive que o ato de se roubar um cone possa ser interpretado como um "bundalelê ideológico pós-moderno".

O que, então, justifica um texto para discutir a finalidade dos cones? Absolutamente nada, exceto o fato de eu achar muito engraçado a maneira pela qual esses objetos inertes e desprovidos de quaisquer elementos especiais se tornem responsáveis por conferir um status de dono do pedaço a quem quer que os distribua.

Passe por aqui. Não vá ali. Evite essa faixa. Estacione na próxima vaga. Faça um ziguezague de dez metros, pare o carro, mostre a carteira de habilitação, os outros documentos e, caso esteja tudo certo, siga adiante. São muitas ordens e ações variadas, mas que obedecem basicamente a mesma regra: seu mestre mandou!

Eu mesma reconheço meu quinhão de obediência e meus pensamentos de rebeldia. Vez por outra, passo por uma série de cones e penso: "lá estão os danados, me dizendo o que fazer ou não. Afinal, qual é a do cone? Quem ele pensa que é?". Aí me dá uma agonia, de ver que aquele pequeno objeto representa uma autoridade maior que minha própria autonomia e me dá uma vontade lascada de parar o carro, tirar o cone e estacionar assim mesmo. Mas não faço nada, leitor querido. Sabe como é; manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Beijinhos
Fê Coelho


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Penúltimo



- Isso é cara para se comparecer ao fim do mundo? - pensou Marilu, enquanto se olhava no minúsculo espelho do quebra sol, acima do volante de seu carro financiado até o fim dos tempos.

Ela já estava cansada de aguardar os finais - da faculdade, da semana, dos domingos na casa da sogra, do jogo de futebol narrado pelo Galvão e embalado pelos gritos de Chupa! da vizinhança inteira. Já estava cansada de ansiar pelo término do financiamento do carro, e das prestações que fizera para os armários novos da cozinha. A verdade é que Marilu estava exausta!

Olhou-se novamente no espelho, observou que suas olheiras já estavam quase sendo promovidas a "queixeiras", sacou um corretivo da bolsa e tentou ajeitar o estrago. Começou pelo olho esquerdo. Quando ia corrigir o lado direito, lembrou-se do cachorro da vizinha que havia latido a noite inteira e que era tudo culpa dele, se ela precisava usar seu corretivo novinho da M.A.C. numa quinta-feira pela manhã.

Quinta-feira, dia vinte... Ela estava esquecendo de alguma coisa... vinte de dezembro... Ah, droga! Estava atrasada para a consulta com a nutricionista. Havia perdido dois quilos na primeira semana e engordado três nas semanas seguintes. Deixou o corretivo de lado, engatou a primeira marcha e saiu praguejando até o consultório, certa de que aquela magricela impiedosa da Dra. Alice (recalque, é verdade) chamaria sua atenção para o ganho de peso. O que a nutricionista sabia das coisas, afinal? Ela não tinha dois filhos em idade pré-escolar, que iam a um aniversário cheio de guloseimas por semana. E não tinha um marido muito amado, chamado  Mário Henrique, que fazia a melhor picanha do mundo aos domingos e que a deixava com tanta raiva nos outros dias da semana, que ela explodiria se não comesse um chocolate.

A consulta foi como ela imaginava. Com muito jeito, a Dra Alice pontuou a necessidade de estabelecer um padrão alimentar mais saudável, com a introdução de fibras e alimentos crus, integrais, desnatados, com pouco sódio, naturais e inacessíveis. Explicou que seu índice de massa corpórea estava aumentando e afirmou ter certeza absoluta de que Marilu conseguiria se manter saudável. Afinal de contas, ela tinha dois filhos pequenos e precisava se manter bem para criá-los.

Ah, meleca! Os filhos. Já estava atrasada para a reunião da escola, evento esse que iniciava o período de maior terror na vida de Marilu: as férias escolares. Com quem ela deixaria os dois filhos? Como encaixaria um mês de atividades para os gêmeos? Arrumaria uma colônia de férias, uma babá, um milagre, duas avós, três tias e um atestado médico por insanidade mental. Afinal de contas, não poderia levar os garotos para o Fórum.

Céus! O Fórum! Teria uma audiência complicadíssima naquele dia.

As coisas não estavam indo muito bem, ela pensou. Talvez devesse conseguir uma passagem só de ida para Marte, já que as coisas por aqui acabariam em um dia. Às vésperas do fim do mundo, tudo o que ela queria era o fim daquele fotoperíodo. Estava um trapo. Um farrapo de gente. Morta com farofa. Na lona. Acabada. Só o pó da capa, entre outras formas pra dizer que se precisa de uma ida ao salão urgente.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos. Ela ligara para Mário Henrique, avisara que as crianças eram todas dele. Explicou que havia comida na geladeira, roupas no armário dos gêmeos, água no chuveiro, um microondas ligado na tomada e uma esposa ameaçando entrar em autocombustão se não separasse duas horas de prazo para si. Ou três. Ficaria loira, faria as unhas, a sobrancelha, o buço, leria todas as revistas de fofoca do mundo inteiro e quem sabe quisesse uma massagem. Ou não. Talvez ela nem soubesse dizer seu nome completo àquela altura dos acontecimentos.

Voltou para casa. Os gêmeos assistiam Discovery Kids pendurados no lustre da sala. Exagero, ok, mas pulavam no sofá. Havia um prato de brigadeiro na mesa e um Mário Henrique muito concentrado atrás da coluna de esportes do jornal. Foi para o quarto. Quando olhou-se no espelho, quis chorar. O cabelo ficara ótimo, a sobrancelha também. Mas ela passara o dia todo com apenas um lado do rosto sem olheira. Corrigira somente o lado esquerdo. Sentia-se mono-olheira-à-direita. As lágrimas se formaram. Ia desaguar todo o cansaço ali mesmo.

Foi quando sentiu um par de braços a envolver-lhe a coxa. Um dos gêmeos a olhava de baixo pra cima, com cara de adoração e um sorriso de derreter qualquer pessoa.

- Mamãe linda! - ele de derramou em admiração.

E Marilu jogou fora toda sua contrariedade. Com ou sem olheiras, ela era muito amada. E se o mundo acabasse amanhã, como os malucos apregoavam por aí, ela estaria linda, loira e feliz.

- Quem quer acampar na sala? - ela gritou e se atirou para cima dos filhos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Eu e a Julieta




Sem querer menosprezar todas as descobertas científicas feitas até hoje, preciso dizer que conheci uma nova força da natureza. Seu nome? Julieta – criatura imaginária e imaginativa, notívaga por capricho, geniosa por não saber outra forma de ser, pan-polar porque acha que ser bipolar já está meio fora de moda, leitora compulsiva, criativa por nascença, carente por parte de pai, exigente por parte de mãe, detentora das minhas ideias e determinada a fazer de mim o que bem quer.

Descrever o aspecto físico da Julieta é tarefa quase impossível, porque ela muda como o formato das nuvens. Para ser mais específica, acho que nunca soube qual é a sua verdadeira aparência. Algumas vezes, a danada me aparece aqui em casa usando um vestido justíssimo de tecido brilhoso, com cabelo ruivo ondulado, luvas sete oitavos e delineado nos olhos; outros dias ela surge do nada, pulando feito uma pipoca, com cabelo preso num rabo de cavalo, short jeans desfiado e tênis, mascando chiclete e gesticulando feito doida. Já quis ser velha, já virou criança. Já cismou de usar vestido longo de época e citar Jane Austen. De tudo ela já fez, exceto se conformar.

Quando a Julieta resolve que é hora de escrever, eu que me vire, porque não há forma de convencê-la do contrário. Meia noite, duas horas, cinco da tarde, não importa. Às vezes ela sai de algum passeio e pensa “bem que eu poderia ir ver a Fernanda”. E me acha, onde quer que eu esteja, não importa a atividade, a disposição ou o estado de espírito. Quando a Julieta decide que é hora de produzir, é uma loucura.

Acontece que ela está pouco se lixando para o mundo dos adultos. Não quer saber se eu estou trabalhando, comendo, andando de metrô, dirigindo ou cambaleando de sono. O que ela quer é ser ouvida. E obedecida. Aí começa a jogar todas as ideias de uma vez  no chão. Abre todas as minhas gavetas mentais e eu que me vire pra lidar com a bagunça. Vou catando daqui e dali algum trecho, uma fala, um pensamento e juntando tudo até formar um texto - que ela avalia, corrige, comenta e depois aprova -ou não.

Há dias, entretanto, em que ela se esconde. Sai para um passeio com a Dona Expedita, vai às compras com a Isaura ou simplesmente sai andando por aí, observando as pessoas, os lugares, as paisagens e tendo ideias. Nesses dias, posso procurar o quanto queira, a Julieta simplesmente não aparece. Só lá pela meia noite, quando eu já desisti de implorar e estou pronta pra dormir. Aí eu digo que estou cansada e preciso de repouso. Ela me olha com uma cara de cachorro que caiu da mudança, dá duas ou três piscadinhas e explica que teve uma ideia ótima - uma que pode não estar disponível quando o dia amanhecer.

Nem preciso dizer o que acontece em seguida, não é? Sou uma alma fraca, leitor querido. A Galera Aqui de Casa - essa maloca de personagens doidos, geniosos e absolutamente adoráveis - me tem nas mãos e trabalha comigo como quem brinca de massinha.

Beijinhos
Fê Coelho

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Trocando em miúdos: um texto a quatro mãos.




O texto que se segue é uma tentativa de conciliar pontos de vista diversos, ou antes uma forma capenga e bem-humorada (foram muitas risadas até o texto ficar pronto) de esclarecer ou – ao menos – tentar encontrar um ponto pacífico, uma pequena zona de conforto no que parece ser o Muro das Lamentações Contra o Sexo Oposto. Somos uma enfermeira – profissão que não poderia ser mais feminina nem que fosse escrita com batom – e um engenheiro – ofício tão masculino quanto xingar a mãe do juiz - conversando e não pretendemos, de forma alguma, atingir a imparcialidade ou a Verdade (como grandeza absoluta). Não vamos escrever nenhum manifesto. Mas podemos entreter homens e mulheres. Basta acompanhar o raciocínio.

O primeiro tópico abordado foi o sofrimento. Quem sofreria mais, homens ou mulheres? Foi fácil concordar que as mulheres são mais sofredoras desde que o mundo é mundo. Fisiologicamente falando, até as formigas – consideremos a sina da rainha – sabem disso. Foi fácil concordar nesse ponto. Milênios de evolução (e cólicas menstruais) comprovam esse fato. O que discutimos foi o uso que as mulheres muitas vezes – nem sempre, sejamos justos – fazem do sofrimento que lhes foi infligido. Amiúde as mulheres usam esse martírio para manipular as situações a seu favor, se colocando além da linha dos mártires, para conseguir pequenos favores, como carregar coisas pesadas – afinal de contas, quem foi favorecido com músculos? – ou sair para comprar chocolate – afinal de contas, um homem nunca entenderá (no melhor sentido da expressão) o que é TPM.

Nas palavras do engenheiro representante da espécie (e que pode ser excluído do clube de luta por isso, então demos o devido valor), "aos homens sobra muito pouco sofrimento". Isso não quer dizer que os homens não tenham suas correntes para arrastar. Uma das grandes aflições masculinas, segundo nosso bravo interlocutor, é tentar descobrir por que a mulher está chateada, quando ela diz que não está. De alguma forma o ser masculino sabe que essa afirmação é falsa e que se trata do prelúdio de uma crise de choro feminina, que eu (com conhecimento de causa) chamo de O Grande Mal. O choro feminino é quase uma arma de destruição em massa e vem sendo bem usado ao longo dos séculos. Por ele, já foram entregues desde o álbum completo do Brasileirão de 97 até reinos inteiros. A proximidade de uma crise de choro feminino provoca no homem uma sensação de impotência, porque de alguma maneira há uma culpa misteriosa envolvida - por algo que ele tenha feito, dito, pensado, omitido ou por qualquer ato praticado nas suas últimas dez encarnações. Fato é que ele sabe que fez ou deixou de fazer algo. Então ele mente!

Se, por um lado, as mulheres sofrem e choram, por outro, os homens mentem e negam. Poderiam negar até a cor da camisa que estão usando e convencê-la de que você está com distúrbios visuais ou tendo alucinações. Não que esse comportamento seja exclusivo dos homens. A mulherada anda abusando do conhecimento de que podem mentir e, ainda assim, manter um nariz perfeito. A questão fundamental é a estirpe da mentira. Muitas vezes os homens mentem para proteger o próprio espaço. Isso os leva às mentiras mais sem pé nem cabeça da história. Neste ponto da conversa, meu interlocutor pede que eu defenda sua honra perante os leitores. Disse que não concorda com essa coisa de mentir e negar e acrescentou que é um ótimo rapaz. A sinceridade, acreditem, pode ser um caminho trilhado por escolha. Algumas pessoas não conseguem viver sem isso. E esse é outro ponto importante de concórdia levantado em nossa conversa. Devemos, entretanto, ressaltar que a sinceridade pode não ser fruto de uma escolha. Ora, nem todos os homens mentem bem. Alguns não logram êxito nessa empreitada e acabam tendo que ser sinceros - o que pode lhes causar problemas.

De maneira geral, temos nossas diferenças. Acontece que todas elas fazem parte de uma teia de conceitos que permeiam o "ser homem" e o "ser mulher". Homens gostam de esportes. Mulheres gostam de moda, feminices e belezuras. O futebol de domingo está para os homens assim como o sábado no salão está para as mulheres. O mesmo pânico que os homens têm de uma tarde de compras no shopping lotado acomete as mulheres em relação aos botecos "copo sujo". Homens sabem de cor a tabela do Brasileirão, mulheres sabem os nomes de um zilhão de esmaltes. Homens têm senso de direção, mulheres de organização. Homens lidam bem com coisas, mulheres com gente e coisas que envolvam o trato com gente. Mulheres falam de problemas, homens resolvem problemas. Homens têm força, mulheres jeito. Claro que temos algumas variações, até porque as pessoas não podem simplesmente caber em dois grandes balaios - um rosa e outro azul.

E esse talvez seja o grande barato! As diferenças entre homens e mulheres não precisam ser o que nos afasta. Encará-las como o que nos complementa parece ser algo mais saudável, justo e divertido. Afinal de contas, melhor que viver em guerra, discutindo picuinhas que vão desde o cosmo até o infinito, pode ser nos focarmos naquilo que une, enriquece e move homens e mulheres para uma direção única. Usando as palavras dO Teatro Mágico, "os opostos se distraem; os dispostos se atraem". Ou, trocando em miúdos, homens e mulheres se encaixam perfeitamente, tão perfeitamente quanto o dedo e o nariz.

E que reine a paz nesse mundão doido e sem porteira.

Fernanda Coelho e Leandro Lawall.

sábado, 31 de março de 2012

Bolsa de Mulher



Uma coisa me intriga há um bocado de tempo, desde o dia em que pela primeira vez pendurei uma bolsa em meu ombro: como é possível que papéis se multipliquem com tanta eficácia? Desde então, tenho observado algumas coisas e elaborado algumas hipóteses que gostaria de compartilhar com vocês, no intento de receber a solidariedade feminina e a compreensão masculina.
Bolsas são um acessório muitíssimo importante. Elas compõem o visual, ocupam as mãos quando não sabemos o que fazer delas e carregam dentro de si uma amostra de nosso mundo – itens que vão desde documentos, maquiagem, fio dental, chicletes, remédio para dor de cabeça, presilhas de cabelo, comprovantes de pagamento e amuletos até chupetas, fraldas descartáveis, mudas de roupa infantil e até a chave da porta dos fundos da casa da mãe de uma amiguinha da sua filha que ela conheceu no balé. E, claro, papeizinhos.

Toda bolsa contém papeizinhos. Essa deve ser uma das leis que regem o universo. É uma verdade inescapável. Você pode retirá-los de lá incansavelmente e, quando olhar de novo, haverá mais deles. Talvez eu esteja certa, quando digo que os papeizinhos se reproduzem. Basta fechar a bolsa e a bagunça começa. Quando há mais de um papelzinho, eles procriam por reprodução sexuada. Aí é uma bagunça louca: você guarda uma propaganda de escola e um cartão de empresa de aluguel de carros e, quando abre a bolsa, lá está um lindo bebê – um cartão com o telefone de uma van para levar as crianças à escola. E não fica só nisso. O cartão da van conhece uma propaganda de loja em liquidação e logo você descobre que – surpresa! - acabou de ser presenteada com um folder de concessionária em “queima de estoque”.

Claro que você sempre pode optar por não carregar papelzinho algum. Coloca o batom, os documentos e o dinheiro dentro da bolsa e sai. E é aí que você será apresentada à outra mazela da bagagem de mão: as moedinhas. Compre alguma coisa, qualquer coisa, e puff: você ganha mais moedas do que gostaria e, claro, elas vão cair no chão na primeira oportunidade, no lugar mais cheio de pessoas possível, no dia em que você estiver de vestido curto. E quando a pessoa não quer moedinhas? Paga com cartão e lá se vão os papeizinhos outra vez.

Outra característica especial desse acessório, é a sua capacidade de armazenamento. Sempre cabe mais coisas do que parece ser possível. E essas coisas nunca estarão acessíveis caso você precise delas. Bolsas são buracos-negros: fato incontestável. O que quer que caia lá dentro pode sumir por eras, até que você desista de precisar do objeto em questão. Aí ele aparece e te atrapalha a encontrar o que você passou a querer. E não se engane: se uma mulher consegue guardar batom, documentos, dinheiro, chiclete, chave do carro e foto três por quatro das crianças numa bolsa de mão, é coisa fácil guardar o estepe do carro numa versão a tiracolo.

Fato é que não há mulher que passe sem este acessório. Somos apaixonadas por bolsas e precisamos (do verbo necessitar) de várias, para sempre encontrar algo que estava perdido há anos. Afinal de contas, o que é a vida sem algumas boas surpresas?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Saci e os Tempos Modernos



Já vai longe o tempo em que o Saci perdia tempo trançando crina de cavalo, fazendo as cozinheiras perderem o ponto do bolos e assustando os viajantes. Já passou a época em que ele ficava por aí assoviando, fumando cachimbo e colocando cinza em comida. Sim senhor. O mundo evoluiu e o Saci, esperto que é, acompanhou todas as mudanças.

Ele aproveitou tudo o que a modernidade trouxe de novo e associou às inovações, suas antigas travessuras. O resultado? Uma gama infinita de traquinagens que beiram a crueldade. Sim, porque se antes ele achava engraçado esconder enxadas, agora ele descobriu o prazer de esperar os últimos quinze minutos de um download enorme para provocar uma queda de energia.

O Saci ainda mantém os velhos hábitos - esconder, estragar, bagunçar e rir da nossa cara - mas agora essas atividades estão mais refinadas, por assim dizer. Se antes ele estragava os arreios e sumia os freios dos cavalos, agora ele aprendeu a sumir as chaves dos carros. Se ele se divertia fazendo vendaval em dias de varal cheio de roupa limpa, agora ele dá um jeito de soltar graxa nas roupas dentro da máquina de lavar. O danado aprendeu a descobrir quando as pessoas estão ansiosas por uma ligação e dá a dica para os operadores de telemarketing, só para ver a decepção estampada no rosto da criatura que pega o celular no susto.

Ele descobriu um jeito de estragar as impressoras exatamente quando você mais precisa delas; de sumir com todas as canetas disponíveis num raio de cinco quilômetros, quando se precisa anotar um recado urgente; de provocar engarrafamentos históricos e puxar o freio de mão de todos os carros na frente do mais atrasado da pista. O safado aprendeu a colocar o pé na frente das mulheres quando elas saem com saltos novos, de fazer as unhas recém-pintadas se encherem de bolhinhas, de bagunçar os cabelos recém-escovados e de sumir as melhores roupas quando se quer sair.

Engana-se, é bom que se diga,  quem pensa que suas atuações estão restritas ao ambiente doméstico. Num banco, ele é responsável pelas diferenças de caixa; nas ruas, ele montou Escolas de Formação de Flanelinhas; nas escolas... bem, nas escolas ele não faz nada, porque a criançada em si já deixa todo mundo doido. Ele some relatórios, acaba com o papel das bobinas nos momentos mais inapropriados, trava os computadores, entre outras maldades.

Existe, entretanto, um lugar onde ele adora ficar: enfermarias em geral. Ah, leitor querido, você não imagina o que um Saci é capaz de fazer em uma enfermaria. Ele dança ciranda entre as camas e vai aprontando: aperta os botões das bombas de infusão, de maneira que todas apitem ao mesmo tempo; belisca as crianças, de maneira que todas chorem em uníssono; joga pó de vômito para cima, de maneira que as pobres (e já descabeladas) enfermeiras tenham que se dividir entre um e outro pobrezinho que está botando os bofes pra fora. Não bastasse isso, ele solta os curativos (ou molha), obstrui acessos venosos, esvazia os frasquinhos de medicação (de maneira que só fiquem faltando cinco gotas para inteirar a dose) e faz as pessoas pedirem algo exatamente quando você está terminando de contar a quinquagésima terceira das sessenta e quatro gotas de uma medicação. E ri, como ri, esse infeliz.

O mais incrível de tudo é que quando ele se cansa da brincadeira, vai embora sem quê nem porquê. Aí as impressoras voltam a funcionar, as canetas aparecem, as crianças voltam a comer, os computadores destravam, a chave do carro aparece e a vida segue, serena e tranquila, como se ele nunca houvesse aprontado.

Eu, todavia, não me deixo enganar. Sei que ele é persistente e que fica à espera do momento mais engraçado para agir. É por isso que, quando eu passo por um redemoinho, fico imaginando: ah, se eu tivesse uma peneira aqui... prendia esse danado e ia ter sossego.

Beijinhos
Fê Coelho



domingo, 2 de outubro de 2011

Eu e a Dona Expedita



Se você é psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta, apaixonado por essa área do conhecimento humano, ou se - no mínimo - conhece alguém que o seja, por favor, não leia essa crônica. Se você é conhecido de algum pai de santo, se faz despacho ou algo do gênero, eu peço, não leia esse texto. Porém, se você não se importa de ver que lê os escritos de uma doida varrida, vá em frente. Vou falar um pouco sobre uma personagem que mora comigo, embora eu, tecnicamente, more sozinha.

Desde que aceitei a inevitável presença da Isaura em minha vida, outros inquilinos me apareceram: a Dona Expedita e o Seu Manoel. Na verdade, só a Dona Expedita e a Isaura é que moram aqui. O Seu Manoel aparece de vez em quando, mas estou vendo a hora de ele se mudar pra cá.

A Dona Expedita é uma senhorinha já bem vivida, que sabe que casa, louça, poeira, roupa pra lavar, roupa pra passar, tudo isso vai estar aí pra sempre. Mas a minha imagem no espelho e as minhas lembranças...

Ela era filha de pais muito rígidos e morava na roça em seus tempos de menina. Casou-se aos dezesseis anos, teve nove filhos (todos homens), enviuvou e veio pra cidade. Os filhos já criados, netos encaminhados, ela começou a se aventurar pelas ruas, pelas feiras e pelo "forró dos velhos", como ela gosta de dizer. Foi lá, inclusive, que ela conheceu o Seu Manoel.

Ditinha - seu apelido para os dias de bom humor -  usa os cabelos presos num coque bem feito no alto da cabeça. Os fios prateados e a pele enrugada conferem-lhe aquela aparência frágil e condescendente dos idosos. Mas não se engane: a velha é uma peste. Tem um humor ácido, fala palavrão, não tem muita paciência com frescura, nem com chilique. Usa uma bengala que é uma arma: dê bobeira perto dela, vá encher-lhe a paciência, pra ver se não leva uma bengalada na canela! E o mais engraçado de tudo é a cara de inocente que ela faz. "Desculpe, querida. Já estou velha e não consigo controlar bem essa bengala". Aí você se vira para ir embora e só ouve o risinho abafado.

Eu e Dona Expedita, normalmente, nos damos bem. Também não gosto de frescura, nem de gente desanimada e reclamona.  Adoro quando ela me explica que as prioridades podem não ser tão óbvias e me divirto quando a gente sai pra caminhar. Nosso papo é bom, nós reparamos nas coisas e nas pessoas, rimos e ela me conta um monte de histórias.

 Isso, entretanto, não significa ausência de desentendimentos. Ditinha, infelizmente, é analfabeta. Já tentei ensiná-la, mas ela nunca quer aprender. Prefere que eu leia pra ela, com a desculpa de que "seus olhos já não são os mesmos". Eu desconfio que ela tenha preguiça mesmo. Acontece que, quando a Isaura fica muito furibunda comigo e eu - fraca que sou - resolvo fazer uma faxina, o circo está armado. E a situação é sempre pior se eu estiver lendo algo de que a Dona Expedita goste. Ela fica fula da vida e começa a aprontar: esconde o avental de joaninhas da Isaura, me faz tropeçar na bengala, esconde os panos de chão, derrama mais sujeira na casa, fura os sacos de lixo e outras maldades dignas e um saci. Eu vou passando pela casa e vendo as artes dela. Estou dizendo: a velha é uma peste! Vai muita conversa e promessa até ela se acalmar. Às vezes, eu preciso ler até as quatro horas da manhã, pra ela finalmente me perdoar.

Alguns acessos de fúria são tão intensos que eu preciso apartá-la da Isaura. Não se enganem: entre nós, mortais, existe essa coisa de idade. Mas, no que tange as entidades imaginárias, é tudo diferente. Já separei brigas intermináveis das duas. A Isaura não respeita cara de velha e a Dona Expedita é forte. Estou vendo a hora que ela vai começar a soltar aqueles poderes do Mortal Kombat. É um quebra pau dos infernos. Eu vou passando com os baldes e me desviando dos tapas e das coisas que uma joga na outra.

É claro, Ditinha e Isaura não brigam o tempo todo. Algumas vezes elas entram em acordo e eu levo a pior. A Isaura passa por mim e solta: "casa empoeirada, não?" Eu olho para a Dona Expedita com cara de cachorro que caiu da mudança, à procura de um pouco de apoio. Ela responde: "não precisa me olhar desse jeito: a Isaura tá certa". Daí eu me recolho à minha insignificância, ponho uma música alta e encho a casa de água - como sempre.

 É exatamente nesse momento que me aparece o seu Manoel, com seu terno xadrez, chapéu de palha, lenço no bolso e barba bem feita. O cheiro de colônia se espalha pela casa e ele sorri. Dona Expedita, a depender do seu humor, lhe sorri de volta ou manda por raio que o parta. Eu, particularmente, torço pra que ele a chame pra ir ao cinema ou à sorveteria - antes que ele perceba algo que precise de um pequeno reparo e eu me ferre de vez.

Beijinhos
Fê Coelho








quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Um dia de cão

                                                                             Imagem: revista Exame




Dizem que todo trabalho tem coisas boas e ruins. Eu até concordo com essa afirmação, mas preciso dizer que a proporção usada para distribuir essas coisas varia muito.

Vou contar o que me aconteceu hoje, mas antes me permita afrouxar o nó da gravata e me servir de uma dose de whisky puro.

Pronto. Agora posso contar que porcaria de dia eu tive.

Eu trabalho em um banco privado. Sou gerente. Por favor, esperem até que eu termine de contar a minha história, para iniciar suas preces.

Todos os dias, tenho uma pilha de papéis para checar. Documentos e propostas entulham a minha mesa e eu pareço ser incapaz de acabar com os montes de bilhetinhos. Sem contar as metas. Ah se eu pudesse... Se eu pudesse ser um animal mítico, gostaria de ser um dragão, só pelo prazer de ver aqueles papéis indo pro espaço. Juro que ia caprichar na labareda. E junto com os papéis, ia queimar o traseiro do estagiário novo. O que nos leva ao assunto principal. Meu dia de cão.

Estava eu, distraído com meus xingamentos mentais acerca da quantidade de papéis em minha mesa, quando o maldito estagiário chegou. Veio todo sorridente e solícito, se oferecendo para entregar meus papeis para o chefe – que diga-se de passagem, eu odeio. 
Eu, burro que sou, aceitei a ajuda. Quando o magricela perguntou que pilha deveria levar, eu apenas apontei com o queixo, fazendo um bico junto. Minha mulher já me disse para parar com essa mania. Quem sabe agora eu aprendo. O diabo é que o telefone tocou bem na hora que o estagiário pegava os papeis. Como eu não sinalizei direito, o infeliz levou uma pilha de rascunhos e, acredito eu, colocou sobre a mesa do chefe, arreganhando os dentes.

Não haveria problema nenhum se, entre os rascunhos não estivesse um desenho. Não haveria problema algum se fosse um desenho qualquer. O inferno é que o desenho em questão era um bonequinho de vudu, todo espetado e com o nome do chefe em cima. O Valadão havia me matado de raiva no dia anterior e eu ainda não havia me desfeito de minha obra-prima.

Quando percebi o que havia acontecido, senti que poderia morrer ali mesmo. Talvez eu devesse ter me esforçado para conseguir morrer. O Valadão ia arrancar o meu couro. Droga! Eu tinha de descobrir uma maneira de tirar aquele maldito desenho da sala do chefe. Precisava mesmo de um milagre. Acreditem ou não, o milagre veio.

Tenho um filho adolescente, que para dizer o mínimo é o cão. Esta semana, ele foi pego na escola com alguns exemplares de peido alemão. Foi suspenso, depois que empestiou toda a sala de aula e fez 25 adolescentes vomitarem até as tripas. Como prova do crime, eu levei para casa o saquinho com os pequenos pavis fedorentos, que ficaram dentro da minha pasta.

Juro que não imaginava o efeito, quando acendi cinco deles no corredor da agência. Meus amigos, aquela coisa fede muito! Consegui tirar meu chefe da sua sala. Para ser sincero, ele não ficou no trabalho. Teve que ir para casa depois que eu vomitei em sua camisa. A agência teve que ficar fechada. Não havia a menor condição de qualquer humano permanecer ali dentro, por pior que fosse seu olfato.

Resolvi o problema com meu desenho, mas arranjei um infinitamente pior. Claro que as câmeras internas me pegaram em ação. Não preciso dizer que fui demitido. Agora vem o cúmulo do ridículo: virei ícone da subversão na escola do meu filho. Os meninos me acham genial, as meninas me acham nojento. Os pais me acham um mané. 

Se eu pego aquele estagiário, juro que acabo com ele.
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