segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Eu e a Julieta




Sem querer menosprezar todas as descobertas científicas feitas até hoje, preciso dizer que conheci uma nova força da natureza. Seu nome? Julieta – criatura imaginária e imaginativa, notívaga por capricho, geniosa por não saber outra forma de ser, pan-polar porque acha que ser bipolar já está meio fora de moda, leitora compulsiva, criativa por nascença, carente por parte de pai, exigente por parte de mãe, detentora das minhas ideias e determinada a fazer de mim o que bem quer.

Descrever o aspecto físico da Julieta é tarefa quase impossível, porque ela muda como o formato das nuvens. Para ser mais específica, acho que nunca soube qual é a sua verdadeira aparência. Algumas vezes, a danada me aparece aqui em casa usando um vestido justíssimo de tecido brilhoso, com cabelo ruivo ondulado, luvas sete oitavos e delineado nos olhos; outros dias ela surge do nada, pulando feito uma pipoca, com cabelo preso num rabo de cavalo, short jeans desfiado e tênis, mascando chiclete e gesticulando feito doida. Já quis ser velha, já virou criança. Já cismou de usar vestido longo de época e citar Jane Austen. De tudo ela já fez, exceto se conformar.

Quando a Julieta resolve que é hora de escrever, eu que me vire, porque não há forma de convencê-la do contrário. Meia noite, duas horas, cinco da tarde, não importa. Às vezes ela sai de algum passeio e pensa “bem que eu poderia ir ver a Fernanda”. E me acha, onde quer que eu esteja, não importa a atividade, a disposição ou o estado de espírito. Quando a Julieta decide que é hora de produzir, é uma loucura.

Acontece que ela está pouco se lixando para o mundo dos adultos. Não quer saber se eu estou trabalhando, comendo, andando de metrô, dirigindo ou cambaleando de sono. O que ela quer é ser ouvida. E obedecida. Aí começa a jogar todas as ideias de uma vez  no chão. Abre todas as minhas gavetas mentais e eu que me vire pra lidar com a bagunça. Vou catando daqui e dali algum trecho, uma fala, um pensamento e juntando tudo até formar um texto - que ela avalia, corrige, comenta e depois aprova -ou não.

Há dias, entretanto, em que ela se esconde. Sai para um passeio com a Dona Expedita, vai às compras com a Isaura ou simplesmente sai andando por aí, observando as pessoas, os lugares, as paisagens e tendo ideias. Nesses dias, posso procurar o quanto queira, a Julieta simplesmente não aparece. Só lá pela meia noite, quando eu já desisti de implorar e estou pronta pra dormir. Aí eu digo que estou cansada e preciso de repouso. Ela me olha com uma cara de cachorro que caiu da mudança, dá duas ou três piscadinhas e explica que teve uma ideia ótima - uma que pode não estar disponível quando o dia amanhecer.

Nem preciso dizer o que acontece em seguida, não é? Sou uma alma fraca, leitor querido. A Galera Aqui de Casa - essa maloca de personagens doidos, geniosos e absolutamente adoráveis - me tem nas mãos e trabalha comigo como quem brinca de massinha.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Escrever, por quê? Um texto sobre tempos bicudos



Se existe uma expressão que me tem procurado várias vezes, desde que me propus a escrever, é o tal do porquê. Com frequência maior que o razoável, surgem-me questionamentos acerca dos motivos para se fazer ou não algo. São dúvidas que surgem em diferentes momentos, por variados motivos e, não raro, vêm do convívio com os amigos, de alguma conversa ou pergunta direta.

Dentre essas questões, uma me intriga em especial, provavelmente pela minha incapacidade em respondê-la: por que escrever?

Em mais de um momento e por mais de um motivo, essa pergunta já me atazanou o juízo, fez perder a fome, o sossego, a concentração e, ainda assim, não tenho uma resposta. Sinto que escrever é como colher palavras: tal qual frutos no campo, elas estão disponíveis para quem as queira usar; entretanto, perecem. Imagino se isso possa estar relacionado à massificação das ideias, que a bem da verdade são a raiz de tudo quanto se escreve.

Enfileirar as letras, utilizar a gramática e criar um estilo que lhe seja próprio parecem-me as partes menos dolorosas do processo de criar um texto. O complicado é ter o que dizer. Talvez nem isso seja o mais difícil. Quem sabe o cerne de toda escrita seja a coragem de dar forma ao entendimento. E mais: creio que o fundamental seja assumir as próprias opiniões, sendo fiel, verdadeiro, justo, compassivo e, ai sim, viver de acordo com o que se acredita.

Convenhamos: numa época de padronização do pensamento, em que as pessoas tendem à superficialidade nas relações, discursos, atitudes e valores, encontrar quem queira refletir é cada vez mais raro. Numa de suas letras, o cantor Almir Sater - por cuja música eu sou absolutamente fascinada - diz "muita gente dá lição com cultura de almanaque". Não discordo. E nem digo que estou isenta. Talvez esse seja o ponto em que volto à pergunta que originou todo o texto: por que escrever?

Sinceramente, leitor, não sei. Continuo sem conseguir acessar essa resposta. Tenho alguns motivos que movem, como a necessidade de organizar o raciocínio, a inquietude da mente e algo como um "transbordar de vida" que me impele a colher palavras e colocá-las dispostas de uma maneira mais ou menos inteligível.

Escrever me faz bem. É a vida tentando virar arte, de um jeito pouco linear e muito pessoal. É o pensamento  atrevido e irrequieto querendo a todo custo ser página. É uma personalidade que do lado de cá da tela não se contém e pula a janela, foge da mente, se esvai pelos dedos, digita e se expõe. São as palavras, esses grilhões tão efêmeros quanto bolhas de sabão, aos quais nos atrelamos voluntariamente.

E se é verdade que tudo já foi feito, dito, pensado e escrito, perdoe-me o leitor por entregar mais do mesmo. São tempos bicudos.

O meu sincero agradecimento a todos pela companhia na iminência dos 50.000 acessos.
Beijinhos
Fê Coelho




terça-feira, 16 de outubro de 2012

Feitiço Mais que Medonho



As crianças na enfermaria estão trabalhando a temática do Halloween. Eu não resisti e escrevi um poema para alegrar a tarde da galerinha


Feitiço mais que medonho

Dente de tubarão
Pata de morcego
Que eu faça injeção
E nenhuma criança tenha medo

Rabo de lagartixa
Cara de sono e de tédio
Que nenhuma criança dê birra
Na hora de tomar remédio

Casca de ferida
Mistura tudo e já era
Que todas essas crianças demorem pra arrumar paquera

Dragão sem dente
Asa de barata falta
Que nenhum paciente hoje saia de alta

E que tudo seja sempre assim
Noite e dia
Que nossa enfermaria seja uma alegria sem fim

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sobre margaridas, quebra-cabeças e respeito



Engraçado como as coisas simples têm a capacidade de nos ensinar, se estivermos dispostos a aprender. Divertido perceber como a singeleza pode ser sábia, para quem tiver os olhos atentos e o coração preparado para ver. Aconteceu comigo. De novo. Mais uma vez, algo simples e sem importância, a princípio, chamou-me a atenção e ensinou-me algo que há dias venho carecendo compreender: preciso simplificar a vida.

Há um tempo, tenho sentido a pressão para acertar. Acredito que boa parte dessa insistência em ser multifuncional seja originada em mim mesma, embora outra parcela seja decorrente de uma lista enorme a respeito do que se espera das pessoas. Disso resultou uma briga com o tempo, uma ansiedade para que ele se demore e a sensação de que o tique-taque do relógio não passa de chacota. Tentei me entender com o futuro mais vezes do que seria razoável. Busquei encaixar mais atividades do que poderia, numa agenda não muito espaçosa, por assim dizer.

O resultado? Alguns textos, horas de muito matutar (como se eu precisasse de pensamentos extras), ansiedade e uma preocupação exacerbada com o que eu deveria fazer, com coisas que precisaria desenvolver e o padrão em que deveria me encaixar.

Foi necessário comprar dois vasos de margarida baratinha, daquelas que custam três reais no supermercado, para que eu entendesse o quanto estava sendo imatura.

Talvez o leitor já esteja acostumado com essa minha forma de tirar ensinamentos maiores de coisas pequenas. Algumas pessoas até me sinalizaram esse costume peculiar e, graças ao Bom Deus, informaram que gostam disso. O que me faz sentir bem acompanhada em minhas divagações. Afinal de contas, seria meio solitário pensar que há poucos pirados vagando por aí. Voltemos às margaridas.

Elas foram adquiridas para conferir um certo colorido ao apartamento onde estou morando e, embora não sejam flores caras, raras ou glamourosas, me afeiçoei a elas. Ocorre que, devido à minha rotina dos últimos tempos - ou à falta dela - o cuidado com as margaridas se tornou difícil. Ficar fora de casa por quatro dias consecutivos representa a morte por desidratação para as pobres plantas.

Aí veio a constatação: se não consigo mais encaixar no meu dia a dia nem o cuidado com dois vasos de margaridas (ou seja, regar diariamente e deixa tomar um pouco de luz), como espero incluir outras atividades ou relacionamentos em minha vida? A questão é: não vai dar, produção!

Pode parecer derrotista, a constatação. Eu, entretanto, prefiro colocar aí uma lente nova: a da piedade. Prefiro ser compreensiva comigo mesma e aceitar que tenho limitações. Esse é um bom caminho para o respeito.

Quantas vezes as pessoas se tornam escravas dos planos que traçaram? Quantas vezes perdem a vida e as relações que já têm, para buscar aquilo que acreditam dever alcançar? Quantas vezes deixam de perceber a riqueza do que possuem, no afã de conseguir sempre mais e se descabelam numa luta constante com os próprios limites? Tenho cá uma quedinha para esse lado, mas não é esse o meu elã. Não é a busca desenfreada o que me prende à vida.

Não estou aqui defendendo que as pessoas tenham que se acomodar e passar o resto de seus dias aboletadas numa zona de conforto, tendo pena de si próprias até o fim dos tempos. Claro que os desafios são algo importante e absolutamente saudáveis. A conclusão a que cheguei é que se por um lado as conquistas dão sentido à vida, os limites conferem paz. E a paz de espírito é matéria prima de momentos mais felizes, sem os quais qualquer conquista perde o sentido.

Sei que chegará o momento de cuidar das margaridas, conotativamente falando. Sei que há o instante propício para cada movimento da vida. A questão é que muitas vezes a gente é a peça certa; o quebra-cabeça é que está errado.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Solta os doces, menina! Um conselho para a vida toda.



Todos nós temos algo que nos incomoda mais que outras coisas. Alguma mania, um defeito, um sonho, um conceito. Não importa muito o que, mas fato é que temos conosco - de maneira mais ou menos manifesta, a depender da pessoa - uma série de pequenos (ou grandes) incômodos. Criatura mediana que sou, também tenho os meus. E recentemente andei ficando particularmente incomodada com uma situação: minha incapacidade para encaixar na minha rotina tudo o que penso que deveria estar fazendo.

Ora, catando daqui e dali, podemos colecionar uma série de atributos que uma mulher de trinta anos deve exibir: ser educada, bem-resolvida, culta, fluente em pelo menos duas línguas, bem-paga, organizada, competente, pós-graduada, prendada, disposta, magra, reluzente, saltitante, sorridente, elegante, fashionista, decoradora, mãe, tia, professora, iogue, zen, pontual, engajada, sexy, capaz de resolver problemas e de gerenciar a casa a uma distância de anos e compromissos-luz, mantendo-se calma, serena, feliz, realizada. Eu disse que querem que a gente seja magra?  Não sei se essa é uma tendência real ou se estamos apenas sob uma influência maciça dos meios de comunicação, com seus rótulos e uma lista infinita do "tem que, pra ser feliz".

Pois sim, eu caí nessa armadilha. Comecei a cobrar de mim um desempenho impossível, o que gerou alguns dias de frustração até o momento em que entendi: uma mulher pode fazer tudo - absolutamente tudo o que se propuser a fazer; mas não pode fazer tudo ao mesmo tempo. Às vezes é necessário soltar uma das pontas, para que se possa segurar as outras com firmeza. Caso contrário, não conseguimos fazer nada direito. E não há mal nisso. É apenas uma questão de prioridades. O que me fez lembrar de um sermão que ouvi há alguns anos.

Disse o Frei Domingos, pároco da igreja que eu frequentava na adolescência - um padre italiano parecidíssimo com o São Nunca de uma campanha publicitária antiga - que certa vez uma criança ficou com a mão presa num pote de doces. Incapaz de retirá-la do recipiente, começou a chorar. O pai veio, avaliou a situação e depois de muito tentar, entendeu o problema. Não adiantaria forçar a situação. Ou se quebraria o pote, ou se machucaria a criança. Sua sugestão: "Filha, solte os doces." A criança teria chorado, porque não queria soltar as guloseimas, mas ao final acabou cedendo e tirou a mãozinha ilesa de dentro do pote. 

Foi sobre isso que me peguei pensando hoje. Quantas vezes enfiamos nossas mãos em potes e tentamos agarrar tudo o que há la dentro? Quantas vezes nos jogamos na vida com essa ânsia de querer tudo para agora, para ontem, para a semana passada? E querer absolutamente tudo! E que angústia é essa que nos faz acreditar que só poderemos ter os doces se eles estiverem bem firmes, em nossas mãos? Acaso o Pai não pode nos dar os doces de outra forma? Ou não podemos pegar um por vez, até que tenhamos esvaziado o pote?

Talvez seja falta de maturidade, querer tudo de uma vez só. Tenho certeza de que pessoas mais vividas, maduras e espertas que eu entenderam que podem priorizar, sem que isso represente uma perda. Escolher o  que se quer fazer no momento é uma forma de administrar as várias facetas dessa arte chamada vida.

Não que o processo ocorra sem algum desconforto. Vez ou outra tenho a vontade de pegar todas as preocupações de volta e passar a agir como se tudo dependesse de mim. Soltar algumas coisas gera angústia. E é nesses momentos que preciso me lembrar da história do pai dizendo pra filha "solta os doces". E entendo o recado: não fique tão preocupada, filha. Vai dar tudo certo. Faça uma coisa por vez, sem desistir e quando perceber terá feito tudo.

E eu vou aprendendo. Aos poucos. Um doce por vez. Em alguns momentos de impaciência tentando checar se posso encher a mão e descobrindo que sim, eu posso, mas isso não há de me levar a lugar algum.

E vou entendendo. Posso fazer tudo, mas não tudo ao mesmo tempo.

"Solta os doces, filha. Confia."
"Tudo bem, Pai. Eu confio"

Que todos tenham um dia de paz
Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Um Bilhete a Morfeu



Chega de mansinho esta noite, Morfeu, trazendo consigo meus sonhos mais lindos? Se aninha ao meu lado e  canta uma canção nova, cheia de doçura e de novidade? Me fala de coisas que não sei se existem, de lugares novos e me ajuda a voar bem de leve, bem longe, bem livre?

Não tenha pressa, Morfeu, que a noite é toda nossa. Se demora, que a aurora está longe, que os sonhos ainda nem começaram. Derrama um bocadinho de areia em meus olhos e me embala, pra presente, pra entrega, pra viagem, pro que os sonhos quiserem. E fica aqui. Entre as cobertas, entre os segundos e além do tempo, fazendo o hoje virar ontem; fazendo o amanhã virar hoje. Sempre mais suave e mais belo.

Acolhe, Morfeu, meu cansaço e faz dele poesia.

E quando o dia raiar, se esconda. Vá embora levando consigo o som de minha respiração distraída, despreocupada. Deixa comigo essa espera por novos sonhos, por novos dias e por um amanhã reluzente de esperança. Tempera o dia com o sabor dourado do crepúsculo, quando provavelmente estaremos esperando um pelo outro.

Boa noite.
Fê Coelho

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Aos Trinta Anos



Tenho cá comigo que as pessoas têm a mania de serem regidas por números redondos. Essa coisa das décadas provoca em nós uma sensação de mudança, como se passássemos de fase num jogo cujas regras ninguém entende muito bem. Aconteceu comigo. De novo.

Aos dez anos, embora não soubesse explicar, havia uma sensação de importância ingênua, uma excitação por usar o conteúdo de duas mãos pra dizer minha idade, como se isso fosse uma espécie de indicativo entre quem era criança e quem era muito criança. Aos vinte anos, eu me senti adulta. Céus, como eu me achava interessante, madura, pronta para dar conselhos e espanar pra todo mundo um monte de conceitos prontos que eu nem sabia de onde vinham. Deus sabe, e agora eu também, quanto engano há por trás dessa sensação de maturidade que a gente experimenta aos vinte. E chegaram os trinta. É nesse ponto que quero espichar a prosa.

A expectativa de fazer trinta anos me apavorou durante os dois que antecederam o fato. Fiquei muito preocupada com a passagem do tempo e seus desdobramentos, com o tempo que deixei pra trás, com as decisões que precisei (e ainda preciso) tomar e as consequências disso sobre a minha vida e a das pessoas ao meu redor. Nos dois últimos anos, me pressionei muito para acertar - afinal de contas, espera-se de uma mulher de trinta anos, no mínimo, que ela saiba o que fazer da vida, certo? Errado.

Nós temos o hábito de rotular as coisas, os feitos, e estabelecer padrões regidos cronologicamente por algum Big Bang invisível que fica alertando: hora de acordar, de se formar, de dar o primeiro beijo, de casar (ora, você A I N D A não se casou, querida? ), de ter filhos, estar milionário ou pelo menos ser o presidente de alguma empresa, de usar anti-sinais, fazer plástica, ter uma bolsa de marca, parar de chorar, ficar segura. Enfim. E nos acostumamos com essa pressão, como se ela fosse genuína, como se estivéssemos de fato devendo algo ao mundo em decorrência do passar do tempo. Claro que não se pode viver sem responsabilidade alguma ou sem nenhum senso de orientação, mas não sei até que ponto esse frenesi ajuda no processo.

Acontece que o tempo passou e cá estou: Uma Mulher de Trinta Anos. Como eu me sinto? Ótima! Acabei entendendo que se não tem como correr, melhor fazer, não? Essa frase foi de uma amiga/irmã, que passou pela experiência antes de mim. E quer saber? Ela está coberta de razão.

Aos trinta anos, tenho a consciência agudíssima de que nunca vou chegar ao patamar de maturidade dos meus pais, por exemplo. Até porque o tempo passa na mesma velocidade para todos nós e para eles começou antes. De modo que o quinhão que me resta é aproveitar o que posso aprender. Aí vem o pulo do gato: por mim, tudo bem! 

Aos trinta eu me conformei e entendi que algumas coisas eu já sei, outras não. Aprendi que algumas coisas é preciso tolerar, mas tenho aqui comigo uma lista enorme de situações que, sinto muito, mundo, mas não vou engolir de jeito nenhum. Entendi que cururu não é comprimido, mas às vezes precisa virar tira-gosto. Estou começando a descobrir que Sim e Não tem o mesmo peso, embora essa última seja muito mais difícil de dizer. Consegui olhar com mais humor para meus próprios defeitos e me perdoar por algumas escolhas, afinal de contas, foram elas que me trouxeram até aqui. Descobri o valor de se cultivar amigos e que muitas vezes só isso te livra de você mesmo. Entendi que somos nosso pior algoz e, paradoxalmente, nossa companhia mais importante. E que uma pessoa que não tolera estar só, está em péssima companhia.

Aos trinta anos, posso dizer que sei acender churrasqueira, trocar lâmpada, desentupir pias, ralos e companhia, arranho uma forma estranha de fazer fogueira, conserto varal, dirijo em estrada, abro vidro de palmito, cozinho um bocado de coisas, sei os princípios da troca de pneus, escrevo alguns textos, amo desveladamente algumas pessoas por quem valeria a pena morrer, entre outras coisas. Mas não mato baratas, ratos e companhia limitada; não tolero gente má, nem mentira, nem pessimismo. Não me alegro com a desgraça alheia. Não gosto de noticiário, nem de revista de fofoca. Não tenho saco pra gente arrogante e nem pra gente com cérebro de minhoca. 

Talvez eu esteja mais ácida, menos doce, menos ingênua, mais confiante, mais doida, vá saber. Fato é que o Temido Trintão veio como um presente maravilhoso, uma forma de promoção, um upgrade para uma versão melhor de mim. O bonde do tempo passou e eu literalmente me joguei lá dentro.

Melhor ir com a vida, que observá-la passando. Porque o tempo passa, meu bem. Isso é fato. A questão fundamental é: você embarca ou não?

Beijinhos
Fê Coelho





Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...