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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ela sorriu. Deve estar tudo bem




Ela sorriu.
Há um tempo ninguém via um sorriso novo, mas agora ela sorriu. Deve estar tudo bem, certo?

Claro. Ela está feliz. Sente-se plena e realizada e tudo está funcionando perfeitamente. Ela quer que você saiba que tudo está em seu lugar e que os dias são azuis. Há flores nos vasos, luz entrando pela janela e fazendo com que os grãos de poeira dancem ao som de uma música feliz. Ela está bem, acredite e siga. É o que ela quer.

Ela se penteou e mostra a maquiagem impecável. Acredite, ela está bem. E pare de se perguntar se é mesmo verdade. Simplesmente se convença e quem sabe ela também o faça.

Porque a bem da verdade é mais simples dizer que sim, a vida está nos trilhos certos. As nuances são difíceis de explicar e as pessoas são apressadas. Nem todas as palavras estão engatilhadas e prontas para traduzir o que nem ela mesma entendeu. Então, para todos os efeitos, acredite no sorriso que seus olhos viram.

Afinal de contas, o tempo é escasso e ela anda cansada. Não quer fornecer entediantes explicações multifacetadas sobre suas inconstâncias. Tampouco está interessada em elucidar o que mudou e o que se mantém. Ela está tão cansada... Apenas deixe que ela sorria e não pergunte nada.

Seja gentil e aceite um sorriso sem elucidação. Isolado. Da moldura para fora. Sem pretensão. Sem intenção. Sem motivo. Sem a necessidade de resposta. Apenas um sorriso gêmeo de tantos outros que já foram. Explicações são coisa cansativa - enfadonha, até - e ela não quer dizer mais nada. Ela não tem o desejo de enumerar fatos, nem listar pensamentos. Vivê-los é o bastante.

Houve um sorriso e haverá outros, mas cuidado com as inferências. Quem sabe ela esteja se convencendo daquilo que parece ser. Superfície tranquila e, abaixo dela, as turbulências. Ela é boa nisso de ser forte, afinal. Ou nada disso. Vai ver está realmente tudo bem. Ela nunca prometeu ir além dos fatos.

Os fatos, as fotos e os sorrisos são de quem os testemunhe. Os sonhos, o sentir e a vastidão do mundo que se encerra dos lábios para dentro são dela. Somente dela.


Fernanda Coelho.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Das gavetas



Alguns textos, confesso, foram destinados às gavetas. Alguns escritos são meus, tão profundamente meus, que se recusam a conhecer as pessoas. São palavras que não cabem na vastidão do mundo interior, que se perdem na agonia de não ser e acabam rompendo caminho dedos afora. Mas feito isso, simplesmente não sabem mais pra onde ir.

Ah! mas essas palavras, atrevidas e melindrosas, se fazem escrever só para se afirmarem; só para mostrar quem manda mais. E depois de escritas se fecham num silêncio devoto, numa timidez infinita, e acabam se escondendo atrás de um outro texto qualquer.

Ah! Se elas aceitassem o olhar do outro... Ah! se decidissem passear gaveta afora. Quem sabe seriam mais felizes, quem sabe mais leves. Quem sabe encantassem mais que outras. Porque são belas. Como são belas, as danadas! Escritora desonesta? Não creio que seja esse o caso. Talvez sejam as palavras que são honestas demais, puras além da conta, desprovidas da couraça de conveniência que vai bem com esse mundo. Talvez sejam palavras em carne viva, que simplesmente estão desprotegidas demais para enfrentar o espaço além da gaveta.

Todo escritor, creio eu, tem seus textos frágeis. Todo mundo tem suas palavras de fio desencapado, prontas pra ferir. E todo mundo tem suas linhas tortas. Cada pessoa guarda sua coleção de verdades inconfessas, de mágoas bem acolhidas e de sonhos embrionários que precisam de proteção.

Todo mundo tem uma parte de si que se mostra e uma que se oculta. Uma verdade que se encolhe e outra que se espreguiça. Cada um tem sua névoa, sua quota de bruma. E somente alguns - os mais brilhantes, os mais libertos, os mais ousados - conseguem trilhar seu caminho para além de tudo isso.

Parte de mim inveja essa capacidade; outra parte comemora. Parte de mim admira, outra parte se atemoriza.

E sinto-me gestante dos textos que não querem nascer.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre Quebra-cabeças e a Vida

Dia desses, pensei que viver é algo como montar um quebra-cabeça sem nunca ver o desenho na caixa. Peça vai, peça vem, a gente vai montando os dias sem nunca saber ao certo o que vai ser. Podemos imaginar, supor, tentar prever. Todavia, o desenho completo, colorido e rico, só nos é apresentado lá bem longe,  onde a vida faz a curva.

Não nos é dado antecipar o quadro pronto; apenas uma pecinha por vez. Um dia, um sorriso, um encontro, um curso, uma decepção, uma coisa de cada vez. Cada novidade, uma peça que tentamos encaixar sem saber muito bem a que parte do todo ela pertence.

E assim vamos vivendo, comemorando cada parte que se encaixa e lamentando tudo aquilo a que não conseguimos dar sentido.

E nesse ponto vale a experiência daqueles cujos quebra-cabeças já estão mais adiantados: algumas partes não se ajustam agora, mas logo se adaptarão. Vale entender que alguns momentos parecem desconexos pela falta do que ainda virá,  do que trará o sentido a esse desenho parcelado a que chamamos vida.  Vale compreender a arte da espera, a habilidade de não insistir na peça que teima em não servir. É necessário entender o processo e saber que tudo tem o lugar e o momento oportuno.  A gente só não sabe qual é ele. Pelo menos não até que a conexão se apresente.

E não adianta tentar se guiar pelo quebra-cabeça do vizinho. O desenho dele é outro, com cores diferentes e pedaços diversos.  Ele não é mais bonito ou menos interessante; é apenas feito para outra pessoa. E, exatamente por isso, seria uma tolice sem tamanho montar a sua vida como se fosse a de outro alguém.

Talvez a tal felicidade passe por isso: encaixar cada peça da vida com alegria,  na certeza de se tratar de um momento único.  Porque a cada pedaço da vida que juntamos, solidificamos o passado. E esse, meu bem, não muda nunca.

O que quero dizer é que,  no fim das contas, não há garantias. Nunca houve. Tudo o que sabemos é que vivemos de não saber. Nos arriscamos na expectativa de que, afinal, sejamos um desenho bonito. E que nossa vida seja um quebra-cabeça que valha a pena ter sido montado.

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sem parar


 O mundo não para,  é o que dizem. Óbvio em certa medida; cliché, até.  Todos sabemos disso, embora só venhamos a experimentar essa realidade quando gostaríamos que ele parasse.
O mundo não para. Por ninguém, nem para ninguém. Ele não para para assistir às grandes tragédias, nem aos pequenos dramas. E não diminui o ritmo para que se aliviem as dores ou se celebrem as vitórias.
O tempo vai.
A vida continua a florescer e a se esvair. Pessoas se encontram e se perdem. Laços se criam e se desfazem e o mundo continua. As buzinas soam, os despertadores tocam, a bolsa de valores sobe e desce, as agendas se cumprem.
E lá se vão os dias .
Porque a vida é algo que,  contrariando todo nosso sentimento de proteção do ego, acontece apesar de nós.  A vida segue. Ela sempre continua o seu curso. Ela não pode esperar que tenhamos revisado todas as boas e más notícias para acontecer. O presente urge em ser passado. Assim como o futuro insiste em se tornar presente.
E dessa forma os passantes seguem ruminando suas questões, enquanto vão vivendo. E vão juntando seus pedaços da melhor maneira possível - entre uma reunião e outra, entre um e outro momento. 
Porque o mundo, ah!, esse não para nunca.
Então talvez o processo de se refazer seja algo como o de pegar folhas caídas numa grande avenida: recolher o que for possível enquanto o semáforo estiver fechado. Talvez a gente se refaça entre um carro e outro, aos sopetões, ou talvez com calma, juntando aqui e acolá o que for possível.  E a gente se refaz sabendo que algumas folhas o vento sempre leva consigo.
E o segredo pode estar em deixá-las ir para que se possa juntar o restante.
O mundo não para nem pela dor, nem pelo amor. O mundo não para, não volta e nem se adianta. Ele simplesmente nos oferece a inacreditável oportunidade de seguir com ele e ver o que acontece depois.
Ora, e o que é a vida, senão um grande convite?
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Maternidade Faixa Branca



Não era para hoje essa crônica. Nem para ontem. Na verdade, estou em débito com alguns leitores desde a semana passada e há apenas dois segundos, eu ainda tinha a minha filha caçula pendurada no meu pescoço. Até que eu pedi "cinco minutinhos pra mamãe escrever uma crônica" e elas partiram para a sala. Nesse exato momento, estão morrendo de rir de algo que não sei bem o que é (um arrepiozinho de preocupação aqui). Sobre o que, então eu queria falar há tantos dias? Sobre o conceito de Mãe Faixa Preta e seu derivado a Mãe Faixa Branca.

A primeira vez que vi essa expressão, foi num livro da Marian Keyes. Uma personagem usou esse termo para falar sobre o quão difícil era lidar com a vizinha - que tinha uma vida toda estruturada, filhos lindos, polidos, educados, talentosos, atarefados e poliglotas. A infeliz sempre sabia o que fazer, tinha tudo sob controle, nunca se exasperava, os filhos não choravam, não davam birra e já escreviam o próprio nome em mandarim (ok, exagerei). E eu preciso confessar: como eu me identifiquei com a sofrida personagem mãe faixa branca!

Outro momento que me fez refletir muito foi a visita a uma grande amiga que acabara de receber a credencial de mãe. Liguei para ela e ofereci ajuda - resumindo, eu ficaria com o bebê para que ela pudesse tomar um banho, dormir cinco minutos, comer algo, essas coisas que a gente precisa fazer e pouco realiza quando se está com um bebê pequeno. Na ocasião, minha amiga me disse - e me sinto traída e traidora até hoje - que ninguém nunca havia falado sobre as partes difíceis. E foi quando eu me dei conta: no que se refere à maternidade, temos a mania de exaltar o que é lindo e jogar o que não for assim tão glamouroso para debaixo do monte de fraldas (porque o tapete já não pode ser usado; sabe como é, o bebê tem alergia). Até aí, todo mundo faz. Mas, convenhamos, tem gente que exagera.

Minha sensação é que, desde o primeiro comercial de margarina e talvez bem antes disso, a imagem de família perfeita venha se refinando e se tornando cada vez mais inatingível. São apenas momentos lindos de puro lazer e deleite, com luz bem posicionada e várias fotos nas redes sociais. As pessoas foram se aprimorando na arte de fazer crer e, corrijam-me se eu estiver enlouquecendo, fizeram dos pimpolhos pequenos troféus que carregam para cima e para baixo. São as mães faixa preta.

Agora a criançada sai das fraldas cada dia mais cedo - afinal de contas o filho da vizinha já saiu. É menina que aprende a ler quando nem sabe que terra não é comida, menino que vira um videogame do avesso aos dois anos e meio, criança que usa termos tão complexos que Ruy Barbosa teria lá suas dificuldades em lidar com ela. Nada contra. Juro, juradinho. Só não entro nessa barca. Sou uma mãe faixa branca.

Entenda, leitor. Eu amo ser mãe. Faço isso com todo o meu coração e não saberia fazer outra coisa da minha vida. Mas confesso não ser perfeita. Frequentemente, acontecem coisas que me fazem pensar "e agora, José?". Cinco vezes por dia, eu respiro um pouco mais fundo. E simpatizo do fundo do coração com uma amiga que certa vez me disse já ter considerado roubar galinhas para ir para a prisão - direto para a solitária - e dormir uma semana inteira. Maternidade é uma coisa boa como não consigo explicar, mas ninguém se engane sobre ser fácil.

E é por isso que eu amo quando me encontro com as minhas amigas que também têm filhos. Aí elas contam sobre os meninos que acordam de noite, sobre os pratos de comida que demoram a eternidade para findar, sobre o banho que nunca começa e depois nunca acaba, sobre o cabelo que aguarda uma ida ao salão há um mês. Minhas amigas que estão na turma de mães faixa branca têm coragem de assumir que ficaram bravas, que os filhos demoram pra fazer o dever de casa e que as toalhas não voltam automaticamente para o banheiro. Elas são solidárias, quando falo sobre aquele livro há meses aguardando ser lido, e sobre o fato de o banho ter virado um momento de lazer.

Quando encontro mães faixa branca, o que acontece é uma sensação de acolhimento, de pertencer e de normalidade que fazem um bem danado ao coração da gente. O que ocorre é que você percebe finalmente: sou uma mãe normal, com crianças normais, numa casa normal, com uma família de verdade. Existimos. Temos uma rotina e alguns atritos, mas amor suficiente para deixar todos os perrengues de lado e seguirmos felizes.

A crônica ficou pronta uma semana depois. E não pense que foi escrita em dois ou três minutos. Entre uma e outra frase, pedi para que o volume da televisão fosse abaixado, preparei leite, precavi contra acidentes diversos e ameacei mandar as crianças mais cedo para a cama. Agora pergunte se eu queria outra vida...

Sobre ser mãe, eu citaria Djavan e Caetano para encerrar o raciocínio: "se tivesse mais alma pra dar, eu daria. Isso pra mim é viver".

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Como os ipês



Se hoje alguém me pedisse um conselho, apenas um, eu diria: seja como os ipês.

Tenho uma queda por eles, é verdade. Não escondo de ninguém o fascínio que essa árvore me provoca quando está florida. É uma época bonita aqui no cerrado: céu azul, ipês rosas e amarelos, alma leve - e umidade do ar abaixo do aceitável. São dias secos, muito secos. A paisagem toda se transforma e o tom predominante passa a ser algo entre o verde e o palha - com uma tendência para esta última tonalidade. E é quando os ipês se apresentam, majestosos, enchendo os olhos e fazendo sorrir sem querer.

Por isso eu digo: seja como os ipês. Tenha raízes fortes e profundas, saiba onde estão elas e busque sempre o que te faz crescer. Creia que suas bases te podem manter de pé. Aproxime-se de sua família. Cerque-se de bons amigos. Tenha raízes vigorosas e vá adiante, buscando sempre a luz.

Tenha a aparência encantadora e o cerne resistente. Saiba ser agradável aos olhos, amistoso e atraia as pessoas. Traga cor e alegria aos ambientes e às relações. Ilumine tudo quanto estiver ao seu alcance. Seja suave. Mas tenha o cerne duro. Seja forte e esteja preparado para resistir aos ventos de agosto. Relacione-se com os amigos, familiares, colegas e desconhecidos de maneira suave e gentil. Mas faça-se forte e esteja preparado para quando a vida chamar. E não se engane: ela chama. Aqui e acolá o cerne de cada um de nós é posto a prova e é bom que ele esteja resistente, ou toda a árvore virá abaixo.

Não se misture à paisagem. Tenha lugar, luz e cores próprias. E não tente impor suas nuances aos outros. Esteja ali e floresça. Mesmo que tudo mais esteja seco. Na adversidade, as flores são mais bonitas. Tenha coragem para se mostrar vivo e presente. Isso é mais do que muitos podem oferecer. Apenas decida não sucumbir às intempéries e siga. Deixe cair as folhas - o tempo se encarregará de trazê-las de volta. E até que isso aconteça, simplesmente floresça.

Entenda que assim como há várias cores de ipê, há vários dons. Descubra o seu tom e se pinte com ele. Dê o seu melhor naquilo que decidir fazer. E não perca tempo tentando ser um ipê roxo, se tudo que há em ti pede para ser amarelo. Exerça os dons que tiver. A todo tempo. A seu modo. E traga para o mundo o colorido que você - e só você - pode dar. Seja um sucesso. Aceite a beleza que há em cada um dos seus talentos e simplesmente continue.

E não se desespere para caber na fôrma. Eucaliptos são bonitos a seu modo - regulares, simétricos, bem distribuídos e disciplinados - mas nenhum deles traz consigo a exuberância de um ipê.

Por fim, deixo de dar conselhos e faço um pedido: seja, por favor, um ipê. Eles não são muitos na mesma região. Todavia, bastam um ou dois para transformar completamente a paisagem.

Na expectativa de que muitos ipês estejam do lado daí, eu me despeço.
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eu que não falava de amor.



E eu, que não falava de amor, agora decidi embarcar nesse trem. Eu, que não falava de amor, resolvi que talvez não doa fazê-lo. Ora, o amor - tema pintado, declamado, aclamado, e estudado é apenas um assunto. É mais uma das faces desse diamante que lapidamos durante anos; um que chamamos vida.

Nunca falei de amor, é verdade. Pelo menos não daquele sentido por duas pessoas que decidem se amar e construir uma história juntos. Não expressando minhas impressões a esse respeito. Houve alguns escapes, é verdade; mas se falei de amor, foi em histórias fictícias. Falei de um amor de mentirinha, daquele que a gente cria para a ficção. O amor da vida real é outra coisa.

Sempre me questionei o motivo de minha relutância. E recentemente tenho pensado ainda mais a esse respeito. Ora, tantas pessoas já esgotaram esse tema! Tantos se debruçaram sobre ele e compuseram mais do que poderíamos supor. Tanto já foi dito, que talvez eu ainda não houvesse encontrado minha própria forma de falar de amor. Creio que nunca tenha compreendido bem o processo, afinal.

Amar não é algo que se aprenda como conteúdo de prova. Não é algo em que se possa provar habilidoso; não em termos acadêmicos e racionais. Pode-se refinar os modos, os hábitos e as crenças. E creio que esse refinamento seja o responsável por produzir um amor sobre qual não haja motivo para censura.

O amor não é algo que se aprenda como conceito. Não. Ele é, antes, algo que se viva com consciência e verdade. Amar é entregar trechos de vida, pensamentos e intenções. É ter consigo um sentimento do qual se orgulhar e para o qual voltar. Todos os dias.

E sim, é amor, aquele bem-querer quentinho no peito da gente. É amor aquele buscar com os olhos e aquela vontade de fazer feliz. É amor aquela paz que te acomete e te diz que o coração encontrou pouso. E é amor a coragem de se admitir enamorado, sem o medo do arrependimento. Sem a censura fria de quem não tem assim tanta certeza.

A gente se preocupa demais com definições, quando - na verdade - o amor só demanda honestidade, verdade de sentimento. Ora, amor é quando a gente sente. E sentir já é o bastante para definir.

Beijinhos
Fê Coelho.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Escritora com Nome de Bicho



Era a escritora miudinha. Pequenininha, com um ou dois degraus subidos, mas com uma vontade enorme de conhecer a escada. Era a escritora miudinha, ainda tentando entender o processo. Peixe pequeno se aventurando fora do coral.

Tem sobrenome de bicho, essa escritora. E tem consigo essa simplicidade; esse não saber, que de tanto não saber acaba descobrindo alguma coisa. Não consegue usar as formas mais rebuscadas da língua. Não sabe jogar purpurina pra todo lado. Toda ela é meio assim, sem rodeios. Pensa o que quer dizer, sente a forma como quer que sintam e escreve. Descomplicada essa escritora com nome de bicho.

Já pensou que queria ser cantora, mas cantora não pôde ser. Não conseguia saber a diferença entre tons e ritmos, nem se adequar ao som. Mas ela sempre viu o pôr do sol em forma de texto. Sempre se encantou com tudo o que viu, com as histórias que encontrou e com as formas de contá-las. Gostava de poesia, aquela criança miudinha, e de livros, e de arte. Nunca soube classificar bem as coisas, mas sentia todas elas. Vive um eterno sentir, essa criatura.

E talvez seja por isso que ela escreve: porque sente além da conta; porque pensa e vira frase a cada esquina do caminho; porque transforma tudo em texto. Alguns ela guarda consigo, outros ela encerra no coração. Mas alguns ela manda espiar o mundo, como a pomba do dilúvio, meio que para saber se é seguro. E os textos obedecem. Fluem, saem e voam. Encontram corações e fazem morada. Ou ficam por apenas um segundo. Ou não ficam. Mas eles seguem viagem. E voltam trazendo notícias do mundo de lá.

Curiosa essa escritora com nome de bicho, que gosta de crianças; que quer ter sempre o olhar como o delas. E que, se dizendo escritora infantil, mesmo assim se sente em dívida de sinceridade com o amigo leitor adulto. Escritora teimosa que fala de tudo, mas que teima em não falar de amor.

Ah escritora danada. Aprende que não é você que escolhe as palavras; elas é que fazem morada no seu coração e passeiam pelos seus dedos. Aprende escritora com nome de bicho. Nessa brincadeira, você é sempre a pega.

Feliz dia do escritor.
Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sobre sementes e a vida



Viver é enterrar sementes, refleti dia desses, enquanto dirigia para o trabalho. O sol ainda nascia. A estrada à minha frente me lembrava das cobertas que tão sonolenta abandonei. E tive certeza: cada dia é um novo plantio. Todo alvorecer traz consigo o germe do que ainda está por vir, daquilo que supomos, sonhamos ou negamos. Cada amanhecer encerra em si uma gama de possibilidades. É como se nos levantássemos para isso: plantar.

Um bom dia que se deseja é simpatia plantada no coração do outro. Os olhares, os sorrisos, as intenções, as ações e omissões – tudo isso é semente lançada em terreno fértil. E não se engane, cedo ou tarde elas acabam dando frutos.  Por onde passamos, em todas as relações que estabelecemos lá estão eles nos lembrando do tempo do plantio, da oportunidade aproveitada ou perdida de se escolher a semente certa.
As sementes que plantamos podem nos render árvores frondosas, sob as quais descansamos após anos. Tanto tempo depois, ainda se pode ver o resultado do plantio. Da mesma forma, podem se tornar espinheiros, que nos ferem e atravancam o caminho. Tudo passa pelas escolhas, pela intenção de plantar, pela decisão de viver.

Viver intencionalmente é escolher o que se vai semear. É não sair por aí apenas lançando ações ao acaso. Viver por querer é ter coragem de separar os frutos que se pretende plantar. Ora, não creio que alguém espere semear laranjas e colher alfaces. Da mesma forma que não se pode espalhar discórdia e esperar ter em troca aquela paz duradoura e amparada por ombros que sempre souberam que podiam se apoiar nos seus. Viver por querer é preencher a própria história com fatos, gostos, afetos e doações.

Claro, não se pode escolher as sementes que plantam em nós. Nem sempre, pelo menos. Muitas vezes somos brindados com algumas com as quais preferiríamos não lidar. Tristeza é coisa que aparece, desamor também. A verdade que plantamos pode não ser a que recebemos. Somos terreno arado e fértil, mas temos a opção de escolher que árvores serão adubadas e regadas. Podemos simplesmente não alimentar aquilo que não acrescenta.

Isso é viver bonito, creio eu. Isso é uma maneira de manter o olhar atento, os sentidos aguçados. É uma forma de tentar tirar o melhor de cada momento em que estamos por aqui, nesse mundão velho e sem porteira. Ter a consciência de que todo dia é um plantio nos faz entender  que cedo ou tarde os frutos chegam. E que sejam doces. E que sejam de paz. E que nos façam crer que cada dia de semeadura valeu a pena.

Beijinhos
Fê Coelho.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pedra e Flor: reflexões sobre ser Enfermeira.



A enfermagem é a arte e a ciência de cuidar; isso é sabido. O que eu ainda não sabia é que a enfermagem, como arte ou ciência, é obra que leva a vida toda sendo construída.  Há coisas e fatos que aprendi durante meus cinco anos em período integral de faculdade. E há outras tantas coisas que compreendi em meus quase nove anos de profissão. Há coisas que foram fáceis de aprender e outras com as quais luto até hoje. E tremo em pensar sobre o quanto ainda há para saber, fazer e sentir.

Percebi - e ando me debatendo com esse fato nos últimos dias - que o enfermeiro é muitas vezes o olho de outro profissional sobre o paciente. Como estamos lá em tempo integral, somos quem decide se algo é simples de se resolver, com os recursos de que se dispõe na hora, ou se é momento de chamar outro profissional. Creiam: nem sempre é fácil fazer isso. Para saber a quem e quando chamar, é preciso conhecimento e discernimento. Reconhecer as grandes e pequenas necessidades daqueles sob nossos cuidados e garantir para que elas sejam atendidas é algo laborioso, que pode nos custar, em alguns casos, até a paz de espírito.

Entendi que não há limite para o que se pode aprender. Academicamente falando, ou não. Cada contato com uma pessoa é o momento oportuno para crescer; não importa se como profissional ou como ser humano. Um bom enfermeiro cresce. O tempo todo. E usa essa capacidade em prol dos que se confiam a ele.

Descobri que muitas vezes, pouco é tudo o que podemos fazer; contraditoriamente, nesses momentos, pouco pode querer dizer exatamente isso: tudo. Não é fácil ouvir os agradecimentos de filhos cuja mãe você não pôde salvar. Esse é o tipo de coisa que dói de um jeito estranho. Dói até você compreender que as pessoas morrem, mas que a maneira com que foram tratadas até que isso aconteça é fundamental. Dói até você entender qual é o seu papel diante de cada par de olhos com os quais você cruza. E até você pensar que aprendeu e se encontrar com uma nova dor, fruto do inesperado. E até você entender que, muitas vezes o coração do enfermeiro é remendado; mas continua acolhedor.

Compreendi que um novo trabalho é uma nova oportunidade; um caminho a trilhar, com suas particularidades, surpresas, vitórias e agruras. E entendi que um antigo trabalho será sempre uma escola, herança e origem para a qual olhar sempre que necessário. No fim das contas, acolher o futuro e honrar o passado continua sendo um bom meio de vida.

Aprendi com a dor, com a incerteza, com a beleza que se esconde bem longe do óbvio. Tive como mestres a convivência de pessoas, o que elas fizeram, o que deixaram de fazer, o afeto e a falta dele. Aprendi com o fazer, com o agir, o ouvir, o esperar, o observar, o sentir. Aprendi muito. Em cada momento de doação, em cada segundo de incerteza e ao final de cada dia, com a cabeça no travesseiro, certa de minha sorte por estar saudável.

Lembro-me ainda das palavras de um dos meus mestres na faculdade, o Dr. Marcelo Medeiros. Certa vez ele nos alertou que um dia seríamos pedra e, no outro, janela. Nunca me esqueci disso. Nunca deixei de pensar que num dia eu cuido e noutro posso estar ali, frágil, janelinha da Silva. E ainda me espanto com a beleza da profissão que exerço: uma que pode ser pedra, mas que opta de todo coração por ser flor.

Feliz dia do Enfermeiro a todos os meus colegas.
Me orgulho da profissão que exercemos.
Beijinhos,
Fê Coelho.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Toda mãe



Existem coisas que acontecem com tanta gente, que acabo pensando que ocorrem com todo mundo. Existem conceitos tão arraigados, que eu acabo crendo serem parte de uma verdade universal. Sei que nem é isso que ocorre, mas gosto de pensar que todas as mães têm algo em comum, além do fato de terem filhos.

Penso que toda mãe tem consigo um amor desvelado, daqueles que não consegue decidir entre um filho ou outro; nem entre os filhos e a própria vida. Penso que esse amor é uma espécie de motor de arranque para os dias e para as decisões. E creio, também, que toda mãe em algum momento faz aquilo que tem que ser feito - apesar da dor, da dificuldade ou da aparência impossível.

Toda mãe, aqui na minha cabeça, tem olhos aguçados - daqueles que veem sujeira atrás da orelha e tristeza escondida atrás do sorriso. Toda mãe capta nuances que ninguém mais percebe, porque o amor amplifica a visão. Ela sabe a hora de abraçar e de dar a bronca; e se não sabe, vai tateando com o coração até descobrir. Ela enxerga o perigo que ninguém mais vê, o amigo que nem é tão amigo assim e o potencial que nem mesmo a gente sabe que tem.

Toda mãe, no meu entender, - e quero muito crer que seja verdade, ou seria realmente muito triste estar num barco sozinha - já errou tentando acertar e já acertou com medo de errar. Todas nós já nos sentimos perdidas, frustradas, amedrontadas e recompensadas na mesma medida. Toda mãe já sentiu dó e se preocupou com a passagem do tempo. Toda mãe já chorou e sorriu; e já sentiu o dia se iluminar à vista de um sorriso.

Creio que são essas coisas que fazem das mães uma espécie de instituição, algo sólido em que se pode confiar. Acredito que essa série de intersecções nos aproximam e criam um dialeto de amor, que só se compreende de fato quando se gera um filho - no ventre ou no coração.

Porque o que fala por nós, mães, é um afeto grande demais para ser traduzido. O que nos move é um coração cheio de um amor transformador, capaz de se doar e de perceber a beleza em frações de segundo.

Penso que toda mãe consegue guardar consigo pequenos trechos de eternidade. Porque toda mãe eterniza consigo as memórias mais refinadas de amor.

Feliz dia das mães!
Beijinhos
Fê Coelho.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Das Coisas simples



Sabe, eu gosto de coisa simples. Gosto daquelas partes da vida em que tudo anda meio descomplicado, quando a gente olha e sabe bem o que vê. Tenho apreço por casa arrumadinha e aconchegante, mas que também te dá vontade de ficar à vontade. Gosto de poesia que fala com a gente, como quem conversa ao final da tarde, tendo o pôr do sol à frente.

Descobri que gosto de textos simples, daqueles que me fazem sentir exatamente o que se quis dizer. Gosto de sorrir ao ler. E se for pra chorar, tudo bem também. O que me deixa feliz é ler a verdade em cada parágrafo. Gosto de escrita que faz carinho na alma da gente. E creia-me, minha alma aprecia um bom cafuné.

Sabe, gosto de gente descomplicada, do tipo que não cobra aquilo que não pode ser entregue. Gosto de gente tranquila, verdadeira, cuja companhia é nada menos que um presente. Amo sorrisos francos, abraços apertados, olhos nos olhos e risada solta.

Andar de mãos dadas, picolé de limão, por do sol, música leve, cheiro de filho, filme com pipoca (e cobertas), lembrança boa no meio da tarde: tudo tão simples e tão bom.

Tenho medo do que andam fazendo por aí, transformando a vida num amontoado de coisas que se precisa ter e ser. Tremo diante das metas que me estabeleceram sabe-se lá onde, porque a maioria delas não me inspira a menor felicidade. Dizem que preciso ser magra, forte, bem-resolvida, sarada, inteligente, pós-graduada, bem-sucedida, bem-amada e bem-nascida. Dizem que preciso sorrir o tempo todo e que se não for assim, talvez eu precise mesmo de um antidepressivo.  Estão tentando me convencer de que, ai de mim, preciso receber declarações de amor publicadas no youtube, ou não vou saber bem o que é ser amada de verdade.

Pois eu digo que pouco me importa o que andam dizendo por aí. Sinto muito mais alegria num dia comum, que em lindos rompantes dourados. Confio mais no que é estável, no que se solidifica. Amo a doçura do cotidiano e das pequenas gentilezas; o sonho que se compartilha, a doação gratuita, a sensação de pertencer que só se encontra quando se pertence de verdade.

Sabe, amo a vida assim, sem tantos penduricalhos. Amo saber que sinto o que está ali para ser sentido, que aprecio o momento que tenho para apreciar. Gosto demais de viver de verdade. Tenho um gosto por demais refinado; um crivo fino, pelo qual só passa aquilo que for suficientemente simples.

Beijinhos
Fê Coelho




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Das Negativas



Estive aqui pensando sobre os revezes com os quais muitas vezes somos brindados pela vida. Estive aqui refletindo sobre quantos trancos uma pessoa tem que aguentar nessa sucessão de dias, fatos e saberes que é a existência de cada um. E matutei sobre as coisas que recebi de amigos e parentes. E acabei me detendo nos presentes que ganhei dos meus pais até hoje. A conclusão a que cheguei foi de que o maior de todos os tesouros que já recebi foi o Não.

O não, bem aplicado, me mostrou que existe uma coisa chamada limite. Fez-me compreender que posso ir até certo ponto com as pessoas; mas dali em diante, não! Entendi que é assim mesmo. Todos possuem um limite claro, ou pelo menos deveriam. A negativa mostra que não podemos tudo, não sabemos tudo, e não, não somos os melhores em tudo. O advérbio de negação ensina. Ah! Como ensina.

Quando criança eu sempre soube que não tinha exatamente os mesmos brinquedos que as outras crianças, pelo simples fato de alguns deles estarem fora do nosso poder de compra. Meus pais nunca tentaram nos dar coisas que não podiam e nos comunicavam claramente os motivos. Isso trouxe algumas consequências terríveis: aprendi a ser honesta no que digo; entendi que não posso ter tudo quanto queira; tornei-me feliz pelo que tenho, deixando o que não está em minhas mãos para lá. Horrível, eu sei.

Além disso, o não dos meus pais me deu forças para enfrentar as negativas da vida. Chamam isso de resiliência - que no bom português, é a capacidade de aguentar trancos, de voltar ao estado inicial depois de algum impacto. E não se engane, a vida nega. E como nega! Seu aumento não sai. O carro que você quer comprar só pode ser entregue na semana que vem. Você é reprovado em algum concurso por uma questão. O vestido lindo só está disponível num tamanho dois números menor. A fila demora. O dinheiro acaba. Algum amigo se afasta. A pessoa por quem você suspira simplesmente não te ama. Ou não te ama mais. Ou trai a sua confiança. Ou todas as coisas juntas. E não, você não vai poder gritar com o gerente, nem bater na velhinha que leva um ano pra atravessar a faixa de pedestre quando você está atrasado. Você não vai poder sair da sala do chefe batendo a porta, nem quebrar o braço da mocinha na balada porque ela não quis te beijar.

O não, aplicado na infância, é como vacina. Ele nos deixa mais fortes e resistentes às frustrações. E aplicado na vida adulta ele nos permite crescer. Vacina dói. O não também. Mas existem dores que se vão indo tão de mansinho para longe, que você só percebe que elas se foram quando já nem se lembra mais de procurá-las. E o que sobra é aprendizado.  

Não é pessoal. A maioria das vezes é só o vento soprando do jeito errado. Ou o tempo do outro que está reduzido. Ou o dinheiro. Ou os motivos. Ou a vontade. Ou quem sabe seja mesmo pessoal. Mas quem disse que podemos agradar sempre? Esse é só mais um não que a vida nos empresta, para nos lembrarmos que não somos o centro do universo. 

Por fim, preciso dizer o mais importante: o não me ensinou o valor do sim. E é a ele que me agarro todos os dias. Sim, o dia está lindo. Sim, tenho mil motivos para sorrir. Sim, tenho amigos leais. Sim, estou viva, forte e cheia de possibilidades de construir uma vida repleta de cor e luz. Sim, posso agregar tanto amor quanto queira. Porque sou responsável pelas escolhas que faço.

Acolho o não como professor. Recebo as negativas da vida como lição.

E a maior de todas as lições é que não preciso ser correnteza brava, que destrói as pedras pelas quais passa. Posso ser regato manso, que contorna os obstáculos e simplesmente vai. Pra frente, pra longe. E se perde da vista da gente, nalgum ponto alaranjado de ocaso.

Beijinhos
Fê Coelho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Da Finitude



Há muito, leitor, tenho contigo uma dívida de sinceridade. Várias vezes expus tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar. Algumas delas, todavia, permaneceram inconfessas. Tenho essa característica, que para um escritor pode se tornar um defeito: tenho ciúmes de certos pensamentos. Alguns deles são tão meus, tão profundamente meus, que sinto pesar em dividi-los. Ocorre que algumas vezes o copo transborda e não há maneira de sossegar as ideias, a menos que alguns pensamentos sejam compartilhados. Pois bem, falemos sobre o fim.

Nunca fui pessoa de escrever sobre relacionamentos. O maior motivo para isso é que não se consegue nunca um distanciamento ideal - nem de assunto, nem de fatos, nem de tempo ou de encarnação. Ainda assim, creio que já possa dizer uma ou duas coisas com propriedade. Talvez isso alimente em mim a sensação de estar me tornando uma escritora mais honesta. Falemos, leitor querido, da finitude.

Então acabou. Tudo o que deveria silenciar é dito e, ironicamente, aquilo que não se quer ouvir são as únicas palavras disponíveis. As verdades e mentiras piedosas se penduram no silêncio, como um móbile a entreter um interlocutor meio pasmo. Os clichês vão chegando em fila indiana e nada mais faz sentido, porque é oficialmente o fim.

Você pode escolher vários caminhos: tomar seis (ou seriam sete?) latas de cerveja em sequência, ligar para todas as amigas (disponíveis ou não) e chorar até virar do avesso. Como queira. O fim é seu e você faz dele o que bem entender, certo? Até certo ponto, sim.

Acontece que a vida bate à nossa porta. Ela sempre bate. Os dias continuam sua interminável sequência de amanhecer e anoitecer. O cotidiano exige. E lá se vai você, não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido. A vida acontece apesar de nós, de tudo o que sentimos, desejamos ou lamentamos. A vida simplesmente é.

Pode-se resistir, deitar-se e chorar por colo e mingau de aveia? Ora, sim. Mas não recomendo. Reter a tristeza traz amargor. Tanto quanto fingir que ela não existe.

Depois do fim, iniciamos um processo de nos encolhermos para ser novamente apenas um, ou de nos expandirmos para valer por dois. E embora saiba que todos os dois processos são doloridos, posso dizer que tenho preferência pelo segundo, pois sinto que crescer e enfrentar seja algo mais bonito que se encolher até que os problemas deixem de perceber sua existência.

Então você reavalia, repensa, refaz. Você inventa uma maneira de preencher vazios e de substituir coisas que eram tão suas. Porque, de repente, não há mais aquelas tardes de domingo, nem o estar deitado no sofá da sala por não se ter outra ideia melhor. De uma hora para outra, os planos se desfazem e faz-se mister reinventar uma rotina que tinha se adaptado para agregar.

Então o fim chega e você sabe que, de alguma forma, algo seu se foi com outra pessoa. E percebe que se importa com o tratamento que será dispensado a esse pedaço seu. Depois do fim, pode ser que sobre um desejo contido de que aquele pedaço seu que se foi ainda seja capaz de produzir algum encanto. Por outro lado, o fim, quando apresentado repetidas vezes, pode nos ensinar que tudo o que o outro leva de você é um alívio enorme. Cruel, talvez. Mas que atire a primeira caixinha de lenços quem nunca se sentiu assim.

Fico imaginando do que, afinal, sentimos falta quando o fim acontece.

Como num filme realmente bom, daqueles que nos fazem lamentar os créditos, o término nos tira de um estado de contentamento. Momentos bons são recolhidos e a sensação (tenhamos cinco ou cento e cinco anos) é de que foi tudo prematuro. A vida se estica e encolhe; você sofre, chora, sorri e se refaz. Então percebe que a saudade maior é a que você sente de você mesmo; da versão de você que tinha o contato com o outro. A saudade é da felicidade que chegava junto com os olhos nos olhos, com o beijo na mão, com o abraço apertado e com o beijo que só ocorreu porque você não encontrou motivo para recusá-lo. A saudade é da sensação de benquerência; da ilusão de ser o primeiro pensamento de alguém. O pesar é pelo que não volta.

Mas a vida é essa. A finitude permeia tudo quanto nosso coração alcança, nos lembrando da característica quimérica dos nossos dias. A finitude é certa. Tudo mais é lucro e sorte. Tudo mais são apenas tentativas.

Quem disse que seriam apenas flores? Bem que uma grande amiga uma vez me disse: "o coração do outro é terra que ninguém pisa".

Beijinhos
Fê Coelho


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Véspera - uma crônica sobre novos sonhos



A meio passo de realizar um sonho cultivado por anos, com empenho e olhos brilhantes, me pergunto: e agora, José? Sei que parece estranho; que a realização dos sonhos deveria ser uma espécie de guia nessa sequência de abrir e fechar de olhos que é a vida. Sei de todas essas coisas. Todavia, hoje, às vésperas de ver o fruto do meu trabalho, me questiono. E agora?

Véspera sempre foi uma palavra que me intrigou, desde criança: a véspera de natal, véspera de provas, véspera do aniversário. Ora, pareceu-me durante muito tempo que a véspera era mais importante que a data esperada em si. E não seria? Afinal de contas, até percorrermos os segundos pelos quais esperamos, tudo o que temos são possibilidades. Ah, leitor, o universo das possibilidades é encantador e amedrontador em medidas iguais. Tudo pode ser: bom ou ruim; realidade ou apenas monstros embaixo da cama. A véspera é aquilo que ainda não é palpável. É uma espécie de fronteira entre o que era sonho e o que se torna realização.

Disseram-me, uma vez, que eu estaria riscando um  item da minha lista, ao realizar um sonho. Acontece que não foi isso o que ocorreu. A possibilidade de conseguir algo há muito tempo esperado se tornou o index para inúmeras outras aspirações. É como se sentir um degrau sob meus pés houvesse me dado a certeza de que ali há uma escada - uma que eu sempre quis conhecer.

E é por isso que eu vou, leitor, mesmo sentindo uma pontinha de medo; mesmo correndo o risco de me decepcionar. Se tem uma coisa que andei aprendendo é que decepção é um risco que assumimos para viver bonito. Não há garantias. Nunca houve. Não há meios para saber até onde vai o caminho de cada um de nós. Porque a vida é assim mesmo, melindrosa, afeita às surpresas.

Traduzindo e citando livremente uma música de que gosto bastante, afirmo que que "não posso dizer onde a jornada vai terminar, mas sei onde ela começa". E ela começa aqui. Nesse ponto que não sei muito bem qual é, mas que sinaliza o início de muito trabalho e de uma busca por uma carreira que - acredito eu - vá se mostrar a mim, um degrau após o outro.

Esta não é apenas a véspera da realização de um sonho, mas do surgimento de tantos outros. E se isso trouxer o risco inerente da decepção, tudo bem. Porque mais importante que o sonho realizado e pronto, entregue prêt à porter, é a construção de cada um deles.

Muito mais bonitos que um sonho que se realiza, são os que nascem a partir daí.

E vamos em frente!
Beijinhos
Fê Coelho


sábado, 23 de novembro de 2013

Mingau de leite - uma crônica sobre a memória do amor.



De todas as coisas simples, uma das mais singelas que conheço é a lembrança do amor que recebemos. Ela pode estar contida em qualquer objeto; pode se esconder em qualquer paisagem e se revelar com qualquer sabor, cheiro ou toque. A verdade é que a lembrança do amor está em tudo o que pudermos experimentar, mesmo que seja uma colherada de mingau.

O leitor não me julgue doida. Ou julgue, como queira. Fato é que hoje, numa colherada de mingau de leite encontrei a lembrança de amor que precisava para acalentar uma noite de sábado, apreciada entre um e outro plantão de doze horas, longe de todas as pessoas que eu queria ter por perto. Mingau poderoso? Não, leitor. Poderosas são as lembranças de uma infância e uma vida repletas de amor.

Mingau de leite me lembra dias e dias na companhia de minha mãe - linda, tão linda quanto meus olhos infantis podiam enxergar - cansada, depois de horas de trabalho e ainda assim, amorosa o suficiente para se esforçar um pouco mais e ir para o fogão fazer mingau para os filhotes. E me lembra de dias de chuva, quando eu e meus irmãos pouco tínhamos para fazer, exceto jogar baralho com nossos pais e brigar por coisas vãs. Sabores simples, de uma vida simples e saborosa.

A memória do amor que recebemos é alimento para o amor que entregamos. É lembrete que o coração deve ler todos os dias, antes de pensar em fechar as portas. É o próprio amor, assumindo o lugar de professor e nos ensinando a amar. A memória do amor é remédio contra o amargor; é amortecedor para a dureza da vida. É aquilo que confere valor genuíno a uma lembrança que, sem esse sentimento, seria apenas legalzinha.

O amor que recebi é tão bonito, tão leve e tão simples, que consigo encontrá-lo até numa colher de mingau fumegante. Só posso concluir que o amor não seja algo assim tão complicado, afinal.

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre o que nos guia



A estrada costuma se apresentar a mim como um bom lugar para pensar. Talvez por estar sempre sozinha, talvez porque a vastidão do horizonte me faça refletir. Ontem, entre uma curva e outra, atenta à sinalização horizontal, praticamente perseguindo uma faixa branca contínua, um pensamento se apresentou: no final das contas, todos temos uma linha que nos guia vida afora.

Muitas vezes, esse guia é um objetivo, um plano bem traçado, ou uma ideia insistente. Noutros casos, o que nos serve de referência é a religiosidade. E há quem se paute apenas por princípios. Fato é que algo se presta a nos orientar o caminho, as curvas e as escolhas.

Entendo que amiúde queiramos nos referir à vida como algo caótico, sem sentido, solto no espaço e no tempo. Algumas pessoas podem, inclusive acreditar que vivem, de fato, à deriva. Todavia, essa escolha de não se guiar por nada já é traçar um referencial sobre o qual serão vividas as horas e meses.

Estrada sem orientação é ambiente propício para acidentes. Nau sem farol é propícia à deriva. E pessoa que não reconhece aquilo que a impulsiona não sabe muito bem para onde ir.

Não que precisemos olhar a faixa branca o tempo todo.  A estrada só pode ser aproveitada por olhos que consigam captar tudo quanto ela oferece. A vida é mais bonita quando nos prestamos a vivê-la em sua plenitude. Mas vez ou outra, numa curva perigosa, num momento de decisão, é bom nos atentarmos para aquilo que nos guia. Manter os olhos fixos no que nos orienta é uma boa forma de seguir o caminho para onde deixamos nossos sonhos.

E que venham as curvas, os morros e as longas faixas brancas. Pois a vida é presente. E presente a gente aproveita!

Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Tão Simples



Desconfio que a felicidade seja uma senhora esperta e sábia, que não se permite rotular. Imagino que seja figura feminina, melindrosa, leve e sutil; simples, mas tão simples, que podemos passar por ela muitas vezes e pensar que não, aquela definitivamente não pode ser a Felicidade. Acredito que caminhe com pés descalços por aí, apenas aproveitando o caminho. Ela não se prende ao relógio, nem ao calendário. Creio que ela simplesmente esteja, sem a necessidade de algo além disso.

Muitas vezes já argumentei que prestamos um péssimo favor a nós mesmos quando transformamos a felicidade Na Felicidade, assim, com letra maiúscula e fogos de artifício. Tornamo-nos reféns de cenas idealizadas, com trilha sonora e luz bem posicionada. Com isso, abrimos mão de perceber a doçura que se esconde nos pequenos contentamentos, nos instantes - esses pequenos pedaços de que é feita a nossa vida. Passamos a nos importar tanto com o fato de conseguirmos um quadro perfeito, que infinitas vezes perdemos a capacidade de apreciar a beleza das tintas na tela. 

E nesse afã de encontrar a tal Felicidade - pura, límpida e com selo de qualidade - deixamos passar por nós as oportunidades de sermos realmente felizes. Sabe, leitor, o mar não trabalha em câmera lenta e nem sempre parece o Caribe. Mas ainda está lá. A areia ainda está sob os pés das pessoas; o barulho das ondas e a maresia persistem. A vida não é videoclipe, mas isso não a torna menos bela - apenas faz dela algo real e possível. Da mesma forma os relacionamentos são apenas relacionamentos. São o encontro de duas pessoas que podem ou não se entenderem bem. Por mais bonita que seja a história, idealizá-la seria tirar-lhe a autenticidade, aquilo que faz dela algo único e, por isso mesmo, tão bonito.

Tentar transformar a vida numa comédia romântica ou num comercial de margarina é injusto. Esperar que a felicidade venha polida, cintilante e musical é tão tolo quanto esse hábito de exagerar nos editores de imagens em fotos de mulheres lindas. É reconhecer que o que se tem, embora lindo, nunca será o suficiente. 

Talvez o grande barato seja aproveitar a beleza do céu num dia de nuvens que se desmancham como chumaços de algodão; ou o cheiro do café coando, ou a gargalhada de alguém que a gente ama. Quem sabe a felicidade se aninhe no calor de um abraço apertado; quem sabe se esparrame pelo verde dos morros que a gente vê durante uma viagem. Pode ser que a Dona Felicidade tenha esse hábito das doses homeopáticas. Ou quem sabe ela não faça nada e apenas nos observe enquanto somos felizes.

Desconfio que a felicidade seja uma mulher esperta; simples, tão simples e silenciosa que nem sempre percebemos sua presença. Mas basta olhar atentamente, que ela está lá. De alguma forma, ela sempre está.

Beijinhos
Fê Coelho.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ter, escrever, plantar e mais. Bem mais. - Uma crônica sobre amizade.



As pessoas dizem por aí que todos deveriam, antes de morrer, ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Na condição de quem já realizou todas essas coisas, posso acrescentar um item? Todas as pessoas deveriam cultivar um grande amigo. Pode ser que eu não me tenha feito compreender. Veja bem: não estou falando dessas amizades amarelo-bebê. Refiro-me a uma amizade daquelas ímpares, que não se encontram em qualquer lugar.

Toda pessoa deveria experimentar ter um amigo que diga exatamente a verdade, porque se importa realmente com os efeitos do que for dito. E deveria também ter alguém com quem seja possível ser absolutamente sincero. A comunicação limpa é um presente muito maior do que se possa imaginar. É prova de consideração, respeito e cuidado. Ser honesto é mais do que simplesmente dizer verdades piedosas: é falar aquilo que pode não agradar, mas que certamente fará crescer. Pessoas assim, autênticas, são raras e devem ser cultivadas.

Todos nós deveríamos ter a chance de saber o que é estar longe de alguém durante muito tempo e, no reencontro, sentir que é como se não houvesse passado quinze minutos. Numa época de tantas mudanças, de tantos aplicativos e atualizações, a estabilidade é uma benesse. Faz diferença ter alguém que nos conheça a fundo, que nos ame e para quem possamos entregar amor. Faz bem ao coração saber que existe alguém nesse mundão velho sem porteira que combina com você - não importa a imagem que o espelho mostre.

Todo mundo merece uma pessoa com quem possa rir até a barriga doer e chorar até quase virar do avesso. Grandes amizades não se fazem com conveniências. Elas transitam pelos extremos, pelo desvario e voltam ao centro, para onde há calma e concórdia; onde amadurecem e se transformam em dias, meses e décadas.

E não se engane: um grande amigo não lhe tira coisas. Ele não lhe tira a paz, a confiança ou a auto-estima. Um grande amigo não lhe tira relacionamentos, ou chances. Ele agrega. Um grande amigo permeia a vida de uma pessoa de forma tão sublime que dificilmente a explicamos. O que quero dizer é que em termos práticos, o que se observa é que amizades verdadeiras não excluem pessoas ou impedem o crescimento. Elas, ao contrário, vão se moldando e se transformando com os movimentos da vida - movimentos esses que são feitos juntos. Porque muito mais que apoiar nos fracassos, um amigo de verdade comemora e convive com as vitórias do outro.

Nem todos plantaram árvores, tiveram filhos ou escreveram livros. Assim como não posso afirmar que todos tenham experimentado essa forma de ser amigo. O que sei - e talvez o leitor concorde comigo - é que amizades assim são um tesouro grande demais para se passar a vida sem conhecer.

Na esperança de que todos encontrem e cuidem bem do seu tesouro, me despeço.
Beijinhos,
Fê Coelho.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Mundo Miúdo




De todas as lentes que já usei para ver o mundo, a mais bacana é - de longe - aquela que as crianças usam. Não apenas pela vivacidade das cores e pelo encanto da descoberta, mas principalmente porque o mundo visto por olhos infantis é muito mais leve. E foi essa, uma das coisas que me fizeram querer escrever para elas.

Quando escolhemos para quem serão destinados os mundos e personagens que criamos, não estamos selecionando público; estamos, antes, nos pondo a serviço de algumas pessoas e nos dispondo a entregar-lhes algo com que se entreter e se encantar. Um escritor tem a obrigação de oferecer o seu melhor aos leitores e isso passa por enxergar o mundo sob o ponto de vista do outro.

Pensar como as crianças é difícil para nós, adultos, especialmente porque passamos a vida sendo treinados para abandonar esse costume. O mundo - preparado para ser sério, eficaz e efetivo - nos tira pouco a pouco a capacidade de sermos descomplicados. Mergulhamos devagarzinho, quase sem sentir, no mundo das nuances, dos meios tons e das meias verdades. E vamos nos distanciando de velhos hábitos como gostar por inteiro, aceitar ajuda e reconhecer nossos medos, entre tantos outros.

Acontece que para escrever para crianças, é necessário fazer essa viagem magnífica para onde tudo é possível: bichos podem falar, canetas esferográficas fazem greve e o céu chora. Empreender essa cruzada é encontrar-se com o que abandonamos ou esquecemos; é revisitar antigos conceitos e repensar os novos. Quando mudamos a lente com que enxergamos a realidade, ela se transforma. Somos apresentados a infinitas possibilidades que podem, inclusive, ser mais atraentes.

Crianças podem ver os fatos por seu melhor lado. A elas é permitido fazer tentativas sem necessariamente se cobrar um desempenho previamente estipulado. Para os pequenos, tudo é descoberta e novidade; a diversão pode estar escondida em coisas grandes como viagens para a praia e pequenas como papel picado. O universo miúdo é a terra das possibilidades, das palavras simples e da clareza de ideias. Deve ser por isso que minha filha me pede para fazer oração de criança

Visto de baixo pra cima, o mundo pode ser meio assustador, com seus casacões pesados, passos largos apressados e bigodes torcidos; pode ser esquisito com assuntos cheios de números indecifráveis, responsabilidades e conveniências. De minha parte, penso que na maioria das vezes esse ponto de vista é adorável. Porque olhando para cima é que enxergamos o céu.

Beijinhos,
Fê Coelho.
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