terça-feira, 15 de abril de 2014

Se você me fizer sentir gratidão.



Se você passar pela minha vida e me fizer sentir gratidão, vou me lembrar de você sempre. Se fizer meu coração rir baixinho, você terá sempre um lugar especial, a mesa posta, os lençóis limpos e as janelas amplas abertas para um lindo jardim. Meu coração é generoso com quem enfeita suas paredes com quadros de amor e amizade.

Se você me fizer sorrir à lembrança do seu olhar, vou querer te ligar no meio da tarde. Vou me preocupar com seu bem-estar e dedicar a você uma boa dose de bem-querer. Vou me interessar pelo seu dia e prometo fazer um esforço grande para me calar e ouvir o que você tem a dizer. Porque se sua passagem pela minha vida tocar meu coração, vou querer ser uma pessoa melhor por causa de você e isso inclui reconhecer meus defeitos (entre eles o de falar demais).

Se você deixar um pedaço de si comigo, vou cuidar bem dele. Ou vou, no mínimo, me esforçar nesse sentido. Provavelmente vou cometer falhas e dar mil mancadas. E vou me sentir em falta com você. E mesmo que passemos um tempo sem nos falar - porque a vida anda corrida para todo mundo - você estará nos meus melhores pensamentos e nas minhas orações. Porque você me fez sentir gratidão e isso é algo que sempre tem volta.

E quando nos falarmos vou querer saber como anda a vida; vou perguntar como estão as coisas no trabalho, as crianças, a reforma do apartamento; vou tecer os elogios que fiz mentalmente ao ver uma foto sua no Facebook. E vamos rir. Sei que não é muito. Quem traz gratidão ao meu coração merece muito mais que isso. Nesse ponto entra um pedido de desculpas. E se você fizer o meu coração sentir amor, vou dizer isso quando desligarmos o telefone. Porque se você me fez sentir especial, vou retribuir isso e vou querer que você se sinta igualmente reconhecido.

Por outro lado, se você passou pela minha vida e pichou as paredes, espalhou as coisas pelo chão e deixou tudo meio cinza, vou reformar a casa; vou pintar tudo e pôr quadros novos; vou espalhar botões mimosos por todo canto até que não me lembre mais do que você fez. E, principalmente, vou deixar que você se vá para longe e para sempre. Meu coração não retém hóspedes inoportunos e nem cultiva lembranças desnecessárias.

Meu coração é lugar de bons amigos, familiares amados e amor retribuído. É casa simples, caiada de branco, ensolarada e acolhedora; uma casa que só abriga quem a ela trouxer nada menos que gratidão.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Das Coisas simples



Sabe, eu gosto de coisa simples. Gosto daquelas partes da vida em que tudo anda meio descomplicado, quando a gente olha e sabe bem o que vê. Tenho apreço por casa arrumadinha e aconchegante, mas que também te dá vontade de ficar à vontade. Gosto de poesia que fala com a gente, como quem conversa ao final da tarde, tendo o pôr do sol à frente.

Descobri que gosto de textos simples, daqueles que me fazem sentir exatamente o que se quis dizer. Gosto de sorrir ao ler. E se for pra chorar, tudo bem também. O que me deixa feliz é ler a verdade em cada parágrafo. Gosto de escrita que faz carinho na alma da gente. E creia-me, minha alma aprecia um bom cafuné.

Sabe, gosto de gente descomplicada, do tipo que não cobra aquilo que não pode ser entregue. Gosto de gente tranquila, verdadeira, cuja companhia é nada menos que um presente. Amo sorrisos francos, abraços apertados, olhos nos olhos e risada solta.

Andar de mãos dadas, picolé de limão, por do sol, música leve, cheiro de filho, filme com pipoca (e cobertas), lembrança boa no meio da tarde: tudo tão simples e tão bom.

Tenho medo do que andam fazendo por aí, transformando a vida num amontoado de coisas que se precisa ter e ser. Tremo diante das metas que me estabeleceram sabe-se lá onde, porque a maioria delas não me inspira a menor felicidade. Dizem que preciso ser magra, forte, bem-resolvida, sarada, inteligente, pós-graduada, bem-sucedida, bem-amada e bem-nascida. Dizem que preciso sorrir o tempo todo e que se não for assim, talvez eu precise mesmo de um antidepressivo.  Estão tentando me convencer de que, ai de mim, preciso receber declarações de amor publicadas no youtube, ou não vou saber bem o que é ser amada de verdade.

Pois eu digo que pouco me importa o que andam dizendo por aí. Sinto muito mais alegria num dia comum, que em lindos rompantes dourados. Confio mais no que é estável, no que se solidifica. Amo a doçura do cotidiano e das pequenas gentilezas; o sonho que se compartilha, a doação gratuita, a sensação de pertencer que só se encontra quando se pertence de verdade.

Sabe, amo a vida assim, sem tantos penduricalhos. Amo saber que sinto o que está ali para ser sentido, que aprecio o momento que tenho para apreciar. Gosto demais de viver de verdade. Tenho um gosto por demais refinado; um crivo fino, pelo qual só passa aquilo que for suficientemente simples.

Beijinhos
Fê Coelho




terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Terceira Carta ao Senhor Futuro



Vi você ontem à noite, senhor Futuro, rapidamente. Foi quase uma fração de segundo, mas vi você, zombeteiro, parado num canto do quarto, observando-me derreter de amor enquanto mirava uma foto em preto e branco - artifício do Instagram.

Talvez você nem tenha percebido, mas vi brincar em seu sorriso enviesado a ironia de quem já viu algo se repetir infinitas vezes. Um bebê. Meu sobrinho. Eu olhando a foto e me desmanchando em ternura; pensando em quão mágico é ver a continuidade, o renovar da vida.

Você sorriu. Segurou a aba de seu chapéu, acenando com a cabeça um cumprimento que só vi pelo canto do olho, para logo em seguida desaparecer. Comigo, ficaram apenas o senhor Passado e dona Esperança - visitas sempre mais demoradas.

O senhor Passado gosta de contar anedotas. Sentou-se aos pés da cama e falou-me de quando eu, ainda criança, observava os adultos olhando fotos. Recordou-me o quão divertido era vê-los rir de suas fotos, cabelos e roupas que ninguém mais usava. O Passado estava sorridente; bem-humorado, até. Falou-me de lembranças douradas e quentinhas como colo de mãe. Explicou-me que também ele já havia sido futuro um dia. E disse-me que não me importasse tanto com o que há de vir. "Tudo vem a seu tempo, afinal" - disse, estalou a língua, ajeitou seu casaco e se foi.

Em seu lugar, ficou dona Esperança - linda em seu vestido verde, bordado de sonhos. Fizemos inferências e planos reluzentes. Falamos de possibilidades e de como imaginamos os dias vindouros. Revimos fotos, sorrimos e chegamos à conclusão de que Raul Seixas estava certo ao dizer que tudo acaba onde começou.

Sei que você sorriu ao me ver, senhor Futuro. Sei que em seu sorriso dançavam mil segredos. Não te peço que me revele nada, ou que se adiante. Tome o seu tempo. Esteja à vontade. Peço, todavia, que cada pedaço seu que se for tornando passado, deixe comigo uma memória bonita para aquecer o coração.

Seja leve, senhor Futuro. Seja suave e alegre. Venha risonho e cheio dos atributos com os quais dona Esperança lhe pintou.

A gente se encontra - numa tarde ao sol ou numa noite qualquer; numa música, numa risada ou numa foto. Fato é que de vez em quando a gente acaba se encontrando.

Até lá, receba um beijo cheio de ternura.

Fê Coelho.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Das Negativas



Estive aqui pensando sobre os revezes com os quais muitas vezes somos brindados pela vida. Estive aqui refletindo sobre quantos trancos uma pessoa tem que aguentar nessa sucessão de dias, fatos e saberes que é a existência de cada um. E matutei sobre as coisas que recebi de amigos e parentes. E acabei me detendo nos presentes que ganhei dos meus pais até hoje. A conclusão a que cheguei foi de que o maior de todos os tesouros que já recebi foi o Não.

O não, bem aplicado, me mostrou que existe uma coisa chamada limite. Fez-me compreender que posso ir até certo ponto com as pessoas; mas dali em diante, não! Entendi que é assim mesmo. Todos possuem um limite claro, ou pelo menos deveriam. A negativa mostra que não podemos tudo, não sabemos tudo, e não, não somos os melhores em tudo. O advérbio de negação ensina. Ah! Como ensina.

Quando criança eu sempre soube que não tinha exatamente os mesmos brinquedos que as outras crianças, pelo simples fato de alguns deles estarem fora do nosso poder de compra. Meus pais nunca tentaram nos dar coisas que não podiam e nos comunicavam claramente os motivos. Isso trouxe algumas consequências terríveis: aprendi a ser honesta no que digo; entendi que não posso ter tudo quanto queira; tornei-me feliz pelo que tenho, deixando o que não está em minhas mãos para lá. Horrível, eu sei.

Além disso, o não dos meus pais me deu forças para enfrentar as negativas da vida. Chamam isso de resiliência - que no bom português, é a capacidade de aguentar trancos, de voltar ao estado inicial depois de algum impacto. E não se engane, a vida nega. E como nega! Seu aumento não sai. O carro que você quer comprar só pode ser entregue na semana que vem. Você é reprovado em algum concurso por uma questão. O vestido lindo só está disponível num tamanho dois números menor. A fila demora. O dinheiro acaba. Algum amigo se afasta. A pessoa por quem você suspira simplesmente não te ama. Ou não te ama mais. Ou trai a sua confiança. Ou todas as coisas juntas. E não, você não vai poder gritar com o gerente, nem bater na velhinha que leva um ano pra atravessar a faixa de pedestre quando você está atrasado. Você não vai poder sair da sala do chefe batendo a porta, nem quebrar o braço da mocinha na balada porque ela não quis te beijar.

O não, aplicado na infância, é como vacina. Ele nos deixa mais fortes e resistentes às frustrações. E aplicado na vida adulta ele nos permite crescer. Vacina dói. O não também. Mas existem dores que se vão indo tão de mansinho para longe, que você só percebe que elas se foram quando já nem se lembra mais de procurá-las. E o que sobra é aprendizado.  

Não é pessoal. A maioria das vezes é só o vento soprando do jeito errado. Ou o tempo do outro que está reduzido. Ou o dinheiro. Ou os motivos. Ou a vontade. Ou quem sabe seja mesmo pessoal. Mas quem disse que podemos agradar sempre? Esse é só mais um não que a vida nos empresta, para nos lembrarmos que não somos o centro do universo. 

Por fim, preciso dizer o mais importante: o não me ensinou o valor do sim. E é a ele que me agarro todos os dias. Sim, o dia está lindo. Sim, tenho mil motivos para sorrir. Sim, tenho amigos leais. Sim, estou viva, forte e cheia de possibilidades de construir uma vida repleta de cor e luz. Sim, posso agregar tanto amor quanto queira. Porque sou responsável pelas escolhas que faço.

Acolho o não como professor. Recebo as negativas da vida como lição.

E a maior de todas as lições é que não preciso ser correnteza brava, que destrói as pedras pelas quais passa. Posso ser regato manso, que contorna os obstáculos e simplesmente vai. Pra frente, pra longe. E se perde da vista da gente, nalgum ponto alaranjado de ocaso.

Beijinhos
Fê Coelho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Da Finitude



Há muito, leitor, tenho contigo uma dívida de sinceridade. Várias vezes expus tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar. Algumas delas, todavia, permaneceram inconfessas. Tenho essa característica, que para um escritor pode se tornar um defeito: tenho ciúmes de certos pensamentos. Alguns deles são tão meus, tão profundamente meus, que sinto pesar em dividi-los. Ocorre que algumas vezes o copo transborda e não há maneira de sossegar as ideias, a menos que alguns pensamentos sejam compartilhados. Pois bem, falemos sobre o fim.

Nunca fui pessoa de escrever sobre relacionamentos. O maior motivo para isso é que não se consegue nunca um distanciamento ideal - nem de assunto, nem de fatos, nem de tempo ou de encarnação. Ainda assim, creio que já possa dizer uma ou duas coisas com propriedade. Talvez isso alimente em mim a sensação de estar me tornando uma escritora mais honesta. Falemos, leitor querido, da finitude.

Então acabou. Tudo o que deveria silenciar é dito e, ironicamente, aquilo que não se quer ouvir são as únicas palavras disponíveis. As verdades e mentiras piedosas se penduram no silêncio, como um móbile a entreter um interlocutor meio pasmo. Os clichês vão chegando em fila indiana e nada mais faz sentido, porque é oficialmente o fim.

Você pode escolher vários caminhos: tomar seis (ou seriam sete?) latas de cerveja em sequência, ligar para todas as amigas (disponíveis ou não) e chorar até virar do avesso. Como queira. O fim é seu e você faz dele o que bem entender, certo? Até certo ponto, sim.

Acontece que a vida bate à nossa porta. Ela sempre bate. Os dias continuam sua interminável sequência de amanhecer e anoitecer. O cotidiano exige. E lá se vai você, não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido. A vida acontece apesar de nós, de tudo o que sentimos, desejamos ou lamentamos. A vida simplesmente é.

Pode-se resistir, deitar-se e chorar por colo e mingau de aveia? Ora, sim. Mas não recomendo. Reter a tristeza traz amargor. Tanto quanto fingir que ela não existe.

Depois do fim, iniciamos um processo de nos encolhermos para ser novamente apenas um, ou de nos expandirmos para valer por dois. E embora saiba que todos os dois processos são doloridos, posso dizer que tenho preferência pelo segundo, pois sinto que crescer e enfrentar seja algo mais bonito que se encolher até que os problemas deixem de perceber sua existência.

Então você reavalia, repensa, refaz. Você inventa uma maneira de preencher vazios e de substituir coisas que eram tão suas. Porque, de repente, não há mais aquelas tardes de domingo, nem o estar deitado no sofá da sala por não se ter outra ideia melhor. De uma hora para outra, os planos se desfazem e faz-se mister reinventar uma rotina que tinha se adaptado para agregar.

Então o fim chega e você sabe que, de alguma forma, algo seu se foi com outra pessoa. E percebe que se importa com o tratamento que será dispensado a esse pedaço seu. Depois do fim, pode ser que sobre um desejo contido de que aquele pedaço seu que se foi ainda seja capaz de produzir algum encanto. Por outro lado, o fim, quando apresentado repetidas vezes, pode nos ensinar que tudo o que o outro leva de você é um alívio enorme. Cruel, talvez. Mas que atire a primeira caixinha de lenços quem nunca se sentiu assim.

Fico imaginando do que, afinal, sentimos falta quando o fim acontece.

Como num filme realmente bom, daqueles que nos fazem lamentar os créditos, o término nos tira de um estado de contentamento. Momentos bons são recolhidos e a sensação (tenhamos cinco ou cento e cinco anos) é de que foi tudo prematuro. A vida se estica e encolhe; você sofre, chora, sorri e se refaz. Então percebe que a saudade maior é a que você sente de você mesmo; da versão de você que tinha o contato com o outro. A saudade é da felicidade que chegava junto com os olhos nos olhos, com o beijo na mão, com o abraço apertado e com o beijo que só ocorreu porque você não encontrou motivo para recusá-lo. A saudade é da sensação de benquerência; da ilusão de ser o primeiro pensamento de alguém. O pesar é pelo que não volta.

Mas a vida é essa. A finitude permeia tudo quanto nosso coração alcança, nos lembrando da característica quimérica dos nossos dias. A finitude é certa. Tudo mais é lucro e sorte. Tudo mais são apenas tentativas.

Quem disse que seriam apenas flores? Bem que uma grande amiga uma vez me disse: "o coração do outro é terra que ninguém pisa".

Beijinhos
Fê Coelho


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Véspera - uma crônica sobre novos sonhos



A meio passo de realizar um sonho cultivado por anos, com empenho e olhos brilhantes, me pergunto: e agora, José? Sei que parece estranho; que a realização dos sonhos deveria ser uma espécie de guia nessa sequência de abrir e fechar de olhos que é a vida. Sei de todas essas coisas. Todavia, hoje, às vésperas de ver o fruto do meu trabalho, me questiono. E agora?

Véspera sempre foi uma palavra que me intrigou, desde criança: a véspera de natal, véspera de provas, véspera do aniversário. Ora, pareceu-me durante muito tempo que a véspera era mais importante que a data esperada em si. E não seria? Afinal de contas, até percorrermos os segundos pelos quais esperamos, tudo o que temos são possibilidades. Ah, leitor, o universo das possibilidades é encantador e amedrontador em medidas iguais. Tudo pode ser: bom ou ruim; realidade ou apenas monstros embaixo da cama. A véspera é aquilo que ainda não é palpável. É uma espécie de fronteira entre o que era sonho e o que se torna realização.

Disseram-me, uma vez, que eu estaria riscando um  item da minha lista, ao realizar um sonho. Acontece que não foi isso o que ocorreu. A possibilidade de conseguir algo há muito tempo esperado se tornou o index para inúmeras outras aspirações. É como se sentir um degrau sob meus pés houvesse me dado a certeza de que ali há uma escada - uma que eu sempre quis conhecer.

E é por isso que eu vou, leitor, mesmo sentindo uma pontinha de medo; mesmo correndo o risco de me decepcionar. Se tem uma coisa que andei aprendendo é que decepção é um risco que assumimos para viver bonito. Não há garantias. Nunca houve. Não há meios para saber até onde vai o caminho de cada um de nós. Porque a vida é assim mesmo, melindrosa, afeita às surpresas.

Traduzindo e citando livremente uma música de que gosto bastante, afirmo que que "não posso dizer onde a jornada vai terminar, mas sei onde ela começa". E ela começa aqui. Nesse ponto que não sei muito bem qual é, mas que sinaliza o início de muito trabalho e de uma busca por uma carreira que - acredito eu - vá se mostrar a mim, um degrau após o outro.

Esta não é apenas a véspera da realização de um sonho, mas do surgimento de tantos outros. E se isso trouxer o risco inerente da decepção, tudo bem. Porque mais importante que o sonho realizado e pronto, entregue prêt à porter, é a construção de cada um deles.

Muito mais bonitos que um sonho que se realiza, são os que nascem a partir daí.

E vamos em frente!
Beijinhos
Fê Coelho


sábado, 23 de novembro de 2013

Mingau de leite - uma crônica sobre a memória do amor.



De todas as coisas simples, uma das mais singelas que conheço é a lembrança do amor que recebemos. Ela pode estar contida em qualquer objeto; pode se esconder em qualquer paisagem e se revelar com qualquer sabor, cheiro ou toque. A verdade é que a lembrança do amor está em tudo o que pudermos experimentar, mesmo que seja uma colherada de mingau.

O leitor não me julgue doida. Ou julgue, como queira. Fato é que hoje, numa colherada de mingau de leite encontrei a lembrança de amor que precisava para acalentar uma noite de sábado, apreciada entre um e outro plantão de doze horas, longe de todas as pessoas que eu queria ter por perto. Mingau poderoso? Não, leitor. Poderosas são as lembranças de uma infância e uma vida repletas de amor.

Mingau de leite me lembra dias e dias na companhia de minha mãe - linda, tão linda quanto meus olhos infantis podiam enxergar - cansada, depois de horas de trabalho e ainda assim, amorosa o suficiente para se esforçar um pouco mais e ir para o fogão fazer mingau para os filhotes. E me lembra de dias de chuva, quando eu e meus irmãos pouco tínhamos para fazer, exceto jogar baralho com nossos pais e brigar por coisas vãs. Sabores simples, de uma vida simples e saborosa.

A memória do amor que recebemos é alimento para o amor que entregamos. É lembrete que o coração deve ler todos os dias, antes de pensar em fechar as portas. É o próprio amor, assumindo o lugar de professor e nos ensinando a amar. A memória do amor é remédio contra o amargor; é amortecedor para a dureza da vida. É aquilo que confere valor genuíno a uma lembrança que, sem esse sentimento, seria apenas legalzinha.

O amor que recebi é tão bonito, tão leve e tão simples, que consigo encontrá-lo até numa colher de mingau fumegante. Só posso concluir que o amor não seja algo assim tão complicado, afinal.

Beijinhos
Fê Coelho.
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