segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ela sorriu. Deve estar tudo bem




Ela sorriu.
Há um tempo ninguém via um sorriso novo, mas agora ela sorriu. Deve estar tudo bem, certo?

Claro. Ela está feliz. Sente-se plena e realizada e tudo está funcionando perfeitamente. Ela quer que você saiba que tudo está em seu lugar e que os dias são azuis. Há flores nos vasos, luz entrando pela janela e fazendo com que os grãos de poeira dancem ao som de uma música feliz. Ela está bem, acredite e siga. É o que ela quer.

Ela se penteou e mostra a maquiagem impecável. Acredite, ela está bem. E pare de se perguntar se é mesmo verdade. Simplesmente se convença e quem sabe ela também o faça.

Porque a bem da verdade é mais simples dizer que sim, a vida está nos trilhos certos. As nuances são difíceis de explicar e as pessoas são apressadas. Nem todas as palavras estão engatilhadas e prontas para traduzir o que nem ela mesma entendeu. Então, para todos os efeitos, acredite no sorriso que seus olhos viram.

Afinal de contas, o tempo é escasso e ela anda cansada. Não quer fornecer entediantes explicações multifacetadas sobre suas inconstâncias. Tampouco está interessada em elucidar o que mudou e o que se mantém. Ela está tão cansada... Apenas deixe que ela sorria e não pergunte nada.

Seja gentil e aceite um sorriso sem elucidação. Isolado. Da moldura para fora. Sem pretensão. Sem intenção. Sem motivo. Sem a necessidade de resposta. Apenas um sorriso gêmeo de tantos outros que já foram. Explicações são coisa cansativa - enfadonha, até - e ela não quer dizer mais nada. Ela não tem o desejo de enumerar fatos, nem listar pensamentos. Vivê-los é o bastante.

Houve um sorriso e haverá outros, mas cuidado com as inferências. Quem sabe ela esteja se convencendo daquilo que parece ser. Superfície tranquila e, abaixo dela, as turbulências. Ela é boa nisso de ser forte, afinal. Ou nada disso. Vai ver está realmente tudo bem. Ela nunca prometeu ir além dos fatos.

Os fatos, as fotos e os sorrisos são de quem os testemunhe. Os sonhos, o sentir e a vastidão do mundo que se encerra dos lábios para dentro são dela. Somente dela.


Fernanda Coelho.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

De carona - uma crônica sobre a felicidade do outro.




Já sentiu uma felicidade descarada, desmedida e meio doida? Já misturou lágrimas e sorrisos na mesma feição e ficou meio sem conseguir explicar o motivo? Já experimentou uma alegria daquelas de cor berrante, com estampa de bolinha? Já? E já provou a loucura que é sentir tudo isso pela felicidade de outra pessoa? É o que eu estou sentindo agora, leitor querido. Uma amiga vai se casar amanhã e eu não poderia estar mais feliz!

Entendo que possa soar estranho, isso de ficar tão feliz por uma realização que não é minha. Não sou eu quem vai envergar o vestido, nem carregar o bouquet. Não há nenhum príncipe à minha espera e não, não há trilha sonora de filme de comédia romântica separada para a escritora aqui. Às vezes a vida da gente vira uma bagunça só e não sobra muito espaço pra comemoração. São fases, claro. Toda boa mudança mexe em algumas gavetas. A parte boa é: tanto faz o número de perrengues com os quais estejamos lidando, sempre há motivos pra gente se alegrar. Eles estão lá, se a gente tem olhos pra ver. A felicidade alheia é um carro em movimento e devo dizer: nada nos impede de pegar uma carona.

Sabe, leitor, a alegria do outro pode ser - e muitas vezes é - uma fonte de felicidade para nós. Ver o outro feliz significa a vitória do amor e da esperança sobre esse mundo duro. Enxergar o triunfo no olhar do outro me faz saber que não importam as dificuldades (todos as tivemos, temos ou teremos), um dia tudo vira júbilo. Tudo é passível de transformação e de ser transmutado em aprendizado e alegrias futuras. Porque a vida pode ser bem generosa com quem vive pelo amor.

 É clara a memória do dia em que eu abri a boca e disse "você sabe que vai se casar com ele, né?". Não que eu queira me gabar por ser uma boa apostadora, mas estou absurdamente feliz por ter acertado. Estou transbordante por ver que todo o sentimento que eu presenciei foi capaz de se fortalecer, lançar raiz, superar limites e frutificar. Estou enlevada por saber que enxerguei certo, que é mesmo amor a ternura que vi nos olhos dos dois. É bom reconhecer a nobreza de intenção, de atenção e a sublime ação de Deus na vida de quem ele ama.

A felicidade de quem a gente ama faz algo como cócegas na alma da gente. Traz um sentimento bonito de ser feliz pelo outro. Prova a existência de saída para as lutas do cotidiano. Esfrega na cara da gente que entre os semáforos fechados, as buzinas soando, os prazos findos, as promessas quebradas e as infinitas crises em mil esferas desse mundo, tem gente sendo feliz sim, senhor! E saber disso é fundamental.

Poly e Fábio, sejam felizes. Tanto quanto possam; nunca menos que isso. Estejam juntos e continuem construindo essa história linda, de encher os olhos da gente.

Um beijo gigante da Dinda.
Fê Coelho.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Das gavetas



Alguns textos, confesso, foram destinados às gavetas. Alguns escritos são meus, tão profundamente meus, que se recusam a conhecer as pessoas. São palavras que não cabem na vastidão do mundo interior, que se perdem na agonia de não ser e acabam rompendo caminho dedos afora. Mas feito isso, simplesmente não sabem mais pra onde ir.

Ah! mas essas palavras, atrevidas e melindrosas, se fazem escrever só para se afirmarem; só para mostrar quem manda mais. E depois de escritas se fecham num silêncio devoto, numa timidez infinita, e acabam se escondendo atrás de um outro texto qualquer.

Ah! Se elas aceitassem o olhar do outro... Ah! se decidissem passear gaveta afora. Quem sabe seriam mais felizes, quem sabe mais leves. Quem sabe encantassem mais que outras. Porque são belas. Como são belas, as danadas! Escritora desonesta? Não creio que seja esse o caso. Talvez sejam as palavras que são honestas demais, puras além da conta, desprovidas da couraça de conveniência que vai bem com esse mundo. Talvez sejam palavras em carne viva, que simplesmente estão desprotegidas demais para enfrentar o espaço além da gaveta.

Todo escritor, creio eu, tem seus textos frágeis. Todo mundo tem suas palavras de fio desencapado, prontas pra ferir. E todo mundo tem suas linhas tortas. Cada pessoa guarda sua coleção de verdades inconfessas, de mágoas bem acolhidas e de sonhos embrionários que precisam de proteção.

Todo mundo tem uma parte de si que se mostra e uma que se oculta. Uma verdade que se encolhe e outra que se espreguiça. Cada um tem sua névoa, sua quota de bruma. E somente alguns - os mais brilhantes, os mais libertos, os mais ousados - conseguem trilhar seu caminho para além de tudo isso.

Parte de mim inveja essa capacidade; outra parte comemora. Parte de mim admira, outra parte se atemoriza.

E sinto-me gestante dos textos que não querem nascer.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre Quebra-cabeças e a Vida

Dia desses, pensei que viver é algo como montar um quebra-cabeça sem nunca ver o desenho na caixa. Peça vai, peça vem, a gente vai montando os dias sem nunca saber ao certo o que vai ser. Podemos imaginar, supor, tentar prever. Todavia, o desenho completo, colorido e rico, só nos é apresentado lá bem longe,  onde a vida faz a curva.

Não nos é dado antecipar o quadro pronto; apenas uma pecinha por vez. Um dia, um sorriso, um encontro, um curso, uma decepção, uma coisa de cada vez. Cada novidade, uma peça que tentamos encaixar sem saber muito bem a que parte do todo ela pertence.

E assim vamos vivendo, comemorando cada parte que se encaixa e lamentando tudo aquilo a que não conseguimos dar sentido.

E nesse ponto vale a experiência daqueles cujos quebra-cabeças já estão mais adiantados: algumas partes não se ajustam agora, mas logo se adaptarão. Vale entender que alguns momentos parecem desconexos pela falta do que ainda virá,  do que trará o sentido a esse desenho parcelado a que chamamos vida.  Vale compreender a arte da espera, a habilidade de não insistir na peça que teima em não servir. É necessário entender o processo e saber que tudo tem o lugar e o momento oportuno.  A gente só não sabe qual é ele. Pelo menos não até que a conexão se apresente.

E não adianta tentar se guiar pelo quebra-cabeça do vizinho. O desenho dele é outro, com cores diferentes e pedaços diversos.  Ele não é mais bonito ou menos interessante; é apenas feito para outra pessoa. E, exatamente por isso, seria uma tolice sem tamanho montar a sua vida como se fosse a de outro alguém.

Talvez a tal felicidade passe por isso: encaixar cada peça da vida com alegria,  na certeza de se tratar de um momento único.  Porque a cada pedaço da vida que juntamos, solidificamos o passado. E esse, meu bem, não muda nunca.

O que quero dizer é que,  no fim das contas, não há garantias. Nunca houve. Tudo o que sabemos é que vivemos de não saber. Nos arriscamos na expectativa de que, afinal, sejamos um desenho bonito. E que nossa vida seja um quebra-cabeça que valha a pena ter sido montado.

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sem parar


 O mundo não para,  é o que dizem. Óbvio em certa medida; cliché, até.  Todos sabemos disso, embora só venhamos a experimentar essa realidade quando gostaríamos que ele parasse.
O mundo não para. Por ninguém, nem para ninguém. Ele não para para assistir às grandes tragédias, nem aos pequenos dramas. E não diminui o ritmo para que se aliviem as dores ou se celebrem as vitórias.
O tempo vai.
A vida continua a florescer e a se esvair. Pessoas se encontram e se perdem. Laços se criam e se desfazem e o mundo continua. As buzinas soam, os despertadores tocam, a bolsa de valores sobe e desce, as agendas se cumprem.
E lá se vão os dias .
Porque a vida é algo que,  contrariando todo nosso sentimento de proteção do ego, acontece apesar de nós.  A vida segue. Ela sempre continua o seu curso. Ela não pode esperar que tenhamos revisado todas as boas e más notícias para acontecer. O presente urge em ser passado. Assim como o futuro insiste em se tornar presente.
E dessa forma os passantes seguem ruminando suas questões, enquanto vão vivendo. E vão juntando seus pedaços da melhor maneira possível - entre uma reunião e outra, entre um e outro momento. 
Porque o mundo, ah!, esse não para nunca.
Então talvez o processo de se refazer seja algo como o de pegar folhas caídas numa grande avenida: recolher o que for possível enquanto o semáforo estiver fechado. Talvez a gente se refaça entre um carro e outro, aos sopetões, ou talvez com calma, juntando aqui e acolá o que for possível.  E a gente se refaz sabendo que algumas folhas o vento sempre leva consigo.
E o segredo pode estar em deixá-las ir para que se possa juntar o restante.
O mundo não para nem pela dor, nem pelo amor. O mundo não para, não volta e nem se adianta. Ele simplesmente nos oferece a inacreditável oportunidade de seguir com ele e ver o que acontece depois.
Ora, e o que é a vida, senão um grande convite?
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Golias - uma crônica sobre esperança.



Existem algumas histórias - para alguns, alegorias - que se nos apresentam sem pedir licença e servem para iluminar o dia. Acontece o tempo todo, mas a gente só se dá conta disso quando está atento. Aconteceu comigo. Outra vez. Pensei hoje que todos temos, cada um a seu modo, o nosso Golias. Todos temos assuntos, situações, manias ou perrengues diversos que amiúde se avultam e parecem maiores do que aquilo com que podemos lidar. A gente olha para a situação e se percebe pequeno, Davizinho da Silva; respira fundo e pensa: lascou. A parte boa é: não lascou coisíssima nenhuma!

Uma funda e sua crença, foi tudo o que Davi usou. Uma ferramenta pequena e um Deus infinito. E isso pode se aplicar a tantas áreas de nossa vida, quantas quisermos. Os problemas existem. Todos os dias somos apresentados a uma gama deles e nem precisamos procurar: aguardemos e eles virão. A questão é que eles se tornam tanto maiores quanto maior for o nosso medo. Os obstáculos se tornam tão mais altos, quanto mais paralisados ficarmos. Essa é a questão.

Acredito que ninguém faz algo grande assim, de uma vez. As pessoas vão fazendo pequenas coisinhas todos os dias até terem conseguido fazer uma coisona. Vão tirando pedra por pedra e, ao final transpõem uma montanha. Tudo passa pela fundamental e difícil decisão de começar e não desistir. 
 
Às vezes, a gente se queixa de ter poucos recursos para lidar com determinadas situações. Falo por mim. Os problemas parecem bem maiores do que aquilo de que dispomos para liquidá-los. Mas pior que a falta dos recursos é a recusa em utilizar aqueles poucos de que se dispõe. 

Uma ferramenta pequena e a disposição para usá-la. Um Deus zeloso à frente e lá se foi o gigante por terra. 

Uma mudança de hábito, uma decisão minúscula, um passo na direção dos nossos sonhos e a decisão de usar os recursos de que se dispõe. As montanhas passam a ser apenas uma sucessão de pedras; as distâncias, um linha de muitos de centímetros e o futuro algo que construímos todos os dias, cuidando de cada segundo do presente. 

É isso. A cada Golias, a sua funda cravada na testa. A cada desafio, o nosso empenho. A cada momento de receio, nossa entrega e o nosso viver pela fé. E sigamos sempre.

Beijinhos,
Fê Coelho.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cartas para Ninguém - Felipe e a Vó


Oi Vó.

Choveu aqui hoje. Eu sei que essa não é uma informação que vá modificar o seu dia, mas mudou o meu. A chuva caiu e me lembrei da senhora, com aquele croché infinito nas mãos, olhando pro pasto molhado e se preocupando com as galinhas e as mil goteiras do galinheiro. Aí deu uma saudade sem tamanho e resolvi escrever.

As coisas por aqui são mais ou menos o que eu esperava. A gente estuda, trabalha, se embriaga umas cinco vezes por semana. Às vezes três. Esquece essa parte, Vó. A gente não se embriaga, mas diz que sim, que é pra manter o moral. Na verdade, eu vivo com um livro na mão e me mato de trabalhar na lanchonete, pra receber uns trocados.

Eu pensei que fosse ser mais fácil. Pensei que a vida dos rodeios não fosse me fazer falta. Achei que nunca me arrependeria de bater o pó das botas e ir me encher de manias da cidade. No fundo a gente sempre se ilude um pouco, né? Mas me disseram que a caneta é mais leve que a enxada e eu acreditei. De fato ela é, Vó. O que pesa é essa saudade enorme do tempo em que eu podia apenas estar; de quando eu tinha tempo de ver a vida. O que pesa é a falta que me faz aquela risada que nós deixamos de dar, as discussões que deixamos de ter. O maior fardo, Vó, é o tempo que não aproveito ao seu lado.

A vida tem dessas coisas, eu acho. A gente vive escolhendo e se agarrando às escolhas que faz. Algumas delas são levinhas e a gente traz elas penduradas no canto do sorriso. Mas outras são como aquelas toras que a gente buscava pro fogão de lenha - pesadas e desconjuntadas; difíceis de carregar, mas úteis afinal.

Estou me esforçando, Vó. Logo, logo eu vou ter dinheiro para reformar o galinheiro.

Me espere para o natal. Chego uns cinco dias antes. Mentira. O dono da lanchonete me confisca o fígado se eu fizer isso. Chego provavelmente na véspera de natal, levando comigo uma cesta básica, as guloseimas que a senhora tanto gosta, uma garrafa de cidra (que a gente vai bebericar devagarinho, pra sentir as bolhas estalando na língua) e todo o meu amor.

Com carinho,
Felipe.

sábado, 20 de setembro de 2014

O homem, o caminho e a carga - uma parábola.



Era o homem, seu caminho e sua carga - um saco de juta, cheio de coisas. Um homem jovem, saudável e forte; um caminho longo e difícil de se cumprir e uma carga suportável, a princípio. Tudo o que ele precisava fazer era levá-la até o final do caminho. Nenhuma novidade, até então. Muitas pessoas têm trilhas a cursar e fardos a transportar. O que difere este homem específico é o fato de que seu carregamento variava de acordo com o sua atitude.

Para cada situação que se apresentasse ao longo da estrada, a depender da reação do andarilho, acrescentava-se peso ou retirava-se. Caso o homem se irritasse ou praguejasse, uma pedra era acrescentada ao saco; caso sorrisse ou visse o melhor da situação, uma pedra era retirada. E assim ele prosseguia, transportando sua carga por caminhos ora escarpados, sinuosos e incertos, ora floridos, planos e cheios de vida.

Ocorre que, tendo tomado a rabugice por estilo de vida, o homem, ao longo do tempo, se viu obrigado a carregar um fardo muito maior do que poderia suportar. Havia juntado pedras demais, ele sabia. Encontrou pela estrada um homem que fazia o mesmo: levava consigo seu saco de pedras e outras coisas; um saco bem menor, ele notou. Não era justo! Tantas coisas terríveis haviam acontecido com ele e ainda era necessário levar aquele fardo tão pesado. Enquanto isso, o outro homem sorria e caminhava a passos ligeiros, mal percebendo sua própria carga. Pediu ajuda e recebeu. Mas depois de alguns quilômetros, a divisão sobrecarregou o companheiro de jornada e este devolveu ao homem suas pedras. E ficou pelo caminho, se recuperando do esforço.

O homem encontrou pessoas em casinhas bonitas e ofereceu suas pedras como presente. E quem gostaria de recebê-las? Ninguém. E o homem seguiu sua trilha, carregando um peso que era só seu.

O andarilho sentia-se só, fraco e vencido. Seus passos vacilavam. Até que ele tropeçou e caiu. Seu fardo soltou-se de suas mãos, subiu bem alto, contrastando com o céu de infinito anil e chegou ao solo, espalhando mil pedras ao redor do homem. Eram tantas, de tão diversas queixas; e formavam no chão um mosaico tão desconexo de reclamações, que o homem não viu alternativa senão rir. Ele gargalhou como nunca fizera. Riu de si mesmo, de suas convicções e da inutilidade do peso que carregava. Reconheceu a impossibilidade de transferir a outras pessoas um fardo que ele mesmo havia montado. Riu-se de sua insistência em permanecer agarrado a partes do caminho que tão longe já estavam. E decidiu que não queria mais nenhuma daquelas pedras. Nesse dia, houve uma risada tão longa, como poucas vezes já se viu.

Então o milagre aconteceu: uma a uma, as pedras tornaram-se flores. Cada uma de suas lamúrias deixaram de ter importância, porque o homem compreendeu que pouco importava o fardo; o caminho, sim, era fundamental.

Juntou tantas flores quantas conseguiu e as distribuiu pelo caminho. E deixou de se preocupar tanto, e de se importar tanto com coisas de menor valor. Fixou-se à verdade das pessoas, à luz de cada dia, aos olores e aos sabores; fez-se amigo dos amigos e afastou seu caminho dos inimigos. Distribuiu sorrisos, aprendeu a rir de si mesmo e tornou seu fardo o mais leve que poderia ser.

E finalmente foi feliz. Porque descobriu que o destino - esse caminho que trilhamos, cada um a seu modo - pode nos apresentar momentos floridos ou áridos. Mas a vida, essa que carregamos até o final da jornada, pode e tem exatamente o peso que escolhemos levar.

Beijinhos
Fê Coelho.




terça-feira, 19 de agosto de 2014

Maternidade Faixa Branca



Não era para hoje essa crônica. Nem para ontem. Na verdade, estou em débito com alguns leitores desde a semana passada e há apenas dois segundos, eu ainda tinha a minha filha caçula pendurada no meu pescoço. Até que eu pedi "cinco minutinhos pra mamãe escrever uma crônica" e elas partiram para a sala. Nesse exato momento, estão morrendo de rir de algo que não sei bem o que é (um arrepiozinho de preocupação aqui). Sobre o que, então eu queria falar há tantos dias? Sobre o conceito de Mãe Faixa Preta e seu derivado a Mãe Faixa Branca.

A primeira vez que vi essa expressão, foi num livro da Marian Keyes. Uma personagem usou esse termo para falar sobre o quão difícil era lidar com a vizinha - que tinha uma vida toda estruturada, filhos lindos, polidos, educados, talentosos, atarefados e poliglotas. A infeliz sempre sabia o que fazer, tinha tudo sob controle, nunca se exasperava, os filhos não choravam, não davam birra e já escreviam o próprio nome em mandarim (ok, exagerei). E eu preciso confessar: como eu me identifiquei com a sofrida personagem mãe faixa branca!

Outro momento que me fez refletir muito foi a visita a uma grande amiga que acabara de receber a credencial de mãe. Liguei para ela e ofereci ajuda - resumindo, eu ficaria com o bebê para que ela pudesse tomar um banho, dormir cinco minutos, comer algo, essas coisas que a gente precisa fazer e pouco realiza quando se está com um bebê pequeno. Na ocasião, minha amiga me disse - e me sinto traída e traidora até hoje - que ninguém nunca havia falado sobre as partes difíceis. E foi quando eu me dei conta: no que se refere à maternidade, temos a mania de exaltar o que é lindo e jogar o que não for assim tão glamouroso para debaixo do monte de fraldas (porque o tapete já não pode ser usado; sabe como é, o bebê tem alergia). Até aí, todo mundo faz. Mas, convenhamos, tem gente que exagera.

Minha sensação é que, desde o primeiro comercial de margarina e talvez bem antes disso, a imagem de família perfeita venha se refinando e se tornando cada vez mais inatingível. São apenas momentos lindos de puro lazer e deleite, com luz bem posicionada e várias fotos nas redes sociais. As pessoas foram se aprimorando na arte de fazer crer e, corrijam-me se eu estiver enlouquecendo, fizeram dos pimpolhos pequenos troféus que carregam para cima e para baixo. São as mães faixa preta.

Agora a criançada sai das fraldas cada dia mais cedo - afinal de contas o filho da vizinha já saiu. É menina que aprende a ler quando nem sabe que terra não é comida, menino que vira um videogame do avesso aos dois anos e meio, criança que usa termos tão complexos que Ruy Barbosa teria lá suas dificuldades em lidar com ela. Nada contra. Juro, juradinho. Só não entro nessa barca. Sou uma mãe faixa branca.

Entenda, leitor. Eu amo ser mãe. Faço isso com todo o meu coração e não saberia fazer outra coisa da minha vida. Mas confesso não ser perfeita. Frequentemente, acontecem coisas que me fazem pensar "e agora, José?". Cinco vezes por dia, eu respiro um pouco mais fundo. E simpatizo do fundo do coração com uma amiga que certa vez me disse já ter considerado roubar galinhas para ir para a prisão - direto para a solitária - e dormir uma semana inteira. Maternidade é uma coisa boa como não consigo explicar, mas ninguém se engane sobre ser fácil.

E é por isso que eu amo quando me encontro com as minhas amigas que também têm filhos. Aí elas contam sobre os meninos que acordam de noite, sobre os pratos de comida que demoram a eternidade para findar, sobre o banho que nunca começa e depois nunca acaba, sobre o cabelo que aguarda uma ida ao salão há um mês. Minhas amigas que estão na turma de mães faixa branca têm coragem de assumir que ficaram bravas, que os filhos demoram pra fazer o dever de casa e que as toalhas não voltam automaticamente para o banheiro. Elas são solidárias, quando falo sobre aquele livro há meses aguardando ser lido, e sobre o fato de o banho ter virado um momento de lazer.

Quando encontro mães faixa branca, o que acontece é uma sensação de acolhimento, de pertencer e de normalidade que fazem um bem danado ao coração da gente. O que ocorre é que você percebe finalmente: sou uma mãe normal, com crianças normais, numa casa normal, com uma família de verdade. Existimos. Temos uma rotina e alguns atritos, mas amor suficiente para deixar todos os perrengues de lado e seguirmos felizes.

A crônica ficou pronta uma semana depois. E não pense que foi escrita em dois ou três minutos. Entre uma e outra frase, pedi para que o volume da televisão fosse abaixado, preparei leite, precavi contra acidentes diversos e ameacei mandar as crianças mais cedo para a cama. Agora pergunte se eu queria outra vida...

Sobre ser mãe, eu citaria Djavan e Caetano para encerrar o raciocínio: "se tivesse mais alma pra dar, eu daria. Isso pra mim é viver".

Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Como os ipês



Se hoje alguém me pedisse um conselho, apenas um, eu diria: seja como os ipês.

Tenho uma queda por eles, é verdade. Não escondo de ninguém o fascínio que essa árvore me provoca quando está florida. É uma época bonita aqui no cerrado: céu azul, ipês rosas e amarelos, alma leve - e umidade do ar abaixo do aceitável. São dias secos, muito secos. A paisagem toda se transforma e o tom predominante passa a ser algo entre o verde e o palha - com uma tendência para esta última tonalidade. E é quando os ipês se apresentam, majestosos, enchendo os olhos e fazendo sorrir sem querer.

Por isso eu digo: seja como os ipês. Tenha raízes fortes e profundas, saiba onde estão elas e busque sempre o que te faz crescer. Creia que suas bases te podem manter de pé. Aproxime-se de sua família. Cerque-se de bons amigos. Tenha raízes vigorosas e vá adiante, buscando sempre a luz.

Tenha a aparência encantadora e o cerne resistente. Saiba ser agradável aos olhos, amistoso e atraia as pessoas. Traga cor e alegria aos ambientes e às relações. Ilumine tudo quanto estiver ao seu alcance. Seja suave. Mas tenha o cerne duro. Seja forte e esteja preparado para resistir aos ventos de agosto. Relacione-se com os amigos, familiares, colegas e desconhecidos de maneira suave e gentil. Mas faça-se forte e esteja preparado para quando a vida chamar. E não se engane: ela chama. Aqui e acolá o cerne de cada um de nós é posto a prova e é bom que ele esteja resistente, ou toda a árvore virá abaixo.

Não se misture à paisagem. Tenha lugar, luz e cores próprias. E não tente impor suas nuances aos outros. Esteja ali e floresça. Mesmo que tudo mais esteja seco. Na adversidade, as flores são mais bonitas. Tenha coragem para se mostrar vivo e presente. Isso é mais do que muitos podem oferecer. Apenas decida não sucumbir às intempéries e siga. Deixe cair as folhas - o tempo se encarregará de trazê-las de volta. E até que isso aconteça, simplesmente floresça.

Entenda que assim como há várias cores de ipê, há vários dons. Descubra o seu tom e se pinte com ele. Dê o seu melhor naquilo que decidir fazer. E não perca tempo tentando ser um ipê roxo, se tudo que há em ti pede para ser amarelo. Exerça os dons que tiver. A todo tempo. A seu modo. E traga para o mundo o colorido que você - e só você - pode dar. Seja um sucesso. Aceite a beleza que há em cada um dos seus talentos e simplesmente continue.

E não se desespere para caber na fôrma. Eucaliptos são bonitos a seu modo - regulares, simétricos, bem distribuídos e disciplinados - mas nenhum deles traz consigo a exuberância de um ipê.

Por fim, deixo de dar conselhos e faço um pedido: seja, por favor, um ipê. Eles não são muitos na mesma região. Todavia, bastam um ou dois para transformar completamente a paisagem.

Na expectativa de que muitos ipês estejam do lado daí, eu me despeço.
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eu que não falava de amor.



E eu, que não falava de amor, agora decidi embarcar nesse trem. Eu, que não falava de amor, resolvi que talvez não doa fazê-lo. Ora, o amor - tema pintado, declamado, aclamado, e estudado é apenas um assunto. É mais uma das faces desse diamante que lapidamos durante anos; um que chamamos vida.

Nunca falei de amor, é verdade. Pelo menos não daquele sentido por duas pessoas que decidem se amar e construir uma história juntos. Não expressando minhas impressões a esse respeito. Houve alguns escapes, é verdade; mas se falei de amor, foi em histórias fictícias. Falei de um amor de mentirinha, daquele que a gente cria para a ficção. O amor da vida real é outra coisa.

Sempre me questionei o motivo de minha relutância. E recentemente tenho pensado ainda mais a esse respeito. Ora, tantas pessoas já esgotaram esse tema! Tantos se debruçaram sobre ele e compuseram mais do que poderíamos supor. Tanto já foi dito, que talvez eu ainda não houvesse encontrado minha própria forma de falar de amor. Creio que nunca tenha compreendido bem o processo, afinal.

Amar não é algo que se aprenda como conteúdo de prova. Não é algo em que se possa provar habilidoso; não em termos acadêmicos e racionais. Pode-se refinar os modos, os hábitos e as crenças. E creio que esse refinamento seja o responsável por produzir um amor sobre qual não haja motivo para censura.

O amor não é algo que se aprenda como conceito. Não. Ele é, antes, algo que se viva com consciência e verdade. Amar é entregar trechos de vida, pensamentos e intenções. É ter consigo um sentimento do qual se orgulhar e para o qual voltar. Todos os dias.

E sim, é amor, aquele bem-querer quentinho no peito da gente. É amor aquele buscar com os olhos e aquela vontade de fazer feliz. É amor aquela paz que te acomete e te diz que o coração encontrou pouso. E é amor a coragem de se admitir enamorado, sem o medo do arrependimento. Sem a censura fria de quem não tem assim tanta certeza.

A gente se preocupa demais com definições, quando - na verdade - o amor só demanda honestidade, verdade de sentimento. Ora, amor é quando a gente sente. E sentir já é o bastante para definir.

Beijinhos
Fê Coelho.



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Escritora com Nome de Bicho



Era a escritora miudinha. Pequenininha, com um ou dois degraus subidos, mas com uma vontade enorme de conhecer a escada. Era a escritora miudinha, ainda tentando entender o processo. Peixe pequeno se aventurando fora do coral.

Tem sobrenome de bicho, essa escritora. E tem consigo essa simplicidade; esse não saber, que de tanto não saber acaba descobrindo alguma coisa. Não consegue usar as formas mais rebuscadas da língua. Não sabe jogar purpurina pra todo lado. Toda ela é meio assim, sem rodeios. Pensa o que quer dizer, sente a forma como quer que sintam e escreve. Descomplicada essa escritora com nome de bicho.

Já pensou que queria ser cantora, mas cantora não pôde ser. Não conseguia saber a diferença entre tons e ritmos, nem se adequar ao som. Mas ela sempre viu o pôr do sol em forma de texto. Sempre se encantou com tudo o que viu, com as histórias que encontrou e com as formas de contá-las. Gostava de poesia, aquela criança miudinha, e de livros, e de arte. Nunca soube classificar bem as coisas, mas sentia todas elas. Vive um eterno sentir, essa criatura.

E talvez seja por isso que ela escreve: porque sente além da conta; porque pensa e vira frase a cada esquina do caminho; porque transforma tudo em texto. Alguns ela guarda consigo, outros ela encerra no coração. Mas alguns ela manda espiar o mundo, como a pomba do dilúvio, meio que para saber se é seguro. E os textos obedecem. Fluem, saem e voam. Encontram corações e fazem morada. Ou ficam por apenas um segundo. Ou não ficam. Mas eles seguem viagem. E voltam trazendo notícias do mundo de lá.

Curiosa essa escritora com nome de bicho, que gosta de crianças; que quer ter sempre o olhar como o delas. E que, se dizendo escritora infantil, mesmo assim se sente em dívida de sinceridade com o amigo leitor adulto. Escritora teimosa que fala de tudo, mas que teima em não falar de amor.

Ah escritora danada. Aprende que não é você que escolhe as palavras; elas é que fazem morada no seu coração e passeiam pelos seus dedos. Aprende escritora com nome de bicho. Nessa brincadeira, você é sempre a pega.

Feliz dia do escritor.
Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sobre sementes e a vida



Viver é enterrar sementes, refleti dia desses, enquanto dirigia para o trabalho. O sol ainda nascia. A estrada à minha frente me lembrava das cobertas que tão sonolenta abandonei. E tive certeza: cada dia é um novo plantio. Todo alvorecer traz consigo o germe do que ainda está por vir, daquilo que supomos, sonhamos ou negamos. Cada amanhecer encerra em si uma gama de possibilidades. É como se nos levantássemos para isso: plantar.

Um bom dia que se deseja é simpatia plantada no coração do outro. Os olhares, os sorrisos, as intenções, as ações e omissões – tudo isso é semente lançada em terreno fértil. E não se engane, cedo ou tarde elas acabam dando frutos.  Por onde passamos, em todas as relações que estabelecemos lá estão eles nos lembrando do tempo do plantio, da oportunidade aproveitada ou perdida de se escolher a semente certa.
As sementes que plantamos podem nos render árvores frondosas, sob as quais descansamos após anos. Tanto tempo depois, ainda se pode ver o resultado do plantio. Da mesma forma, podem se tornar espinheiros, que nos ferem e atravancam o caminho. Tudo passa pelas escolhas, pela intenção de plantar, pela decisão de viver.

Viver intencionalmente é escolher o que se vai semear. É não sair por aí apenas lançando ações ao acaso. Viver por querer é ter coragem de separar os frutos que se pretende plantar. Ora, não creio que alguém espere semear laranjas e colher alfaces. Da mesma forma que não se pode espalhar discórdia e esperar ter em troca aquela paz duradoura e amparada por ombros que sempre souberam que podiam se apoiar nos seus. Viver por querer é preencher a própria história com fatos, gostos, afetos e doações.

Claro, não se pode escolher as sementes que plantam em nós. Nem sempre, pelo menos. Muitas vezes somos brindados com algumas com as quais preferiríamos não lidar. Tristeza é coisa que aparece, desamor também. A verdade que plantamos pode não ser a que recebemos. Somos terreno arado e fértil, mas temos a opção de escolher que árvores serão adubadas e regadas. Podemos simplesmente não alimentar aquilo que não acrescenta.

Isso é viver bonito, creio eu. Isso é uma maneira de manter o olhar atento, os sentidos aguçados. É uma forma de tentar tirar o melhor de cada momento em que estamos por aqui, nesse mundão velho e sem porteira. Ter a consciência de que todo dia é um plantio nos faz entender  que cedo ou tarde os frutos chegam. E que sejam doces. E que sejam de paz. E que nos façam crer que cada dia de semeadura valeu a pena.

Beijinhos
Fê Coelho.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pedra e Flor: reflexões sobre ser Enfermeira.



A enfermagem é a arte e a ciência de cuidar; isso é sabido. O que eu ainda não sabia é que a enfermagem, como arte ou ciência, é obra que leva a vida toda sendo construída.  Há coisas e fatos que aprendi durante meus cinco anos em período integral de faculdade. E há outras tantas coisas que compreendi em meus quase nove anos de profissão. Há coisas que foram fáceis de aprender e outras com as quais luto até hoje. E tremo em pensar sobre o quanto ainda há para saber, fazer e sentir.

Percebi - e ando me debatendo com esse fato nos últimos dias - que o enfermeiro é muitas vezes o olho de outro profissional sobre o paciente. Como estamos lá em tempo integral, somos quem decide se algo é simples de se resolver, com os recursos de que se dispõe na hora, ou se é momento de chamar outro profissional. Creiam: nem sempre é fácil fazer isso. Para saber a quem e quando chamar, é preciso conhecimento e discernimento. Reconhecer as grandes e pequenas necessidades daqueles sob nossos cuidados e garantir para que elas sejam atendidas é algo laborioso, que pode nos custar, em alguns casos, até a paz de espírito.

Entendi que não há limite para o que se pode aprender. Academicamente falando, ou não. Cada contato com uma pessoa é o momento oportuno para crescer; não importa se como profissional ou como ser humano. Um bom enfermeiro cresce. O tempo todo. E usa essa capacidade em prol dos que se confiam a ele.

Descobri que muitas vezes, pouco é tudo o que podemos fazer; contraditoriamente, nesses momentos, pouco pode querer dizer exatamente isso: tudo. Não é fácil ouvir os agradecimentos de filhos cuja mãe você não pôde salvar. Esse é o tipo de coisa que dói de um jeito estranho. Dói até você compreender que as pessoas morrem, mas que a maneira com que foram tratadas até que isso aconteça é fundamental. Dói até você entender qual é o seu papel diante de cada par de olhos com os quais você cruza. E até você pensar que aprendeu e se encontrar com uma nova dor, fruto do inesperado. E até você entender que, muitas vezes o coração do enfermeiro é remendado; mas continua acolhedor.

Compreendi que um novo trabalho é uma nova oportunidade; um caminho a trilhar, com suas particularidades, surpresas, vitórias e agruras. E entendi que um antigo trabalho será sempre uma escola, herança e origem para a qual olhar sempre que necessário. No fim das contas, acolher o futuro e honrar o passado continua sendo um bom meio de vida.

Aprendi com a dor, com a incerteza, com a beleza que se esconde bem longe do óbvio. Tive como mestres a convivência de pessoas, o que elas fizeram, o que deixaram de fazer, o afeto e a falta dele. Aprendi com o fazer, com o agir, o ouvir, o esperar, o observar, o sentir. Aprendi muito. Em cada momento de doação, em cada segundo de incerteza e ao final de cada dia, com a cabeça no travesseiro, certa de minha sorte por estar saudável.

Lembro-me ainda das palavras de um dos meus mestres na faculdade, o Dr. Marcelo Medeiros. Certa vez ele nos alertou que um dia seríamos pedra e, no outro, janela. Nunca me esqueci disso. Nunca deixei de pensar que num dia eu cuido e noutro posso estar ali, frágil, janelinha da Silva. E ainda me espanto com a beleza da profissão que exerço: uma que pode ser pedra, mas que opta de todo coração por ser flor.

Feliz dia do Enfermeiro a todos os meus colegas.
Me orgulho da profissão que exercemos.
Beijinhos,
Fê Coelho.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Toda mãe



Existem coisas que acontecem com tanta gente, que acabo pensando que ocorrem com todo mundo. Existem conceitos tão arraigados, que eu acabo crendo serem parte de uma verdade universal. Sei que nem é isso que ocorre, mas gosto de pensar que todas as mães têm algo em comum, além do fato de terem filhos.

Penso que toda mãe tem consigo um amor desvelado, daqueles que não consegue decidir entre um filho ou outro; nem entre os filhos e a própria vida. Penso que esse amor é uma espécie de motor de arranque para os dias e para as decisões. E creio, também, que toda mãe em algum momento faz aquilo que tem que ser feito - apesar da dor, da dificuldade ou da aparência impossível.

Toda mãe, aqui na minha cabeça, tem olhos aguçados - daqueles que veem sujeira atrás da orelha e tristeza escondida atrás do sorriso. Toda mãe capta nuances que ninguém mais percebe, porque o amor amplifica a visão. Ela sabe a hora de abraçar e de dar a bronca; e se não sabe, vai tateando com o coração até descobrir. Ela enxerga o perigo que ninguém mais vê, o amigo que nem é tão amigo assim e o potencial que nem mesmo a gente sabe que tem.

Toda mãe, no meu entender, - e quero muito crer que seja verdade, ou seria realmente muito triste estar num barco sozinha - já errou tentando acertar e já acertou com medo de errar. Todas nós já nos sentimos perdidas, frustradas, amedrontadas e recompensadas na mesma medida. Toda mãe já sentiu dó e se preocupou com a passagem do tempo. Toda mãe já chorou e sorriu; e já sentiu o dia se iluminar à vista de um sorriso.

Creio que são essas coisas que fazem das mães uma espécie de instituição, algo sólido em que se pode confiar. Acredito que essa série de intersecções nos aproximam e criam um dialeto de amor, que só se compreende de fato quando se gera um filho - no ventre ou no coração.

Porque o que fala por nós, mães, é um afeto grande demais para ser traduzido. O que nos move é um coração cheio de um amor transformador, capaz de se doar e de perceber a beleza em frações de segundo.

Penso que toda mãe consegue guardar consigo pequenos trechos de eternidade. Porque toda mãe eterniza consigo as memórias mais refinadas de amor.

Feliz dia das mães!
Beijinhos
Fê Coelho.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Se você me fizer sentir gratidão.



Se você passar pela minha vida e me fizer sentir gratidão, vou me lembrar de você sempre. Se fizer meu coração rir baixinho, você terá sempre um lugar especial, a mesa posta, os lençóis limpos e as janelas amplas abertas para um lindo jardim. Meu coração é generoso com quem enfeita suas paredes com quadros de amor e amizade.

Se você me fizer sorrir à lembrança do seu olhar, vou querer te ligar no meio da tarde. Vou me preocupar com seu bem-estar e dedicar a você uma boa dose de bem-querer. Vou me interessar pelo seu dia e prometo fazer um esforço grande para me calar e ouvir o que você tem a dizer. Porque se sua passagem pela minha vida tocar meu coração, vou querer ser uma pessoa melhor por causa de você e isso inclui reconhecer meus defeitos (entre eles o de falar demais).

Se você deixar um pedaço de si comigo, vou cuidar bem dele. Ou vou, no mínimo, me esforçar nesse sentido. Provavelmente vou cometer falhas e dar mil mancadas. E vou me sentir em falta com você. E mesmo que passemos um tempo sem nos falar - porque a vida anda corrida para todo mundo - você estará nos meus melhores pensamentos e nas minhas orações. Porque você me fez sentir gratidão e isso é algo que sempre tem volta.

E quando nos falarmos vou querer saber como anda a vida; vou perguntar como estão as coisas no trabalho, as crianças, a reforma do apartamento; vou tecer os elogios que fiz mentalmente ao ver uma foto sua no Facebook. E vamos rir. Sei que não é muito. Quem traz gratidão ao meu coração merece muito mais que isso. Nesse ponto entra um pedido de desculpas. E se você fizer o meu coração sentir amor, vou dizer isso quando desligarmos o telefone. Porque se você me fez sentir especial, vou retribuir isso e vou querer que você se sinta igualmente reconhecido.

Por outro lado, se você passou pela minha vida e pichou as paredes, espalhou as coisas pelo chão e deixou tudo meio cinza, vou reformar a casa; vou pintar tudo e pôr quadros novos; vou espalhar botões mimosos por todo canto até que não me lembre mais do que você fez. E, principalmente, vou deixar que você se vá para longe e para sempre. Meu coração não retém hóspedes inoportunos e nem cultiva lembranças desnecessárias.

Meu coração é lugar de bons amigos, familiares amados e amor retribuído. É casa simples, caiada de branco, ensolarada e acolhedora; uma casa que só abriga quem a ela trouxer nada menos que gratidão.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Das Coisas simples



Sabe, eu gosto de coisa simples. Gosto daquelas partes da vida em que tudo anda meio descomplicado, quando a gente olha e sabe bem o que vê. Tenho apreço por casa arrumadinha e aconchegante, mas que também te dá vontade de ficar à vontade. Gosto de poesia que fala com a gente, como quem conversa ao final da tarde, tendo o pôr do sol à frente.

Descobri que gosto de textos simples, daqueles que me fazem sentir exatamente o que se quis dizer. Gosto de sorrir ao ler. E se for pra chorar, tudo bem também. O que me deixa feliz é ler a verdade em cada parágrafo. Gosto de escrita que faz carinho na alma da gente. E creia-me, minha alma aprecia um bom cafuné.

Sabe, gosto de gente descomplicada, do tipo que não cobra aquilo que não pode ser entregue. Gosto de gente tranquila, verdadeira, cuja companhia é nada menos que um presente. Amo sorrisos francos, abraços apertados, olhos nos olhos e risada solta.

Andar de mãos dadas, picolé de limão, por do sol, música leve, cheiro de filho, filme com pipoca (e cobertas), lembrança boa no meio da tarde: tudo tão simples e tão bom.

Tenho medo do que andam fazendo por aí, transformando a vida num amontoado de coisas que se precisa ter e ser. Tremo diante das metas que me estabeleceram sabe-se lá onde, porque a maioria delas não me inspira a menor felicidade. Dizem que preciso ser magra, forte, bem-resolvida, sarada, inteligente, pós-graduada, bem-sucedida, bem-amada e bem-nascida. Dizem que preciso sorrir o tempo todo e que se não for assim, talvez eu precise mesmo de um antidepressivo.  Estão tentando me convencer de que, ai de mim, preciso receber declarações de amor publicadas no youtube, ou não vou saber bem o que é ser amada de verdade.

Pois eu digo que pouco me importa o que andam dizendo por aí. Sinto muito mais alegria num dia comum, que em lindos rompantes dourados. Confio mais no que é estável, no que se solidifica. Amo a doçura do cotidiano e das pequenas gentilezas; o sonho que se compartilha, a doação gratuita, a sensação de pertencer que só se encontra quando se pertence de verdade.

Sabe, amo a vida assim, sem tantos penduricalhos. Amo saber que sinto o que está ali para ser sentido, que aprecio o momento que tenho para apreciar. Gosto demais de viver de verdade. Tenho um gosto por demais refinado; um crivo fino, pelo qual só passa aquilo que for suficientemente simples.

Beijinhos
Fê Coelho




terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Terceira Carta ao Senhor Futuro



Vi você ontem à noite, senhor Futuro, rapidamente. Foi quase uma fração de segundo, mas vi você, zombeteiro, parado num canto do quarto, observando-me derreter de amor enquanto mirava uma foto em preto e branco - artifício do Instagram.

Talvez você nem tenha percebido, mas vi brincar em seu sorriso enviesado a ironia de quem já viu algo se repetir infinitas vezes. Um bebê. Meu sobrinho. Eu olhando a foto e me desmanchando em ternura; pensando em quão mágico é ver a continuidade, o renovar da vida.

Você sorriu. Segurou a aba de seu chapéu, acenando com a cabeça um cumprimento que só vi pelo canto do olho, para logo em seguida desaparecer. Comigo, ficaram apenas o senhor Passado e dona Esperança - visitas sempre mais demoradas.

O senhor Passado gosta de contar anedotas. Sentou-se aos pés da cama e falou-me de quando eu, ainda criança, observava os adultos olhando fotos. Recordou-me o quão divertido era vê-los rir de suas fotos, cabelos e roupas que ninguém mais usava. O Passado estava sorridente; bem-humorado, até. Falou-me de lembranças douradas e quentinhas como colo de mãe. Explicou-me que também ele já havia sido futuro um dia. E disse-me que não me importasse tanto com o que há de vir. "Tudo vem a seu tempo, afinal" - disse, estalou a língua, ajeitou seu casaco e se foi.

Em seu lugar, ficou dona Esperança - linda em seu vestido verde, bordado de sonhos. Fizemos inferências e planos reluzentes. Falamos de possibilidades e de como imaginamos os dias vindouros. Revimos fotos, sorrimos e chegamos à conclusão de que Raul Seixas estava certo ao dizer que tudo acaba onde começou.

Sei que você sorriu ao me ver, senhor Futuro. Sei que em seu sorriso dançavam mil segredos. Não te peço que me revele nada, ou que se adiante. Tome o seu tempo. Esteja à vontade. Peço, todavia, que cada pedaço seu que se for tornando passado, deixe comigo uma memória bonita para aquecer o coração.

Seja leve, senhor Futuro. Seja suave e alegre. Venha risonho e cheio dos atributos com os quais dona Esperança lhe pintou.

A gente se encontra - numa tarde ao sol ou numa noite qualquer; numa música, numa risada ou numa foto. Fato é que de vez em quando a gente acaba se encontrando.

Até lá, receba um beijo cheio de ternura.

Fê Coelho.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Das Negativas



Estive aqui pensando sobre os revezes com os quais muitas vezes somos brindados pela vida. Estive aqui refletindo sobre quantos trancos uma pessoa tem que aguentar nessa sucessão de dias, fatos e saberes que é a existência de cada um. E matutei sobre as coisas que recebi de amigos e parentes. E acabei me detendo nos presentes que ganhei dos meus pais até hoje. A conclusão a que cheguei foi de que o maior de todos os tesouros que já recebi foi o Não.

O não, bem aplicado, me mostrou que existe uma coisa chamada limite. Fez-me compreender que posso ir até certo ponto com as pessoas; mas dali em diante, não! Entendi que é assim mesmo. Todos possuem um limite claro, ou pelo menos deveriam. A negativa mostra que não podemos tudo, não sabemos tudo, e não, não somos os melhores em tudo. O advérbio de negação ensina. Ah! Como ensina.

Quando criança eu sempre soube que não tinha exatamente os mesmos brinquedos que as outras crianças, pelo simples fato de alguns deles estarem fora do nosso poder de compra. Meus pais nunca tentaram nos dar coisas que não podiam e nos comunicavam claramente os motivos. Isso trouxe algumas consequências terríveis: aprendi a ser honesta no que digo; entendi que não posso ter tudo quanto queira; tornei-me feliz pelo que tenho, deixando o que não está em minhas mãos para lá. Horrível, eu sei.

Além disso, o não dos meus pais me deu forças para enfrentar as negativas da vida. Chamam isso de resiliência - que no bom português, é a capacidade de aguentar trancos, de voltar ao estado inicial depois de algum impacto. E não se engane, a vida nega. E como nega! Seu aumento não sai. O carro que você quer comprar só pode ser entregue na semana que vem. Você é reprovado em algum concurso por uma questão. O vestido lindo só está disponível num tamanho dois números menor. A fila demora. O dinheiro acaba. Algum amigo se afasta. A pessoa por quem você suspira simplesmente não te ama. Ou não te ama mais. Ou trai a sua confiança. Ou todas as coisas juntas. E não, você não vai poder gritar com o gerente, nem bater na velhinha que leva um ano pra atravessar a faixa de pedestre quando você está atrasado. Você não vai poder sair da sala do chefe batendo a porta, nem quebrar o braço da mocinha na balada porque ela não quis te beijar.

O não, aplicado na infância, é como vacina. Ele nos deixa mais fortes e resistentes às frustrações. E aplicado na vida adulta ele nos permite crescer. Vacina dói. O não também. Mas existem dores que se vão indo tão de mansinho para longe, que você só percebe que elas se foram quando já nem se lembra mais de procurá-las. E o que sobra é aprendizado.  

Não é pessoal. A maioria das vezes é só o vento soprando do jeito errado. Ou o tempo do outro que está reduzido. Ou o dinheiro. Ou os motivos. Ou a vontade. Ou quem sabe seja mesmo pessoal. Mas quem disse que podemos agradar sempre? Esse é só mais um não que a vida nos empresta, para nos lembrarmos que não somos o centro do universo. 

Por fim, preciso dizer o mais importante: o não me ensinou o valor do sim. E é a ele que me agarro todos os dias. Sim, o dia está lindo. Sim, tenho mil motivos para sorrir. Sim, tenho amigos leais. Sim, estou viva, forte e cheia de possibilidades de construir uma vida repleta de cor e luz. Sim, posso agregar tanto amor quanto queira. Porque sou responsável pelas escolhas que faço.

Acolho o não como professor. Recebo as negativas da vida como lição.

E a maior de todas as lições é que não preciso ser correnteza brava, que destrói as pedras pelas quais passa. Posso ser regato manso, que contorna os obstáculos e simplesmente vai. Pra frente, pra longe. E se perde da vista da gente, nalgum ponto alaranjado de ocaso.

Beijinhos
Fê Coelho.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Da Finitude



Há muito, leitor, tenho contigo uma dívida de sinceridade. Várias vezes expus tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar. Algumas delas, todavia, permaneceram inconfessas. Tenho essa característica, que para um escritor pode se tornar um defeito: tenho ciúmes de certos pensamentos. Alguns deles são tão meus, tão profundamente meus, que sinto pesar em dividi-los. Ocorre que algumas vezes o copo transborda e não há maneira de sossegar as ideias, a menos que alguns pensamentos sejam compartilhados. Pois bem, falemos sobre o fim.

Nunca fui pessoa de escrever sobre relacionamentos. O maior motivo para isso é que não se consegue nunca um distanciamento ideal - nem de assunto, nem de fatos, nem de tempo ou de encarnação. Ainda assim, creio que já possa dizer uma ou duas coisas com propriedade. Talvez isso alimente em mim a sensação de estar me tornando uma escritora mais honesta. Falemos, leitor querido, da finitude.

Então acabou. Tudo o que deveria silenciar é dito e, ironicamente, aquilo que não se quer ouvir são as únicas palavras disponíveis. As verdades e mentiras piedosas se penduram no silêncio, como um móbile a entreter um interlocutor meio pasmo. Os clichês vão chegando em fila indiana e nada mais faz sentido, porque é oficialmente o fim.

Você pode escolher vários caminhos: tomar seis (ou seriam sete?) latas de cerveja em sequência, ligar para todas as amigas (disponíveis ou não) e chorar até virar do avesso. Como queira. O fim é seu e você faz dele o que bem entender, certo? Até certo ponto, sim.

Acontece que a vida bate à nossa porta. Ela sempre bate. Os dias continuam sua interminável sequência de amanhecer e anoitecer. O cotidiano exige. E lá se vai você, não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido. A vida acontece apesar de nós, de tudo o que sentimos, desejamos ou lamentamos. A vida simplesmente é.

Pode-se resistir, deitar-se e chorar por colo e mingau de aveia? Ora, sim. Mas não recomendo. Reter a tristeza traz amargor. Tanto quanto fingir que ela não existe.

Depois do fim, iniciamos um processo de nos encolhermos para ser novamente apenas um, ou de nos expandirmos para valer por dois. E embora saiba que todos os dois processos são doloridos, posso dizer que tenho preferência pelo segundo, pois sinto que crescer e enfrentar seja algo mais bonito que se encolher até que os problemas deixem de perceber sua existência.

Então você reavalia, repensa, refaz. Você inventa uma maneira de preencher vazios e de substituir coisas que eram tão suas. Porque, de repente, não há mais aquelas tardes de domingo, nem o estar deitado no sofá da sala por não se ter outra ideia melhor. De uma hora para outra, os planos se desfazem e faz-se mister reinventar uma rotina que tinha se adaptado para agregar.

Então o fim chega e você sabe que, de alguma forma, algo seu se foi com outra pessoa. E percebe que se importa com o tratamento que será dispensado a esse pedaço seu. Depois do fim, pode ser que sobre um desejo contido de que aquele pedaço seu que se foi ainda seja capaz de produzir algum encanto. Por outro lado, o fim, quando apresentado repetidas vezes, pode nos ensinar que tudo o que o outro leva de você é um alívio enorme. Cruel, talvez. Mas que atire a primeira caixinha de lenços quem nunca se sentiu assim.

Fico imaginando do que, afinal, sentimos falta quando o fim acontece.

Como num filme realmente bom, daqueles que nos fazem lamentar os créditos, o término nos tira de um estado de contentamento. Momentos bons são recolhidos e a sensação (tenhamos cinco ou cento e cinco anos) é de que foi tudo prematuro. A vida se estica e encolhe; você sofre, chora, sorri e se refaz. Então percebe que a saudade maior é a que você sente de você mesmo; da versão de você que tinha o contato com o outro. A saudade é da felicidade que chegava junto com os olhos nos olhos, com o beijo na mão, com o abraço apertado e com o beijo que só ocorreu porque você não encontrou motivo para recusá-lo. A saudade é da sensação de benquerência; da ilusão de ser o primeiro pensamento de alguém. O pesar é pelo que não volta.

Mas a vida é essa. A finitude permeia tudo quanto nosso coração alcança, nos lembrando da característica quimérica dos nossos dias. A finitude é certa. Tudo mais é lucro e sorte. Tudo mais são apenas tentativas.

Quem disse que seriam apenas flores? Bem que uma grande amiga uma vez me disse: "o coração do outro é terra que ninguém pisa".

Beijinhos
Fê Coelho


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...