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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre o que nos guia



A estrada costuma se apresentar a mim como um bom lugar para pensar. Talvez por estar sempre sozinha, talvez porque a vastidão do horizonte me faça refletir. Ontem, entre uma curva e outra, atenta à sinalização horizontal, praticamente perseguindo uma faixa branca contínua, um pensamento se apresentou: no final das contas, todos temos uma linha que nos guia vida afora.

Muitas vezes, esse guia é um objetivo, um plano bem traçado, ou uma ideia insistente. Noutros casos, o que nos serve de referência é a religiosidade. E há quem se paute apenas por princípios. Fato é que algo se presta a nos orientar o caminho, as curvas e as escolhas.

Entendo que amiúde queiramos nos referir à vida como algo caótico, sem sentido, solto no espaço e no tempo. Algumas pessoas podem, inclusive acreditar que vivem, de fato, à deriva. Todavia, essa escolha de não se guiar por nada já é traçar um referencial sobre o qual serão vividas as horas e meses.

Estrada sem orientação é ambiente propício para acidentes. Nau sem farol é propícia à deriva. E pessoa que não reconhece aquilo que a impulsiona não sabe muito bem para onde ir.

Não que precisemos olhar a faixa branca o tempo todo.  A estrada só pode ser aproveitada por olhos que consigam captar tudo quanto ela oferece. A vida é mais bonita quando nos prestamos a vivê-la em sua plenitude. Mas vez ou outra, numa curva perigosa, num momento de decisão, é bom nos atentarmos para aquilo que nos guia. Manter os olhos fixos no que nos orienta é uma boa forma de seguir o caminho para onde deixamos nossos sonhos.

E que venham as curvas, os morros e as longas faixas brancas. Pois a vida é presente. E presente a gente aproveita!

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Furdunço, Roupa Branca e Revolta



O clima de manifestações generalizadas está afetando as roupas no meu armário. Não, leitor, você não leu errado. E não, eu não estou me enchendo de roupas verdes e amarelas. Acontece que precisei adquirir algumas roupas brancas novas e a confusão foi feia. Se eu estou pirando de vez? E quem prometeu a você uma autora normal?

Tudo começou quando, após passar as novas roupas de trabalho, fui guardá-las. Abri a porta do guarda-roupa, pendurei as camisas brancas, fechei a porta e saí do quarto. Comecei, então, a ouvir um burburinho crescente, como se um circo de pulgas houvesse resolvido promover uma festa rave no diminuto móvel destinado a acomodar minhas vestimentas. Apurando um pouco melhor a audição, para saber o que acontecia, dei com o seguinte diálogo:

- Chega pra lá! – reclamava uma voz esganiçada.
- Chega você, que eu estou recém-passada! – retrucava outra, mais baixa
- Mas você está me apertando. – era a primeira voz
- Os incomodados que se retirem. – a segunda voz disse, resoluta.
- Branquela aguada, sem graça!
- Sua indiscreta!
- Sou como a primavera, baby. Seu recalque bate nas minhas flores e volta.

Nesse ponto, começou um ruído de coisas se batendo. Várias vozinhas agudas e balançantes gritavam em uníssono “pega ela!”, ao passo que outras mais ponderadas cantavam algo a respeito de não-violência, tolerância, paz, amor e – quase posso jurar – Hakuna Matata. Aproximei-me cautelosamente e abri a porta do guarda-roupa.

- Ok – eu disse, incrédula a respeito do que via – posso saber que furdunço é esse aqui?

Chegaram até mim os olhares mais culpados que se pode imaginar em objetos inanimados. Fez-se um silêncio daqueles que a gente pode partir com uma faca de pão.

- Vamos. Estou esperando. – Eu insisti.
- Foi ela! – disseram em uníssono, uma camisa branca e uma florida.

Decidi conversar com a camisa florida primeiro. Ela é mais antiga de casa; tem prioridade.

- Diga, flor, o que está havendo aqui?
- Agora você me trata assim, com jeitinho, né?! Primeiro arruma esse monte de branquelas, enfia aqui em casa, tira todo o meu espaço e depois finge que não aconteceu nada. Eu sabia que, cedo ou tarde, você ia acabar fazendo isso.

Como a camisa florida continuava furibunda, resolvi tentar a sorte com a novata. Tudo o que consegui foi um rolar de olhos e um assovio.

- Alguém? – Nenhuma resposta – Ninguém?
- Por que você não separa as roupas por cores? – arriscou a camisa florida.

Aí foi demais pra mim. Sentei-me na beira da cama e comecei um sermão.

- Olha, gente, eu sei que estamos passando por um período complicado aqui. São mudanças demais, em tempo de menos. Compreendo que vocês estejam assustados, pensando que seria melhor ficarmos como estávamos, bem acomodados em nossa zona de conforto. Acontece que é assim mesmo que as coisas funcionam. Mudanças causam incômodo, mas são elas que impulsionam a vida. Vocês precisam aceitar que estamos num outro momento e trabalhar para lidar melhor com as diferenças. Aceitem os coleguinhas que chegaram e sejam gentis. Tenho certeza de que belíssimas combinações poderão surgir entre vocês. Quanto à ideia de separar por cores, eu sei que os especialistas recomendam; mas isso seria apartheid. E não vou tolerar saber que dentro do meu próprio armário acontece segregação, bullying e essas coisas. Comportem-se!

E para provar que tenho a firme resolução de manter a paz naquele espaço confinado, deixei todas as peças de castigo, se abraçando até que decida usá-las. Difícil, vai ser encontrar os cabides que fizeram greve e se mudaram para a Conxinxina do Sul.

Quem foi mesmo que te prometeu uma autora normal?

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Legislação



Quando acaba a bateria do celular, é como se parasse um marcapasso. Sou capaz de apostar um dente da frente como, em pelo menos algum momento, essa frase já se encaixou perfeitamente na vida de grande parte da população ocidental. A cada novo G que acrescentam à tecnologia de telecomunicações, a cada aplicativo e funcionalidade sinto que ficamos progressivamente atrelados ao telefone móvel. Não é de se espantar que já haja legislação específica, regulamentando os eventos relacionados ao funcionamento do celular: a Lei de Murphy.

Segundo essa lei, se a bateria estiver cheia, o telefone não será necessário. Ele só passará a ser de vital importância quando a carga for reduzida até por volta de 15% do total. Nesse ponto, meu amigo, você começará a esperar por uma ligação importantíssima; ou quem sabe chegue ao supermercado e esqueça sumariamente o que lhe pediram para comprar. Com 15% de bateria, os pneus dos carros furam, os engarrafamentos acontecem, as pessoas se perdem e as tias que moram em São José das Ribanceiras resolvem ligar - exatamente quando você esperava uma ligação para resolver algo importantíssimo.

Outro ponto estabelecido pela Lei de Murphy a respeito das telecomunicações é que se você estiver com o telefone o tempo todo, o número de ligações que vai receber cai pela metade. Isso explica o fato de as pessoas levarem o celular para a cama, para o trabalho, para o banheiro, para o País das Maravilhas e não receberem ligações; ao passo que, esquecendo-o por um período do dia ou ficando sem bateria, elas são contactadas até por entidades do além.

Com relação às mensagens de texto, a Lei de Murphy postula no artigo 547, parágrafo 2º, inciso I que "para cada mensagem importante esperada, há sempre cinco completamente inúteis destinadas; quatro delas de responsabilidade das operadoras de telefonia móvel". É lei, gente! Exatamente por isso, quando estamos ansiosos para receber uma mensagem, somos bombardeados com dicas para arrasar na balada, oportunidades de ganhar tablets e vejam só! carros zero km, assim, do nada.

O sinal da telefonia móvel também é regulado e está destinado a cair quando você precisar responder a uma mensagem, seja por SMS, whatsapp ou o que for. Se for importante que a resposta chegue ou ainda, se a falta dela puder ser interpretada como um silêncio constrangedor, não haverá sinal disponível num raio de 150 léguas.

Ora, então por que diabos ainda insistimos em usar os telefones celulares? Porque apesar de toda essa regulamentação contrária à nossa vontade, eles ainda funcionam bem. São úteis, versáteis e concentram em si uma gama de funcionalidades que nos libera de carregarmos peso extra. Imaginem como seria carregar conosco agendinhas telefônicas, agendas, câmera fotográfica, GPS, notebook, despertador, bússola, edições e edições da Barsa, álbuns de fotografia, CD player e outras tantas coisas que são espremidas sem dificuldade no pequeno aparelho? Difícil, muito difícil...

É por isso que eu digo: estamos perdidos, leitor! Pusemos todos os recursos num dispositivo só. E valha-me Deus, ele é regulado pela Lei de Murphy. É por isso que quando acaba a bateria do celular, e ela finda nos momentos mais impróprios, a sensação que temos é de que parou um marcapasso. Aproveitemos, então, enquanto o pulso ainda pulsa.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 4 de junho de 2013

Lia



Da janela aberta, Lia observava a noite avermelhada de inverno. As nuvens desfilavam inatingíveis, tangenciando aqui e ali algum pensamento solto. Desligou todas as luzes, fechou os olhos, inspirou profundamente e permitiu que o ar frio trouxesse consigo a calma.

Sentia-se cansada, pesada de lembranças que não queria mais carregar. Sabia que seus dias eram o amontoado das escolhas que fizera, assim como o futuro era todo lacunas a serem preenchidas. E o Beto? Bem, ele era um idiota. Só isso.  

Abriu os olhos. Brincou com algumas lembranças ternas, como um bebê que admira um móbile. Os bebês crescem. Ela também crescera. E assim como os móbiles, aquelas memórias agora pareciam absolutamente fora de contexto.

A chaleira começou a chiar. O chá. A chaise. A blusa de lã em volta de si. A bebida quente. O gosto de maçã com baunilha. O Beto. Um idiota. As lembranças se desfazendo. A voz de James Blunt baixa e melodiosa no player. Um suspiro.

"Ah! vontade de ficar apaixonada!". Tomou mais um gole do chá. 
"Passou".

Fê Coelho

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Flora Bicho Grilo



As histórias da Galera Aqui de Casa, por algum motivo que não sei explicar, convencem as pessoas. Não é raro alguém vir me avisar que andou recebendo uma visitinha da Isaura ou do Seu Manoel. Pelo contrário: vira e mexe alguém me pede para buscar a Isaura de volta, ou informa que o Dr Ptolomeu - que pretendo apresentar a vocês em outra oportunidade - resolveu aparecer. Não sei bem o motivo de meus personagens terem caído no gosto dos amigos. Talvez seja apenas uma forma de se identificar com algo comum; talvez um jeito bem-humorado de lidar com o cotidiano. Fato é que a Galera só aumenta. Para cada mania, vontade, hábito ou o que quer que seja, surge um tipo novo. E é por isso que tenho o prazer de apresentar a vocês a Flora Bicho Grilo.

Flora Bicho Grilo é uma prima da Isaura, que conheci depois de uma amiga minha (gente de verdade, de carne, osso e maluquices) me falar de suas visitinhas. Flora é uma mocinha magra, de cabelos castanhos, enrolados e meio presos por uma trança frouxa de onde pendem minúsculas flores. Usa um vestido esvoaçante branco e tem o sorriso fácil das pessoas despreocupadas. Nasceu no interior, numa vila pequena daquelas com casinhas caiadas de branco, esquecida entre pastos, morros e rios. Não conheceu a cidade até os quinze anos, quando foi visitar uma madrinha sua. E devo dizer: sua primeira, segunda, terceira e milésima impressões não foram boas. Acontece que ela acha tudo muito cheio de concreto, sem cheiro de mato, sem barulho de grilo, sem brilho de estrela. Acha o fim do mundo, as pessoas ficarem engaioladas, para se proteger dos perigos dessa terra barulhenta e cheia de fumaça. A Flora simplesmente não se acostuma.

É por isso que ela procura alguns cantos que tenham gente calma, que não tenha tanta pressa. Ela gosta de jardim, de planta, bicho e música leve. E não costuma prestar muita atenção a um monte de coisas que a gente acha importante, como os horários, as contas, e os prazos. Se você estiver correndo e procurando desesperadamente a chave do carro, não tente pedir ajuda à Flora. Ela vai provavelmente te irritar com comentários sobre alguma florzinha em algum canto qualquer, ou sobre como você vai acabar infartando, vítima do stress e de como as pessoas fizeram da vida uma corrida desenfreada. E vai tentar te convencer de que talvez seja uma hora apropriada para adubar o jardim, ou podar uma planta, ou levar os cachorros para um passeio.

Em noite de lua, Bicho Grilo gosta de se deitar na rede e ficar quietinha, só olhando e sentindo a temperatura  cair de mansinho. Gosta de conversar sobre como seria bacana estar noutro lugar e de inventar histórias que não aconteceram. Flora é uma sonhadora, um espírito livre e difícil de se perceber - até porque Flora é fã das sutilezas. Ela se mistura na paisagem e deixa conosco apenas aquela vontade ligeira de estar num lugar melhor, mais calmo, cheio de vida e de paz.

Não entendo como pode, esses personagens irem tomando forma num imaginário coletivo que a gente lá vai construindo. O que sei, todavia, é que cada vez que um deles surge, um pouco mais de graça pula para os meus dias.

Gostei da Flora. Acho que vamos nos dar muito bem. Acredito que nossas conversas serão algo assim:
- Viu, Flora, aquela paineira toda florida?
- Vi não, mas o beija-flor que passou voando por aqui agorinha era uma graça. Pra onde será que ele foi?

E que os dias sejam de paz.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Chico


Nem todos os personagens dariam boas pessoas; assim como nem todas as pessoas viram bons personagens. Todavia, vez em quando, calha de essas duas coisas se encontrarem e aí, meu amigo, é uma festa só! Conheci uma criatura assim, com pinta de personagem, essa semana. Seu nome? Chico.

O Chico é o dono de uma livraria situada na Universidade de Brasília (UnB) e, pelo que eu entendi, se a gente procurar direito, encontra uma daquelas plaquinhas de patrimônio nele. São, afinal, trinta e cinco anos na Universidade. Não tivemos muito tempo para conversar sobre a sua história; ele está o tempo todo atendendo alguém.  Mas nem precisava. Eu não fora ali atrás disso; queria mesmo era conhecer a pessoa, o personagem-Chico. E foi o que fiz.

Cheguei logo depois do almoço, dirigi-me ao balcão de informações e perguntei pela livraria do senhor Francisco. O guarda olhou para mim com uma cara engraçada, de quem não está entendendo muito bem. Precisei explicar: "estou procurando a livraria do seu Francisco - o que apareceu na televisão, há uns dias". Aí tudo fez sentido. "Ah! Você está procurando a livraria do Chico!" - disse-me ele. E saindo do seu posto, o guarda deu uns poucos passos e me mostrou a entrada do estabelecimento. Trata-se de uma sala pequena, com paredes cobertas por prateleiras abarrotadas de livros. Pelo que pude perceber, existe alguma catalogação; embora desconfie que a lógica de distribuição das coisas esteja prioritariamente na cabeça do livreiro. Há poucos bancos e, acredite, eles não ficam desocupados por muito tempo. As pessoas que observei entravam na livraria e acabavam ficando um bocadinho.

O Chico não estava lá. Esperei. E quando ele chegou, estava sorridente, apressado e com as mãos cheias de sacolas abarrotadas de livros.

Apresentei-me com um "Oi Chico. Sou Fernanda, a escritora que te ligou ontem, lembra?". Sua resposta não poderia ter sido mais original. Tirou de uma das sacolas um livro do Paulo Leminski, abriu numa página qualquer e me disse: "lê esse poema pra gente." Olhei para as pessoas dentro da pequena livraria e, sentindo que não tinha muita escolha, li. As pessoas aplaudiram e o livro passou para as mãos de outro frequentador, que foi aplaudido e seguido por mais uma leitura. "O Leminski ultrapassou um best seller cinzento em número de vendas no Brasil" - ele dizia - "vamos ler para comemorar!". E assim, todos os clientes que entravam na livraria liam um poema antes de saírem. Penduravam a conta, mas não a leitura.

Foi uma tarde excelente, com boa prosa, bons versos e muitas risadas. Isso me deixou feliz, mas as entrelinhas daquela tarde me encantaram muito mais.

Percebi que eu estava diante de um homem com origem muito simples e que fez sua história sobre um caminho de parágrafos e páginas. Entendi, mais uma vez, o poder que as palavras têm para fazer diferente a vida das pessoas e para aglutinar. Admirei a força que há por trás do trabalho que é feito com amor e saí levando comigo um pouco dessa energia boa, dessa vontade de construir, de realizar. Trouxe para casa um livro de poesias devidamente autografado pelo autor, Daniel Faria, e um bocado de paz interior - do tipo que se consegue quando se vê algo simples, sábio e - pela falta de palavra que descreva melhor - bacana (muito bacana!).

Despedi-me após prometer que voltava.
- Você vai voltar logo, não vai?
- Vou sim, Chico. Adorei conhecer a sua casa.

E sinto que nesse ponto, talvez tenha sido injusta: aquela não é a casa do Chico; é o seu castelo!


Beijinhos
Fê Coelho





terça-feira, 16 de abril de 2013

Pior seria



Hoje arranhei o carro. Uma meleca, eu sei. O que você, leitor, não sabe é que foi uma meleca das piores, porque foi precedida de uma intuição. E todo mundo sabe que intuição é uma voz misteriosa que fica azucrinando o juízo da gente, te exortando a fazer algo ou a abandonar uma ideia. Sabe qual é a pior parte de se ter uma intuição? Na minha opinião, é o fato de que você toma a decisão, mas nunca saberá a alternativa. Quer dizer, a gente fica com o resultado e lida com ele; o que poderia ter sido - ah, meu bem! - fica só no plano das ideias.

Talvez eu me faça mais clara, se contar o que houve.

Precisei sair para resolver algo chato, num lugar um pouco chato e que implicaria no pagamento de taxas - o que é o cúmulo de toda a chatice prevista para um dia que deveria ser de descanso. Pulemos a parte em que eu fico rabugenta, e sigamos. O plano era ir à pé. Quando eu ia saindo, algo aqui na minha consciência, bem lá no fundo, num lugar de onde a gente só escuta o eco disse para mudar os planos originais e ir de carro. Fui. Arranhei o carro. Me irritei e até agora estou tentando me convencer de que algo bem pior poderia ter acontecido se eu tivesse desobedecido a essa voz misteriosa. Quero dizer, eu poderia ter sido assaltada, não? Poderia ter sido atropelada, sequestrada, poderia ter quebrado o salto. Melhor deletar essa última, porque eu estava de sapatilha. Mas muita tragédia poderia ter acontecido, se eu tivesse ido à pé.

Aí comecei prestar atenção a quantas vezes eu já fiz isso. Para cada situação ruim, eu tinha uma pior que me consolasse, me colocasse no colo e dissesse "tudo bem, querida. Está tudo bem. Pior seria se..."

Dessa forma, se caía um pé d'água na minha cabeça, na volta para casa, pior seria se eu estivesse indo para o trabalho. E se eu batesse o dedão no canto do sofá e quebrasse a unha, muito pior se quebrasse o pé. Se ficasse presa no engarrafamento causado por um acidente, me consolava pensando que poderia ter sido eu envolvida no emaranhado de carros amassados. Se vejo um furo na roupa que queria usar para sair, pelo menos eu vi antes. Quando o cansaço bate, lembro que pior seria estar desempregada. Se um relacionamento naufraga, pior seria manter por mais tempo algo que ia naufragar de qualquer maneira (melhor agora que aos oitenta). Um amigo te traiu? Pior seria se você não descobrisse. Sentiu dor de garganta? Que bom que não é algo pior. E assim segue.

Sei que isso pode se assemelhar ao Jogo do Contente. Entendo que fazer a Pollyanna não seja bem-visto em muitas situações que envolvem o mundo dos adultos, onde reclamar é tão em voga. Todavia, acho que fica tudo muito insuportável se eu for apenas me irritar com aquilo que não saiu exatamente como eu gostaria. E minha intuição? O que fazer com ela?  Se eu não puder acreditar que ela serviu para me salvar de algum acontecimento catastrófico, melhor encontrar uma loja esotérica e comprar uma bola de cristal nova. Porque a minha, coitada!, tem vezes que parece estar quebrada.

Não acho que eu vá mudar esse meu hábito. Tenho a tendência de ver o melhor de cada situação; ou de pelo menos ver o que não saiu de todo errado. Provavelmente vou continuar a escutar meu próprio Grilo Falante e a ser indulgente com ele. Meu Grilo Falante às vezes se confunde, coitado. Talvez já esteja meio senil. Mas muito pior seria se ele não dissesse nada; ou se eu não tivesse imaginação suficiente para justificá-lo.

Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Gente Avulsa



Sem saber por que, sempre tive certa admiração por pessoas que andavam sozinhas. Achava, quando criança, lindo ver fotos de mulheres superfelizes de braços abertos na praia ou olhando para o nada com um sorriso cinematográfico estampado no rosto. Outras imagens que me atraíam eram as fotos de mulheres muito respeitáveis, caminhando felizes e sozinhas por uma rua, cheias de sacolas de compras. Havia ali algo apelativo, absolutamente encantador. Era algo que eu queria para mim, mas o que era mesmo?

Àquela época, eu não tinha como compreender o motivo de tal fascínio. Hoje entendo que aquilo que realmente me era apelativo  não era outra coisa senão a sugestão de liberdade. Encantava-me a ideia de que alguém pudesse realmente aprender a viver e ir a todos aqueles lugares sem necessariamente estar acompanhado. Ora, considerando que eu era apenas uma criança e que precisava de um adulto responsável até para ir à esquina, esse raciocínio se justifica. Daí veio a sensação que durante muito tempo me acompanhou e que me dizia "não se pode ir muito longe sozinho".

Acontece que o tempo passou e eu mantive essa admiração pelas pessoas que andam por aí avulsas. Continuei a achar o máximo ver figuras de mulheres fortes e bem-resolvidas, indo e vindo, dirigindo para todo lado, tomando decisões e, claro, apreciando a própria companhia.

Talvez essas coisas tenham feito parte do meu imaginário por tanto tempo em função do quanto foi demorado o meu processo de aprender a estar só.

Ainda hoje essas pessoas têm lugar de destaque em minhas observações de cotidiano - de uma forma menos embasbacada, é verdade. Hoje ainda acho bacana, quando observo uma pessoa serena num lugar qualquer, comendo, lendo, caminhando ou apenas não fazendo nada - mas não tanto quanto antes. Talvez a situação tenha perdido aquele verniz de encantamento por um fato simples: hoje eu também faço isso. Não existe mais novidade nesse fato. Nada de extraordinário há por trás do silêncio de uma pessoa sentada a sós num parque qualquer - exceto um mundo interior tão rico quanto se pode supor, ou mais.

Dos olhos para dentro pode haver tristeza, saudade e medo; pode ser que exista solidão, ou alegria. Por trás da faixada distraída de alguém que está por aí descolado dos outros, pode haver apenas uma calma tranquila e bem resolvida, ou quem sabe haja pensamentos que gritam e fazem uma balbúrdia tão grande que é como se a criatura estivesse em meio a uma micareta.

Fato é que hoje eu sei: por trás do silêncio de uma pessoa só, pode haver tudo - absolutamente tudo, inclusive nada.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 5 de março de 2013

Qual é a do cone?



Disse Arquimedes: dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei o mundo. Pois eu digo: dê aos homens alguns cones e eles tentarão dominar esse mesmo mundo.

Uma coisa anda me agoniando há um tempo: a maneira como o uso dos cones altera o rumo das pessoas em qualquer lugar que se vá. Eles estão em vários locais e, usados em diversas situações, querem basicamente dizer "ei você, não venha aqui; fique exatamente onde está, porque aqui tem um cone e todo mundo sabe que os cones são a máxima autoridade no que se refere ao cerceamento do direito de ir e vir".

Se uma pessoa não quer algo em algum lugar, basta colocar um cone e fim de papo. Especialmente se esse lugar for uma faixa da rua, uma vaga ou até um estacionamento inteiro. Colocou o cone, já era. As pessoas não passam e, normalmente, não questionam. Posso até estar errada, mas raríssimas vezes eu vi alguém desafiar a autoridade que vem dessa forma de demarcação territorial.

Quando eu era criança, existia uma coisa que dava poder aos garotos: ser o dono da bola. Se o dono não concordasse com a brincadeira, ele pegava a bola e ia embora. A molecada ficava toda chateada e acabava, para evitar o transtorno, fazendo tudo o que o pequeno déspota detentor da brincadeira quisesse. Ora, tenho a sensação de que esse conceito, extrapolado para a idade adulta, confere ao dono do cone o poder de gerir, de decidir quem passa onde, quem vai, quem fica e de cercar pequenas porções de mundo.

E não se engane: algumas coisas são condenáveis no mundo dos adultos; outras são inaceitáveis. Por exemplo: xingar algum parente de um segurança pode ser algo condenável; mas derrubar o cone é inaceitável. Esse ato, o de derrubar a demarcação territorial, é uma demonstração de falta de atenção, de desrespeito às regras e à autoridade. Ora, a pessoa precisa ter a tranquilidade de demarcar um lugar e saber que aquela demarcação - embora seja bem mais no plano das ideias (visto que apenas a moral impede que se retire um cone de seu lugar) e muitas vezes nem se justifique tanto assim - vai continuar valendo.

Se por um lado os cones inspiram o respeito dos cidadãos de bem, os mesmos objeto são os alvos da cobiça de gente que não tem muito juízo. Daí surgiu uma mania dos últimos tempos: roubar cones. Vez por outra, ouve-se por aí a história de alguém que tenha se apropriado do cone alheio. Acredito que isso, mais que uma questão de desonestidade e falta do que fazer, passe pela rebeldia, pela aventura de estragar a cerca do vizinho. É como se a pessoa dissesse "olha aqui o que eu faço com a sua dominação do mundo!"  Desconfio inclusive que o ato de se roubar um cone possa ser interpretado como um "bundalelê ideológico pós-moderno".

O que, então, justifica um texto para discutir a finalidade dos cones? Absolutamente nada, exceto o fato de eu achar muito engraçado a maneira pela qual esses objetos inertes e desprovidos de quaisquer elementos especiais se tornem responsáveis por conferir um status de dono do pedaço a quem quer que os distribua.

Passe por aqui. Não vá ali. Evite essa faixa. Estacione na próxima vaga. Faça um ziguezague de dez metros, pare o carro, mostre a carteira de habilitação, os outros documentos e, caso esteja tudo certo, siga adiante. São muitas ordens e ações variadas, mas que obedecem basicamente a mesma regra: seu mestre mandou!

Eu mesma reconheço meu quinhão de obediência e meus pensamentos de rebeldia. Vez por outra, passo por uma série de cones e penso: "lá estão os danados, me dizendo o que fazer ou não. Afinal, qual é a do cone? Quem ele pensa que é?". Aí me dá uma agonia, de ver que aquele pequeno objeto representa uma autoridade maior que minha própria autonomia e me dá uma vontade lascada de parar o carro, tirar o cone e estacionar assim mesmo. Mas não faço nada, leitor querido. Sabe como é; manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Beijinhos
Fê Coelho


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Uai, gente! Uma crônica sobre sotaques.



Num país tão grande e com tanta variedade cultural como o Brasil, acho engraçado ver as pessoas se criticando mutuamente por seus costumes, coloração da pele, crenças e valores. Esses seriam assuntos para vários textos cheios de argumentos inflamados a respeito da distinção entre as pessoas e sobre como essas diferenças colocam a todos nós no mesmo balaio; mas hoje não quero falar disso não. Quero falar é da musicalidade, da particularidade que existe no jeito de falar, no erre que se puxa, no dê que se pronuncia diferente, para dar um bom Dia ajeitaDinho, na riqueza dos vários sotaques do nosso povo.

Sou goiana da Silva Sauro, vinda de família mineira. Logo, puxo o erre por nascença e falo uai, troço, negócio e trem para todas as palavras que me fogem no momento. Tenho um sotaque carregado de histórias, causos, coisas que ouvi e dos exemplos que tive. Acredito, sinceramente que isso não vá mudar, embora na adolescência eu tenha apresentado uma tendência a disfarçar meu goianês.

Àquela época, eu fazia o possível para não puxar o erre. Acontece que um deles sempre pulava a janela e escapava na forrrma de uma porrrrta bem aberrrta. E eu me sentia envergonhada quando os colegas que não eram goianos brincavam a respeito disso. Era como se puxar o erre fosse algo que denegrisse toda a esperteza que eu julgava ter. Eu ficava vermelha como uma pimenta e passava o restante do dia tentando "falar direito".

Ainda hoje, agora morando em Brasília, encontro pessoas para brincarem com o meu goianês. Acontece que algo fundamental mudou: eu não me importo mais! Puxo o erre sem medo de ser feliz, porque sei o que o meu sotaque representa. Ele é um retrato (literalmente) falado da minha história, é um testemunho a respeito do meu local de origem, dos meus costumes, das minhas raízes. É o que me recorda muitas vezes a simplicidade que tanto respeito nas pessoas.

Meu erre puxado faz lembrar dos finais de tarde na casa da madrinha Delfina, sentada nas cadeiras de fio, tomando cafezinho passado na hora e comendo peta (um biscoito que ela caprichosamente assava com o formato da inicial do nome de cada uma das crianças). Aquela era a hora dos causos, das histórias, das risadas. Era hora de aprender a respeitar os mais velhos, a ouvir e a admirar a própria origem. Meu jeito de falar me recorda de Minas, na fazenda da tia Dulce, quando a gente descia os morros gramados em cima de sacos de arroz e fazia da grama o melhor tobogã de todos os tempos. Me lembra da Vó Joana, brigando com a gente, quando a gente fazia "ventagem" (bagunça) e pedindo pra gente "sungar" (erguer) alguma coisa, porque a "cacunda" (coluna) dela já não era mais a mesma. Meu jeito de falar me faz perceber que tenho orgulho do que sou, de onde vim e de tudo o que diz respeito à minha origem.

Acho sotaque uma coisa bonita demais de se ouvir, porque ali se encontra a história do nosso povo. A variedade é uma das marcas do nosso país - grande, colorido e mesclado como só ele sabe ser.

Daí que duas coisas precisam ser feitas: uma delas é o respeito, que precisa nascer; a outra é o orgulho, que precisa aflorar. Precisamos respeitar a origem do outro, sua forma de falar, suas expressões e costumes. Precisamos parar de nos referir aos sotaques como algo do qual as pessoas devam se envergonhar. E mais: devemos ter orgulho genuíno de quem somos, respeitar nossa origem e honrar nossas raízes. Afinal de contas, quem pode pisar sobre uma pessoa que está de pé?

Uai, gente! Sotaque é bacana. É a maneira pela qual nos identificamos como parte de um grande grupo, com sua cultura, seu jeito de ser, fazer e pensar. Sotaque é bonito, especialmente pra quem sabe apreciar.


Beijinhos
Fê Coelho.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pausa criativa - um momento de aprendizado



Escrever é metade o que você diz ao mundo e metade o que você ouve dele. É uma espécie de conversa contínua com o que existe e com o que se imagina, um equilíbrio constante entre doar e receber; um toma lá dá cá que embala os pensamentos e permite que os sonhos se mostrem. Não que seja fácil ou indolor. Muitas vezes escrever é um revisitar de conceitos, fatos, expectativas, dores, alegrias e frustrações.  Outras vezes não é nada disso. Escrever pode ser apenas uma forma de apascentar palavras irrequietas, traduzindo leveza, mansidão e boas ideias.

Fato é que acredito ser fundamental a existência de pausas entre os períodos de doação. Se uma pessoa só pode falar daquilo que transborda em si, não creio que bons textos possam sair de criaturas exauridas, estressadas e vazias de sua própria companhia. Sou do tipo que não consegue escrever nem o bê-a-bá, se estiver saturada com pensamentos gastos e rotos pelo uso excessivo. Minha mente funciona como uma espécie de mola, que precisa de pequenos alívios, momentos em que eu reduzo a pressão, para que as ideias se renovem.

E foi por isso que eu instituí para mim mesma pequenos momentos do que eu chamo de pausa criativa. Descobri uma coisa recentemente: sinto saudades de mim mesma. Sinto falta de estar em minha própria companhia, em silêncio, apenas observando as pessoas, os lugares, ouvindo os sons, me atentando às mudanças de luminosidade e temperatura. Necessito de instantes para me ligar aos meus próprios pensamentos, sem a necessidade de transmiti-los a ninguém. Preciso me levar para passear, para jantar ou o que quer que seja. Isso me refaz, me alimenta e me coloca de volta nos trilhos.

Hoje fui ao parque. Sentei-me próximo ao lago artificial e observei. O vento fazia pequenas marolas na água  refletindo o ocaso. Havia várias pessoas correndo, conversando e rindo. Todas alheias a mim e eu retribui agradecida o favor. O que na verdade me encantou foi observar os patos, que já se iam recolhendo sabe Deus para onde. Nadavam todos eles em fila indiana, grasnando, batendo asas e enchendo o fim de tarde com esse barulho que, naquele momento, para mim, representava a própria tranquilidade. Respirei, senti a temperatura caindo de mansinho, sorri. Encaixei uma ou duas ideias e pensei que todas as pessoas acabam por seguir o seu curso. Ora, ninguém diz aos patos o que fazer. Ainda assim, eles o fazem.

Acredito sinceramente que cá dentro de nós existe algo que nos diz em que fila devemos entrar. Creio que de alguma maneira, todos encontramos nosso rumo, nossa rota e aquilo que nos fará feliz. Não consigo deixar de lado a crença de que para cada um há o momento propício, a forma adequada e um destino certo. Alguns chamam isso de coincidência. Eu gosto de chamar de a Mão de Deus.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Uma janela chamada Felicidade



Alguns conceitos gostam de se revelar assim, do nada, numa manhã de quinta-feira qualquer. São ideias fugidias que vêm meio sem palavras, que se anunciam tão rápido quanto se retiram e podem fazer valer o dia. Estou falando de breves momentos de clarividência, daquele instante mágico no qual se compreende algo importante. Algo com o poder de mudar conceitos, fazer pensar ou - no mínimo - fazer sorrir.

Foi assim hoje. Sem que nada de especial (em tese) acontecesse, consegui formular um conceito do que para mim é a felicidade. Veja bem, estamos tratando de uma manhã sem qualquer atrativo especial: a primeira do inverno, um dia paradoxalmente quente, com céu limpo, sem vento ou novidades. Eu estava na cozinha da casa de meus pais, um lugar conhecido desde sempre, por cuja janela se filtra uma luminosidade dourada capaz de desenhar pequenos quadradinhos de luz no chão molhado, cheirando a produto de limpeza e tranquilidade. Minha filha correu para longe de mim, após devolver-me o copo vazio e ainda morno pelo leite. Ouvi música e entendi: a felicidade é uma janela que fica sempre aberta, mas sobre a qual nem sempre nos debruçamos.

Esse pode parecer um conceito estranho, mas para mim calhou perfeitamente. Visualizei-a como se estivesse exatamente à minha frente: uma janela aberta, por onde passa luz dourada e oblíqua, em cujos raios se pode ver suspensos os grãos de poeira num eterno balé. Mais adiante um campo, verde, florido e vivo. É como se ela sempre estivesse lá, mas passássemos apressados demais para prestar-lhe atenção. Até que um dia, numa manhã comum de uma quinta-feira qualquer, por algum motivo, eu tenha resolvido demorar-me à sua frente; como se houvesse resolvido me aproximar e olhar o que está contido em minha própria felicidade.

E me vi cheia de motivos para estar feliz. Pensei em minha família unida, bela e em paz; recordei os amigos, meu trabalho, ouvi a risada de minhas filhas e sorri. Estiquei meus braços, enchi os pulmões de ar, movimentei as pernas, peguei um brinquedo jogado no chão e agradeci. Senti-me profundamente grata pelo que sou e tenho, pela família em que fui inserida, pelas raízes que compartilhamos, pelos princípios que guiam minha existência e por cada uma de minhas memórias.

Penso que deve ser algo realmente triste, quando a pessoa se fecha muito demoradamente na escuridão do pessimismo, das reclamações e se foca sempre naquilo que falta. Isso faz com que não se consiga suportar a luminosidade de dias delicadamente felizes. Acredito que fizeram à felicidade uma grande injustiça, elevando-a a um patamar inatingível de bens ou sensações psicodélicas, quando - a bem da verdade - ela está o tempo todo esperando ser apenas reconhecida.

E é esse o ponto em que quero chegar, finalmente. A felicidade é simples por essência. Delicada e mansa, ela não necessita de tantos adereços quanto se prega por aí. Não é preciso que se faça da vida uma Drag Queen de anseios e sensações. Porque para ser muito sincera, acredito que a felicidade seja mesmo uma janela sempre aberta. Tudo o que precisamos fazer é escolher nos debruçarmos sobre ela.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 10 de maio de 2012

No Colo da Mãe da Gente



No colo da mãe da gente cabe o mundo inteiro. Cabem nossas angústias, nosso melhor carinho, nosso sorriso mais sincero e nossas lágrimas mais bem escondidas. No colo da mãe da gente cabe tudo aquilo que quisermos entregar, tudo o que quisermos confessar. Ali cabemos nós, do jeito que somos, da maneira que estivermos.

No colo da mãe da gente estão seguros nossos segredos, nossas limitações e nossos medos. Ali se podem aninhar nossas impressões falsas sobre as pessoas, o mundo e nós mesmos. Ali se escondem nossos vexames impagáveis da infância e nossos belos dias de rebentos bochechudos. No colo da mãe da gente se esconde uma outra versão de nós - uma mais perfeita, delicada e bem intencionada - passada pelo filtro do amor incondicional.

O colo da mãe da gente ensina a amar - não com tratados sobre o amor ou coisa que o valha. Nada disso. No colo da mãe da gente, o amor é ensinado pela doação, pela simples entrega. É como se a mãe da gente dissesse: olha, filhote, é assim que se ama. E nos amasse para ensinar, para transmitir essa paz que só a mãe da gente tem para oferecer.

No colo da mãe da gente, ouvimos conselhos - que muitas vezes serão deixados de lado para depois serem recolhidos, polidos e amados como os maiores tesouros que já pudemos receber. Porque no colo da mãe da gente se esconde a sabedoria. É para lá que podemos sempre ir quando as coisas vão mal. E quando vão bem. Porque o colo da mãe da gente também é lugar de festa!

No colo, somos amados, acolhidos, reconhecidos e direcionados. Sempre rumo ao amor. Sempre tendo a paz por bússola.

Porque o colo da mãe da gente é o melhor lugar que já inventaram. É onde provavelmente a felicidade vive. E se não vive, passa todos os finais de tarde, com o poente à sua frente e o vento em seus cabelos. Porque o colo da mãe da gente é o lugar onde cabemos direitinho para sempre. O colo da mãe da gente é um recanto sagrado que atende pelo nome de Amor!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Eu tenho um sonho




Qual é o seu maior sonho? Tive que pensar em uma resposta para esta pergunta esta noite. Foi um questionamento direto, fruto de uma conversa sobre ideias e sentimentos. Uma pergunta jogada, um parágrafo de uma só oração. Qual é o seu maior sonho?

Juntei todos os fragmentos daquilo que eu possa considerar um sonho, pensei em todas as sensações e respodi - rápido demais: "ser suficiente para minhas filhas; ter um emprego que nos possibilite viver confortavelmente, uma boa casa e condições para ser uma boa mãe; poder educar minhas filhas e ter algumas regalias". Bem classe média. Bem simples. Bem básico.
Acontece que não era só isso. Uma outra parte do meu maior sonho ficou aqui no canto da consciência, emburrada, com os braços cruzados, ameaçando fazer birra se eu não a assumisse: minha vontade de um dia ser reconhecida por algo que eu tenha escrito. E foi precisamente isso, o que me fez continuar a remoer a pergunta de minha amiga. Qual é o meu maior sonho?
Me inquietei e, como é de praxe, passei a analisar meus motivos, minhas vivências e aspirações. Olhei bem lá pra dentro, para onde nascem os sonhos e perguntei: "ei, você aí, qual é o seu maior sonho?"
E dessa vez a resposta veio devagar, suave, em ondas de fatos e sensações. A resposta veio na forma de música: Epitáfio, essa canção tão linda e tão triste, que normalmente me faz refletir sobre arrependimento. E foi, então, nessa resposta ao avesso, que encontrei o lado direito do meu maior sonho: me orgulhar.

Meu maior sonho é viver de uma forma que, lá do alto do morro da vida, na velhice - lugar onde os dias fazem a curva, e que nos permite enxergar tudo o que foi feito, dito, omitido e vivido - eu possa sentir orgulho do caminho que trilhei. Sonho em poder sentir orgulho de mim mesma, de meus dias, de minha descendência, de minhas conquistas, das amizades que cultivei, dos meus escritos. Sonho poder sentir satisfação pelo que vivi.

Talvez esse seja um sonho comum a todos os seres humanos. Talvez seja por isso que as pessoas escalam montanhas, adquirem casas, formam famílias, levantam pesos, navegam oceanos e fazem descobertas científicas. Talvez seja essa a mola do mundo: provar a si mesmo o seu valor. Ou quem sabe, seja apenas uma maneira simplista de resumir as grandes aspirações da humanidade.

De qualquer maneira, fica respondida a pergunta. Meu maior sonho é poder olhar para os meus dias e me orgulhar deles. É me realizar enquanto mulher, mãe, profissional e ter a certeza que, em cada situação, eu, se não consegui, tentei tirar o melhor.

Beijinhos
Fê Coelho


terça-feira, 3 de abril de 2012

O Princípio de Tudo



Se, nas diversas situações que a vida nos apresenta, apenas uma coisa puder ser mantida, recomendo que seja a dignidade. Tenho visto muitas pessoas preocupadas em manter a vaidade, as aparências, o orgulho, o emprego, o relacionamento, o status, enfim. Tenho visto muitas coisas serem colocadas como prioridade, mas a dignidade é algo que raramente se vê em primeiro lugar. E isso é, sem a menor dúvida, algo que me intriga.

De que adianta manter as aparências se o essencial - aquilo que não se pode ver - estiver num estado deplorável? Para que pintar as paredes da fachada, se dentro de casa o reboco das paredes cai e não se pode confiar nas fundações? Quero dizer, por que motivo haveremos de espanar uma felicidade e uma vida ilusória que, a bem da verdade, não está lá?

Por que se preocupar em manter um relacionamento a todo custo, se submetendo a humilhações, a acordos malfeitos, possíveis agressões ou mesmo noites solitárias ao lado do travesseiro onde repousa uma cabeça que nada tem a ver com a sua? Para dizer que está tudo bem? Para fingir que está tudo certo? Para que as pessoas não pensem mal de você? Ou apenas para ter uma companhia que, embora inadequada, é a única que se tem? Por que tanto medo da solidão?

Ora, tenho pensado nos últimos meses que dignidade é um estado de espírito, uma forma de viver, uma virtude ou apenas um conceito - vá saber. Fato é que este sei lá o quê é a diferença entre quem se entrega e quem resiste. Tenho notado que, se você, em cada situação, puder manter apenas isso, já terá feito o bastante.

Porque não se consegue pisar sobre uma pessoa digna. Não se pode piorar sua situação. Pode-se, claro, dificultar as coisas, mas uma pessoa digna estará sempre com a cabeça erguida e poderá surpreender em qualquer condição. Porque manter-se digno é o princípio de tudo.

Acredito que seja algo além de dizer a verdade. É, antes disso, viver esse estado de ser verdadeiro. É ser sincero com os outros, mas principalmente consigo mesmo, aceitando-se, vivendo o que se pode viver, e dando ao mundo o que se pode dar - nada além ou aquém.

Se me perguntassem qual é a minha definição para dignidade, eu responderia que é o estado de perene entendimento com o próprio travesseiro, num modo de viver que permite ao ser humano olhar diretamente para o seu semelhante, sem desviar olhar, sem nada temer, porque afinal de contas nada deve.

sábado, 31 de março de 2012

Bolsa de Mulher



Uma coisa me intriga há um bocado de tempo, desde o dia em que pela primeira vez pendurei uma bolsa em meu ombro: como é possível que papéis se multipliquem com tanta eficácia? Desde então, tenho observado algumas coisas e elaborado algumas hipóteses que gostaria de compartilhar com vocês, no intento de receber a solidariedade feminina e a compreensão masculina.
Bolsas são um acessório muitíssimo importante. Elas compõem o visual, ocupam as mãos quando não sabemos o que fazer delas e carregam dentro de si uma amostra de nosso mundo – itens que vão desde documentos, maquiagem, fio dental, chicletes, remédio para dor de cabeça, presilhas de cabelo, comprovantes de pagamento e amuletos até chupetas, fraldas descartáveis, mudas de roupa infantil e até a chave da porta dos fundos da casa da mãe de uma amiguinha da sua filha que ela conheceu no balé. E, claro, papeizinhos.

Toda bolsa contém papeizinhos. Essa deve ser uma das leis que regem o universo. É uma verdade inescapável. Você pode retirá-los de lá incansavelmente e, quando olhar de novo, haverá mais deles. Talvez eu esteja certa, quando digo que os papeizinhos se reproduzem. Basta fechar a bolsa e a bagunça começa. Quando há mais de um papelzinho, eles procriam por reprodução sexuada. Aí é uma bagunça louca: você guarda uma propaganda de escola e um cartão de empresa de aluguel de carros e, quando abre a bolsa, lá está um lindo bebê – um cartão com o telefone de uma van para levar as crianças à escola. E não fica só nisso. O cartão da van conhece uma propaganda de loja em liquidação e logo você descobre que – surpresa! - acabou de ser presenteada com um folder de concessionária em “queima de estoque”.

Claro que você sempre pode optar por não carregar papelzinho algum. Coloca o batom, os documentos e o dinheiro dentro da bolsa e sai. E é aí que você será apresentada à outra mazela da bagagem de mão: as moedinhas. Compre alguma coisa, qualquer coisa, e puff: você ganha mais moedas do que gostaria e, claro, elas vão cair no chão na primeira oportunidade, no lugar mais cheio de pessoas possível, no dia em que você estiver de vestido curto. E quando a pessoa não quer moedinhas? Paga com cartão e lá se vão os papeizinhos outra vez.

Outra característica especial desse acessório, é a sua capacidade de armazenamento. Sempre cabe mais coisas do que parece ser possível. E essas coisas nunca estarão acessíveis caso você precise delas. Bolsas são buracos-negros: fato incontestável. O que quer que caia lá dentro pode sumir por eras, até que você desista de precisar do objeto em questão. Aí ele aparece e te atrapalha a encontrar o que você passou a querer. E não se engane: se uma mulher consegue guardar batom, documentos, dinheiro, chiclete, chave do carro e foto três por quatro das crianças numa bolsa de mão, é coisa fácil guardar o estepe do carro numa versão a tiracolo.

Fato é que não há mulher que passe sem este acessório. Somos apaixonadas por bolsas e precisamos (do verbo necessitar) de várias, para sempre encontrar algo que estava perdido há anos. Afinal de contas, o que é a vida sem algumas boas surpresas?

sábado, 17 de março de 2012

Colecionemos


Durante muito tempo, eu imaginei que deveria ter uma coleção. Sempre supus que fosse algo para se orgulhar, algo cultivado e querido, guardado com carinho num canto especial de casa, algo para se mostrar para as visitas. Via minhas amigas com suas coleções enormes, perfumadas e multicoloridas de papel de carta e pensava “Poxa vida! Eu devia colecionar alguma coisa”

Acontece que o tempo passou e nada disso ocorreu. Todas as minhas tentativas de juntar os papéis de carta foram para o brejo. Principalmente porque eu sempre encontrava alguém muito querido para quem eu quisesse mandar um bilhete. E, claro, esse bilhetinho deveria ser escrito no meu melhor papel. Porque eu, desde girino, sempre tive essa coisa de dar o que eu tenho de melhor para as pessoas. Enfim. Minha coleção de papeis de carta foi um solene fiasco.

Partindo dessa experiência, decidi que coleções poderiam ser perda de tempo, até sentir uma vontade enorme de colecionar Matrioshkas - aquelas bonecas russas que vão saindo uma de dentro da outra. Acredito que esse desejo apareceu no dia em que percebi que elas são a melhor metáfora que eu poderia encontrar para os seres humanos: pessoas dentro de pessoas. Porque na verdade, tudo o que se vê de alguém é a casca, aquilo que é vendido. O que se sabe sobre o outro é aquilo que ele permite que se saiba.


Mas não se engane. Cada um de nós guarda tantas outras versões de si quantas forem possíveis, cada uma com seu tamanho e seu encanto. E isso é belo. Belo no sentido de que nunca se sabe de quantas camadas uma pessoa é feita. Nunca se sabe o quão complexo um ser humano pode ser, até que você decida conhecê-lo.


Trata-se de um processo de descoberta delicioso, com suas boas e más surpresas, com seus aprendizados e suas benesses. E foi pensando nisso, que descobri a coleção que pretendo realmente fazer.


Não abandonarei a ideia de ter algumas bonecas russas. Mas o que desejo mesmo colecionar são memórias. Quero juntar pensamentos, lugares, situações, risadas, cheiros, vozes, fotos, abraços, imãs de geladeira e tudo o que me ajudar a fixar minhas memórias. Quero adesivar os lugares por onde passo em minhas retinas, para que sempre me acompanhem, para que estejam disponíveis para quando eu precisar deles.

Quero lembranças que me façam sorrir quando meus dias se tornarem tenebrosos. Porque descobri que esses períodos sempre aparecem e que é um tolo aquele que passa a vida na esperança de não sentir-se nostálgico ou triste. Quero ferramentas para lidar com a dureza desse abrir e fechar de olhos que é a vida. Quero colecionar memórias, para enfeitar o Fantástico Mundo de Fernanda: um lugar maravilhoso, para onde eu gosto de ir e onde sempre me sinto em paz, lá onde o pensamento faz a curva.

E será com muito orgulho – espero em Deus – que vou mostrar minha coleção de memórias para minhas filhas e os filhos de minhas filhas. Vou poder contar histórias e falar de coisas que aprendi, de coisas que vivi e dar conselhos vãos. Espero sinceramente ter muitos itens em minha tão querida coleção e poder me orgulhar desse ato divino, sofrido e tão recompensador que é Viver.


Desejando exatamente o mesmo a você, leitor querido, me despeço.


Beijinhos


Fê Coelho

sexta-feira, 2 de março de 2012

Uma Árvore de Estimação.


De todas as pessoas que eu conheço – alguém me corrija se eu estiver errada – sou a única que tem uma árvore de estimação. Cachorros, gatos, passarinhos e roedores são senso comum. Mas árvores? Pois sim! Eu tenho um vegetal de estimação. Trata-se de uma árvore cor de rosa - que eu julgava ser um ipê - localizado no parque da cidade, uma árvore pela qual eu tenho um apreço danado.

Quem passar por ela hoje não vai ver nada de especial. Na época da chuva ela, de fato, não se destaca. Sua beleza, entretanto, aparece nos dias de seca, quando todo o parque está começa a ficar ressecado, meio amarelado e sem vida. É nesses momentos que ela se mostra, majestosa, linda, cor de rosa e diferente de tudo à sua volta.

Não posso evitar a comparação: as pessoas funcionam mais ou menos assim. O que quero dizer é que quando a vida está em ordem, fluindo bem, sem grandes problemas, todo mundo é meio igual. Na época da chuva é fácil ter a grama verde e as árvores frondosas. É fácil sorrir quando tudo vai bem.

Há pessoas, entretanto, - e diga-se de passagem que essas são as minhas favoritas – que conseguem se destacar na hora da dificuldade. Sabe aquela criatura que tem capacidade para sorrir, olhar as coisas pelo melhor lado e para levantar a cabeça, quando tudo está uma solene bagunça (para não usar outra palavra, se é que me entendem)? Meu ipê de estimação me lembra exatamente da existência dessas pessoas.

Quando eu vejo a Minha Árvore tão diferente de toda a paisagem, não posso evitar um sorriso. Sinto-me feliz por vê-la, por ter a chance de me lembrar que mesmo nas situações mais áridas, há motivos para permanecer de pé, firme e grata pelo que já tenho.

Passar pela Minha Árvore é algo que me faz refletir que não se deve pautar a vida pelo que falta, mas pelo que se tem e se pode atingir. Ver Meu Pretenso Ipê sobreviver tão altivo aos dias de seca é algo que me faz muito bem.

Ok. Só doido mesmo, para ter árvore de estimação. Tudo bem, não me importo. O que quero mesmo dizer é que menos importante é o comportamento das pessoas na bonança. No final das contas, em bom português, o que vale mesmo é saber como cada um se vira quando a porca torce o rabo.

Beijinhos
Fê Coelho


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Desnecessário



Uma palavra vem ecoando há dias em meio à bagunça do meu pobre e ultimamente atribulado cérebro: desnecessário. Volta e meia ela reaparece e me sinaliza coisas que talvez não entenderia antes. E tenho percebido que muitas coisas são, de fato, desnecessárias.  Muitos comentários, preocupações, notícias, medos, antecipações e expectativas nem precisariam tomar forma. Algumas pessoas não deveriam fazer parte de nosso convívio. A maioria das notícias não deveria passar da tela para o lado de cá. E o chamado entretenimento, que a bem da verdade, serve para distrair a mente do que realmente importa, talvez não devesse entreter. Talvez muito do que temos hoje seja o desnecessário substituindo e mascarando as questões principais.

Por que tanta roupa no armário, dando aquela sensação contraditória de se ter tanta coisa e, infelizmente, não se ter nada para vestir? Por que não nos desfazemos daquilo que já não agrada e ficamos com o que tem valor; com aquilo que realmente faz sentido? Por que armazenamos as coisas na esperança de que voltem à moda, de que percamos cinco quilos, ou vinte? Por que não admitimos que certas roupas não nos caem bem, nos deixam gordas, baixas, pálidas ou ridículas e, partindo dessa informação, por que diabos não mandamos as tais roupas para quem precise ou fique bem dentro delas?

Por que tanta lembrança remendada, se passando por boa? Por que guardar tanta mágoa, tanto rancor? Por que aprisionar dentro da alma sentimentos que mereciam ir bem longe, para o infinito, para o cosmo ou, para ser mais direta, para o raio que o parta? Por que esse apego ao sacrifício, aos dias difíceis? Tem que deixar voar; tem que deixar passar. É fundamental fazer a faxina na alma também e se permitir ficar com o que valha a pena. Do que foi difícil, separar as lições, o que se aprendeu e ponto! Das lembranças importam as boas sensações e os bons aprendizados. Arrependimentos são coisa volumosa, desnecessária, que não deixa o coração seguir, que não deixa a alma respirar. Então, tem que abrir mão!

Por que tanta gente pra chamar de amigo, se no final das contas serão muito poucos os que vão segurar a sua barra? Pra que uma turma tão grande, pra ficar com os dentes arreganhados, rindo de tudo e de nada, sem saber em quem se pode confiar? Não estou, em hipótese alguma, pregando o isolamento social. Acho que todo mundo precisa de companhia e de se sentir querido. Mas vai dizer que não conhece uma ou duas pessoas venenosas, de coração, ações e palavras levianas? Vai dizer que nunca esbarrou com alguém que te faça mal e que você suporta por convenção social? Tem que deixar passar! Afinal de contas, seu coração e seus pensamentos são o único reduto onde quem manda é VOCÊ! E é sua responsabilidade se proteger. Não é necessário, de maneira alguma, desejar mal a ninguém. Basta manter as pessoas levianas do coração pra fora.

Em alguns momentos, é necessário passar o saco de lixo nos armários, na vida, nas relações, no coração. Algumas ocasiões exigem que se tire o que não serve mais, o tão incômodo desnecessário, para acolher o que há de bom. É necessário criar espaços na vida e na alma, para que se possa agregar coisas novas, novos valores, novas esperanças, novos amores, novos sabores. Enfim, é preciso entender que algumas coisas são necessárias; outras não.

Beijinhos
Fê Coelho

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Crônica de um papelzinho na janela.






Um conselho: nunca tentem adivinhar o que se passa na cabeça de um escritor, a menos que não se incomodem com o jogo de tentativa e erro. A mente de quem escreve é terreno incerto. É pássaro que não se pode engaiolar. É terra que a ninguém pertence, a não ser aos sonhos. Repito o conselho: nunca tentem adivinhar o que se passa na mente de um escritor.

E se digo isso, não é por vontade de parecer mais imaginativa do que sou. Esse aviso surgiu da constatação inevitável de que a mente de quem escreve é metade imaginação e, bem, a outra metade também.

Nunca espere que um escritor se mantenha aferrado ao mundo real. A realidade muitas vezes é âncora. Não exija que um escritor se abstenha de imaginar uma conspiração, ao ver duas pessoas desconhecidas falando baixinho em uma mesa isolada do restaurante que ele freqüenta. Nem espere que ele deixe de fazer mentalmente a descrição de um dia lindo. Não acorrente um escritor aos fatos. Permita que ele se apodere das nuances e nunca, nunca mesmo, suponha que sabe o que ele está pensando.

Vou dar um exemplo banal, que até a mim surpreendeu. E você, querido leitor, tente não me julgar uma doida de pedra.

Voltando essa noite para casa, percorri meu caminho para o metrô, como tantas vezes fiz. Ouvi música e observei a noite. Tudo absolutamente normal. Enquanto aguardava o trem, tirei as amarras do pensamento e descansei a mente da objetividade exigida para o trabalho. Fiquei quieta, ouvindo uma canção de Jason Mraz e pensando coisas desconexas. Quando o trem parou, entrei e sentei-me. E foi então que aconteceu.

Havia um pedaço de papel imaculadamente dobrado, no batente da vidraça, ao lado do banco onde eu me sentara. Um papel branco, onde se podiam perceber letras impressas, cujo significado era indecifrável. E fiquei olhando o dito papelzinho. Juro que contorci-me em cólicas para saber o que estava escrito, mas não olhei. Ao invés disso, passei a me divertir, imaginando a história do papelzinho.

E foi quando me apareceram dois personagens: Tiago e Lorena. Ele, um homem de trinta e cinco anos, jornalista e fotógrafo, ruivo e meio gordinho. Ela uma estudante de medicina de vinte e seis anos, filha de um empresário envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro.

Ele não a conhecia, a princípio, mas apaixonou-se por sua imagem capturada acidentalmente em uma de suas fotos das praças da cidade. Como era linda, a moça impressa em preto e branco, sentada sob uma árvore, com olhar perdido em algum ponto do horizonte, como se houvesse perdido a vontade de viver! Depois de algum tempo, acabaram se conhecendo num evento beneficente que Lorena organizava anualmente.

Apesar das diferenças, os dois acabaram se apaixonando. Mas não estavam destinados a permanecerem juntos. Tiago trabalhava numa revista influente, que acabou denunciando o esquema de corrupção do qual o pai de Lorena participava.
A moça não sabia dos negócios do pai e ficou horrorizada com a situação. Não poderia negar a desonestidade paterna, nem fechar os olhos para o mal-estar provocado pela denúncia. Tratava-se do fim de um relacionamento muito sonhado. Não houve volta. Os dois nunca mais se viram. Exceto um dia, sem querer, quando tomaram o mesmo vagão no metrô.

Lorena entrou no trem e viu Tiago sentado ao lado da vidraça. Logo que a viu, Tiago pegou um pedaço de papel, escreveu algo, amassou e deixou no batente da janela. Levantou-se e, na primeira parada, deixou o trem. Lorena sentou-se onde estivera o homem que tanto amava. Sentia-se gelada. Tentou engolir. Sua garganta estava seca. Apanhou com dedos trêmulos o pedaço de papel e abriu-o. Uma frase de três curtas palavras puseram seu mundo de cabeça pra baixo: “Nunca te esqueci”. E daquele momento em diante, as coisas jamais seriam as mesmas.

Meia hora de distração, o pequeno pedaço de papel na janela do trem me proporcionou. Trinta minutos em que, juro, ninguém poderia adivinhar o que eu pensava. E é por isso que eu insisto: não tente supor os pensamentos de quem escreve. Não resuma seu sorriso aos conceitos ordinários de triste a alegre. Não simplifique a alma de um escritor, em hipótese alguma. Não porque ele seja algo mais importante. Nada disso. Esse conselho se deve apenas ao fato de que quem escreve costuma ver e imaginar demais. Porque ele não sobrevive de outra maneira. Porque de outra forma nunca será feliz.

O papelzinho, nunca saberei seu conteúdo. Eu jamais cometeria a heresia de estragar a linda história de Tiago e Lorena com a brutalidade de um recibo.

Beijinhos
Fê Coelho
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