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terça-feira, 4 de junho de 2013

Lia



Da janela aberta, Lia observava a noite avermelhada de inverno. As nuvens desfilavam inatingíveis, tangenciando aqui e ali algum pensamento solto. Desligou todas as luzes, fechou os olhos, inspirou profundamente e permitiu que o ar frio trouxesse consigo a calma.

Sentia-se cansada, pesada de lembranças que não queria mais carregar. Sabia que seus dias eram o amontoado das escolhas que fizera, assim como o futuro era todo lacunas a serem preenchidas. E o Beto? Bem, ele era um idiota. Só isso.  

Abriu os olhos. Brincou com algumas lembranças ternas, como um bebê que admira um móbile. Os bebês crescem. Ela também crescera. E assim como os móbiles, aquelas memórias agora pareciam absolutamente fora de contexto.

A chaleira começou a chiar. O chá. A chaise. A blusa de lã em volta de si. A bebida quente. O gosto de maçã com baunilha. O Beto. Um idiota. As lembranças se desfazendo. A voz de James Blunt baixa e melodiosa no player. Um suspiro.

"Ah! vontade de ficar apaixonada!". Tomou mais um gole do chá. 
"Passou".

Fê Coelho

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Vende-se



Vendem-se papas na língua, em razoável estado de conservação pelo excesso de uso, mas com capacidade funcional plena.
Vende-se um superego exigente.
Vende-se um fardo de bom-senso.
Vende-se uma cabeça que pensa demais e um coração que sente além da conta.
Vendem-se sonhos.
Troca-se horas de reflexão por horas de ócio mental.
Troca-se um pouco de consciência da realidade por um pouco de inconsequência.

Solicita-se, entretanto, a compreensão dos interessados, visto que a negociante é apegada aos itens em oferta e pode - no último instante - não querer abrir mão deles.

Beijinhos
Fê Coelho

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Inacabado


- Você está começando a me conhecer. - Ela afirmou, olhando para o céu estrelado.
- E isso não é bom? - Ele questionou.
- Na verdade, não.
Levantou-se, sacudiu seus sonhos - jogando todos eles no chão - e tomou o caminho do desconhecido. Não olhou para trás.
- Não me procure em meus escritos. - Ela disse. - Posso simplesmente não estar lá.
E deixou atrás de si um rastro brilhante de coisas inacabadas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Uma crise da ausência



- Uma crise de ausência, por favor.
- Para viagem?
- Não. Para consumo imediato!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Whisky e blues



Alice entrou no bar e mal sentia o chão sob seus pés. Sentou-se próximo ao balcão, deixando sua jaqueta sobre o banco à sua esquerda. Apoiou o cotovelo na madeira encerada, repouso a testa nas mãos e fechou os olhos.

- Vai querer alguma coisa agora? – ela ouviu uma voz acima de sua cabeça.
- Tem alguma coisa que apague um dia muitíssimo infeliz? – se ouviu dizer.
- Não. Sinto muito.
- Neste caso, vou querer apenas whisky e blues.
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