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Hoje arranhei o carro. Uma meleca, eu sei. O que você, leitor, não sabe é que foi uma meleca das piores, porque foi precedida de uma intuição. E todo mundo sabe que intuição é uma voz misteriosa que fica azucrinando o juízo da gente, te exortando a fazer algo ou a abandonar uma ideia. Sabe qual é a pior parte de se ter uma intuição? Na minha opinião, é o fato de que você toma a decisão, mas nunca saberá a alternativa. Quer dizer, a gente fica com o resultado e lida com ele; o que poderia ter sido - ah, meu bem! - fica só no plano das ideias.
Talvez eu me faça mais clara, se contar o que houve.
Precisei sair para resolver algo chato, num lugar um pouco chato e que implicaria no pagamento de taxas - o que é o cúmulo de toda a chatice prevista para um dia que deveria ser de descanso. Pulemos a parte em que eu fico rabugenta, e sigamos. O plano era ir à pé. Quando eu ia saindo, algo aqui na minha consciência, bem lá no fundo, num lugar de onde a gente só escuta o eco disse para mudar os planos originais e ir de carro. Fui. Arranhei o carro. Me irritei e até agora estou tentando me convencer de que algo bem pior poderia ter acontecido se eu tivesse desobedecido a essa voz misteriosa. Quero dizer, eu poderia ter sido assaltada, não? Poderia ter sido atropelada, sequestrada, poderia ter quebrado o salto. Melhor deletar essa última, porque eu estava de sapatilha. Mas muita tragédia poderia ter acontecido, se eu tivesse ido à pé.
Aí comecei prestar atenção a quantas vezes eu já fiz isso. Para cada situação ruim, eu tinha uma pior que me consolasse, me colocasse no colo e dissesse "tudo bem, querida. Está tudo bem. Pior seria se..."
Dessa forma, se caía um pé d'água na minha cabeça, na volta para casa, pior seria se eu estivesse indo para o trabalho. E se eu batesse o dedão no canto do sofá e quebrasse a unha, muito pior se quebrasse o pé. Se ficasse presa no engarrafamento causado por um acidente, me consolava pensando que poderia ter sido eu envolvida no emaranhado de carros amassados. Se vejo um furo na roupa que queria usar para sair, pelo menos eu vi antes. Quando o cansaço bate, lembro que pior seria estar desempregada. Se um relacionamento naufraga, pior seria manter por mais tempo algo que ia naufragar de qualquer maneira (melhor agora que aos oitenta). Um amigo te traiu? Pior seria se você não descobrisse. Sentiu dor de garganta? Que bom que não é algo pior. E assim segue.
Sei que isso pode se assemelhar ao Jogo do Contente. Entendo que fazer a Pollyanna não seja bem-visto em muitas situações que envolvem o mundo dos adultos, onde reclamar é tão em voga. Todavia, acho que fica tudo muito insuportável se eu for apenas me irritar com aquilo que não saiu exatamente como eu gostaria. E minha intuição? O que fazer com ela? Se eu não puder acreditar que ela serviu para me salvar de algum acontecimento catastrófico, melhor encontrar uma loja esotérica e comprar uma bola de cristal nova. Porque a minha, coitada!, tem vezes que parece estar quebrada.
Não acho que eu vá mudar esse meu hábito. Tenho a tendência de ver o melhor de cada situação; ou de pelo menos ver o que não saiu de todo errado. Provavelmente vou continuar a escutar meu próprio Grilo Falante e a ser indulgente com ele. Meu Grilo Falante às vezes se confunde, coitado. Talvez já esteja meio senil. Mas muito pior seria se ele não dissesse nada; ou se eu não tivesse imaginação suficiente para justificá-lo.
Beijinhos
Fê Coelho
Plágio é crime e deve ser encarado como tal. A divulgação dos escritos é uma honra, mas os créditos são compulsórios.
Um espaço para dividir minhas crônicas, outros textos e percepções malucas.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Pior seria
Hoje arranhei o carro. Uma meleca, eu sei. O que você, leitor, não sabe é que foi uma meleca das piores, porque foi precedida de uma intuição. E todo mundo sabe que intuição é uma voz misteriosa que fica azucrinando o juízo da gente, te exortando a fazer algo ou a abandonar uma ideia. Sabe qual é a pior parte de se ter uma intuição? Na minha opinião, é o fato de que você toma a decisão, mas nunca saberá a alternativa. Quer dizer, a gente fica com o resultado e lida com ele; o que poderia ter sido - ah, meu bem! - fica só no plano das ideias.
Talvez eu me faça mais clara, se contar o que houve.
Precisei sair para resolver algo chato, num lugar um pouco chato e que implicaria no pagamento de taxas - o que é o cúmulo de toda a chatice prevista para um dia que deveria ser de descanso. Pulemos a parte em que eu fico rabugenta, e sigamos. O plano era ir à pé. Quando eu ia saindo, algo aqui na minha consciência, bem lá no fundo, num lugar de onde a gente só escuta o eco disse para mudar os planos originais e ir de carro. Fui. Arranhei o carro. Me irritei e até agora estou tentando me convencer de que algo bem pior poderia ter acontecido se eu tivesse desobedecido a essa voz misteriosa. Quero dizer, eu poderia ter sido assaltada, não? Poderia ter sido atropelada, sequestrada, poderia ter quebrado o salto. Melhor deletar essa última, porque eu estava de sapatilha. Mas muita tragédia poderia ter acontecido, se eu tivesse ido à pé.
Aí comecei prestar atenção a quantas vezes eu já fiz isso. Para cada situação ruim, eu tinha uma pior que me consolasse, me colocasse no colo e dissesse "tudo bem, querida. Está tudo bem. Pior seria se..."
Dessa forma, se caía um pé d'água na minha cabeça, na volta para casa, pior seria se eu estivesse indo para o trabalho. E se eu batesse o dedão no canto do sofá e quebrasse a unha, muito pior se quebrasse o pé. Se ficasse presa no engarrafamento causado por um acidente, me consolava pensando que poderia ter sido eu envolvida no emaranhado de carros amassados. Se vejo um furo na roupa que queria usar para sair, pelo menos eu vi antes. Quando o cansaço bate, lembro que pior seria estar desempregada. Se um relacionamento naufraga, pior seria manter por mais tempo algo que ia naufragar de qualquer maneira (melhor agora que aos oitenta). Um amigo te traiu? Pior seria se você não descobrisse. Sentiu dor de garganta? Que bom que não é algo pior. E assim segue.
Sei que isso pode se assemelhar ao Jogo do Contente. Entendo que fazer a Pollyanna não seja bem-visto em muitas situações que envolvem o mundo dos adultos, onde reclamar é tão em voga. Todavia, acho que fica tudo muito insuportável se eu for apenas me irritar com aquilo que não saiu exatamente como eu gostaria. E minha intuição? O que fazer com ela? Se eu não puder acreditar que ela serviu para me salvar de algum acontecimento catastrófico, melhor encontrar uma loja esotérica e comprar uma bola de cristal nova. Porque a minha, coitada!, tem vezes que parece estar quebrada.
Não acho que eu vá mudar esse meu hábito. Tenho a tendência de ver o melhor de cada situação; ou de pelo menos ver o que não saiu de todo errado. Provavelmente vou continuar a escutar meu próprio Grilo Falante e a ser indulgente com ele. Meu Grilo Falante às vezes se confunde, coitado. Talvez já esteja meio senil. Mas muito pior seria se ele não dissesse nada; ou se eu não tivesse imaginação suficiente para justificá-lo.
Beijinhos
Fê Coelho
Quem sou eu
A autora por ela mesma
- Fernanda Coelho
- Uma pessoa muito bem humorada, otimista incorrigível, tentando se encontrar nesse mundo maluco.
Boas vindas.
Seja bem vindo você que vem curioso, que vem interessado ou mesmo desacreditado.
Seja bem vindo você que me lê e descobre-me aos parágrafos.
Aproveita as palavras que encontrar por aqui e fica à vontade: a casa é sua. Só não põe o pé na mesa.
Sejam todos bem vindos.
Beijinhos
Fê
Seja bem vindo você que me lê e descobre-me aos parágrafos.
Aproveita as palavras que encontrar por aqui e fica à vontade: a casa é sua. Só não põe o pé na mesa.
Sejam todos bem vindos.
Beijinhos
Fê
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