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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre o que nos guia



A estrada costuma se apresentar a mim como um bom lugar para pensar. Talvez por estar sempre sozinha, talvez porque a vastidão do horizonte me faça refletir. Ontem, entre uma curva e outra, atenta à sinalização horizontal, praticamente perseguindo uma faixa branca contínua, um pensamento se apresentou: no final das contas, todos temos uma linha que nos guia vida afora.

Muitas vezes, esse guia é um objetivo, um plano bem traçado, ou uma ideia insistente. Noutros casos, o que nos serve de referência é a religiosidade. E há quem se paute apenas por princípios. Fato é que algo se presta a nos orientar o caminho, as curvas e as escolhas.

Entendo que amiúde queiramos nos referir à vida como algo caótico, sem sentido, solto no espaço e no tempo. Algumas pessoas podem, inclusive acreditar que vivem, de fato, à deriva. Todavia, essa escolha de não se guiar por nada já é traçar um referencial sobre o qual serão vividas as horas e meses.

Estrada sem orientação é ambiente propício para acidentes. Nau sem farol é propícia à deriva. E pessoa que não reconhece aquilo que a impulsiona não sabe muito bem para onde ir.

Não que precisemos olhar a faixa branca o tempo todo.  A estrada só pode ser aproveitada por olhos que consigam captar tudo quanto ela oferece. A vida é mais bonita quando nos prestamos a vivê-la em sua plenitude. Mas vez ou outra, numa curva perigosa, num momento de decisão, é bom nos atentarmos para aquilo que nos guia. Manter os olhos fixos no que nos orienta é uma boa forma de seguir o caminho para onde deixamos nossos sonhos.

E que venham as curvas, os morros e as longas faixas brancas. Pois a vida é presente. E presente a gente aproveita!

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ser ou estar?



Hoje me ocorreu algo que ainda não havia percebido: o quanto discordo da clássica pergunta "o que você vai ser quando crescer". Eu mesma já me fiz essa pergunta em outras ocasiões, quando pensava - em vão - que havia crescido o suficiente para respondê-la. Dirigindo para casa hoje, enquanto olhava as curvas da estrada e os montes muito à minha frente, compreendi que crescer é muito mais um processo do que uma finalidade.

Não concordo com esse hábito que temos de classificar o crescimento como um ponto fixo a ser alcançado, como um trono onde se assenta e reina para sempre. Crescemos toda vez que fazemos uma escolha, mas principalmente quando lidamos com os resultados dela advindos. Crescemos quando aprendemos a valorizar as pessoas que vivem ao nosso redor e quando compreendemos que amar é mais que apenas estar ao lado. E quem dirá que não crescemos quando as lágrimas percorrem seu curso? Muitas vezes o sofrimento é professor mais eficaz que a bonança.

Com tudo o que vejo, cresço um pouco mais - em memórias, em conhecimento, em ideias e num tesouro que é só meu. Cada abraço que recebo ou distribuo me torna maior em afeto; a cada sorriso, cresço em contentamento. Cada nova pessoa que passa a compartilhar de meus dias acrescenta vida a eles. Cada música que ouço me faz crescer em emoções. Toda risada me faz ser maior. Toda vez que me doo, cresço. E a cada perrengue que enfrento, cresço em possibilidades de resistir.

Crescer, às vezes, dói. Incomoda. Assusta. Sempre foi assim - vide o primeiro dia de aula, o primeiro emprego, o primeiro beijo e outras tantas estreias. Enfrentar aquilo com que não ousamos sonhar é uma das formas mais bonitas de crescer e uma das mais difíceis. Aceitar que não estamos prontos requer humildade para nos reconhecermos pequenos. E talvez nisso resida a verdadeira grandeza.

Pode ser que eu esteja errada, como tantas vezes já estive. Quem sabe, essas ideias de hoje sejam apenas um sopro, um vislumbre de algo maior - que eu, em minha pequenez, ainda não consigo compreender. Perdoe-me o leitor, se me perceber no engano. Todavia, tenho cá comigo, hoje, a impressão de que não importa tanto assim o que queremos ser quando crescermos; interessa, sim, saber como queremos estar, enquanto crescemos.

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Furdunço, Roupa Branca e Revolta



O clima de manifestações generalizadas está afetando as roupas no meu armário. Não, leitor, você não leu errado. E não, eu não estou me enchendo de roupas verdes e amarelas. Acontece que precisei adquirir algumas roupas brancas novas e a confusão foi feia. Se eu estou pirando de vez? E quem prometeu a você uma autora normal?

Tudo começou quando, após passar as novas roupas de trabalho, fui guardá-las. Abri a porta do guarda-roupa, pendurei as camisas brancas, fechei a porta e saí do quarto. Comecei, então, a ouvir um burburinho crescente, como se um circo de pulgas houvesse resolvido promover uma festa rave no diminuto móvel destinado a acomodar minhas vestimentas. Apurando um pouco melhor a audição, para saber o que acontecia, dei com o seguinte diálogo:

- Chega pra lá! – reclamava uma voz esganiçada.
- Chega você, que eu estou recém-passada! – retrucava outra, mais baixa
- Mas você está me apertando. – era a primeira voz
- Os incomodados que se retirem. – a segunda voz disse, resoluta.
- Branquela aguada, sem graça!
- Sua indiscreta!
- Sou como a primavera, baby. Seu recalque bate nas minhas flores e volta.

Nesse ponto, começou um ruído de coisas se batendo. Várias vozinhas agudas e balançantes gritavam em uníssono “pega ela!”, ao passo que outras mais ponderadas cantavam algo a respeito de não-violência, tolerância, paz, amor e – quase posso jurar – Hakuna Matata. Aproximei-me cautelosamente e abri a porta do guarda-roupa.

- Ok – eu disse, incrédula a respeito do que via – posso saber que furdunço é esse aqui?

Chegaram até mim os olhares mais culpados que se pode imaginar em objetos inanimados. Fez-se um silêncio daqueles que a gente pode partir com uma faca de pão.

- Vamos. Estou esperando. – Eu insisti.
- Foi ela! – disseram em uníssono, uma camisa branca e uma florida.

Decidi conversar com a camisa florida primeiro. Ela é mais antiga de casa; tem prioridade.

- Diga, flor, o que está havendo aqui?
- Agora você me trata assim, com jeitinho, né?! Primeiro arruma esse monte de branquelas, enfia aqui em casa, tira todo o meu espaço e depois finge que não aconteceu nada. Eu sabia que, cedo ou tarde, você ia acabar fazendo isso.

Como a camisa florida continuava furibunda, resolvi tentar a sorte com a novata. Tudo o que consegui foi um rolar de olhos e um assovio.

- Alguém? – Nenhuma resposta – Ninguém?
- Por que você não separa as roupas por cores? – arriscou a camisa florida.

Aí foi demais pra mim. Sentei-me na beira da cama e comecei um sermão.

- Olha, gente, eu sei que estamos passando por um período complicado aqui. São mudanças demais, em tempo de menos. Compreendo que vocês estejam assustados, pensando que seria melhor ficarmos como estávamos, bem acomodados em nossa zona de conforto. Acontece que é assim mesmo que as coisas funcionam. Mudanças causam incômodo, mas são elas que impulsionam a vida. Vocês precisam aceitar que estamos num outro momento e trabalhar para lidar melhor com as diferenças. Aceitem os coleguinhas que chegaram e sejam gentis. Tenho certeza de que belíssimas combinações poderão surgir entre vocês. Quanto à ideia de separar por cores, eu sei que os especialistas recomendam; mas isso seria apartheid. E não vou tolerar saber que dentro do meu próprio armário acontece segregação, bullying e essas coisas. Comportem-se!

E para provar que tenho a firme resolução de manter a paz naquele espaço confinado, deixei todas as peças de castigo, se abraçando até que decida usá-las. Difícil, vai ser encontrar os cabides que fizeram greve e se mudaram para a Conxinxina do Sul.

Quem foi mesmo que te prometeu uma autora normal?

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Legislação



Quando acaba a bateria do celular, é como se parasse um marcapasso. Sou capaz de apostar um dente da frente como, em pelo menos algum momento, essa frase já se encaixou perfeitamente na vida de grande parte da população ocidental. A cada novo G que acrescentam à tecnologia de telecomunicações, a cada aplicativo e funcionalidade sinto que ficamos progressivamente atrelados ao telefone móvel. Não é de se espantar que já haja legislação específica, regulamentando os eventos relacionados ao funcionamento do celular: a Lei de Murphy.

Segundo essa lei, se a bateria estiver cheia, o telefone não será necessário. Ele só passará a ser de vital importância quando a carga for reduzida até por volta de 15% do total. Nesse ponto, meu amigo, você começará a esperar por uma ligação importantíssima; ou quem sabe chegue ao supermercado e esqueça sumariamente o que lhe pediram para comprar. Com 15% de bateria, os pneus dos carros furam, os engarrafamentos acontecem, as pessoas se perdem e as tias que moram em São José das Ribanceiras resolvem ligar - exatamente quando você esperava uma ligação para resolver algo importantíssimo.

Outro ponto estabelecido pela Lei de Murphy a respeito das telecomunicações é que se você estiver com o telefone o tempo todo, o número de ligações que vai receber cai pela metade. Isso explica o fato de as pessoas levarem o celular para a cama, para o trabalho, para o banheiro, para o País das Maravilhas e não receberem ligações; ao passo que, esquecendo-o por um período do dia ou ficando sem bateria, elas são contactadas até por entidades do além.

Com relação às mensagens de texto, a Lei de Murphy postula no artigo 547, parágrafo 2º, inciso I que "para cada mensagem importante esperada, há sempre cinco completamente inúteis destinadas; quatro delas de responsabilidade das operadoras de telefonia móvel". É lei, gente! Exatamente por isso, quando estamos ansiosos para receber uma mensagem, somos bombardeados com dicas para arrasar na balada, oportunidades de ganhar tablets e vejam só! carros zero km, assim, do nada.

O sinal da telefonia móvel também é regulado e está destinado a cair quando você precisar responder a uma mensagem, seja por SMS, whatsapp ou o que for. Se for importante que a resposta chegue ou ainda, se a falta dela puder ser interpretada como um silêncio constrangedor, não haverá sinal disponível num raio de 150 léguas.

Ora, então por que diabos ainda insistimos em usar os telefones celulares? Porque apesar de toda essa regulamentação contrária à nossa vontade, eles ainda funcionam bem. São úteis, versáteis e concentram em si uma gama de funcionalidades que nos libera de carregarmos peso extra. Imaginem como seria carregar conosco agendinhas telefônicas, agendas, câmera fotográfica, GPS, notebook, despertador, bússola, edições e edições da Barsa, álbuns de fotografia, CD player e outras tantas coisas que são espremidas sem dificuldade no pequeno aparelho? Difícil, muito difícil...

É por isso que eu digo: estamos perdidos, leitor! Pusemos todos os recursos num dispositivo só. E valha-me Deus, ele é regulado pela Lei de Murphy. É por isso que quando acaba a bateria do celular, e ela finda nos momentos mais impróprios, a sensação que temos é de que parou um marcapasso. Aproveitemos, então, enquanto o pulso ainda pulsa.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Correntes



Meu telefone vibrou. Opa! Mensagem. Fui verificar o que era. Poxa vida, mais uma corrente... Quem nunca passou por isso, que envie as primeiras cópias para quinze pessoas e evite uma desgraça de proporção continental.

Se tem algo que me faz sentir preguiça, essa coisa é a tal da corrente. E é desafeto antigo. Entra ano e sai ano, mudam-se as formas de comunicação e elas permanecem lá, circulando, circulando e azucrinando as ideias da gente. Acho que se um dia as teorias da conspiração se confirmarem e realmente ocorrer uma guerra nuclear, as baratas repassarão correntes umas para as outras. Tudo o que eu me pergunto é "por que, gente? Por que?"

 Meus primeiros contatos com essa forma de azucrinação ocorreram ainda na infância. Naquela época, as correntes viajavam por quilômetros, de carona nas bolsas dos carteiros. Chegavam, não me lembro se com ou sem destinatário, e traziam consigo instruções muito específicas: faça vinte cópias; anexe uma nota de cinco mil cruzeiros; encaminhe para vinte pessoas em até sete dias; não guarde essa cópia; guarde essa cópia dentro da gaveta de meias por cinco luas novas; queime essa cópia da direita para a esquerda, embaixo do chuveiro. Tudo bem, exagerei; mas eu me lembro bem de que havia uma lista de pelo menos sete itens a serem cumpridos.

Junto com as correntes, chegavam promessas de bonança sem fim a quem as repassasse. Zé das Couves enviou a corrente e ganhou na loteria. João Leitão esqueceu de repassar a corrente e foi à falência. Desesperado, enviou cartas ao dobro de pessoas e - vejam só, que maravilha! - achou um poço de petróleo no meio do sertão. Mas o pior das correntes era a parte do agouro. Eu tremia diante da possibilidade de que pudéssemos morrer todos de uma vez só, se não passássemos o azar para o próximo.

Fico aqui imaginando como tudo isso começou. Alguém sabe me responder? Pensando de forma lógica, e supondo que correntes não se materializam do nada, só me resta concluir que alguém nesse mundo separou um tempo para escrever um texto destinado a - como é que eles dizem mesmo? - rodar o mundo todo por anos a fio. O autor devia gargalhar até a barriga doer, pensando em quanta gente ia passar aquela história sem pé nem cabeça para frente. Ah sim. E tem a parte em que eles diziam que a corrente nunca foi quebrada. Engano, companheiro. Chegou em mim, já era!

Nossa Senhora da Correntinha que me perdoe, o Instituto dos Desvalidos também. Que o Whatsapp passe a cobrar uma fortuna; que o Facebook fique preto com bolinha roxa; que todas as contas de e-mail do mundo sejam desativadas; pouco me importa. Não repasso corrente! Não vou dizer que nunca tenha feito isso. Houve um tempo em que eu era um pouco mais crédula, ou mais medrosa, vá saber. Mas sou uma pessoa regenerada, acreditem.

Se minha vida estaria melhor, caso houvesse repassado as correntes do finado MSN? Vá saber. Mas nesse ponto, tenho que concordar com Aslam - o Grande Leão de Nárnia: "dizer o que teria acontecido? Não, a ninguém jamais se diz isso."

Independente de ameaças ou bonanças, eu e correntes não nos damos bem. Não as repasso, nem arrasto. E fim de papo.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Levanta-te e anda, Brasil!



Ontem minhas filhas me perguntaram por que estava todo mundo nas ruas, brigando. Para responder à questão, falei brevemente sobre os impostos que pagamos e sobre o destino inapropriado que muitas vezes esse dinheiro recebe. Discorri um pouco sobre o que é corrupção e sobre a importância de se votar com consciência. Para elas, isso foi o bastante; para mim não.

Passei o dia todo refletindo, incomodada com pensamentos recorrentes acerca de como a gestão do país historicamente favorece uma minoria em detrimento da massa. E cheguei a uma pergunta: como vou explicar isso para as minhas filhas? Como vou dizer que vivo num país em que o dinheiro de quem ganha um salário mínimo vai parar na cueca de gente sem escrúpulos? Como vou explicar por que tanta gente morre nas filas dos hospitais, por falta de recursos, profissionais, remédios e - não vamos tampar o sol com a peneira - boa vontade? Como é que se explica o fato de termos pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, enquanto obras são superfaturadas e BIlhões são desviados vá saber para onde?

Mas a pergunta que me incomodou mais foi "como deixamos isso acontecer?". Quero dizer, sempre soubemos que nossos impostos eram altos demais e que o retorno era muito pouco. Sempre soubemos que havia gente impune ditando as regras; assim como sabíamos que nossas escolas estavam em situação abaixo esperado. Sempre soubemos que os professores eram desvalorizados, que o cidadão está cada vez mais preso e a bandidagem está mais solta que o arroz da minha mãe. Por que permitimos?

Recordo-me das aulas de geografia na escola, quando tive um dos melhores professores por quem passei. Era uma figura ímpar, parecidíssimo com o Patropi, chamado Zé Pereira. Esse professor fez por mim algo que nunca vou poder agradecer propriamente: ele me ajudou a pensar um pouco melhor. Foi em suas aulas que ouvi falar de mais valia e pilantragem generalizada. E foram essas aulas que me fizeram olhar com novos olhos as fotografias das manifestações políticas por que o nosso Brasil passou. Confesso: depois do Zé Pereira, passei a sentir uma pontinha de inveja daquelas pessoas nas fotos em preto e branco.

Cheguei à conclusão de que aquelas pessoas tinham mais coragem do que eu; que tiveram voz e que por sua luta algumas coisas acabaram por mudar. E lembro-me de pensar que eu vivia em uma geração que não tinha assim, tanta graça.

E é por isso que estou orgulhosa de ver o povo indo às ruas: porque sempre imaginei que minha geração seria marcada por cuecas endinheiradas, contas no exterior e falcatruas no Congresso Nacional. Pensei que não teríamos nenhum capítulo nos livros de história, mas (delícia das delícias!) me enganei.

Espero que quando os levantes arrefecerem, não nos esqueçamos dos motivos pelos quais eles começaram. Torço para que o recado das ruas fique gravado no coração dos brasileiros, para que alguma mudança efetiva se processe. Espero sinceramente ver coisas práticas acontecendo, a honestidade virando moda e a consciência sendo despertada.

Estou orgulhosa do meu povo. Sim senhor! Fique aqui o recado: minha geração pode até ser aquela que desce até o chão; mas também sabe ir às ruas.

Levanta-te e anda, Brasil!

Fê Coelho




quinta-feira, 13 de junho de 2013

Crônica de Quinta: A Fé e a Escada




Disse Martin Luther King Jr., "Dê o primeiro passo com fé. Você não tem que ver toda a escada. Você só precisa dar o primeiro passo". Sabem de uma coisa? Eu acredito nele. Quem me conhece pessoalmente, quem acompanha meus dias sabe disso: andei vivendo pela fé. Subi degrau por degrau, uma escada enorme, cujo fim eu não tinha a menor ideia de onde ficava; mas subi. E acontece que cheguei ao final de um dos lances. Acredito que isso me dê um mínimo de propriedade para falar com vocês sobre um assunto delicado: a fé.

Não pretendo discutir doutrina, religião ou divindades. Quero falar apenas da fé - essa capacidade que temos de acreditar em algo que não é palpável, que não se pode ver ou provar. Quero falar dessa certeza que temos cá dentro do peito e que tantas vezes guia nossos passos. Falemos do primeiro degrau, quando não se vê a escada, mas tem-se a confiança de que ela está lá. Na maior parte das vezes não é fácil fazer isso. Permita-me o leitor, descartar as atrocidades que já foram cometidas em nome de crenças ou pela falta delas e concentrar-me nos efeitos que eu experimentei em função da fé.

De imediato, acreditar que a estrada vai - como diz a música da banda Los Hermanos - além do que se vê, me permitiu o consolo. Quando os dias são muito difíceis, é preciso ter algo que amenize a situação. A fé fez isso por mim. Nos momentos mais complicados, eu me recordava que nem por um segundo eu estava sozinha; havia alguém que olhava por mim e que trabalhava a meu favor. Crer fez com que eu tivesse a sensação de que cumpria passos para algo maior, como se tomasse um remédio amargo que faria passar uma dor crônica. Essa certeza de que havia um plano me sustentou, manteve meu sorriso e permitiu que eu subisse um degrau por vez. Eu não podia ver todo o caminho; mas a cada curva que se revelava, crescia a confiança de que dias melhores viriam. A isso, eu chamo esperança.

Viver pela fé me permitiu exercitar a paciência. Por mais que queiramos, nem sempre podemos apressar as coisas. Os melhores frutos são os que amadurecem a seu tempo. E eu tive que aprender isso. Aprendi também que se você está trabalhando por algo, sendo digno e verdadeiro, cultivando amizades valiosas e acreditando sem reservas, as chances de sucesso são enormes. Boas sementes dão bons frutos. O que precisamos entender é que elas necessitam do seu tempo para se fortalecerem e só então procurarem a luz do sol.

Ah! leitor, mas quando as coisas acontecem... Quando finalmente enxergamos o caminho que trilhamos e entendemos que não, nossa vida não foi um amontoado de dias aleatórios, esse é um dia feliz além da conta! Ter passado pelo crivo da fé me ajudou a saborear as vitórias. Ter acreditado tanto e, justamente por isso, batalhado incansavelmente, deu um sentido absolutamente novo a tudo o que fiz nos últimos anos.

Acho que é mais ou menos isso: um degrau por vez, acreditando que a escada está lá. Porque no final das contas a decisão de não desistir já é uma forma de ganhar.

Beijinhos
Fê Coelho.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta Aberta ao Meu Irmão Caçula



Não pedi por você. Nunca me perguntaram se eu queria um irmão menor, branquelo, de bochechas enormes e vivíssimos olhos escuros. Não checaram meu interesse em levar para casa um menino que ia roubar meu colo, pegar meus brinquedos, chorar o tempo todo e fazer os adultos falarem feito bobos. Ninguém quis saber a minha opinião, mas você foi pra casa assim mesmo. A barriga da mamãe sumiu e você apareceu. O jeito foi lidar com a situação.

Durante vários anos, tive um passatempo: implicar com você. Ah! vai dizer que não era bom?! Pobre dona Marlene, tendo que aturar um desenho do Tom & Jerry ao vivo, todos os dias. Era implicância demais, por motivo de menos. "Olha ele me olhando!"; "olha ele me encostando!"; "olha ele existindo! Não dá pra devolver?". Claro que também brincávamos, quando não estávamos brigando. Como nunca fui uma pessoa de muito mimimi, você era a chance de brincar de golzinho, corrida de tampinha e subir em árvore. Nunca te expliquei muito bem, mas mesmo àquela época, eu já te amava desesperadamente. É que esses conceitos são muito vagos para os corações infantis. Criança não precisa de tanta definição.

Prova de que, não, eu não queria te devolver, é o sentimento de proteção que sempre tive por você. Não sei bem como a gente explica certas coisas. Tem palavra que não aceita cair do pé. Embora eu gostasse muito de brigar contigo, esse era um direito só meu. "Não mexa com o meu irmão" - esse era o espírito. Sempre fui ruim pra brigar com outras pessoas, mas não me esqueço um dia que bateram em você na escola. Acho que poucas vezes eu consegui ficar tão brava até hoje. E assim se desenrolou uma história de estica e puxa, em que a gente cresceu, amadureceu, aprendeu a conversar e fortaleceu laços e amor. 

O tipo de amor que se tem por irmãos mais novos é engraçado. Ali tem um pouco de tudo: amor de amiga, amor de irmã mais velha, de irmã mais nova, de tiete e até de mãe. É bonito demais ver alguém que nem dentes tinha - que chorava se esquecia o dever de casa - crescer, se desenvolver e virar um Homem. E veja bem, não estou falando moço, nem rapaz. Estou dizendo Homem de verdade, do tipo íntegro, responsável e provedor. Estou falando do tipo de homem que eu admiro e que, sem nem saber, torcia para que você se tornasse. Como dizemos no nosso Querido Estado de Goiás, você não deitou com as cargas! Foi construindo um caminho admirável, se tornando sempre melhor. Bom poder dizer isso: tenho orgulho de você.

Sei que o que temos é um amor que nos une, que vai e volta. Sei que você também tem essa coisa de proteger. Há um dia específico em que você foi um pai. Tenho certeza de que você se lembra e quero que saiba que não me esqueço. Pois rasguemos a seda do mundo inteiro! Estou muito orgulhosa das suas conquistas, do futuro que você está construindo. Não li uma linha do que você leu, não chutei uma só pedra do caminho que você percorreu, mas permita-me pegar carona na sua felicidade.

Como eu disse pra Geo há uns dias, "te amo muito mais do que poderia caber num texto curto, escrito por uma pessoa de vocabulário reduzido".

Arrocha, Dinho!
Te amo.

Beijão
Nanda 
(ele não me chama de Fê Coelho, fazer o quê. rsrsrs)












quinta-feira, 30 de maio de 2013

Crônica de Quinta: Prato do dia, pra todo dia.



Costumo dizer, em muitas situações, que deveríamos ver nossa vida como quem observa do alto de uma montanha (bem distante, bem alto) um pequeno vilarejo cravado no vale entre os morros. O distanciamento faz admirar: ver com olhos compassivos as casinhas caiadas de branco, as ruas estreitas e o silêncio. O afastamento permite imaginar que o lugar é simplesmente pacato e bucólico. Olhar um vilarejo assim muito de perto faz ver os defeitos, as paredes descascadas, os buracos nas ruas, os cães vadios, os vizinhos brigando pela localização das cercas. Assim também nossa vida, quando vista com um certo grau de afastamento, parece bem mais encantadora.

Não acho que as diferentes formas de se ver a mesma situação sejam, em si, um problema. Pelo contrário: penso que temos várias lentes para avaliar os fatos, sensações, memórias e a vida como um todo, cabendo a cada um a escolha de qual delas será usada para ver o quê. Nossa forma de enxergar pode fazer de um mesmo fato alto catastrófico ou apenas mais um aprendizado; pode tornar uma memória algo que traga uma saudade daquelas gostosas, ou um lamento amargo - tudo depende do filtro que se usa.

O próprio tempo pode ser interpretado por meio de recortes e, nesse caso, talvez seja bom inverter o raciocínio do vilarejo entre morros. Andei pensando a esse respeito nos últimos dias e cheguei à conclusão de que, no que tange o tempo, a melhor lente é a de aumento. Prestamos um belíssimo favor a nós mesmos, quando nos concentramos no exato momento em que nos encontramos, deixando de lado os lamentos a respeito do passado e as angústias sobre o futuro. Por mais clichê que seja, isso simplesmente não entra na maioria das cabeças, a minha incluída: o único momento a respeito do qual pode-se fazer algo é o presente.

Retomando o raciocínio do vilarejo ao inverso, é mais fácil lidar com uma rachadura na parede do que com um povoado inteiro. É mais fácil silenciar os vizinhos agora, tapar um buraco na rua no instante seguinte, mandar as crianças para o banho depois, ajeitar um telhado em seguida e assim por diante. Nesse sentido, pouco adianta reclamar do todo: trabalhar para melhorar uma coisa de cada vez, vivendo apenas o momento em que se encontra pode ser uma forma muito mais viável de gastar o oxigênio disponível no planeta.

Na última semana, enquanto pensava sobre essa crônica, experimentei me fazer várias vezes a seguinte pergunta: "nesse exato instante, descontando o minuto anterior ou o que virá, como me sinto?". O resultado da experiência foi revelador. Na maior parte das vezes, a resposta era simplesmente "estou bem". Algumas vezes, é claro, eu estive cansada, preocupada, ou mesmo com raiva. Mas esses momentos foram a minoria. Por que, então, contaminar todos os outros instantes com os resquícios de uma minoria desagradável?

Estou tentando viver mais leve. Tenho me esforçado para ser eficiente no momento em que posso ser, deixando de lado o que foge ao meu controle.

Ser é mais bacana do que seria. Gostar é mais legal que gostava. Estar bem é melhor que (Pre)ocupada com aquilo que simplesmente não é palpável. O presente do indicativo acrescenta mais que o pretérito mais que perfeito. Entre vários sabores fictícios, eu escolho o prato do dia - que é real, meu e que posso apreciar como queira. Espero que funcione. Tanto para mim, quanto para vocês.

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Flora Bicho Grilo



As histórias da Galera Aqui de Casa, por algum motivo que não sei explicar, convencem as pessoas. Não é raro alguém vir me avisar que andou recebendo uma visitinha da Isaura ou do Seu Manoel. Pelo contrário: vira e mexe alguém me pede para buscar a Isaura de volta, ou informa que o Dr Ptolomeu - que pretendo apresentar a vocês em outra oportunidade - resolveu aparecer. Não sei bem o motivo de meus personagens terem caído no gosto dos amigos. Talvez seja apenas uma forma de se identificar com algo comum; talvez um jeito bem-humorado de lidar com o cotidiano. Fato é que a Galera só aumenta. Para cada mania, vontade, hábito ou o que quer que seja, surge um tipo novo. E é por isso que tenho o prazer de apresentar a vocês a Flora Bicho Grilo.

Flora Bicho Grilo é uma prima da Isaura, que conheci depois de uma amiga minha (gente de verdade, de carne, osso e maluquices) me falar de suas visitinhas. Flora é uma mocinha magra, de cabelos castanhos, enrolados e meio presos por uma trança frouxa de onde pendem minúsculas flores. Usa um vestido esvoaçante branco e tem o sorriso fácil das pessoas despreocupadas. Nasceu no interior, numa vila pequena daquelas com casinhas caiadas de branco, esquecida entre pastos, morros e rios. Não conheceu a cidade até os quinze anos, quando foi visitar uma madrinha sua. E devo dizer: sua primeira, segunda, terceira e milésima impressões não foram boas. Acontece que ela acha tudo muito cheio de concreto, sem cheiro de mato, sem barulho de grilo, sem brilho de estrela. Acha o fim do mundo, as pessoas ficarem engaioladas, para se proteger dos perigos dessa terra barulhenta e cheia de fumaça. A Flora simplesmente não se acostuma.

É por isso que ela procura alguns cantos que tenham gente calma, que não tenha tanta pressa. Ela gosta de jardim, de planta, bicho e música leve. E não costuma prestar muita atenção a um monte de coisas que a gente acha importante, como os horários, as contas, e os prazos. Se você estiver correndo e procurando desesperadamente a chave do carro, não tente pedir ajuda à Flora. Ela vai provavelmente te irritar com comentários sobre alguma florzinha em algum canto qualquer, ou sobre como você vai acabar infartando, vítima do stress e de como as pessoas fizeram da vida uma corrida desenfreada. E vai tentar te convencer de que talvez seja uma hora apropriada para adubar o jardim, ou podar uma planta, ou levar os cachorros para um passeio.

Em noite de lua, Bicho Grilo gosta de se deitar na rede e ficar quietinha, só olhando e sentindo a temperatura  cair de mansinho. Gosta de conversar sobre como seria bacana estar noutro lugar e de inventar histórias que não aconteceram. Flora é uma sonhadora, um espírito livre e difícil de se perceber - até porque Flora é fã das sutilezas. Ela se mistura na paisagem e deixa conosco apenas aquela vontade ligeira de estar num lugar melhor, mais calmo, cheio de vida e de paz.

Não entendo como pode, esses personagens irem tomando forma num imaginário coletivo que a gente lá vai construindo. O que sei, todavia, é que cada vez que um deles surge, um pouco mais de graça pula para os meus dias.

Gostei da Flora. Acho que vamos nos dar muito bem. Acredito que nossas conversas serão algo assim:
- Viu, Flora, aquela paineira toda florida?
- Vi não, mas o beija-flor que passou voando por aqui agorinha era uma graça. Pra onde será que ele foi?

E que os dias sejam de paz.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Concede-me essa dança?



De todos os sentimentos que experimentamos ao longo da vida, um em particular me intriga sempre que o encontro: o medo. Dizem que ele é uma forma de alerta aprendida ao longo de infinitas transmissões de DNA, pelas gerações afora. Acredito. Juro que creio nessa explicação. Assim como acredito que nenhum sentimento é puramente mau - más são as escolhas que fazemos a partir do que sentimos. Eu explico.

Quando algo nos acontece, sentimentos são mobilizados a respeito desse fato; coisas que podem ser momentâneas, ou durar por muito tempo. Nossas reações podem ter um cunho positivo, quando geram atos construtivos ou o contrário, quando nos levam à destruição - de nós mesmos ou do outro. O que me impressiona no medo é essa ambiguidade que ele trás consigo. O temor pode ser tanto o que te protege, quanto o que te paralisa; pode ser o que impede ou impulsiona. Tudo depende da escolha, da forma de ver e encarar a vida.

Por que estou falando dessas coisas? Porque preciso pensar a respeito. Vamos aos fatos.

Todo mundo diz por aí que a pessoa precisa plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Fiz as três coisas, sendo a última a mais recente delas. E essa noite, enquanto conversava com uma amiga a respeito de como pretendo fazer o lançamento do livro, tomou-me de assalto um medo enorme. O coração acelerou, as mãos ficaram geladas e um iceberg resolveu fazer morada no meu pobre estômago. Em tese, não haveria motivo para temor, afinal de contas o lançamento de um livro é algo para se comemorar, certo? O que me atemorizou, entretanto, foi a possibilidade de fracasso. E se as pessoas não forem? E se não gostarem do livro? E se eu ficar sentada diante de uma mesa, acompanhada apenas do barulhinho dos grilos? E se? E se não? Acredito que o leitor já tenha passado por algo semelhante.

Pus-me então a refletir sobre o medo que eu sentia e, acreditem ou não, uma alegria enorme preencheu o meu coração. Percebi que o fato de estar atemorizada não significa que precise ficar paralisada. E compreendi algo ainda mais bacana: o medo do fracasso só aparece quando caminhamos na direção de algo importante para nós. Temer falhar é privilégio de quem está tentando, de quem está se movendo. Na zona de conforto não há desafios, medos, monstros ou riscos; mas não há louros. O medo da derrota é inerente a quem luta, a quem se joga nos sonhos. E isso é bom, porque confere ao dono do temor a escolha a respeito de como agir.

Reconhecer o que nos atemoriza é o primeiro passo, visto que não há luta justa contra o desconhecido. Depois disso, devemos compreender o motivo de temermos. Feito isso, vem a ação. Enfrentar é bonito, nobre e libertador. Enfrentar é dizer à vida que, sim, você concede a ela essa dança - mesmo que não saiba dançar, mesmo com medo de cair. Realizar é aceitar bailar com os sonhos, mesmo num ritmo desconhecido.

Ora, a vida é um baile que ocorre apesar de cada um de nós. Ela toda é movimento, ritmo e ciclos. E acontece. Simplesmente acontece. A questão fundamental é a escolha que fazemos entre dançar com ela ou observá-la sentados a um canto.

Se cair, levanta. Se der errado, tenta de novo. Se não for como o esperado, aprende, refaz e vai de novo. Vai com medo, mas vai. Dança sem saber o ritmo, mas dança. Vive, leitor! Baila com os sonhos. Vive!

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Chico


Nem todos os personagens dariam boas pessoas; assim como nem todas as pessoas viram bons personagens. Todavia, vez em quando, calha de essas duas coisas se encontrarem e aí, meu amigo, é uma festa só! Conheci uma criatura assim, com pinta de personagem, essa semana. Seu nome? Chico.

O Chico é o dono de uma livraria situada na Universidade de Brasília (UnB) e, pelo que eu entendi, se a gente procurar direito, encontra uma daquelas plaquinhas de patrimônio nele. São, afinal, trinta e cinco anos na Universidade. Não tivemos muito tempo para conversar sobre a sua história; ele está o tempo todo atendendo alguém.  Mas nem precisava. Eu não fora ali atrás disso; queria mesmo era conhecer a pessoa, o personagem-Chico. E foi o que fiz.

Cheguei logo depois do almoço, dirigi-me ao balcão de informações e perguntei pela livraria do senhor Francisco. O guarda olhou para mim com uma cara engraçada, de quem não está entendendo muito bem. Precisei explicar: "estou procurando a livraria do seu Francisco - o que apareceu na televisão, há uns dias". Aí tudo fez sentido. "Ah! Você está procurando a livraria do Chico!" - disse-me ele. E saindo do seu posto, o guarda deu uns poucos passos e me mostrou a entrada do estabelecimento. Trata-se de uma sala pequena, com paredes cobertas por prateleiras abarrotadas de livros. Pelo que pude perceber, existe alguma catalogação; embora desconfie que a lógica de distribuição das coisas esteja prioritariamente na cabeça do livreiro. Há poucos bancos e, acredite, eles não ficam desocupados por muito tempo. As pessoas que observei entravam na livraria e acabavam ficando um bocadinho.

O Chico não estava lá. Esperei. E quando ele chegou, estava sorridente, apressado e com as mãos cheias de sacolas abarrotadas de livros.

Apresentei-me com um "Oi Chico. Sou Fernanda, a escritora que te ligou ontem, lembra?". Sua resposta não poderia ter sido mais original. Tirou de uma das sacolas um livro do Paulo Leminski, abriu numa página qualquer e me disse: "lê esse poema pra gente." Olhei para as pessoas dentro da pequena livraria e, sentindo que não tinha muita escolha, li. As pessoas aplaudiram e o livro passou para as mãos de outro frequentador, que foi aplaudido e seguido por mais uma leitura. "O Leminski ultrapassou um best seller cinzento em número de vendas no Brasil" - ele dizia - "vamos ler para comemorar!". E assim, todos os clientes que entravam na livraria liam um poema antes de saírem. Penduravam a conta, mas não a leitura.

Foi uma tarde excelente, com boa prosa, bons versos e muitas risadas. Isso me deixou feliz, mas as entrelinhas daquela tarde me encantaram muito mais.

Percebi que eu estava diante de um homem com origem muito simples e que fez sua história sobre um caminho de parágrafos e páginas. Entendi, mais uma vez, o poder que as palavras têm para fazer diferente a vida das pessoas e para aglutinar. Admirei a força que há por trás do trabalho que é feito com amor e saí levando comigo um pouco dessa energia boa, dessa vontade de construir, de realizar. Trouxe para casa um livro de poesias devidamente autografado pelo autor, Daniel Faria, e um bocado de paz interior - do tipo que se consegue quando se vê algo simples, sábio e - pela falta de palavra que descreva melhor - bacana (muito bacana!).

Despedi-me após prometer que voltava.
- Você vai voltar logo, não vai?
- Vou sim, Chico. Adorei conhecer a sua casa.

E sinto que nesse ponto, talvez tenha sido injusta: aquela não é a casa do Chico; é o seu castelo!


Beijinhos
Fê Coelho





quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre Elefantinhos e Problemões



Desconfio que assim como eu, várias pessoas tenham se apaixonado pelo pequeno Dumbo - o elefantinho orelhudo, vítima de bullying e com vocação para acrobacias aéreas. O que não sei é se o filme provocou nos expectadores de maneira geral o mesmo efeito que causou em mim: o de passar a achar filhotes de elefante algo muito fofo. Eles parecem tão engraçadinhos e desprotegidos que dá vontade de pegar e levar pra casa. É exatamente o que fazemos com alguns aspectos de nossa vida: adotamos, protegemos e alimentamos hábitos, posturas e problemas que, exatamente como os elefantinhos, vão crescer e se tornar um problemão. Aconteceu comigo. Acontece com um monte de gente.

Quem nunca se pegou com aquele pensamento procastinador e - confessemos - meio covarde de deixar para depois? Existem algumas situações com as quais preferiríamos não lidar, seja porque nos é incômodo, porque não sabemos como resolver ou até porque não gostaríamos de dar um fim a elas. Então passamos um bom tempo vivendo como se o problema em questão não existisse, ou como se não passasse de um enfeite, um bibelô qualquer. Aí reside a encrenca toda: problemas não são bibelôs! Perrengues não são coisas estáticas, que podem ficar anos a fio relegadas a um canto, para depois serem resolvidas. Problemas são como filhotes de elefante que se criam na sala de casa e que cedo ou tarde vão acabar ocupando todo o espaço disponível - a menos que se dê a eles um destino apropriado.

Eu exemplifico. Com o advento da banda larga, o surgimento dos dispositivos móveis e toda essa parafernália tecnológica que eu falharia miseravelmente em descrever, surgiu a oportunidade da educação à distância - uma excelente pedida para quem tem o mínimo de disciplina. Confesso que não é a primeira vez que tento essa modalidade de ensino. A diferença é que agora vai! Não foi só um curso que ficou pelo caminho, sem que eu o terminasse. Das outras vezes, a procastinação - que era apenas um fofo e insistente bebê elefante - tornava-se adulta e impossível de se lidar, tal qual um elefante adulto e barulhento. O prazo acabava, a paciência também e lá se ia o meu tempo e o meu dinheiro pelo ralo - exatamente porque falhei em lidar com um problema enquanto ele era pequeno. É exatamente o que estou tentando fazer agora: dar um destino aos maus-hábitos, manias e perrengues enquanto posso lidar com eles.

Não quero dizer que seja fácil. A maior parte das vezes temos problemas de estimação - inseguranças, medos, hábitos, ciúmes, crenças e situações - dos quais não conseguimos nos livrar. Isso me faz lembrar de uma anedota que ouvi, não me recordo bem onde ou quando, e que narra a história de uma pessoa que atravessava um rio agarrada a uma pedra. À medida que a pessoa se afogava, os amigos gritavam para que ela soltasse a carga. A isso, ela teria respondido: "não posso, porque essa é a Minha Pedra". Em outras palavras: é o meu ciúme, o meu espaço, o meu medo, o meu emprego, o meu relacionamento, o meu desejo de salvar o mundo, a minha crença de que eu posso mudar as pessoas, e por aí vai. Afogamo-nos, mas não largamos. Deixamos que o problema cresça,  mas não o resolvemos.

A questão é que, assim como os elefantes, tudo o que alimentamos cresce e consome mais e mais de nós. O que é nocivo piorará; seja por questões práticas ou pela nossa inaptidão em resolver a situação. Os monstros embaixo da cama adquirirão mais escamas, os medos aumentarão, as mentirinhas e pequenas ilusões renderão grandes perdas. O essencial é ter coragem para reconhecer o que pode ser um bebê elefante - por mais fofo que seja, por mais gentil, desprotegido ou mesmo ameaçador que seja - e então desapegar. Porque em algum momento a gente aprende: algumas coisas são necessárias; outras não.

Beijinhos
Fê Coelho


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Crônica de Quinta: Seu Manoel e Eu



Acredito que a maioria das moçoilas que moram sozinhas conhecem a figura de quem pretendo falar. O senhor Manoel - que eu carinhosamente chamo de Seu Manoel, Maneco ou, se estiver com muita raiva, Mané - é da turma da Isaura. Trata-se de uma das criaturas imaginárias e palpiteiras que fazem parte da Galera Aqui de Casa.

No que se refere a pequenos reparos, nossa sociedade é praticamente unânime: isso é papel de homem! Daí decorrem batalhas homéricas entre donas de casa revoltadas com a capacidade dos maridos para procastinar e maridos embasbacados com o quanto as mulheres podem ser insistentes - especialmente quando eles já disseram que vão dar um jeito em tudo. Acontece, leitor querido, que nem todas as leitoras têm um marido com quem brigar ou uma figura masculina para quem fazer beicinho, prometer vantagens ou argumentar a cada vez que uma pia entope, um varal despenca ou uma lâmpada queima. E é nesse ponto da conversa que surge a figura do Seu Manoel.

Seu Manoel é um distinto senhor, lá pelos seus setenta anos de idade. Viúvo, teve que aprender como educar seus doze filhos, hoje dispersos por esse mundão velho e sem porteira. Desconfio que ele tinha uma veia inclinada às ciências humanas, porque quis viver a experiência de cuidar dos filhos, só pra saber se era possível. E foi. De alguma forma, isso transformou profundamente o sistema de crenças do Seu Manoel e fez dele uma espécie de feminista. Hoje ele se diverte fazendo visitas a mulheres que precisem fazer o que ficou rotulado como "coisa de homem". O objetivo é incentivá-las a serem fortes, independentes e bem-resolvidas. Tenho cá minhas dúvidas sobre a pureza das suas intenções. Todavia, continuemos.

Meu primeiro contato com o Maneco foi durante a faculdade, quando um ralo de banheiro entupiu. Considere, o leitor, que eu morava num apartamento dividido com outras três mocinhas. O ralo estava entupido. O banheiro não funcionava. Ninguém queria pôr a mão para resolver o problema (convenhamos que isso é nojento). Aí o Seu Manoel chegou, usando um paletó xadrez com napa nos cotovelos, um lenço no bolso, e os cabelos grisalhos cheios de brilhantina escondidos dentro de uma boina. Lembro-me de que ele sorriu, olhou no fundo dos meus olhos e disse "Mas fia, isso é facim demais de resorvê! Ocê bota um saco na mão, tira a tampinha do ralo e vai com fé. Bota a mão lá dentro e arranca as tranqueira tudo de lá. Aí depois bota a tampa e vai tomar banho. Té parece que tem dificurdade nisso..." .

É como eu digo, leitor, a Galera Aqui de Casa faz o que quer comigo. Fato é que eu desentupi o ralo e de lá pra cá o Seu Manoel decidiu investir no meu potencial. Já me ensinou a trocar lâmpada, calibrar pneu de carro, consertar varal, ajeitar a TV quando ela resolve chiar, entre outras coisas. Quando eu penso que não vou resolver algo, ele aparece do nada e dispara "deixa de bobagem, fia. Isso aí é facim demais de resolver".

O problema é que ele é meio confuso. Nem sempre sabe bem o que está fazendo. Já peguei o Seu Manoel procurando vídeo tutorial no Youtube e sites do tipo "faça você mesmo". Aí ele se justifica, dizendo que no tempo dele era tudo mais fácil, que as gerações seguintes complicaram tudo. Mas não desiste, o danado! Vai dando um jeitinho, tentando outra forma de argumentar até que me convence. A menos que a Dona Expedita apareça e diga que quer um picolé de limão. Nesses casos, ele me abandona com a chave de fenda na mão e foge, vá saber pra onde.

Não sei se ele é um feminista que busca incentivar as mulheres a expandirem suas habilidades, ou se é um machista querendo convencê-las a darem uma folga aos seus maridos. Seu Manoel é dessas figuras que a gente não entende bem, mas aceita. Até porque quando ele resolve aporrinhar, é pra valer. Disse e repito: sou uma alma fraca, leitor. Trocar a lâmpada não é divertido, mas ver o Seu Manoel explicar até tem a sua graça. E que se registre: a mulher que nunca deu ouvidos ao Maneco, que atire a primeira bolsa!

Beijinhos
Fê Coelho

Crônicas de Quinta



Ei, gente.
Poucas vezes eu me dirijo assim, tão diretamente aos leitores, como quem conversa. Às vezes essa interação acaba transparecendo, mas de forma muito fugaz, como quem pula o muro, pega a bola na casa do vizinho e sai correndo pra pular o muro de volta. Hoje, entretanto, eu gostaria de falar com você, leitor.

Quero primeiro agradecer a você, leitor querido, pela companhia no caminho que venho construindo, parágrafo por parágrafo, nesse mundo de ideias. Agradeço a todos pelo respeito com meus escritos e pelo carinho que muitas vezes tenho recebido. Não esperava isso. Não achava que pudesse acontecer. Mas aos poucos algo tem acontecido. E andei pensando que escrever com uma regularidade maior possa ser uma forma de demonstrar o meu apreço às pessoas que acompanham o blog.

É por isso que resolvi testar uma forma mais regular de escrever. Pretendo me dedicar a publicar, às quintas-feiras, crônicas que deverão integrar as Crônicas de Quinta. A ideia é fazer do blog algo melhor que um lugar para organizar os pensamentos que transbordam. O teste aqui vai ser de regularidade e disciplina. Juro que quase tenho um faniquito quando penso em uma quinta-feira qualquer em que eu não encontre nada sobre o que escrever. Por outro lado, o desafio compensa.

Estejam, portanto, convidados. As crônicas podem ser de quinta, mas os leitores são de primeira!

Beijinhos
Fê Coelho
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