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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ela sorriu. Deve estar tudo bem




Ela sorriu.
Há um tempo ninguém via um sorriso novo, mas agora ela sorriu. Deve estar tudo bem, certo?

Claro. Ela está feliz. Sente-se plena e realizada e tudo está funcionando perfeitamente. Ela quer que você saiba que tudo está em seu lugar e que os dias são azuis. Há flores nos vasos, luz entrando pela janela e fazendo com que os grãos de poeira dancem ao som de uma música feliz. Ela está bem, acredite e siga. É o que ela quer.

Ela se penteou e mostra a maquiagem impecável. Acredite, ela está bem. E pare de se perguntar se é mesmo verdade. Simplesmente se convença e quem sabe ela também o faça.

Porque a bem da verdade é mais simples dizer que sim, a vida está nos trilhos certos. As nuances são difíceis de explicar e as pessoas são apressadas. Nem todas as palavras estão engatilhadas e prontas para traduzir o que nem ela mesma entendeu. Então, para todos os efeitos, acredite no sorriso que seus olhos viram.

Afinal de contas, o tempo é escasso e ela anda cansada. Não quer fornecer entediantes explicações multifacetadas sobre suas inconstâncias. Tampouco está interessada em elucidar o que mudou e o que se mantém. Ela está tão cansada... Apenas deixe que ela sorria e não pergunte nada.

Seja gentil e aceite um sorriso sem elucidação. Isolado. Da moldura para fora. Sem pretensão. Sem intenção. Sem motivo. Sem a necessidade de resposta. Apenas um sorriso gêmeo de tantos outros que já foram. Explicações são coisa cansativa - enfadonha, até - e ela não quer dizer mais nada. Ela não tem o desejo de enumerar fatos, nem listar pensamentos. Vivê-los é o bastante.

Houve um sorriso e haverá outros, mas cuidado com as inferências. Quem sabe ela esteja se convencendo daquilo que parece ser. Superfície tranquila e, abaixo dela, as turbulências. Ela é boa nisso de ser forte, afinal. Ou nada disso. Vai ver está realmente tudo bem. Ela nunca prometeu ir além dos fatos.

Os fatos, as fotos e os sorrisos são de quem os testemunhe. Os sonhos, o sentir e a vastidão do mundo que se encerra dos lábios para dentro são dela. Somente dela.


Fernanda Coelho.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sem parar


 O mundo não para,  é o que dizem. Óbvio em certa medida; cliché, até.  Todos sabemos disso, embora só venhamos a experimentar essa realidade quando gostaríamos que ele parasse.
O mundo não para. Por ninguém, nem para ninguém. Ele não para para assistir às grandes tragédias, nem aos pequenos dramas. E não diminui o ritmo para que se aliviem as dores ou se celebrem as vitórias.
O tempo vai.
A vida continua a florescer e a se esvair. Pessoas se encontram e se perdem. Laços se criam e se desfazem e o mundo continua. As buzinas soam, os despertadores tocam, a bolsa de valores sobe e desce, as agendas se cumprem.
E lá se vão os dias .
Porque a vida é algo que,  contrariando todo nosso sentimento de proteção do ego, acontece apesar de nós.  A vida segue. Ela sempre continua o seu curso. Ela não pode esperar que tenhamos revisado todas as boas e más notícias para acontecer. O presente urge em ser passado. Assim como o futuro insiste em se tornar presente.
E dessa forma os passantes seguem ruminando suas questões, enquanto vão vivendo. E vão juntando seus pedaços da melhor maneira possível - entre uma reunião e outra, entre um e outro momento. 
Porque o mundo, ah!, esse não para nunca.
Então talvez o processo de se refazer seja algo como o de pegar folhas caídas numa grande avenida: recolher o que for possível enquanto o semáforo estiver fechado. Talvez a gente se refaça entre um carro e outro, aos sopetões, ou talvez com calma, juntando aqui e acolá o que for possível.  E a gente se refaz sabendo que algumas folhas o vento sempre leva consigo.
E o segredo pode estar em deixá-las ir para que se possa juntar o restante.
O mundo não para nem pela dor, nem pelo amor. O mundo não para, não volta e nem se adianta. Ele simplesmente nos oferece a inacreditável oportunidade de seguir com ele e ver o que acontece depois.
Ora, e o que é a vida, senão um grande convite?
Beijinhos
Fê Coelho.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cartas para Ninguém - Felipe e a Vó


Oi Vó.

Choveu aqui hoje. Eu sei que essa não é uma informação que vá modificar o seu dia, mas mudou o meu. A chuva caiu e me lembrei da senhora, com aquele croché infinito nas mãos, olhando pro pasto molhado e se preocupando com as galinhas e as mil goteiras do galinheiro. Aí deu uma saudade sem tamanho e resolvi escrever.

As coisas por aqui são mais ou menos o que eu esperava. A gente estuda, trabalha, se embriaga umas cinco vezes por semana. Às vezes três. Esquece essa parte, Vó. A gente não se embriaga, mas diz que sim, que é pra manter o moral. Na verdade, eu vivo com um livro na mão e me mato de trabalhar na lanchonete, pra receber uns trocados.

Eu pensei que fosse ser mais fácil. Pensei que a vida dos rodeios não fosse me fazer falta. Achei que nunca me arrependeria de bater o pó das botas e ir me encher de manias da cidade. No fundo a gente sempre se ilude um pouco, né? Mas me disseram que a caneta é mais leve que a enxada e eu acreditei. De fato ela é, Vó. O que pesa é essa saudade enorme do tempo em que eu podia apenas estar; de quando eu tinha tempo de ver a vida. O que pesa é a falta que me faz aquela risada que nós deixamos de dar, as discussões que deixamos de ter. O maior fardo, Vó, é o tempo que não aproveito ao seu lado.

A vida tem dessas coisas, eu acho. A gente vive escolhendo e se agarrando às escolhas que faz. Algumas delas são levinhas e a gente traz elas penduradas no canto do sorriso. Mas outras são como aquelas toras que a gente buscava pro fogão de lenha - pesadas e desconjuntadas; difíceis de carregar, mas úteis afinal.

Estou me esforçando, Vó. Logo, logo eu vou ter dinheiro para reformar o galinheiro.

Me espere para o natal. Chego uns cinco dias antes. Mentira. O dono da lanchonete me confisca o fígado se eu fizer isso. Chego provavelmente na véspera de natal, levando comigo uma cesta básica, as guloseimas que a senhora tanto gosta, uma garrafa de cidra (que a gente vai bebericar devagarinho, pra sentir as bolhas estalando na língua) e todo o meu amor.

Com carinho,
Felipe.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eu que não falava de amor.



E eu, que não falava de amor, agora decidi embarcar nesse trem. Eu, que não falava de amor, resolvi que talvez não doa fazê-lo. Ora, o amor - tema pintado, declamado, aclamado, e estudado é apenas um assunto. É mais uma das faces desse diamante que lapidamos durante anos; um que chamamos vida.

Nunca falei de amor, é verdade. Pelo menos não daquele sentido por duas pessoas que decidem se amar e construir uma história juntos. Não expressando minhas impressões a esse respeito. Houve alguns escapes, é verdade; mas se falei de amor, foi em histórias fictícias. Falei de um amor de mentirinha, daquele que a gente cria para a ficção. O amor da vida real é outra coisa.

Sempre me questionei o motivo de minha relutância. E recentemente tenho pensado ainda mais a esse respeito. Ora, tantas pessoas já esgotaram esse tema! Tantos se debruçaram sobre ele e compuseram mais do que poderíamos supor. Tanto já foi dito, que talvez eu ainda não houvesse encontrado minha própria forma de falar de amor. Creio que nunca tenha compreendido bem o processo, afinal.

Amar não é algo que se aprenda como conteúdo de prova. Não é algo em que se possa provar habilidoso; não em termos acadêmicos e racionais. Pode-se refinar os modos, os hábitos e as crenças. E creio que esse refinamento seja o responsável por produzir um amor sobre qual não haja motivo para censura.

O amor não é algo que se aprenda como conceito. Não. Ele é, antes, algo que se viva com consciência e verdade. Amar é entregar trechos de vida, pensamentos e intenções. É ter consigo um sentimento do qual se orgulhar e para o qual voltar. Todos os dias.

E sim, é amor, aquele bem-querer quentinho no peito da gente. É amor aquele buscar com os olhos e aquela vontade de fazer feliz. É amor aquela paz que te acomete e te diz que o coração encontrou pouso. E é amor a coragem de se admitir enamorado, sem o medo do arrependimento. Sem a censura fria de quem não tem assim tanta certeza.

A gente se preocupa demais com definições, quando - na verdade - o amor só demanda honestidade, verdade de sentimento. Ora, amor é quando a gente sente. E sentir já é o bastante para definir.

Beijinhos
Fê Coelho.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Escritora com Nome de Bicho



Era a escritora miudinha. Pequenininha, com um ou dois degraus subidos, mas com uma vontade enorme de conhecer a escada. Era a escritora miudinha, ainda tentando entender o processo. Peixe pequeno se aventurando fora do coral.

Tem sobrenome de bicho, essa escritora. E tem consigo essa simplicidade; esse não saber, que de tanto não saber acaba descobrindo alguma coisa. Não consegue usar as formas mais rebuscadas da língua. Não sabe jogar purpurina pra todo lado. Toda ela é meio assim, sem rodeios. Pensa o que quer dizer, sente a forma como quer que sintam e escreve. Descomplicada essa escritora com nome de bicho.

Já pensou que queria ser cantora, mas cantora não pôde ser. Não conseguia saber a diferença entre tons e ritmos, nem se adequar ao som. Mas ela sempre viu o pôr do sol em forma de texto. Sempre se encantou com tudo o que viu, com as histórias que encontrou e com as formas de contá-las. Gostava de poesia, aquela criança miudinha, e de livros, e de arte. Nunca soube classificar bem as coisas, mas sentia todas elas. Vive um eterno sentir, essa criatura.

E talvez seja por isso que ela escreve: porque sente além da conta; porque pensa e vira frase a cada esquina do caminho; porque transforma tudo em texto. Alguns ela guarda consigo, outros ela encerra no coração. Mas alguns ela manda espiar o mundo, como a pomba do dilúvio, meio que para saber se é seguro. E os textos obedecem. Fluem, saem e voam. Encontram corações e fazem morada. Ou ficam por apenas um segundo. Ou não ficam. Mas eles seguem viagem. E voltam trazendo notícias do mundo de lá.

Curiosa essa escritora com nome de bicho, que gosta de crianças; que quer ter sempre o olhar como o delas. E que, se dizendo escritora infantil, mesmo assim se sente em dívida de sinceridade com o amigo leitor adulto. Escritora teimosa que fala de tudo, mas que teima em não falar de amor.

Ah escritora danada. Aprende que não é você que escolhe as palavras; elas é que fazem morada no seu coração e passeiam pelos seus dedos. Aprende escritora com nome de bicho. Nessa brincadeira, você é sempre a pega.

Feliz dia do escritor.
Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sobre sementes e a vida



Viver é enterrar sementes, refleti dia desses, enquanto dirigia para o trabalho. O sol ainda nascia. A estrada à minha frente me lembrava das cobertas que tão sonolenta abandonei. E tive certeza: cada dia é um novo plantio. Todo alvorecer traz consigo o germe do que ainda está por vir, daquilo que supomos, sonhamos ou negamos. Cada amanhecer encerra em si uma gama de possibilidades. É como se nos levantássemos para isso: plantar.

Um bom dia que se deseja é simpatia plantada no coração do outro. Os olhares, os sorrisos, as intenções, as ações e omissões – tudo isso é semente lançada em terreno fértil. E não se engane, cedo ou tarde elas acabam dando frutos.  Por onde passamos, em todas as relações que estabelecemos lá estão eles nos lembrando do tempo do plantio, da oportunidade aproveitada ou perdida de se escolher a semente certa.
As sementes que plantamos podem nos render árvores frondosas, sob as quais descansamos após anos. Tanto tempo depois, ainda se pode ver o resultado do plantio. Da mesma forma, podem se tornar espinheiros, que nos ferem e atravancam o caminho. Tudo passa pelas escolhas, pela intenção de plantar, pela decisão de viver.

Viver intencionalmente é escolher o que se vai semear. É não sair por aí apenas lançando ações ao acaso. Viver por querer é ter coragem de separar os frutos que se pretende plantar. Ora, não creio que alguém espere semear laranjas e colher alfaces. Da mesma forma que não se pode espalhar discórdia e esperar ter em troca aquela paz duradoura e amparada por ombros que sempre souberam que podiam se apoiar nos seus. Viver por querer é preencher a própria história com fatos, gostos, afetos e doações.

Claro, não se pode escolher as sementes que plantam em nós. Nem sempre, pelo menos. Muitas vezes somos brindados com algumas com as quais preferiríamos não lidar. Tristeza é coisa que aparece, desamor também. A verdade que plantamos pode não ser a que recebemos. Somos terreno arado e fértil, mas temos a opção de escolher que árvores serão adubadas e regadas. Podemos simplesmente não alimentar aquilo que não acrescenta.

Isso é viver bonito, creio eu. Isso é uma maneira de manter o olhar atento, os sentidos aguçados. É uma forma de tentar tirar o melhor de cada momento em que estamos por aqui, nesse mundão velho e sem porteira. Ter a consciência de que todo dia é um plantio nos faz entender  que cedo ou tarde os frutos chegam. E que sejam doces. E que sejam de paz. E que nos façam crer que cada dia de semeadura valeu a pena.

Beijinhos
Fê Coelho.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pedra e Flor: reflexões sobre ser Enfermeira.



A enfermagem é a arte e a ciência de cuidar; isso é sabido. O que eu ainda não sabia é que a enfermagem, como arte ou ciência, é obra que leva a vida toda sendo construída.  Há coisas e fatos que aprendi durante meus cinco anos em período integral de faculdade. E há outras tantas coisas que compreendi em meus quase nove anos de profissão. Há coisas que foram fáceis de aprender e outras com as quais luto até hoje. E tremo em pensar sobre o quanto ainda há para saber, fazer e sentir.

Percebi - e ando me debatendo com esse fato nos últimos dias - que o enfermeiro é muitas vezes o olho de outro profissional sobre o paciente. Como estamos lá em tempo integral, somos quem decide se algo é simples de se resolver, com os recursos de que se dispõe na hora, ou se é momento de chamar outro profissional. Creiam: nem sempre é fácil fazer isso. Para saber a quem e quando chamar, é preciso conhecimento e discernimento. Reconhecer as grandes e pequenas necessidades daqueles sob nossos cuidados e garantir para que elas sejam atendidas é algo laborioso, que pode nos custar, em alguns casos, até a paz de espírito.

Entendi que não há limite para o que se pode aprender. Academicamente falando, ou não. Cada contato com uma pessoa é o momento oportuno para crescer; não importa se como profissional ou como ser humano. Um bom enfermeiro cresce. O tempo todo. E usa essa capacidade em prol dos que se confiam a ele.

Descobri que muitas vezes, pouco é tudo o que podemos fazer; contraditoriamente, nesses momentos, pouco pode querer dizer exatamente isso: tudo. Não é fácil ouvir os agradecimentos de filhos cuja mãe você não pôde salvar. Esse é o tipo de coisa que dói de um jeito estranho. Dói até você compreender que as pessoas morrem, mas que a maneira com que foram tratadas até que isso aconteça é fundamental. Dói até você entender qual é o seu papel diante de cada par de olhos com os quais você cruza. E até você pensar que aprendeu e se encontrar com uma nova dor, fruto do inesperado. E até você entender que, muitas vezes o coração do enfermeiro é remendado; mas continua acolhedor.

Compreendi que um novo trabalho é uma nova oportunidade; um caminho a trilhar, com suas particularidades, surpresas, vitórias e agruras. E entendi que um antigo trabalho será sempre uma escola, herança e origem para a qual olhar sempre que necessário. No fim das contas, acolher o futuro e honrar o passado continua sendo um bom meio de vida.

Aprendi com a dor, com a incerteza, com a beleza que se esconde bem longe do óbvio. Tive como mestres a convivência de pessoas, o que elas fizeram, o que deixaram de fazer, o afeto e a falta dele. Aprendi com o fazer, com o agir, o ouvir, o esperar, o observar, o sentir. Aprendi muito. Em cada momento de doação, em cada segundo de incerteza e ao final de cada dia, com a cabeça no travesseiro, certa de minha sorte por estar saudável.

Lembro-me ainda das palavras de um dos meus mestres na faculdade, o Dr. Marcelo Medeiros. Certa vez ele nos alertou que um dia seríamos pedra e, no outro, janela. Nunca me esqueci disso. Nunca deixei de pensar que num dia eu cuido e noutro posso estar ali, frágil, janelinha da Silva. E ainda me espanto com a beleza da profissão que exerço: uma que pode ser pedra, mas que opta de todo coração por ser flor.

Feliz dia do Enfermeiro a todos os meus colegas.
Me orgulho da profissão que exercemos.
Beijinhos,
Fê Coelho.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Toda mãe



Existem coisas que acontecem com tanta gente, que acabo pensando que ocorrem com todo mundo. Existem conceitos tão arraigados, que eu acabo crendo serem parte de uma verdade universal. Sei que nem é isso que ocorre, mas gosto de pensar que todas as mães têm algo em comum, além do fato de terem filhos.

Penso que toda mãe tem consigo um amor desvelado, daqueles que não consegue decidir entre um filho ou outro; nem entre os filhos e a própria vida. Penso que esse amor é uma espécie de motor de arranque para os dias e para as decisões. E creio, também, que toda mãe em algum momento faz aquilo que tem que ser feito - apesar da dor, da dificuldade ou da aparência impossível.

Toda mãe, aqui na minha cabeça, tem olhos aguçados - daqueles que veem sujeira atrás da orelha e tristeza escondida atrás do sorriso. Toda mãe capta nuances que ninguém mais percebe, porque o amor amplifica a visão. Ela sabe a hora de abraçar e de dar a bronca; e se não sabe, vai tateando com o coração até descobrir. Ela enxerga o perigo que ninguém mais vê, o amigo que nem é tão amigo assim e o potencial que nem mesmo a gente sabe que tem.

Toda mãe, no meu entender, - e quero muito crer que seja verdade, ou seria realmente muito triste estar num barco sozinha - já errou tentando acertar e já acertou com medo de errar. Todas nós já nos sentimos perdidas, frustradas, amedrontadas e recompensadas na mesma medida. Toda mãe já sentiu dó e se preocupou com a passagem do tempo. Toda mãe já chorou e sorriu; e já sentiu o dia se iluminar à vista de um sorriso.

Creio que são essas coisas que fazem das mães uma espécie de instituição, algo sólido em que se pode confiar. Acredito que essa série de intersecções nos aproximam e criam um dialeto de amor, que só se compreende de fato quando se gera um filho - no ventre ou no coração.

Porque o que fala por nós, mães, é um afeto grande demais para ser traduzido. O que nos move é um coração cheio de um amor transformador, capaz de se doar e de perceber a beleza em frações de segundo.

Penso que toda mãe consegue guardar consigo pequenos trechos de eternidade. Porque toda mãe eterniza consigo as memórias mais refinadas de amor.

Feliz dia das mães!
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Se você me fizer sentir gratidão.



Se você passar pela minha vida e me fizer sentir gratidão, vou me lembrar de você sempre. Se fizer meu coração rir baixinho, você terá sempre um lugar especial, a mesa posta, os lençóis limpos e as janelas amplas abertas para um lindo jardim. Meu coração é generoso com quem enfeita suas paredes com quadros de amor e amizade.

Se você me fizer sorrir à lembrança do seu olhar, vou querer te ligar no meio da tarde. Vou me preocupar com seu bem-estar e dedicar a você uma boa dose de bem-querer. Vou me interessar pelo seu dia e prometo fazer um esforço grande para me calar e ouvir o que você tem a dizer. Porque se sua passagem pela minha vida tocar meu coração, vou querer ser uma pessoa melhor por causa de você e isso inclui reconhecer meus defeitos (entre eles o de falar demais).

Se você deixar um pedaço de si comigo, vou cuidar bem dele. Ou vou, no mínimo, me esforçar nesse sentido. Provavelmente vou cometer falhas e dar mil mancadas. E vou me sentir em falta com você. E mesmo que passemos um tempo sem nos falar - porque a vida anda corrida para todo mundo - você estará nos meus melhores pensamentos e nas minhas orações. Porque você me fez sentir gratidão e isso é algo que sempre tem volta.

E quando nos falarmos vou querer saber como anda a vida; vou perguntar como estão as coisas no trabalho, as crianças, a reforma do apartamento; vou tecer os elogios que fiz mentalmente ao ver uma foto sua no Facebook. E vamos rir. Sei que não é muito. Quem traz gratidão ao meu coração merece muito mais que isso. Nesse ponto entra um pedido de desculpas. E se você fizer o meu coração sentir amor, vou dizer isso quando desligarmos o telefone. Porque se você me fez sentir especial, vou retribuir isso e vou querer que você se sinta igualmente reconhecido.

Por outro lado, se você passou pela minha vida e pichou as paredes, espalhou as coisas pelo chão e deixou tudo meio cinza, vou reformar a casa; vou pintar tudo e pôr quadros novos; vou espalhar botões mimosos por todo canto até que não me lembre mais do que você fez. E, principalmente, vou deixar que você se vá para longe e para sempre. Meu coração não retém hóspedes inoportunos e nem cultiva lembranças desnecessárias.

Meu coração é lugar de bons amigos, familiares amados e amor retribuído. É casa simples, caiada de branco, ensolarada e acolhedora; uma casa que só abriga quem a ela trouxer nada menos que gratidão.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Das Coisas simples



Sabe, eu gosto de coisa simples. Gosto daquelas partes da vida em que tudo anda meio descomplicado, quando a gente olha e sabe bem o que vê. Tenho apreço por casa arrumadinha e aconchegante, mas que também te dá vontade de ficar à vontade. Gosto de poesia que fala com a gente, como quem conversa ao final da tarde, tendo o pôr do sol à frente.

Descobri que gosto de textos simples, daqueles que me fazem sentir exatamente o que se quis dizer. Gosto de sorrir ao ler. E se for pra chorar, tudo bem também. O que me deixa feliz é ler a verdade em cada parágrafo. Gosto de escrita que faz carinho na alma da gente. E creia-me, minha alma aprecia um bom cafuné.

Sabe, gosto de gente descomplicada, do tipo que não cobra aquilo que não pode ser entregue. Gosto de gente tranquila, verdadeira, cuja companhia é nada menos que um presente. Amo sorrisos francos, abraços apertados, olhos nos olhos e risada solta.

Andar de mãos dadas, picolé de limão, por do sol, música leve, cheiro de filho, filme com pipoca (e cobertas), lembrança boa no meio da tarde: tudo tão simples e tão bom.

Tenho medo do que andam fazendo por aí, transformando a vida num amontoado de coisas que se precisa ter e ser. Tremo diante das metas que me estabeleceram sabe-se lá onde, porque a maioria delas não me inspira a menor felicidade. Dizem que preciso ser magra, forte, bem-resolvida, sarada, inteligente, pós-graduada, bem-sucedida, bem-amada e bem-nascida. Dizem que preciso sorrir o tempo todo e que se não for assim, talvez eu precise mesmo de um antidepressivo.  Estão tentando me convencer de que, ai de mim, preciso receber declarações de amor publicadas no youtube, ou não vou saber bem o que é ser amada de verdade.

Pois eu digo que pouco me importa o que andam dizendo por aí. Sinto muito mais alegria num dia comum, que em lindos rompantes dourados. Confio mais no que é estável, no que se solidifica. Amo a doçura do cotidiano e das pequenas gentilezas; o sonho que se compartilha, a doação gratuita, a sensação de pertencer que só se encontra quando se pertence de verdade.

Sabe, amo a vida assim, sem tantos penduricalhos. Amo saber que sinto o que está ali para ser sentido, que aprecio o momento que tenho para apreciar. Gosto demais de viver de verdade. Tenho um gosto por demais refinado; um crivo fino, pelo qual só passa aquilo que for suficientemente simples.

Beijinhos
Fê Coelho




terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Terceira Carta ao Senhor Futuro



Vi você ontem à noite, senhor Futuro, rapidamente. Foi quase uma fração de segundo, mas vi você, zombeteiro, parado num canto do quarto, observando-me derreter de amor enquanto mirava uma foto em preto e branco - artifício do Instagram.

Talvez você nem tenha percebido, mas vi brincar em seu sorriso enviesado a ironia de quem já viu algo se repetir infinitas vezes. Um bebê. Meu sobrinho. Eu olhando a foto e me desmanchando em ternura; pensando em quão mágico é ver a continuidade, o renovar da vida.

Você sorriu. Segurou a aba de seu chapéu, acenando com a cabeça um cumprimento que só vi pelo canto do olho, para logo em seguida desaparecer. Comigo, ficaram apenas o senhor Passado e dona Esperança - visitas sempre mais demoradas.

O senhor Passado gosta de contar anedotas. Sentou-se aos pés da cama e falou-me de quando eu, ainda criança, observava os adultos olhando fotos. Recordou-me o quão divertido era vê-los rir de suas fotos, cabelos e roupas que ninguém mais usava. O Passado estava sorridente; bem-humorado, até. Falou-me de lembranças douradas e quentinhas como colo de mãe. Explicou-me que também ele já havia sido futuro um dia. E disse-me que não me importasse tanto com o que há de vir. "Tudo vem a seu tempo, afinal" - disse, estalou a língua, ajeitou seu casaco e se foi.

Em seu lugar, ficou dona Esperança - linda em seu vestido verde, bordado de sonhos. Fizemos inferências e planos reluzentes. Falamos de possibilidades e de como imaginamos os dias vindouros. Revimos fotos, sorrimos e chegamos à conclusão de que Raul Seixas estava certo ao dizer que tudo acaba onde começou.

Sei que você sorriu ao me ver, senhor Futuro. Sei que em seu sorriso dançavam mil segredos. Não te peço que me revele nada, ou que se adiante. Tome o seu tempo. Esteja à vontade. Peço, todavia, que cada pedaço seu que se for tornando passado, deixe comigo uma memória bonita para aquecer o coração.

Seja leve, senhor Futuro. Seja suave e alegre. Venha risonho e cheio dos atributos com os quais dona Esperança lhe pintou.

A gente se encontra - numa tarde ao sol ou numa noite qualquer; numa música, numa risada ou numa foto. Fato é que de vez em quando a gente acaba se encontrando.

Até lá, receba um beijo cheio de ternura.

Fê Coelho.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Das Negativas



Estive aqui pensando sobre os revezes com os quais muitas vezes somos brindados pela vida. Estive aqui refletindo sobre quantos trancos uma pessoa tem que aguentar nessa sucessão de dias, fatos e saberes que é a existência de cada um. E matutei sobre as coisas que recebi de amigos e parentes. E acabei me detendo nos presentes que ganhei dos meus pais até hoje. A conclusão a que cheguei foi de que o maior de todos os tesouros que já recebi foi o Não.

O não, bem aplicado, me mostrou que existe uma coisa chamada limite. Fez-me compreender que posso ir até certo ponto com as pessoas; mas dali em diante, não! Entendi que é assim mesmo. Todos possuem um limite claro, ou pelo menos deveriam. A negativa mostra que não podemos tudo, não sabemos tudo, e não, não somos os melhores em tudo. O advérbio de negação ensina. Ah! Como ensina.

Quando criança eu sempre soube que não tinha exatamente os mesmos brinquedos que as outras crianças, pelo simples fato de alguns deles estarem fora do nosso poder de compra. Meus pais nunca tentaram nos dar coisas que não podiam e nos comunicavam claramente os motivos. Isso trouxe algumas consequências terríveis: aprendi a ser honesta no que digo; entendi que não posso ter tudo quanto queira; tornei-me feliz pelo que tenho, deixando o que não está em minhas mãos para lá. Horrível, eu sei.

Além disso, o não dos meus pais me deu forças para enfrentar as negativas da vida. Chamam isso de resiliência - que no bom português, é a capacidade de aguentar trancos, de voltar ao estado inicial depois de algum impacto. E não se engane, a vida nega. E como nega! Seu aumento não sai. O carro que você quer comprar só pode ser entregue na semana que vem. Você é reprovado em algum concurso por uma questão. O vestido lindo só está disponível num tamanho dois números menor. A fila demora. O dinheiro acaba. Algum amigo se afasta. A pessoa por quem você suspira simplesmente não te ama. Ou não te ama mais. Ou trai a sua confiança. Ou todas as coisas juntas. E não, você não vai poder gritar com o gerente, nem bater na velhinha que leva um ano pra atravessar a faixa de pedestre quando você está atrasado. Você não vai poder sair da sala do chefe batendo a porta, nem quebrar o braço da mocinha na balada porque ela não quis te beijar.

O não, aplicado na infância, é como vacina. Ele nos deixa mais fortes e resistentes às frustrações. E aplicado na vida adulta ele nos permite crescer. Vacina dói. O não também. Mas existem dores que se vão indo tão de mansinho para longe, que você só percebe que elas se foram quando já nem se lembra mais de procurá-las. E o que sobra é aprendizado.  

Não é pessoal. A maioria das vezes é só o vento soprando do jeito errado. Ou o tempo do outro que está reduzido. Ou o dinheiro. Ou os motivos. Ou a vontade. Ou quem sabe seja mesmo pessoal. Mas quem disse que podemos agradar sempre? Esse é só mais um não que a vida nos empresta, para nos lembrarmos que não somos o centro do universo. 

Por fim, preciso dizer o mais importante: o não me ensinou o valor do sim. E é a ele que me agarro todos os dias. Sim, o dia está lindo. Sim, tenho mil motivos para sorrir. Sim, tenho amigos leais. Sim, estou viva, forte e cheia de possibilidades de construir uma vida repleta de cor e luz. Sim, posso agregar tanto amor quanto queira. Porque sou responsável pelas escolhas que faço.

Acolho o não como professor. Recebo as negativas da vida como lição.

E a maior de todas as lições é que não preciso ser correnteza brava, que destrói as pedras pelas quais passa. Posso ser regato manso, que contorna os obstáculos e simplesmente vai. Pra frente, pra longe. E se perde da vista da gente, nalgum ponto alaranjado de ocaso.

Beijinhos
Fê Coelho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Da Finitude



Há muito, leitor, tenho contigo uma dívida de sinceridade. Várias vezes expus tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar. Algumas delas, todavia, permaneceram inconfessas. Tenho essa característica, que para um escritor pode se tornar um defeito: tenho ciúmes de certos pensamentos. Alguns deles são tão meus, tão profundamente meus, que sinto pesar em dividi-los. Ocorre que algumas vezes o copo transborda e não há maneira de sossegar as ideias, a menos que alguns pensamentos sejam compartilhados. Pois bem, falemos sobre o fim.

Nunca fui pessoa de escrever sobre relacionamentos. O maior motivo para isso é que não se consegue nunca um distanciamento ideal - nem de assunto, nem de fatos, nem de tempo ou de encarnação. Ainda assim, creio que já possa dizer uma ou duas coisas com propriedade. Talvez isso alimente em mim a sensação de estar me tornando uma escritora mais honesta. Falemos, leitor querido, da finitude.

Então acabou. Tudo o que deveria silenciar é dito e, ironicamente, aquilo que não se quer ouvir são as únicas palavras disponíveis. As verdades e mentiras piedosas se penduram no silêncio, como um móbile a entreter um interlocutor meio pasmo. Os clichês vão chegando em fila indiana e nada mais faz sentido, porque é oficialmente o fim.

Você pode escolher vários caminhos: tomar seis (ou seriam sete?) latas de cerveja em sequência, ligar para todas as amigas (disponíveis ou não) e chorar até virar do avesso. Como queira. O fim é seu e você faz dele o que bem entender, certo? Até certo ponto, sim.

Acontece que a vida bate à nossa porta. Ela sempre bate. Os dias continuam sua interminável sequência de amanhecer e anoitecer. O cotidiano exige. E lá se vai você, não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido. A vida acontece apesar de nós, de tudo o que sentimos, desejamos ou lamentamos. A vida simplesmente é.

Pode-se resistir, deitar-se e chorar por colo e mingau de aveia? Ora, sim. Mas não recomendo. Reter a tristeza traz amargor. Tanto quanto fingir que ela não existe.

Depois do fim, iniciamos um processo de nos encolhermos para ser novamente apenas um, ou de nos expandirmos para valer por dois. E embora saiba que todos os dois processos são doloridos, posso dizer que tenho preferência pelo segundo, pois sinto que crescer e enfrentar seja algo mais bonito que se encolher até que os problemas deixem de perceber sua existência.

Então você reavalia, repensa, refaz. Você inventa uma maneira de preencher vazios e de substituir coisas que eram tão suas. Porque, de repente, não há mais aquelas tardes de domingo, nem o estar deitado no sofá da sala por não se ter outra ideia melhor. De uma hora para outra, os planos se desfazem e faz-se mister reinventar uma rotina que tinha se adaptado para agregar.

Então o fim chega e você sabe que, de alguma forma, algo seu se foi com outra pessoa. E percebe que se importa com o tratamento que será dispensado a esse pedaço seu. Depois do fim, pode ser que sobre um desejo contido de que aquele pedaço seu que se foi ainda seja capaz de produzir algum encanto. Por outro lado, o fim, quando apresentado repetidas vezes, pode nos ensinar que tudo o que o outro leva de você é um alívio enorme. Cruel, talvez. Mas que atire a primeira caixinha de lenços quem nunca se sentiu assim.

Fico imaginando do que, afinal, sentimos falta quando o fim acontece.

Como num filme realmente bom, daqueles que nos fazem lamentar os créditos, o término nos tira de um estado de contentamento. Momentos bons são recolhidos e a sensação (tenhamos cinco ou cento e cinco anos) é de que foi tudo prematuro. A vida se estica e encolhe; você sofre, chora, sorri e se refaz. Então percebe que a saudade maior é a que você sente de você mesmo; da versão de você que tinha o contato com o outro. A saudade é da felicidade que chegava junto com os olhos nos olhos, com o beijo na mão, com o abraço apertado e com o beijo que só ocorreu porque você não encontrou motivo para recusá-lo. A saudade é da sensação de benquerência; da ilusão de ser o primeiro pensamento de alguém. O pesar é pelo que não volta.

Mas a vida é essa. A finitude permeia tudo quanto nosso coração alcança, nos lembrando da característica quimérica dos nossos dias. A finitude é certa. Tudo mais é lucro e sorte. Tudo mais são apenas tentativas.

Quem disse que seriam apenas flores? Bem que uma grande amiga uma vez me disse: "o coração do outro é terra que ninguém pisa".

Beijinhos
Fê Coelho


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Véspera - uma crônica sobre novos sonhos



A meio passo de realizar um sonho cultivado por anos, com empenho e olhos brilhantes, me pergunto: e agora, José? Sei que parece estranho; que a realização dos sonhos deveria ser uma espécie de guia nessa sequência de abrir e fechar de olhos que é a vida. Sei de todas essas coisas. Todavia, hoje, às vésperas de ver o fruto do meu trabalho, me questiono. E agora?

Véspera sempre foi uma palavra que me intrigou, desde criança: a véspera de natal, véspera de provas, véspera do aniversário. Ora, pareceu-me durante muito tempo que a véspera era mais importante que a data esperada em si. E não seria? Afinal de contas, até percorrermos os segundos pelos quais esperamos, tudo o que temos são possibilidades. Ah, leitor, o universo das possibilidades é encantador e amedrontador em medidas iguais. Tudo pode ser: bom ou ruim; realidade ou apenas monstros embaixo da cama. A véspera é aquilo que ainda não é palpável. É uma espécie de fronteira entre o que era sonho e o que se torna realização.

Disseram-me, uma vez, que eu estaria riscando um  item da minha lista, ao realizar um sonho. Acontece que não foi isso o que ocorreu. A possibilidade de conseguir algo há muito tempo esperado se tornou o index para inúmeras outras aspirações. É como se sentir um degrau sob meus pés houvesse me dado a certeza de que ali há uma escada - uma que eu sempre quis conhecer.

E é por isso que eu vou, leitor, mesmo sentindo uma pontinha de medo; mesmo correndo o risco de me decepcionar. Se tem uma coisa que andei aprendendo é que decepção é um risco que assumimos para viver bonito. Não há garantias. Nunca houve. Não há meios para saber até onde vai o caminho de cada um de nós. Porque a vida é assim mesmo, melindrosa, afeita às surpresas.

Traduzindo e citando livremente uma música de que gosto bastante, afirmo que que "não posso dizer onde a jornada vai terminar, mas sei onde ela começa". E ela começa aqui. Nesse ponto que não sei muito bem qual é, mas que sinaliza o início de muito trabalho e de uma busca por uma carreira que - acredito eu - vá se mostrar a mim, um degrau após o outro.

Esta não é apenas a véspera da realização de um sonho, mas do surgimento de tantos outros. E se isso trouxer o risco inerente da decepção, tudo bem. Porque mais importante que o sonho realizado e pronto, entregue prêt à porter, é a construção de cada um deles.

Muito mais bonitos que um sonho que se realiza, são os que nascem a partir daí.

E vamos em frente!
Beijinhos
Fê Coelho


sábado, 23 de novembro de 2013

Mingau de leite - uma crônica sobre a memória do amor.



De todas as coisas simples, uma das mais singelas que conheço é a lembrança do amor que recebemos. Ela pode estar contida em qualquer objeto; pode se esconder em qualquer paisagem e se revelar com qualquer sabor, cheiro ou toque. A verdade é que a lembrança do amor está em tudo o que pudermos experimentar, mesmo que seja uma colherada de mingau.

O leitor não me julgue doida. Ou julgue, como queira. Fato é que hoje, numa colherada de mingau de leite encontrei a lembrança de amor que precisava para acalentar uma noite de sábado, apreciada entre um e outro plantão de doze horas, longe de todas as pessoas que eu queria ter por perto. Mingau poderoso? Não, leitor. Poderosas são as lembranças de uma infância e uma vida repletas de amor.

Mingau de leite me lembra dias e dias na companhia de minha mãe - linda, tão linda quanto meus olhos infantis podiam enxergar - cansada, depois de horas de trabalho e ainda assim, amorosa o suficiente para se esforçar um pouco mais e ir para o fogão fazer mingau para os filhotes. E me lembra de dias de chuva, quando eu e meus irmãos pouco tínhamos para fazer, exceto jogar baralho com nossos pais e brigar por coisas vãs. Sabores simples, de uma vida simples e saborosa.

A memória do amor que recebemos é alimento para o amor que entregamos. É lembrete que o coração deve ler todos os dias, antes de pensar em fechar as portas. É o próprio amor, assumindo o lugar de professor e nos ensinando a amar. A memória do amor é remédio contra o amargor; é amortecedor para a dureza da vida. É aquilo que confere valor genuíno a uma lembrança que, sem esse sentimento, seria apenas legalzinha.

O amor que recebi é tão bonito, tão leve e tão simples, que consigo encontrá-lo até numa colher de mingau fumegante. Só posso concluir que o amor não seja algo assim tão complicado, afinal.

Beijinhos
Fê Coelho.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Tão Simples



Desconfio que a felicidade seja uma senhora esperta e sábia, que não se permite rotular. Imagino que seja figura feminina, melindrosa, leve e sutil; simples, mas tão simples, que podemos passar por ela muitas vezes e pensar que não, aquela definitivamente não pode ser a Felicidade. Acredito que caminhe com pés descalços por aí, apenas aproveitando o caminho. Ela não se prende ao relógio, nem ao calendário. Creio que ela simplesmente esteja, sem a necessidade de algo além disso.

Muitas vezes já argumentei que prestamos um péssimo favor a nós mesmos quando transformamos a felicidade Na Felicidade, assim, com letra maiúscula e fogos de artifício. Tornamo-nos reféns de cenas idealizadas, com trilha sonora e luz bem posicionada. Com isso, abrimos mão de perceber a doçura que se esconde nos pequenos contentamentos, nos instantes - esses pequenos pedaços de que é feita a nossa vida. Passamos a nos importar tanto com o fato de conseguirmos um quadro perfeito, que infinitas vezes perdemos a capacidade de apreciar a beleza das tintas na tela. 

E nesse afã de encontrar a tal Felicidade - pura, límpida e com selo de qualidade - deixamos passar por nós as oportunidades de sermos realmente felizes. Sabe, leitor, o mar não trabalha em câmera lenta e nem sempre parece o Caribe. Mas ainda está lá. A areia ainda está sob os pés das pessoas; o barulho das ondas e a maresia persistem. A vida não é videoclipe, mas isso não a torna menos bela - apenas faz dela algo real e possível. Da mesma forma os relacionamentos são apenas relacionamentos. São o encontro de duas pessoas que podem ou não se entenderem bem. Por mais bonita que seja a história, idealizá-la seria tirar-lhe a autenticidade, aquilo que faz dela algo único e, por isso mesmo, tão bonito.

Tentar transformar a vida numa comédia romântica ou num comercial de margarina é injusto. Esperar que a felicidade venha polida, cintilante e musical é tão tolo quanto esse hábito de exagerar nos editores de imagens em fotos de mulheres lindas. É reconhecer que o que se tem, embora lindo, nunca será o suficiente. 

Talvez o grande barato seja aproveitar a beleza do céu num dia de nuvens que se desmancham como chumaços de algodão; ou o cheiro do café coando, ou a gargalhada de alguém que a gente ama. Quem sabe a felicidade se aninhe no calor de um abraço apertado; quem sabe se esparrame pelo verde dos morros que a gente vê durante uma viagem. Pode ser que a Dona Felicidade tenha esse hábito das doses homeopáticas. Ou quem sabe ela não faça nada e apenas nos observe enquanto somos felizes.

Desconfio que a felicidade seja uma mulher esperta; simples, tão simples e silenciosa que nem sempre percebemos sua presença. Mas basta olhar atentamente, que ela está lá. De alguma forma, ela sempre está.

Beijinhos
Fê Coelho.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ter, escrever, plantar e mais. Bem mais. - Uma crônica sobre amizade.



As pessoas dizem por aí que todos deveriam, antes de morrer, ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Na condição de quem já realizou todas essas coisas, posso acrescentar um item? Todas as pessoas deveriam cultivar um grande amigo. Pode ser que eu não me tenha feito compreender. Veja bem: não estou falando dessas amizades amarelo-bebê. Refiro-me a uma amizade daquelas ímpares, que não se encontram em qualquer lugar.

Toda pessoa deveria experimentar ter um amigo que diga exatamente a verdade, porque se importa realmente com os efeitos do que for dito. E deveria também ter alguém com quem seja possível ser absolutamente sincero. A comunicação limpa é um presente muito maior do que se possa imaginar. É prova de consideração, respeito e cuidado. Ser honesto é mais do que simplesmente dizer verdades piedosas: é falar aquilo que pode não agradar, mas que certamente fará crescer. Pessoas assim, autênticas, são raras e devem ser cultivadas.

Todos nós deveríamos ter a chance de saber o que é estar longe de alguém durante muito tempo e, no reencontro, sentir que é como se não houvesse passado quinze minutos. Numa época de tantas mudanças, de tantos aplicativos e atualizações, a estabilidade é uma benesse. Faz diferença ter alguém que nos conheça a fundo, que nos ame e para quem possamos entregar amor. Faz bem ao coração saber que existe alguém nesse mundão velho sem porteira que combina com você - não importa a imagem que o espelho mostre.

Todo mundo merece uma pessoa com quem possa rir até a barriga doer e chorar até quase virar do avesso. Grandes amizades não se fazem com conveniências. Elas transitam pelos extremos, pelo desvario e voltam ao centro, para onde há calma e concórdia; onde amadurecem e se transformam em dias, meses e décadas.

E não se engane: um grande amigo não lhe tira coisas. Ele não lhe tira a paz, a confiança ou a auto-estima. Um grande amigo não lhe tira relacionamentos, ou chances. Ele agrega. Um grande amigo permeia a vida de uma pessoa de forma tão sublime que dificilmente a explicamos. O que quero dizer é que em termos práticos, o que se observa é que amizades verdadeiras não excluem pessoas ou impedem o crescimento. Elas, ao contrário, vão se moldando e se transformando com os movimentos da vida - movimentos esses que são feitos juntos. Porque muito mais que apoiar nos fracassos, um amigo de verdade comemora e convive com as vitórias do outro.

Nem todos plantaram árvores, tiveram filhos ou escreveram livros. Assim como não posso afirmar que todos tenham experimentado essa forma de ser amigo. O que sei - e talvez o leitor concorde comigo - é que amizades assim são um tesouro grande demais para se passar a vida sem conhecer.

Na esperança de que todos encontrem e cuidem bem do seu tesouro, me despeço.
Beijinhos,
Fê Coelho.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ser ou estar?



Hoje me ocorreu algo que ainda não havia percebido: o quanto discordo da clássica pergunta "o que você vai ser quando crescer". Eu mesma já me fiz essa pergunta em outras ocasiões, quando pensava - em vão - que havia crescido o suficiente para respondê-la. Dirigindo para casa hoje, enquanto olhava as curvas da estrada e os montes muito à minha frente, compreendi que crescer é muito mais um processo do que uma finalidade.

Não concordo com esse hábito que temos de classificar o crescimento como um ponto fixo a ser alcançado, como um trono onde se assenta e reina para sempre. Crescemos toda vez que fazemos uma escolha, mas principalmente quando lidamos com os resultados dela advindos. Crescemos quando aprendemos a valorizar as pessoas que vivem ao nosso redor e quando compreendemos que amar é mais que apenas estar ao lado. E quem dirá que não crescemos quando as lágrimas percorrem seu curso? Muitas vezes o sofrimento é professor mais eficaz que a bonança.

Com tudo o que vejo, cresço um pouco mais - em memórias, em conhecimento, em ideias e num tesouro que é só meu. Cada abraço que recebo ou distribuo me torna maior em afeto; a cada sorriso, cresço em contentamento. Cada nova pessoa que passa a compartilhar de meus dias acrescenta vida a eles. Cada música que ouço me faz crescer em emoções. Toda risada me faz ser maior. Toda vez que me doo, cresço. E a cada perrengue que enfrento, cresço em possibilidades de resistir.

Crescer, às vezes, dói. Incomoda. Assusta. Sempre foi assim - vide o primeiro dia de aula, o primeiro emprego, o primeiro beijo e outras tantas estreias. Enfrentar aquilo com que não ousamos sonhar é uma das formas mais bonitas de crescer e uma das mais difíceis. Aceitar que não estamos prontos requer humildade para nos reconhecermos pequenos. E talvez nisso resida a verdadeira grandeza.

Pode ser que eu esteja errada, como tantas vezes já estive. Quem sabe, essas ideias de hoje sejam apenas um sopro, um vislumbre de algo maior - que eu, em minha pequenez, ainda não consigo compreender. Perdoe-me o leitor, se me perceber no engano. Todavia, tenho cá comigo, hoje, a impressão de que não importa tanto assim o que queremos ser quando crescermos; interessa, sim, saber como queremos estar, enquanto crescemos.

Beijinhos
Fê Coelho.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre intenções, barcos de papel e o tempo.



Não foi sem querer que me atrevi a sonhar. Nem foi por acaso que resolvi me tornar uma pessoa com quem gosto de conviver. Não foi sem perceber que minha imagem no espelho foi se adequando aos meus gostos. Nem foi sem sentir que fiz dos meus dias algo que me orgulhe de relembrar. Estive pensando a esse respeito esta tarde; e a conclusão a que cheguei é que se há algo em nossa vida que faz a diferença, é a intencionalidade.

As pessoas - e aqui me incluo - podem ser muito injustas com o tempo, colocando sobre ele uma responsabilidade além da que lhe compete. Dizem que o tempo cura, que apaga, promove ou degrada. Dizem que o tempo é o senhor de todas as coisas. Hoje eu desconfio que ele simplesmente passa. Nós é que agimos, enquanto ele se vai.

O tempo é correnteza que não se deixa deter, que não se permite represar. É um regato, onde nós depositamos barquinhos de papel que lá se vão para o futuro: um sonho, um fato, uma oportunidade, afetos, expectativas. Ele carrega, mas não faz nenhum dos barcos. Tudo o que jogamos em seu leito precisou, primeiro, ser criado por nós - seja por nossas escolhas, ou pela falta delas. É a tal da intencionalidade.

Creio que viver de propósito seja um dos maiores presentes que podemos nos dar. E falo de coisas pequenas, como enxergar o ambiente à sua volta, sentir o cheiro das coisas, fazer escolhas conscientes, ouvir as pessoas atentamente, fazer o seu melhor no trabalho, apreciar o sabor dos alimentos e - por que não -  sonhar de verdade. Ora, se vamos mesmo encher os dias de barcos de papel, por que não fazê-lo com aqueles que escolhemos usar? Por que não colorir a correnteza do tempo com as nuances que nos aprazem?

Não podemos controlar tudo. Seria infantil esperar que pudéssemos. Todavia, há um ou outro ponto da vida que estão, sim, disponíveis para escolhermos. E são esses, os que fazem a diferença entre as pessoas que estão vivendo e as que apenas existem . A cada vez que nos voluntariamos para assumirmos a responsabilidade por nossas próprias escolhas, uma frota de dias selecionados a dedo é colocada nessa correnteza que passa apesar de nós.

Não importa de quantos barquinhos seja feita a nossa história. O que interessa é quantos deles foram realmente dobrados por nós. E se há uma falha da qual a consciência nunca deveria ter a oportunidade de nos acusar, que seja a de ter vivido sem querer.

Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Lar



Lar é onde a gente descansa o bumbum - disse um dos meus personagens infantis favoritos: o Pumba. Ainda  hoje acredito que ele tenha acertado em parte, visto que lar é onde nossos melhores pensamentos repousam, para onde vamos sempre que podemos e por escolha, sem o peso de estar por força das circunstâncias. Um lar passa bem longe de ser apenas um dormitório.

Não sei por que razão eu insisto em discutir assuntos já consolidados no imaginário coletivo. Talvez porque pense demais, talvez porque saiba de menos. Fato é que andei refletindo e concluí que nosso lar pode não coincidir com o lugar em que moramos, especialmente porque esse termo me parece trazer consigo uma carga emocional. Sinto que não existe um lar sem vínculos. Quero dizer, alojamento, dormitório, casa ou outro desses termos que apenas necessitam de tijolos, argamassa e teto para existir, qualquer lugar pode ser; ao passo que para ser chamado de lar, um lugar precisa ter afeto. É necessário que se fixe raízes, que se esteja emocionalmente ligado ao espaço, ou às pessoas ali.

Caso até bem recentemente me perguntassem se alguém poderia ter um lar e ainda assim não habitá-lo, eu riria e diria que não. Ora, que pergunta mais sem pé nem cabeça! Acontece que hoje eu levanto a bandeira contrária. Não duvide, o leitor, dos melindres do tempo; nem se feche à possibilidade de que os caminhos que estamos destinados a percorrer sejam bem mais inusitados que o previsto. A vida é senhora de hábitos arrevesados. Ela não se curva às definições e, tampouco, aos itinerários que traçamos. Aliás, obrigar-nos ao plano B é algo que sempre lhe apraz. É, portanto, essa inexatidão que me obriga a hoje dizer que sim, o lar e a residência de uma pessoa podem estar em logradouros distintos.

Experimentei essa dualidade recentemente e por um tempo que, devo dizer, me fez crescer além do que eu supunha. Tive minha residência, lugar para comer, dormir, escrever e tecer sonhos; e tive meu lar, onde viviam as duas metades de meu coração e para onde eu fugia às menores pausas. E acontece que ganhei um presente daqueles: a oportunidade ímpar de unir meu lar à minha moradia. Não é maravilhoso?

Ora, não seria esse um processo automático? Para alguns, talvez; mas para mim, será necessário transformar o lar em minha moradia outra vez. Se lar é recanto onde o coração fica confortável como quem usa pantufas num dia frio, casa é onde as roupas deixam as malas, onde o tapete está sempre ao lado da cama, é para onde migram os livros, o conjunto de canecas favoritas, os porta-retratos os hábitos e o cotidiano.

A isso, as pessoas costumam dar o nome de mudança - o que por si só já traz um quê de incômodo. Somos muito aferrados à zona de conforto, o que torna o novo um estopim para o temor. De maneira que, ao invés de dizer que tenho uma mudança para fazer, prefiro acreditar apenas que tenho um lar ao qual me achegar.

Timão e Pumba me permitam um acréscimo: lar é onde a gente descansa o bumbum; mas é também onde aquecemos e repousamos o coração.

Beijinhos
Fê Coelho
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