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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Furdunço, Roupa Branca e Revolta



O clima de manifestações generalizadas está afetando as roupas no meu armário. Não, leitor, você não leu errado. E não, eu não estou me enchendo de roupas verdes e amarelas. Acontece que precisei adquirir algumas roupas brancas novas e a confusão foi feia. Se eu estou pirando de vez? E quem prometeu a você uma autora normal?

Tudo começou quando, após passar as novas roupas de trabalho, fui guardá-las. Abri a porta do guarda-roupa, pendurei as camisas brancas, fechei a porta e saí do quarto. Comecei, então, a ouvir um burburinho crescente, como se um circo de pulgas houvesse resolvido promover uma festa rave no diminuto móvel destinado a acomodar minhas vestimentas. Apurando um pouco melhor a audição, para saber o que acontecia, dei com o seguinte diálogo:

- Chega pra lá! – reclamava uma voz esganiçada.
- Chega você, que eu estou recém-passada! – retrucava outra, mais baixa
- Mas você está me apertando. – era a primeira voz
- Os incomodados que se retirem. – a segunda voz disse, resoluta.
- Branquela aguada, sem graça!
- Sua indiscreta!
- Sou como a primavera, baby. Seu recalque bate nas minhas flores e volta.

Nesse ponto, começou um ruído de coisas se batendo. Várias vozinhas agudas e balançantes gritavam em uníssono “pega ela!”, ao passo que outras mais ponderadas cantavam algo a respeito de não-violência, tolerância, paz, amor e – quase posso jurar – Hakuna Matata. Aproximei-me cautelosamente e abri a porta do guarda-roupa.

- Ok – eu disse, incrédula a respeito do que via – posso saber que furdunço é esse aqui?

Chegaram até mim os olhares mais culpados que se pode imaginar em objetos inanimados. Fez-se um silêncio daqueles que a gente pode partir com uma faca de pão.

- Vamos. Estou esperando. – Eu insisti.
- Foi ela! – disseram em uníssono, uma camisa branca e uma florida.

Decidi conversar com a camisa florida primeiro. Ela é mais antiga de casa; tem prioridade.

- Diga, flor, o que está havendo aqui?
- Agora você me trata assim, com jeitinho, né?! Primeiro arruma esse monte de branquelas, enfia aqui em casa, tira todo o meu espaço e depois finge que não aconteceu nada. Eu sabia que, cedo ou tarde, você ia acabar fazendo isso.

Como a camisa florida continuava furibunda, resolvi tentar a sorte com a novata. Tudo o que consegui foi um rolar de olhos e um assovio.

- Alguém? – Nenhuma resposta – Ninguém?
- Por que você não separa as roupas por cores? – arriscou a camisa florida.

Aí foi demais pra mim. Sentei-me na beira da cama e comecei um sermão.

- Olha, gente, eu sei que estamos passando por um período complicado aqui. São mudanças demais, em tempo de menos. Compreendo que vocês estejam assustados, pensando que seria melhor ficarmos como estávamos, bem acomodados em nossa zona de conforto. Acontece que é assim mesmo que as coisas funcionam. Mudanças causam incômodo, mas são elas que impulsionam a vida. Vocês precisam aceitar que estamos num outro momento e trabalhar para lidar melhor com as diferenças. Aceitem os coleguinhas que chegaram e sejam gentis. Tenho certeza de que belíssimas combinações poderão surgir entre vocês. Quanto à ideia de separar por cores, eu sei que os especialistas recomendam; mas isso seria apartheid. E não vou tolerar saber que dentro do meu próprio armário acontece segregação, bullying e essas coisas. Comportem-se!

E para provar que tenho a firme resolução de manter a paz naquele espaço confinado, deixei todas as peças de castigo, se abraçando até que decida usá-las. Difícil, vai ser encontrar os cabides que fizeram greve e se mudaram para a Conxinxina do Sul.

Quem foi mesmo que te prometeu uma autora normal?

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Lia



Da janela aberta, Lia observava a noite avermelhada de inverno. As nuvens desfilavam inatingíveis, tangenciando aqui e ali algum pensamento solto. Desligou todas as luzes, fechou os olhos, inspirou profundamente e permitiu que o ar frio trouxesse consigo a calma.

Sentia-se cansada, pesada de lembranças que não queria mais carregar. Sabia que seus dias eram o amontoado das escolhas que fizera, assim como o futuro era todo lacunas a serem preenchidas. E o Beto? Bem, ele era um idiota. Só isso.  

Abriu os olhos. Brincou com algumas lembranças ternas, como um bebê que admira um móbile. Os bebês crescem. Ela também crescera. E assim como os móbiles, aquelas memórias agora pareciam absolutamente fora de contexto.

A chaleira começou a chiar. O chá. A chaise. A blusa de lã em volta de si. A bebida quente. O gosto de maçã com baunilha. O Beto. Um idiota. As lembranças se desfazendo. A voz de James Blunt baixa e melodiosa no player. Um suspiro.

"Ah! vontade de ficar apaixonada!". Tomou mais um gole do chá. 
"Passou".

Fê Coelho

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Flora Bicho Grilo



As histórias da Galera Aqui de Casa, por algum motivo que não sei explicar, convencem as pessoas. Não é raro alguém vir me avisar que andou recebendo uma visitinha da Isaura ou do Seu Manoel. Pelo contrário: vira e mexe alguém me pede para buscar a Isaura de volta, ou informa que o Dr Ptolomeu - que pretendo apresentar a vocês em outra oportunidade - resolveu aparecer. Não sei bem o motivo de meus personagens terem caído no gosto dos amigos. Talvez seja apenas uma forma de se identificar com algo comum; talvez um jeito bem-humorado de lidar com o cotidiano. Fato é que a Galera só aumenta. Para cada mania, vontade, hábito ou o que quer que seja, surge um tipo novo. E é por isso que tenho o prazer de apresentar a vocês a Flora Bicho Grilo.

Flora Bicho Grilo é uma prima da Isaura, que conheci depois de uma amiga minha (gente de verdade, de carne, osso e maluquices) me falar de suas visitinhas. Flora é uma mocinha magra, de cabelos castanhos, enrolados e meio presos por uma trança frouxa de onde pendem minúsculas flores. Usa um vestido esvoaçante branco e tem o sorriso fácil das pessoas despreocupadas. Nasceu no interior, numa vila pequena daquelas com casinhas caiadas de branco, esquecida entre pastos, morros e rios. Não conheceu a cidade até os quinze anos, quando foi visitar uma madrinha sua. E devo dizer: sua primeira, segunda, terceira e milésima impressões não foram boas. Acontece que ela acha tudo muito cheio de concreto, sem cheiro de mato, sem barulho de grilo, sem brilho de estrela. Acha o fim do mundo, as pessoas ficarem engaioladas, para se proteger dos perigos dessa terra barulhenta e cheia de fumaça. A Flora simplesmente não se acostuma.

É por isso que ela procura alguns cantos que tenham gente calma, que não tenha tanta pressa. Ela gosta de jardim, de planta, bicho e música leve. E não costuma prestar muita atenção a um monte de coisas que a gente acha importante, como os horários, as contas, e os prazos. Se você estiver correndo e procurando desesperadamente a chave do carro, não tente pedir ajuda à Flora. Ela vai provavelmente te irritar com comentários sobre alguma florzinha em algum canto qualquer, ou sobre como você vai acabar infartando, vítima do stress e de como as pessoas fizeram da vida uma corrida desenfreada. E vai tentar te convencer de que talvez seja uma hora apropriada para adubar o jardim, ou podar uma planta, ou levar os cachorros para um passeio.

Em noite de lua, Bicho Grilo gosta de se deitar na rede e ficar quietinha, só olhando e sentindo a temperatura  cair de mansinho. Gosta de conversar sobre como seria bacana estar noutro lugar e de inventar histórias que não aconteceram. Flora é uma sonhadora, um espírito livre e difícil de se perceber - até porque Flora é fã das sutilezas. Ela se mistura na paisagem e deixa conosco apenas aquela vontade ligeira de estar num lugar melhor, mais calmo, cheio de vida e de paz.

Não entendo como pode, esses personagens irem tomando forma num imaginário coletivo que a gente lá vai construindo. O que sei, todavia, é que cada vez que um deles surge, um pouco mais de graça pula para os meus dias.

Gostei da Flora. Acho que vamos nos dar muito bem. Acredito que nossas conversas serão algo assim:
- Viu, Flora, aquela paineira toda florida?
- Vi não, mas o beija-flor que passou voando por aqui agorinha era uma graça. Pra onde será que ele foi?

E que os dias sejam de paz.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um Pseudônimo Sob o Salgueiro Chorão



A senhora de longos cabelos prateados, trançados e presos num respeitável coque, com suas mãos cobertas por pele alva de papel de seda, com seus olhos já cansados, curvada pelo tempo, como os juncos pela tempestade, voava. Embora ninguém suspeitasse que isso ocorria, a senhora alçava voos magníficos nas asas de suas lembranças, enquanto balançava em sua cadeira, ou quando trocava seus passos vacilantes pelo jardim.

Tocava uma rosa e se lembrava de quantos corações partira em sua mocidade; quantos lencinhos deixara cair por capricho e quantas propostas recusara apenas por não estar de bom humor. Passava a custo por uma ponte e voava para o dia em que finalmente não mais pôde recusar a felicidade insistente e se casou com seu grande e único amor. E revivia a singeleza grandiosa de se ter nas mãos um bebê de bochechas rosadas e olhos curiosos.

Quem a encontrava sempre sozinha, observando o pôr do sol, imaginava-a triste. Ledo engano. A senhora viajava. Já não estava ali, com o crochê entre os dedos. Não! Ela recordava os medos que tivera e as vitórias que alcançara. E se ria com o pânico que tinha do passar do tempo. Relembrava como havia dito ao futuro que fosse gentil com ela, que não a tratasse como tudo o que ele consome, degradando o que antes fora uma bela imagem no espelho. Ela hoje entendia: o tempo não degrada; modifica. A degradação está no significado que damos a essas mudanças. Estava bem: respeitosamente viva; o oposto de tantas outras mulheres com quem convivera.

O tempo leva consigo as pessoas, os amores, a importância daquilo que é dispensável e algumas dores. Outras não. Algumas angústias são para sempre, companheiras que ficam sentadas no canto da sala, emburradas esperando que se dê atenção a elas. Acontece que a senhorinha, a quem julgavam esquecida, tinha resolvido esquecer. Não precisava mais se aferrar a tudo o que ocorrera. "Chega um certo ponto da vida, em que conquistamos o direito de ser mais ou menos o que nos der na telha", ela dizia para si mesma e apertava contra o peito um xale muito surrado, ganho num leilão de quermesse anos e anos atrás.

Sentou-se no banco que mandara fazer sob um salgueiro chorão e recordou o dia em que o plantara. Era para velar o sono do marido e do filho, ela decidira. Passou a mão no peito, como se massageasse um lugar machucado. E voltou para casa, de onde enviava ao mundo livros cheios de encanto e ideias, oculta - ela, seu mundo e suas memórias - sob o pseudônimo de Raíssa Torento.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Penúltimo



- Isso é cara para se comparecer ao fim do mundo? - pensou Marilu, enquanto se olhava no minúsculo espelho do quebra sol, acima do volante de seu carro financiado até o fim dos tempos.

Ela já estava cansada de aguardar os finais - da faculdade, da semana, dos domingos na casa da sogra, do jogo de futebol narrado pelo Galvão e embalado pelos gritos de Chupa! da vizinhança inteira. Já estava cansada de ansiar pelo término do financiamento do carro, e das prestações que fizera para os armários novos da cozinha. A verdade é que Marilu estava exausta!

Olhou-se novamente no espelho, observou que suas olheiras já estavam quase sendo promovidas a "queixeiras", sacou um corretivo da bolsa e tentou ajeitar o estrago. Começou pelo olho esquerdo. Quando ia corrigir o lado direito, lembrou-se do cachorro da vizinha que havia latido a noite inteira e que era tudo culpa dele, se ela precisava usar seu corretivo novinho da M.A.C. numa quinta-feira pela manhã.

Quinta-feira, dia vinte... Ela estava esquecendo de alguma coisa... vinte de dezembro... Ah, droga! Estava atrasada para a consulta com a nutricionista. Havia perdido dois quilos na primeira semana e engordado três nas semanas seguintes. Deixou o corretivo de lado, engatou a primeira marcha e saiu praguejando até o consultório, certa de que aquela magricela impiedosa da Dra. Alice (recalque, é verdade) chamaria sua atenção para o ganho de peso. O que a nutricionista sabia das coisas, afinal? Ela não tinha dois filhos em idade pré-escolar, que iam a um aniversário cheio de guloseimas por semana. E não tinha um marido muito amado, chamado  Mário Henrique, que fazia a melhor picanha do mundo aos domingos e que a deixava com tanta raiva nos outros dias da semana, que ela explodiria se não comesse um chocolate.

A consulta foi como ela imaginava. Com muito jeito, a Dra Alice pontuou a necessidade de estabelecer um padrão alimentar mais saudável, com a introdução de fibras e alimentos crus, integrais, desnatados, com pouco sódio, naturais e inacessíveis. Explicou que seu índice de massa corpórea estava aumentando e afirmou ter certeza absoluta de que Marilu conseguiria se manter saudável. Afinal de contas, ela tinha dois filhos pequenos e precisava se manter bem para criá-los.

Ah, meleca! Os filhos. Já estava atrasada para a reunião da escola, evento esse que iniciava o período de maior terror na vida de Marilu: as férias escolares. Com quem ela deixaria os dois filhos? Como encaixaria um mês de atividades para os gêmeos? Arrumaria uma colônia de férias, uma babá, um milagre, duas avós, três tias e um atestado médico por insanidade mental. Afinal de contas, não poderia levar os garotos para o Fórum.

Céus! O Fórum! Teria uma audiência complicadíssima naquele dia.

As coisas não estavam indo muito bem, ela pensou. Talvez devesse conseguir uma passagem só de ida para Marte, já que as coisas por aqui acabariam em um dia. Às vésperas do fim do mundo, tudo o que ela queria era o fim daquele fotoperíodo. Estava um trapo. Um farrapo de gente. Morta com farofa. Na lona. Acabada. Só o pó da capa, entre outras formas pra dizer que se precisa de uma ida ao salão urgente.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos. Ela ligara para Mário Henrique, avisara que as crianças eram todas dele. Explicou que havia comida na geladeira, roupas no armário dos gêmeos, água no chuveiro, um microondas ligado na tomada e uma esposa ameaçando entrar em autocombustão se não separasse duas horas de prazo para si. Ou três. Ficaria loira, faria as unhas, a sobrancelha, o buço, leria todas as revistas de fofoca do mundo inteiro e quem sabe quisesse uma massagem. Ou não. Talvez ela nem soubesse dizer seu nome completo àquela altura dos acontecimentos.

Voltou para casa. Os gêmeos assistiam Discovery Kids pendurados no lustre da sala. Exagero, ok, mas pulavam no sofá. Havia um prato de brigadeiro na mesa e um Mário Henrique muito concentrado atrás da coluna de esportes do jornal. Foi para o quarto. Quando olhou-se no espelho, quis chorar. O cabelo ficara ótimo, a sobrancelha também. Mas ela passara o dia todo com apenas um lado do rosto sem olheira. Corrigira somente o lado esquerdo. Sentia-se mono-olheira-à-direita. As lágrimas se formaram. Ia desaguar todo o cansaço ali mesmo.

Foi quando sentiu um par de braços a envolver-lhe a coxa. Um dos gêmeos a olhava de baixo pra cima, com cara de adoração e um sorriso de derreter qualquer pessoa.

- Mamãe linda! - ele de derramou em admiração.

E Marilu jogou fora toda sua contrariedade. Com ou sem olheiras, ela era muito amada. E se o mundo acabasse amanhã, como os malucos apregoavam por aí, ela estaria linda, loira e feliz.

- Quem quer acampar na sala? - ela gritou e se atirou para cima dos filhos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Eu e a Julieta




Sem querer menosprezar todas as descobertas científicas feitas até hoje, preciso dizer que conheci uma nova força da natureza. Seu nome? Julieta – criatura imaginária e imaginativa, notívaga por capricho, geniosa por não saber outra forma de ser, pan-polar porque acha que ser bipolar já está meio fora de moda, leitora compulsiva, criativa por nascença, carente por parte de pai, exigente por parte de mãe, detentora das minhas ideias e determinada a fazer de mim o que bem quer.

Descrever o aspecto físico da Julieta é tarefa quase impossível, porque ela muda como o formato das nuvens. Para ser mais específica, acho que nunca soube qual é a sua verdadeira aparência. Algumas vezes, a danada me aparece aqui em casa usando um vestido justíssimo de tecido brilhoso, com cabelo ruivo ondulado, luvas sete oitavos e delineado nos olhos; outros dias ela surge do nada, pulando feito uma pipoca, com cabelo preso num rabo de cavalo, short jeans desfiado e tênis, mascando chiclete e gesticulando feito doida. Já quis ser velha, já virou criança. Já cismou de usar vestido longo de época e citar Jane Austen. De tudo ela já fez, exceto se conformar.

Quando a Julieta resolve que é hora de escrever, eu que me vire, porque não há forma de convencê-la do contrário. Meia noite, duas horas, cinco da tarde, não importa. Às vezes ela sai de algum passeio e pensa “bem que eu poderia ir ver a Fernanda”. E me acha, onde quer que eu esteja, não importa a atividade, a disposição ou o estado de espírito. Quando a Julieta decide que é hora de produzir, é uma loucura.

Acontece que ela está pouco se lixando para o mundo dos adultos. Não quer saber se eu estou trabalhando, comendo, andando de metrô, dirigindo ou cambaleando de sono. O que ela quer é ser ouvida. E obedecida. Aí começa a jogar todas as ideias de uma vez  no chão. Abre todas as minhas gavetas mentais e eu que me vire pra lidar com a bagunça. Vou catando daqui e dali algum trecho, uma fala, um pensamento e juntando tudo até formar um texto - que ela avalia, corrige, comenta e depois aprova -ou não.

Há dias, entretanto, em que ela se esconde. Sai para um passeio com a Dona Expedita, vai às compras com a Isaura ou simplesmente sai andando por aí, observando as pessoas, os lugares, as paisagens e tendo ideias. Nesses dias, posso procurar o quanto queira, a Julieta simplesmente não aparece. Só lá pela meia noite, quando eu já desisti de implorar e estou pronta pra dormir. Aí eu digo que estou cansada e preciso de repouso. Ela me olha com uma cara de cachorro que caiu da mudança, dá duas ou três piscadinhas e explica que teve uma ideia ótima - uma que pode não estar disponível quando o dia amanhecer.

Nem preciso dizer o que acontece em seguida, não é? Sou uma alma fraca, leitor querido. A Galera Aqui de Casa - essa maloca de personagens doidos, geniosos e absolutamente adoráveis - me tem nas mãos e trabalha comigo como quem brinca de massinha.

Beijinhos
Fê Coelho

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Saci e os Tempos Modernos



Já vai longe o tempo em que o Saci perdia tempo trançando crina de cavalo, fazendo as cozinheiras perderem o ponto do bolos e assustando os viajantes. Já passou a época em que ele ficava por aí assoviando, fumando cachimbo e colocando cinza em comida. Sim senhor. O mundo evoluiu e o Saci, esperto que é, acompanhou todas as mudanças.

Ele aproveitou tudo o que a modernidade trouxe de novo e associou às inovações, suas antigas travessuras. O resultado? Uma gama infinita de traquinagens que beiram a crueldade. Sim, porque se antes ele achava engraçado esconder enxadas, agora ele descobriu o prazer de esperar os últimos quinze minutos de um download enorme para provocar uma queda de energia.

O Saci ainda mantém os velhos hábitos - esconder, estragar, bagunçar e rir da nossa cara - mas agora essas atividades estão mais refinadas, por assim dizer. Se antes ele estragava os arreios e sumia os freios dos cavalos, agora ele aprendeu a sumir as chaves dos carros. Se ele se divertia fazendo vendaval em dias de varal cheio de roupa limpa, agora ele dá um jeito de soltar graxa nas roupas dentro da máquina de lavar. O danado aprendeu a descobrir quando as pessoas estão ansiosas por uma ligação e dá a dica para os operadores de telemarketing, só para ver a decepção estampada no rosto da criatura que pega o celular no susto.

Ele descobriu um jeito de estragar as impressoras exatamente quando você mais precisa delas; de sumir com todas as canetas disponíveis num raio de cinco quilômetros, quando se precisa anotar um recado urgente; de provocar engarrafamentos históricos e puxar o freio de mão de todos os carros na frente do mais atrasado da pista. O safado aprendeu a colocar o pé na frente das mulheres quando elas saem com saltos novos, de fazer as unhas recém-pintadas se encherem de bolhinhas, de bagunçar os cabelos recém-escovados e de sumir as melhores roupas quando se quer sair.

Engana-se, é bom que se diga,  quem pensa que suas atuações estão restritas ao ambiente doméstico. Num banco, ele é responsável pelas diferenças de caixa; nas ruas, ele montou Escolas de Formação de Flanelinhas; nas escolas... bem, nas escolas ele não faz nada, porque a criançada em si já deixa todo mundo doido. Ele some relatórios, acaba com o papel das bobinas nos momentos mais inapropriados, trava os computadores, entre outras maldades.

Existe, entretanto, um lugar onde ele adora ficar: enfermarias em geral. Ah, leitor querido, você não imagina o que um Saci é capaz de fazer em uma enfermaria. Ele dança ciranda entre as camas e vai aprontando: aperta os botões das bombas de infusão, de maneira que todas apitem ao mesmo tempo; belisca as crianças, de maneira que todas chorem em uníssono; joga pó de vômito para cima, de maneira que as pobres (e já descabeladas) enfermeiras tenham que se dividir entre um e outro pobrezinho que está botando os bofes pra fora. Não bastasse isso, ele solta os curativos (ou molha), obstrui acessos venosos, esvazia os frasquinhos de medicação (de maneira que só fiquem faltando cinco gotas para inteirar a dose) e faz as pessoas pedirem algo exatamente quando você está terminando de contar a quinquagésima terceira das sessenta e quatro gotas de uma medicação. E ri, como ri, esse infeliz.

O mais incrível de tudo é que quando ele se cansa da brincadeira, vai embora sem quê nem porquê. Aí as impressoras voltam a funcionar, as canetas aparecem, as crianças voltam a comer, os computadores destravam, a chave do carro aparece e a vida segue, serena e tranquila, como se ele nunca houvesse aprontado.

Eu, todavia, não me deixo enganar. Sei que ele é persistente e que fica à espera do momento mais engraçado para agir. É por isso que, quando eu passo por um redemoinho, fico imaginando: ah, se eu tivesse uma peneira aqui... prendia esse danado e ia ter sossego.

Beijinhos
Fê Coelho



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Os ipês não mentem




Melissa parou sob o velho ipê amarelo. Olhou para o alto, para sua copa majestosa e colorida, viva e contrastante com a paisagem cinzenta e retorcida do cerrado há meses sem chuva, e se emocionou. Não por algum motivo óbvio; não por um sentimento declarado ou pela falta dele. Seus olhos marejaram por algo muitíssimo mais singelo que isso: ela vira uma casa de joão de barro e nenhuma imagem poderia tê-la feito sentir algo semelhante.

Enquanto seus olhos se voltavam para o céu, tentando captar a grandiosidade de seu lugar favorito no mundo inteiro, o sol ofuscou seus olhos. Ela os desviou e, quando recobrou o sentido, lá estava a minúscula construção de barro - tão singela, tão sutil, tão simples em sua combinação ton sur ton com as cores do cerrado, que dificilmente Melissa a teria visto. Acontece que os olhos só veem o que estão preparados para captar. E aquele, indubitavelmente, era o seu momento.

Voltara à pequena cidade como uma vencedora: envergara um tailleur, saltos altos e um sotaque carregado de importância. Retornara vitoriosa: deixara para trás os dias de míngua, o pão com manteiga e os velhos amigos. Agora tudo em sua vida era glamour e, acredite, ela tivera uma boa dose disso. Acontece que algo como um comichão estava sempre presente e ela sabia o que era. Tratava-se do prurido ininterrupto de tudo o que não fora e que ela jamais saberia como poderia ser.

O inacabado era um espinho que não se podia retirar. Era uma espécie de certeza dúbia. Certamente teria sido maravilhoso, mas seria o suficiente? Melissa precisava viver, experimentar, se provar e se afirmar. Não. Não teria sido o suficiente, ela repetia para si mesma.

Talvez tivesse uma casa simples, pequena e confortável. Talvez conseguisse ter belos finais de tarde, enquanto balançava uma criança em seus joelhos. Ou, quem sabe, encontrasse prazer em esperar que o dia chegasse ao final, para então repousar a cabeça no peito largo e acolhedor de Tiago. Talvez tudo isso fosse realmente incrível, mas ela provavelmente se sentiria sufocada. O mundo era um cardápio demasiado tentador para se ignorar.

E lá estava ela, loura, alta, rica, bem resolvida, poliglota e absolutamente embevecida pela simplicidade de uma casa de joão de barro. Teria jogado para longe de si um futuro feliz? Essa era a parte que ela mais detestava no fato de fazer escolhas. O que ficava para trás era sempre muito incômodo, sempre atrativo. Ou será que o momento atual é que não conseguia ser bom o suficiente para fazê-la se aquietar? Ah, como ela odiava sentir-se encurralada por escolhas que sequer poderiam ser feitas novamente.

Percebendo a frustração tomar conta de si e manifestar-se como um gosto amargo na boca, Melissa baixou os olhos. Passou a mão pelos cabelos e já ensaiava mais uma das mentiras compassivas que costumava inventar para si mesma, quando uma mão tocou seu ombro. Quem sabe tenha sido o susto, ou algo mais - não há como afirmar - mas tudo em si ficou alerta de uma forma que há muito não ocorria.

- É a mesma casa daquele tempo. - Uma voz grave, baixa e macia falou e Melissa derramou duas lágrimas.
- Como você sabe? - Ouviu-se perguntar.
- A árvore ainda tem a nossa marca.

Melissa contornou o ipê. Sua respiração era superficial e ela sentia-se uma marionete cujos movimentos não são mais que um mover de cordas. Estava lá - o coração mal entalhado, as letras juvenis e cheias de uma esperança tão pura que provocava dor à mera lembrança. Estava lá, logo abaixo da casa de joão de barro, o lugar onde juraram ser um do outro até o fim dos tempos.

Virou-se e, sem quê nem porquê, beijou-o. Não como as crianças que foram, mas com toda a certeza que as escolhas lhe deram e tiraram ao mesmo tempo. E as lacunas foram sendo preenchidas. E Melissa descobriu o que a faria feliz, o que complementaria tudo aquilo que ela lutou para se tornar.

- Acredita que é possivel? - Melissa perguntou, fitando os olhos negros de Tiago.
- Ouvi dizer que os ipês não mentem.


Beijinhos
Fê Coelho

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Um dia de cão

                                                                             Imagem: revista Exame




Dizem que todo trabalho tem coisas boas e ruins. Eu até concordo com essa afirmação, mas preciso dizer que a proporção usada para distribuir essas coisas varia muito.

Vou contar o que me aconteceu hoje, mas antes me permita afrouxar o nó da gravata e me servir de uma dose de whisky puro.

Pronto. Agora posso contar que porcaria de dia eu tive.

Eu trabalho em um banco privado. Sou gerente. Por favor, esperem até que eu termine de contar a minha história, para iniciar suas preces.

Todos os dias, tenho uma pilha de papéis para checar. Documentos e propostas entulham a minha mesa e eu pareço ser incapaz de acabar com os montes de bilhetinhos. Sem contar as metas. Ah se eu pudesse... Se eu pudesse ser um animal mítico, gostaria de ser um dragão, só pelo prazer de ver aqueles papéis indo pro espaço. Juro que ia caprichar na labareda. E junto com os papéis, ia queimar o traseiro do estagiário novo. O que nos leva ao assunto principal. Meu dia de cão.

Estava eu, distraído com meus xingamentos mentais acerca da quantidade de papéis em minha mesa, quando o maldito estagiário chegou. Veio todo sorridente e solícito, se oferecendo para entregar meus papeis para o chefe – que diga-se de passagem, eu odeio. 
Eu, burro que sou, aceitei a ajuda. Quando o magricela perguntou que pilha deveria levar, eu apenas apontei com o queixo, fazendo um bico junto. Minha mulher já me disse para parar com essa mania. Quem sabe agora eu aprendo. O diabo é que o telefone tocou bem na hora que o estagiário pegava os papeis. Como eu não sinalizei direito, o infeliz levou uma pilha de rascunhos e, acredito eu, colocou sobre a mesa do chefe, arreganhando os dentes.

Não haveria problema nenhum se, entre os rascunhos não estivesse um desenho. Não haveria problema algum se fosse um desenho qualquer. O inferno é que o desenho em questão era um bonequinho de vudu, todo espetado e com o nome do chefe em cima. O Valadão havia me matado de raiva no dia anterior e eu ainda não havia me desfeito de minha obra-prima.

Quando percebi o que havia acontecido, senti que poderia morrer ali mesmo. Talvez eu devesse ter me esforçado para conseguir morrer. O Valadão ia arrancar o meu couro. Droga! Eu tinha de descobrir uma maneira de tirar aquele maldito desenho da sala do chefe. Precisava mesmo de um milagre. Acreditem ou não, o milagre veio.

Tenho um filho adolescente, que para dizer o mínimo é o cão. Esta semana, ele foi pego na escola com alguns exemplares de peido alemão. Foi suspenso, depois que empestiou toda a sala de aula e fez 25 adolescentes vomitarem até as tripas. Como prova do crime, eu levei para casa o saquinho com os pequenos pavis fedorentos, que ficaram dentro da minha pasta.

Juro que não imaginava o efeito, quando acendi cinco deles no corredor da agência. Meus amigos, aquela coisa fede muito! Consegui tirar meu chefe da sua sala. Para ser sincero, ele não ficou no trabalho. Teve que ir para casa depois que eu vomitei em sua camisa. A agência teve que ficar fechada. Não havia a menor condição de qualquer humano permanecer ali dentro, por pior que fosse seu olfato.

Resolvi o problema com meu desenho, mas arranjei um infinitamente pior. Claro que as câmeras internas me pegaram em ação. Não preciso dizer que fui demitido. Agora vem o cúmulo do ridículo: virei ícone da subversão na escola do meu filho. Os meninos me acham genial, as meninas me acham nojento. Os pais me acham um mané. 

Se eu pego aquele estagiário, juro que acabo com ele.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Inacabado


- Você está começando a me conhecer. - Ela afirmou, olhando para o céu estrelado.
- E isso não é bom? - Ele questionou.
- Na verdade, não.
Levantou-se, sacudiu seus sonhos - jogando todos eles no chão - e tomou o caminho do desconhecido. Não olhou para trás.
- Não me procure em meus escritos. - Ela disse. - Posso simplesmente não estar lá.
E deixou atrás de si um rastro brilhante de coisas inacabadas.
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