sábado, 28 de dezembro de 2013

Da Finitude



Há muito, leitor, tenho contigo uma dívida de sinceridade. Várias vezes expus tantas verdades quantas meus dedos puderam digitar. Algumas delas, todavia, permaneceram inconfessas. Tenho essa característica, que para um escritor pode se tornar um defeito: tenho ciúmes de certos pensamentos. Alguns deles são tão meus, tão profundamente meus, que sinto pesar em dividi-los. Ocorre que algumas vezes o copo transborda e não há maneira de sossegar as ideias, a menos que alguns pensamentos sejam compartilhados. Pois bem, falemos sobre o fim.

Nunca fui pessoa de escrever sobre relacionamentos. O maior motivo para isso é que não se consegue nunca um distanciamento ideal - nem de assunto, nem de fatos, nem de tempo ou de encarnação. Ainda assim, creio que já possa dizer uma ou duas coisas com propriedade. Talvez isso alimente em mim a sensação de estar me tornando uma escritora mais honesta. Falemos, leitor querido, da finitude.

Então acabou. Tudo o que deveria silenciar é dito e, ironicamente, aquilo que não se quer ouvir são as únicas palavras disponíveis. As verdades e mentiras piedosas se penduram no silêncio, como um móbile a entreter um interlocutor meio pasmo. Os clichês vão chegando em fila indiana e nada mais faz sentido, porque é oficialmente o fim.

Você pode escolher vários caminhos: tomar seis (ou seriam sete?) latas de cerveja em sequência, ligar para todas as amigas (disponíveis ou não) e chorar até virar do avesso. Como queira. O fim é seu e você faz dele o que bem entender, certo? Até certo ponto, sim.

Acontece que a vida bate à nossa porta. Ela sempre bate. Os dias continuam sua interminável sequência de amanhecer e anoitecer. O cotidiano exige. E lá se vai você, não importa em quantos pedaços seu coração tenha se partido. A vida acontece apesar de nós, de tudo o que sentimos, desejamos ou lamentamos. A vida simplesmente é.

Pode-se resistir, deitar-se e chorar por colo e mingau de aveia? Ora, sim. Mas não recomendo. Reter a tristeza traz amargor. Tanto quanto fingir que ela não existe.

Depois do fim, iniciamos um processo de nos encolhermos para ser novamente apenas um, ou de nos expandirmos para valer por dois. E embora saiba que todos os dois processos são doloridos, posso dizer que tenho preferência pelo segundo, pois sinto que crescer e enfrentar seja algo mais bonito que se encolher até que os problemas deixem de perceber sua existência.

Então você reavalia, repensa, refaz. Você inventa uma maneira de preencher vazios e de substituir coisas que eram tão suas. Porque, de repente, não há mais aquelas tardes de domingo, nem o estar deitado no sofá da sala por não se ter outra ideia melhor. De uma hora para outra, os planos se desfazem e faz-se mister reinventar uma rotina que tinha se adaptado para agregar.

Então o fim chega e você sabe que, de alguma forma, algo seu se foi com outra pessoa. E percebe que se importa com o tratamento que será dispensado a esse pedaço seu. Depois do fim, pode ser que sobre um desejo contido de que aquele pedaço seu que se foi ainda seja capaz de produzir algum encanto. Por outro lado, o fim, quando apresentado repetidas vezes, pode nos ensinar que tudo o que o outro leva de você é um alívio enorme. Cruel, talvez. Mas que atire a primeira caixinha de lenços quem nunca se sentiu assim.

Fico imaginando do que, afinal, sentimos falta quando o fim acontece.

Como num filme realmente bom, daqueles que nos fazem lamentar os créditos, o término nos tira de um estado de contentamento. Momentos bons são recolhidos e a sensação (tenhamos cinco ou cento e cinco anos) é de que foi tudo prematuro. A vida se estica e encolhe; você sofre, chora, sorri e se refaz. Então percebe que a saudade maior é a que você sente de você mesmo; da versão de você que tinha o contato com o outro. A saudade é da felicidade que chegava junto com os olhos nos olhos, com o beijo na mão, com o abraço apertado e com o beijo que só ocorreu porque você não encontrou motivo para recusá-lo. A saudade é da sensação de benquerência; da ilusão de ser o primeiro pensamento de alguém. O pesar é pelo que não volta.

Mas a vida é essa. A finitude permeia tudo quanto nosso coração alcança, nos lembrando da característica quimérica dos nossos dias. A finitude é certa. Tudo mais é lucro e sorte. Tudo mais são apenas tentativas.

Quem disse que seriam apenas flores? Bem que uma grande amiga uma vez me disse: "o coração do outro é terra que ninguém pisa".

Beijinhos
Fê Coelho


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Véspera - uma crônica sobre novos sonhos



A meio passo de realizar um sonho cultivado por anos, com empenho e olhos brilhantes, me pergunto: e agora, José? Sei que parece estranho; que a realização dos sonhos deveria ser uma espécie de guia nessa sequência de abrir e fechar de olhos que é a vida. Sei de todas essas coisas. Todavia, hoje, às vésperas de ver o fruto do meu trabalho, me questiono. E agora?

Véspera sempre foi uma palavra que me intrigou, desde criança: a véspera de natal, véspera de provas, véspera do aniversário. Ora, pareceu-me durante muito tempo que a véspera era mais importante que a data esperada em si. E não seria? Afinal de contas, até percorrermos os segundos pelos quais esperamos, tudo o que temos são possibilidades. Ah, leitor, o universo das possibilidades é encantador e amedrontador em medidas iguais. Tudo pode ser: bom ou ruim; realidade ou apenas monstros embaixo da cama. A véspera é aquilo que ainda não é palpável. É uma espécie de fronteira entre o que era sonho e o que se torna realização.

Disseram-me, uma vez, que eu estaria riscando um  item da minha lista, ao realizar um sonho. Acontece que não foi isso o que ocorreu. A possibilidade de conseguir algo há muito tempo esperado se tornou o index para inúmeras outras aspirações. É como se sentir um degrau sob meus pés houvesse me dado a certeza de que ali há uma escada - uma que eu sempre quis conhecer.

E é por isso que eu vou, leitor, mesmo sentindo uma pontinha de medo; mesmo correndo o risco de me decepcionar. Se tem uma coisa que andei aprendendo é que decepção é um risco que assumimos para viver bonito. Não há garantias. Nunca houve. Não há meios para saber até onde vai o caminho de cada um de nós. Porque a vida é assim mesmo, melindrosa, afeita às surpresas.

Traduzindo e citando livremente uma música de que gosto bastante, afirmo que que "não posso dizer onde a jornada vai terminar, mas sei onde ela começa". E ela começa aqui. Nesse ponto que não sei muito bem qual é, mas que sinaliza o início de muito trabalho e de uma busca por uma carreira que - acredito eu - vá se mostrar a mim, um degrau após o outro.

Esta não é apenas a véspera da realização de um sonho, mas do surgimento de tantos outros. E se isso trouxer o risco inerente da decepção, tudo bem. Porque mais importante que o sonho realizado e pronto, entregue prêt à porter, é a construção de cada um deles.

Muito mais bonitos que um sonho que se realiza, são os que nascem a partir daí.

E vamos em frente!
Beijinhos
Fê Coelho


sábado, 23 de novembro de 2013

Mingau de leite - uma crônica sobre a memória do amor.



De todas as coisas simples, uma das mais singelas que conheço é a lembrança do amor que recebemos. Ela pode estar contida em qualquer objeto; pode se esconder em qualquer paisagem e se revelar com qualquer sabor, cheiro ou toque. A verdade é que a lembrança do amor está em tudo o que pudermos experimentar, mesmo que seja uma colherada de mingau.

O leitor não me julgue doida. Ou julgue, como queira. Fato é que hoje, numa colherada de mingau de leite encontrei a lembrança de amor que precisava para acalentar uma noite de sábado, apreciada entre um e outro plantão de doze horas, longe de todas as pessoas que eu queria ter por perto. Mingau poderoso? Não, leitor. Poderosas são as lembranças de uma infância e uma vida repletas de amor.

Mingau de leite me lembra dias e dias na companhia de minha mãe - linda, tão linda quanto meus olhos infantis podiam enxergar - cansada, depois de horas de trabalho e ainda assim, amorosa o suficiente para se esforçar um pouco mais e ir para o fogão fazer mingau para os filhotes. E me lembra de dias de chuva, quando eu e meus irmãos pouco tínhamos para fazer, exceto jogar baralho com nossos pais e brigar por coisas vãs. Sabores simples, de uma vida simples e saborosa.

A memória do amor que recebemos é alimento para o amor que entregamos. É lembrete que o coração deve ler todos os dias, antes de pensar em fechar as portas. É o próprio amor, assumindo o lugar de professor e nos ensinando a amar. A memória do amor é remédio contra o amargor; é amortecedor para a dureza da vida. É aquilo que confere valor genuíno a uma lembrança que, sem esse sentimento, seria apenas legalzinha.

O amor que recebi é tão bonito, tão leve e tão simples, que consigo encontrá-lo até numa colher de mingau fumegante. Só posso concluir que o amor não seja algo assim tão complicado, afinal.

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre o que nos guia



A estrada costuma se apresentar a mim como um bom lugar para pensar. Talvez por estar sempre sozinha, talvez porque a vastidão do horizonte me faça refletir. Ontem, entre uma curva e outra, atenta à sinalização horizontal, praticamente perseguindo uma faixa branca contínua, um pensamento se apresentou: no final das contas, todos temos uma linha que nos guia vida afora.

Muitas vezes, esse guia é um objetivo, um plano bem traçado, ou uma ideia insistente. Noutros casos, o que nos serve de referência é a religiosidade. E há quem se paute apenas por princípios. Fato é que algo se presta a nos orientar o caminho, as curvas e as escolhas.

Entendo que amiúde queiramos nos referir à vida como algo caótico, sem sentido, solto no espaço e no tempo. Algumas pessoas podem, inclusive acreditar que vivem, de fato, à deriva. Todavia, essa escolha de não se guiar por nada já é traçar um referencial sobre o qual serão vividas as horas e meses.

Estrada sem orientação é ambiente propício para acidentes. Nau sem farol é propícia à deriva. E pessoa que não reconhece aquilo que a impulsiona não sabe muito bem para onde ir.

Não que precisemos olhar a faixa branca o tempo todo.  A estrada só pode ser aproveitada por olhos que consigam captar tudo quanto ela oferece. A vida é mais bonita quando nos prestamos a vivê-la em sua plenitude. Mas vez ou outra, numa curva perigosa, num momento de decisão, é bom nos atentarmos para aquilo que nos guia. Manter os olhos fixos no que nos orienta é uma boa forma de seguir o caminho para onde deixamos nossos sonhos.

E que venham as curvas, os morros e as longas faixas brancas. Pois a vida é presente. E presente a gente aproveita!

Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Tão Simples



Desconfio que a felicidade seja uma senhora esperta e sábia, que não se permite rotular. Imagino que seja figura feminina, melindrosa, leve e sutil; simples, mas tão simples, que podemos passar por ela muitas vezes e pensar que não, aquela definitivamente não pode ser a Felicidade. Acredito que caminhe com pés descalços por aí, apenas aproveitando o caminho. Ela não se prende ao relógio, nem ao calendário. Creio que ela simplesmente esteja, sem a necessidade de algo além disso.

Muitas vezes já argumentei que prestamos um péssimo favor a nós mesmos quando transformamos a felicidade Na Felicidade, assim, com letra maiúscula e fogos de artifício. Tornamo-nos reféns de cenas idealizadas, com trilha sonora e luz bem posicionada. Com isso, abrimos mão de perceber a doçura que se esconde nos pequenos contentamentos, nos instantes - esses pequenos pedaços de que é feita a nossa vida. Passamos a nos importar tanto com o fato de conseguirmos um quadro perfeito, que infinitas vezes perdemos a capacidade de apreciar a beleza das tintas na tela. 

E nesse afã de encontrar a tal Felicidade - pura, límpida e com selo de qualidade - deixamos passar por nós as oportunidades de sermos realmente felizes. Sabe, leitor, o mar não trabalha em câmera lenta e nem sempre parece o Caribe. Mas ainda está lá. A areia ainda está sob os pés das pessoas; o barulho das ondas e a maresia persistem. A vida não é videoclipe, mas isso não a torna menos bela - apenas faz dela algo real e possível. Da mesma forma os relacionamentos são apenas relacionamentos. São o encontro de duas pessoas que podem ou não se entenderem bem. Por mais bonita que seja a história, idealizá-la seria tirar-lhe a autenticidade, aquilo que faz dela algo único e, por isso mesmo, tão bonito.

Tentar transformar a vida numa comédia romântica ou num comercial de margarina é injusto. Esperar que a felicidade venha polida, cintilante e musical é tão tolo quanto esse hábito de exagerar nos editores de imagens em fotos de mulheres lindas. É reconhecer que o que se tem, embora lindo, nunca será o suficiente. 

Talvez o grande barato seja aproveitar a beleza do céu num dia de nuvens que se desmancham como chumaços de algodão; ou o cheiro do café coando, ou a gargalhada de alguém que a gente ama. Quem sabe a felicidade se aninhe no calor de um abraço apertado; quem sabe se esparrame pelo verde dos morros que a gente vê durante uma viagem. Pode ser que a Dona Felicidade tenha esse hábito das doses homeopáticas. Ou quem sabe ela não faça nada e apenas nos observe enquanto somos felizes.

Desconfio que a felicidade seja uma mulher esperta; simples, tão simples e silenciosa que nem sempre percebemos sua presença. Mas basta olhar atentamente, que ela está lá. De alguma forma, ela sempre está.

Beijinhos
Fê Coelho.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ter, escrever, plantar e mais. Bem mais. - Uma crônica sobre amizade.



As pessoas dizem por aí que todos deveriam, antes de morrer, ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Na condição de quem já realizou todas essas coisas, posso acrescentar um item? Todas as pessoas deveriam cultivar um grande amigo. Pode ser que eu não me tenha feito compreender. Veja bem: não estou falando dessas amizades amarelo-bebê. Refiro-me a uma amizade daquelas ímpares, que não se encontram em qualquer lugar.

Toda pessoa deveria experimentar ter um amigo que diga exatamente a verdade, porque se importa realmente com os efeitos do que for dito. E deveria também ter alguém com quem seja possível ser absolutamente sincero. A comunicação limpa é um presente muito maior do que se possa imaginar. É prova de consideração, respeito e cuidado. Ser honesto é mais do que simplesmente dizer verdades piedosas: é falar aquilo que pode não agradar, mas que certamente fará crescer. Pessoas assim, autênticas, são raras e devem ser cultivadas.

Todos nós deveríamos ter a chance de saber o que é estar longe de alguém durante muito tempo e, no reencontro, sentir que é como se não houvesse passado quinze minutos. Numa época de tantas mudanças, de tantos aplicativos e atualizações, a estabilidade é uma benesse. Faz diferença ter alguém que nos conheça a fundo, que nos ame e para quem possamos entregar amor. Faz bem ao coração saber que existe alguém nesse mundão velho sem porteira que combina com você - não importa a imagem que o espelho mostre.

Todo mundo merece uma pessoa com quem possa rir até a barriga doer e chorar até quase virar do avesso. Grandes amizades não se fazem com conveniências. Elas transitam pelos extremos, pelo desvario e voltam ao centro, para onde há calma e concórdia; onde amadurecem e se transformam em dias, meses e décadas.

E não se engane: um grande amigo não lhe tira coisas. Ele não lhe tira a paz, a confiança ou a auto-estima. Um grande amigo não lhe tira relacionamentos, ou chances. Ele agrega. Um grande amigo permeia a vida de uma pessoa de forma tão sublime que dificilmente a explicamos. O que quero dizer é que em termos práticos, o que se observa é que amizades verdadeiras não excluem pessoas ou impedem o crescimento. Elas, ao contrário, vão se moldando e se transformando com os movimentos da vida - movimentos esses que são feitos juntos. Porque muito mais que apoiar nos fracassos, um amigo de verdade comemora e convive com as vitórias do outro.

Nem todos plantaram árvores, tiveram filhos ou escreveram livros. Assim como não posso afirmar que todos tenham experimentado essa forma de ser amigo. O que sei - e talvez o leitor concorde comigo - é que amizades assim são um tesouro grande demais para se passar a vida sem conhecer.

Na esperança de que todos encontrem e cuidem bem do seu tesouro, me despeço.
Beijinhos,
Fê Coelho.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ser ou estar?



Hoje me ocorreu algo que ainda não havia percebido: o quanto discordo da clássica pergunta "o que você vai ser quando crescer". Eu mesma já me fiz essa pergunta em outras ocasiões, quando pensava - em vão - que havia crescido o suficiente para respondê-la. Dirigindo para casa hoje, enquanto olhava as curvas da estrada e os montes muito à minha frente, compreendi que crescer é muito mais um processo do que uma finalidade.

Não concordo com esse hábito que temos de classificar o crescimento como um ponto fixo a ser alcançado, como um trono onde se assenta e reina para sempre. Crescemos toda vez que fazemos uma escolha, mas principalmente quando lidamos com os resultados dela advindos. Crescemos quando aprendemos a valorizar as pessoas que vivem ao nosso redor e quando compreendemos que amar é mais que apenas estar ao lado. E quem dirá que não crescemos quando as lágrimas percorrem seu curso? Muitas vezes o sofrimento é professor mais eficaz que a bonança.

Com tudo o que vejo, cresço um pouco mais - em memórias, em conhecimento, em ideias e num tesouro que é só meu. Cada abraço que recebo ou distribuo me torna maior em afeto; a cada sorriso, cresço em contentamento. Cada nova pessoa que passa a compartilhar de meus dias acrescenta vida a eles. Cada música que ouço me faz crescer em emoções. Toda risada me faz ser maior. Toda vez que me doo, cresço. E a cada perrengue que enfrento, cresço em possibilidades de resistir.

Crescer, às vezes, dói. Incomoda. Assusta. Sempre foi assim - vide o primeiro dia de aula, o primeiro emprego, o primeiro beijo e outras tantas estreias. Enfrentar aquilo com que não ousamos sonhar é uma das formas mais bonitas de crescer e uma das mais difíceis. Aceitar que não estamos prontos requer humildade para nos reconhecermos pequenos. E talvez nisso resida a verdadeira grandeza.

Pode ser que eu esteja errada, como tantas vezes já estive. Quem sabe, essas ideias de hoje sejam apenas um sopro, um vislumbre de algo maior - que eu, em minha pequenez, ainda não consigo compreender. Perdoe-me o leitor, se me perceber no engano. Todavia, tenho cá comigo, hoje, a impressão de que não importa tanto assim o que queremos ser quando crescermos; interessa, sim, saber como queremos estar, enquanto crescemos.

Beijinhos
Fê Coelho.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Mundo Miúdo




De todas as lentes que já usei para ver o mundo, a mais bacana é - de longe - aquela que as crianças usam. Não apenas pela vivacidade das cores e pelo encanto da descoberta, mas principalmente porque o mundo visto por olhos infantis é muito mais leve. E foi essa, uma das coisas que me fizeram querer escrever para elas.

Quando escolhemos para quem serão destinados os mundos e personagens que criamos, não estamos selecionando público; estamos, antes, nos pondo a serviço de algumas pessoas e nos dispondo a entregar-lhes algo com que se entreter e se encantar. Um escritor tem a obrigação de oferecer o seu melhor aos leitores e isso passa por enxergar o mundo sob o ponto de vista do outro.

Pensar como as crianças é difícil para nós, adultos, especialmente porque passamos a vida sendo treinados para abandonar esse costume. O mundo - preparado para ser sério, eficaz e efetivo - nos tira pouco a pouco a capacidade de sermos descomplicados. Mergulhamos devagarzinho, quase sem sentir, no mundo das nuances, dos meios tons e das meias verdades. E vamos nos distanciando de velhos hábitos como gostar por inteiro, aceitar ajuda e reconhecer nossos medos, entre tantos outros.

Acontece que para escrever para crianças, é necessário fazer essa viagem magnífica para onde tudo é possível: bichos podem falar, canetas esferográficas fazem greve e o céu chora. Empreender essa cruzada é encontrar-se com o que abandonamos ou esquecemos; é revisitar antigos conceitos e repensar os novos. Quando mudamos a lente com que enxergamos a realidade, ela se transforma. Somos apresentados a infinitas possibilidades que podem, inclusive, ser mais atraentes.

Crianças podem ver os fatos por seu melhor lado. A elas é permitido fazer tentativas sem necessariamente se cobrar um desempenho previamente estipulado. Para os pequenos, tudo é descoberta e novidade; a diversão pode estar escondida em coisas grandes como viagens para a praia e pequenas como papel picado. O universo miúdo é a terra das possibilidades, das palavras simples e da clareza de ideias. Deve ser por isso que minha filha me pede para fazer oração de criança

Visto de baixo pra cima, o mundo pode ser meio assustador, com seus casacões pesados, passos largos apressados e bigodes torcidos; pode ser esquisito com assuntos cheios de números indecifráveis, responsabilidades e conveniências. De minha parte, penso que na maioria das vezes esse ponto de vista é adorável. Porque olhando para cima é que enxergamos o céu.

Beijinhos,
Fê Coelho.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre intenções, barcos de papel e o tempo.



Não foi sem querer que me atrevi a sonhar. Nem foi por acaso que resolvi me tornar uma pessoa com quem gosto de conviver. Não foi sem perceber que minha imagem no espelho foi se adequando aos meus gostos. Nem foi sem sentir que fiz dos meus dias algo que me orgulhe de relembrar. Estive pensando a esse respeito esta tarde; e a conclusão a que cheguei é que se há algo em nossa vida que faz a diferença, é a intencionalidade.

As pessoas - e aqui me incluo - podem ser muito injustas com o tempo, colocando sobre ele uma responsabilidade além da que lhe compete. Dizem que o tempo cura, que apaga, promove ou degrada. Dizem que o tempo é o senhor de todas as coisas. Hoje eu desconfio que ele simplesmente passa. Nós é que agimos, enquanto ele se vai.

O tempo é correnteza que não se deixa deter, que não se permite represar. É um regato, onde nós depositamos barquinhos de papel que lá se vão para o futuro: um sonho, um fato, uma oportunidade, afetos, expectativas. Ele carrega, mas não faz nenhum dos barcos. Tudo o que jogamos em seu leito precisou, primeiro, ser criado por nós - seja por nossas escolhas, ou pela falta delas. É a tal da intencionalidade.

Creio que viver de propósito seja um dos maiores presentes que podemos nos dar. E falo de coisas pequenas, como enxergar o ambiente à sua volta, sentir o cheiro das coisas, fazer escolhas conscientes, ouvir as pessoas atentamente, fazer o seu melhor no trabalho, apreciar o sabor dos alimentos e - por que não -  sonhar de verdade. Ora, se vamos mesmo encher os dias de barcos de papel, por que não fazê-lo com aqueles que escolhemos usar? Por que não colorir a correnteza do tempo com as nuances que nos aprazem?

Não podemos controlar tudo. Seria infantil esperar que pudéssemos. Todavia, há um ou outro ponto da vida que estão, sim, disponíveis para escolhermos. E são esses, os que fazem a diferença entre as pessoas que estão vivendo e as que apenas existem . A cada vez que nos voluntariamos para assumirmos a responsabilidade por nossas próprias escolhas, uma frota de dias selecionados a dedo é colocada nessa correnteza que passa apesar de nós.

Não importa de quantos barquinhos seja feita a nossa história. O que interessa é quantos deles foram realmente dobrados por nós. E se há uma falha da qual a consciência nunca deveria ter a oportunidade de nos acusar, que seja a de ter vivido sem querer.

Beijinhos
Fê Coelho

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sobre pódios e emoções

Nunca sei muito bem como me dirigir a você aí do outro lado da tela. Fico do lado de cá pensando em como você gostaria de ser chamado. Por não saber a melhor maneira de resolver o impasse, vou chamá-los de amigos.
Estamos de parceria nova. Weeeeeee!
Mensalmente, vou postar um texto novo com uma pegada mais esportiva no blog do amigo Guigo Lopes. O site tem um conteúdo muito jóia e vale a pena a visita. O texto de estreia é o que segue abaixo e que pode ser encontrado nesse link aqui.
Espero que apreciem a novidade. 
Grande abraço,
Fê Coelho. 



Sobe a bandeira, começa o hino nacional. Os olhos dos atletas vão acompanhando, marejados. A música segue, os olhos também. Anos de treino todos ali, pendurados na voz da torcida. O pódio é o resumo de tudo aquilo que foi e não foi. E eu do lado de cá da televisão, torcendo para que ninguém fale comigo. Não é por mal, nem por nada. Não é por falta de espírito esportivo. Na verdade, ocorre o extremo oposto.

O que acontece é que me emociono toda vez que vejo a vitória de alguém, especialmente se os louros vierem em verde e amarelo. É um momento tão bonito e sublime que, eu invariavelmente acabo com a voz estrangulada, tentando segurar o choro - que toda vez me parece meio bobo - embora eu não consiga evitar. Ora, se não conheço aquelas pessoas, se não chutei uma só pedra do caminho que elas percorreram, se minha vivência no mundo esportivo se limita a alguns pequenos trotes, o que me faz ficar emocionada? Eu explico.

Uma das coisas que me emocionam no esporte é a capacidade que ele tem para transformar realidades desoladoras. A possibilidade de resgatar a dignidade, de formar o caráter, de ajudar a fazer escolhas, tudo isso é nobre. Outro ponto que me encanta é a necessidade de superação. Não que a própria vida não nos exija isso. Todos os dias, precisamos superar algum tipo de obstáculo, se quisermos ser melhores. No pódio, entretanto, isso se torna muito evidente. E mais coisas estão embutidas em minhas lágrimas mal-escondidas: a admiração pela força, pela persistência e disciplina; o encanto de ver um sonho realizado; o conhecimento de que todo grande feito é resultado de vida investida.

Acho que talvez as grandes vitórias dos atletas reflitam nossas realizações do dia a dia.  Quem sabe o grande ponto seja a superação; fazer aquilo de que não nos julgávamos capazes. Todos nós, cada um com seus obstáculos, vivemos de conquistar. Ultrapassamos concorrentes, aguentamos firme quando ameaçamos jogar a toalha, acertamos a mira para objetivos mais precisos, corremos mais rápido quando necessário e continuamos, quando pensamos que talvez seja a hora de desistir. No esporte e na vida, acredito que sejam essas as coisas que fazem a diferença.

E é por isso que eu me atrevo a pegar carona na emoção de quem vence: porque de uma forma ou outra estamos todos juntos. Porque grande ou pequeno, todo feito é motivo para comemorar.

Ver um atleta no pódio me recorda que o impossível, às vezes, é uma questão de ponto de vista. Vai dizer que isso não é emocionante?

Beijinhos
Fê Coelho.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sobre Mudanças



Quem disse que mudança é fácil provavelmente nunca sentiu um chacoalhão da vida. Quem afirma que é simples abandonar o status quo, desconfio eu, nunca se viu diante de um legítimo "e agora, José?". Quem jura nunca ter se acovardado ou tremido diante do desconhecido, ou é doido, ou um mentiroso daqueles.

Se tem algo que pode ser considerado a mola do mundo, são as mudanças. E se precisamos mencionar algo que tensione essa mola, citemos o medo. Grandes mudanças geram grandes medos. E grandes temores, quando superados, proporcionam resultados incríveis. Se é fácil? Claro que não. Desconfio que muitos primatas devem ter morrido de fome, sem coragem suficiente para descer das árvores. 

Mudar é difícil, chato, dolorido e incômodo. É uma época em que olhamos para nossa própria vida e tudo se sacode, gira e muda de cor, como se os dias houvessem se transformado num caleidoscópio manuseado por mãos infantis. Ficamos preocupados, confusos, amedrontados e, amiúde, gostaríamos de poder dormir até que o processo acabasse. Quem nunca? Por várias vezes, eu já passei por isso. E se há uma coisa que a experiência tem me mostrado é que, apesar de angustiantes, mudanças costumam trazer consigo muitas benesses. 

Uma delas é a oportunidade de passar o saco de lixo, quer seja nas gavetas, quer nas lembranças, nos velhos hábitos, no que se leva da vida. O que quer que se guarde - material ou não -  pode ser reavaliado durante o processo de mudar. Quero dizer, quando se passa de um ponto a outro, nem tudo precisa vir junto; nem tudo é valioso o suficiente para se carregar. Por outro lado, o que se preserva adquire novo valor, por ter sido revisto e mais uma vez amado. 

Mudar é uma chance de acolher o novo, com coragem e bom ânimo. É olhar para uma nova etapa e poder dar as boas-vindas aos dias que virão. É uma possibilidade de não mais ficar nessa de belém-belém com a vida, mas apertar-lhe a mão, com direito a cusparada, para firmar uma parceria de crescimento e novidades.

Difícil? Muito. Incerto? Quase sempre. Incômodo? Frequentemente. Aí eu pergunto: não fosse a metamorfose, como teríamos borboletas?

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Furdunço, Roupa Branca e Revolta



O clima de manifestações generalizadas está afetando as roupas no meu armário. Não, leitor, você não leu errado. E não, eu não estou me enchendo de roupas verdes e amarelas. Acontece que precisei adquirir algumas roupas brancas novas e a confusão foi feia. Se eu estou pirando de vez? E quem prometeu a você uma autora normal?

Tudo começou quando, após passar as novas roupas de trabalho, fui guardá-las. Abri a porta do guarda-roupa, pendurei as camisas brancas, fechei a porta e saí do quarto. Comecei, então, a ouvir um burburinho crescente, como se um circo de pulgas houvesse resolvido promover uma festa rave no diminuto móvel destinado a acomodar minhas vestimentas. Apurando um pouco melhor a audição, para saber o que acontecia, dei com o seguinte diálogo:

- Chega pra lá! – reclamava uma voz esganiçada.
- Chega você, que eu estou recém-passada! – retrucava outra, mais baixa
- Mas você está me apertando. – era a primeira voz
- Os incomodados que se retirem. – a segunda voz disse, resoluta.
- Branquela aguada, sem graça!
- Sua indiscreta!
- Sou como a primavera, baby. Seu recalque bate nas minhas flores e volta.

Nesse ponto, começou um ruído de coisas se batendo. Várias vozinhas agudas e balançantes gritavam em uníssono “pega ela!”, ao passo que outras mais ponderadas cantavam algo a respeito de não-violência, tolerância, paz, amor e – quase posso jurar – Hakuna Matata. Aproximei-me cautelosamente e abri a porta do guarda-roupa.

- Ok – eu disse, incrédula a respeito do que via – posso saber que furdunço é esse aqui?

Chegaram até mim os olhares mais culpados que se pode imaginar em objetos inanimados. Fez-se um silêncio daqueles que a gente pode partir com uma faca de pão.

- Vamos. Estou esperando. – Eu insisti.
- Foi ela! – disseram em uníssono, uma camisa branca e uma florida.

Decidi conversar com a camisa florida primeiro. Ela é mais antiga de casa; tem prioridade.

- Diga, flor, o que está havendo aqui?
- Agora você me trata assim, com jeitinho, né?! Primeiro arruma esse monte de branquelas, enfia aqui em casa, tira todo o meu espaço e depois finge que não aconteceu nada. Eu sabia que, cedo ou tarde, você ia acabar fazendo isso.

Como a camisa florida continuava furibunda, resolvi tentar a sorte com a novata. Tudo o que consegui foi um rolar de olhos e um assovio.

- Alguém? – Nenhuma resposta – Ninguém?
- Por que você não separa as roupas por cores? – arriscou a camisa florida.

Aí foi demais pra mim. Sentei-me na beira da cama e comecei um sermão.

- Olha, gente, eu sei que estamos passando por um período complicado aqui. São mudanças demais, em tempo de menos. Compreendo que vocês estejam assustados, pensando que seria melhor ficarmos como estávamos, bem acomodados em nossa zona de conforto. Acontece que é assim mesmo que as coisas funcionam. Mudanças causam incômodo, mas são elas que impulsionam a vida. Vocês precisam aceitar que estamos num outro momento e trabalhar para lidar melhor com as diferenças. Aceitem os coleguinhas que chegaram e sejam gentis. Tenho certeza de que belíssimas combinações poderão surgir entre vocês. Quanto à ideia de separar por cores, eu sei que os especialistas recomendam; mas isso seria apartheid. E não vou tolerar saber que dentro do meu próprio armário acontece segregação, bullying e essas coisas. Comportem-se!

E para provar que tenho a firme resolução de manter a paz naquele espaço confinado, deixei todas as peças de castigo, se abraçando até que decida usá-las. Difícil, vai ser encontrar os cabides que fizeram greve e se mudaram para a Conxinxina do Sul.

Quem foi mesmo que te prometeu uma autora normal?

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Legislação



Quando acaba a bateria do celular, é como se parasse um marcapasso. Sou capaz de apostar um dente da frente como, em pelo menos algum momento, essa frase já se encaixou perfeitamente na vida de grande parte da população ocidental. A cada novo G que acrescentam à tecnologia de telecomunicações, a cada aplicativo e funcionalidade sinto que ficamos progressivamente atrelados ao telefone móvel. Não é de se espantar que já haja legislação específica, regulamentando os eventos relacionados ao funcionamento do celular: a Lei de Murphy.

Segundo essa lei, se a bateria estiver cheia, o telefone não será necessário. Ele só passará a ser de vital importância quando a carga for reduzida até por volta de 15% do total. Nesse ponto, meu amigo, você começará a esperar por uma ligação importantíssima; ou quem sabe chegue ao supermercado e esqueça sumariamente o que lhe pediram para comprar. Com 15% de bateria, os pneus dos carros furam, os engarrafamentos acontecem, as pessoas se perdem e as tias que moram em São José das Ribanceiras resolvem ligar - exatamente quando você esperava uma ligação para resolver algo importantíssimo.

Outro ponto estabelecido pela Lei de Murphy a respeito das telecomunicações é que se você estiver com o telefone o tempo todo, o número de ligações que vai receber cai pela metade. Isso explica o fato de as pessoas levarem o celular para a cama, para o trabalho, para o banheiro, para o País das Maravilhas e não receberem ligações; ao passo que, esquecendo-o por um período do dia ou ficando sem bateria, elas são contactadas até por entidades do além.

Com relação às mensagens de texto, a Lei de Murphy postula no artigo 547, parágrafo 2º, inciso I que "para cada mensagem importante esperada, há sempre cinco completamente inúteis destinadas; quatro delas de responsabilidade das operadoras de telefonia móvel". É lei, gente! Exatamente por isso, quando estamos ansiosos para receber uma mensagem, somos bombardeados com dicas para arrasar na balada, oportunidades de ganhar tablets e vejam só! carros zero km, assim, do nada.

O sinal da telefonia móvel também é regulado e está destinado a cair quando você precisar responder a uma mensagem, seja por SMS, whatsapp ou o que for. Se for importante que a resposta chegue ou ainda, se a falta dela puder ser interpretada como um silêncio constrangedor, não haverá sinal disponível num raio de 150 léguas.

Ora, então por que diabos ainda insistimos em usar os telefones celulares? Porque apesar de toda essa regulamentação contrária à nossa vontade, eles ainda funcionam bem. São úteis, versáteis e concentram em si uma gama de funcionalidades que nos libera de carregarmos peso extra. Imaginem como seria carregar conosco agendinhas telefônicas, agendas, câmera fotográfica, GPS, notebook, despertador, bússola, edições e edições da Barsa, álbuns de fotografia, CD player e outras tantas coisas que são espremidas sem dificuldade no pequeno aparelho? Difícil, muito difícil...

É por isso que eu digo: estamos perdidos, leitor! Pusemos todos os recursos num dispositivo só. E valha-me Deus, ele é regulado pela Lei de Murphy. É por isso que quando acaba a bateria do celular, e ela finda nos momentos mais impróprios, a sensação que temos é de que parou um marcapasso. Aproveitemos, então, enquanto o pulso ainda pulsa.

Beijinhos
Fê Coelho

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Lar



Lar é onde a gente descansa o bumbum - disse um dos meus personagens infantis favoritos: o Pumba. Ainda  hoje acredito que ele tenha acertado em parte, visto que lar é onde nossos melhores pensamentos repousam, para onde vamos sempre que podemos e por escolha, sem o peso de estar por força das circunstâncias. Um lar passa bem longe de ser apenas um dormitório.

Não sei por que razão eu insisto em discutir assuntos já consolidados no imaginário coletivo. Talvez porque pense demais, talvez porque saiba de menos. Fato é que andei refletindo e concluí que nosso lar pode não coincidir com o lugar em que moramos, especialmente porque esse termo me parece trazer consigo uma carga emocional. Sinto que não existe um lar sem vínculos. Quero dizer, alojamento, dormitório, casa ou outro desses termos que apenas necessitam de tijolos, argamassa e teto para existir, qualquer lugar pode ser; ao passo que para ser chamado de lar, um lugar precisa ter afeto. É necessário que se fixe raízes, que se esteja emocionalmente ligado ao espaço, ou às pessoas ali.

Caso até bem recentemente me perguntassem se alguém poderia ter um lar e ainda assim não habitá-lo, eu riria e diria que não. Ora, que pergunta mais sem pé nem cabeça! Acontece que hoje eu levanto a bandeira contrária. Não duvide, o leitor, dos melindres do tempo; nem se feche à possibilidade de que os caminhos que estamos destinados a percorrer sejam bem mais inusitados que o previsto. A vida é senhora de hábitos arrevesados. Ela não se curva às definições e, tampouco, aos itinerários que traçamos. Aliás, obrigar-nos ao plano B é algo que sempre lhe apraz. É, portanto, essa inexatidão que me obriga a hoje dizer que sim, o lar e a residência de uma pessoa podem estar em logradouros distintos.

Experimentei essa dualidade recentemente e por um tempo que, devo dizer, me fez crescer além do que eu supunha. Tive minha residência, lugar para comer, dormir, escrever e tecer sonhos; e tive meu lar, onde viviam as duas metades de meu coração e para onde eu fugia às menores pausas. E acontece que ganhei um presente daqueles: a oportunidade ímpar de unir meu lar à minha moradia. Não é maravilhoso?

Ora, não seria esse um processo automático? Para alguns, talvez; mas para mim, será necessário transformar o lar em minha moradia outra vez. Se lar é recanto onde o coração fica confortável como quem usa pantufas num dia frio, casa é onde as roupas deixam as malas, onde o tapete está sempre ao lado da cama, é para onde migram os livros, o conjunto de canecas favoritas, os porta-retratos os hábitos e o cotidiano.

A isso, as pessoas costumam dar o nome de mudança - o que por si só já traz um quê de incômodo. Somos muito aferrados à zona de conforto, o que torna o novo um estopim para o temor. De maneira que, ao invés de dizer que tenho uma mudança para fazer, prefiro acreditar apenas que tenho um lar ao qual me achegar.

Timão e Pumba me permitam um acréscimo: lar é onde a gente descansa o bumbum; mas é também onde aquecemos e repousamos o coração.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Correntes



Meu telefone vibrou. Opa! Mensagem. Fui verificar o que era. Poxa vida, mais uma corrente... Quem nunca passou por isso, que envie as primeiras cópias para quinze pessoas e evite uma desgraça de proporção continental.

Se tem algo que me faz sentir preguiça, essa coisa é a tal da corrente. E é desafeto antigo. Entra ano e sai ano, mudam-se as formas de comunicação e elas permanecem lá, circulando, circulando e azucrinando as ideias da gente. Acho que se um dia as teorias da conspiração se confirmarem e realmente ocorrer uma guerra nuclear, as baratas repassarão correntes umas para as outras. Tudo o que eu me pergunto é "por que, gente? Por que?"

 Meus primeiros contatos com essa forma de azucrinação ocorreram ainda na infância. Naquela época, as correntes viajavam por quilômetros, de carona nas bolsas dos carteiros. Chegavam, não me lembro se com ou sem destinatário, e traziam consigo instruções muito específicas: faça vinte cópias; anexe uma nota de cinco mil cruzeiros; encaminhe para vinte pessoas em até sete dias; não guarde essa cópia; guarde essa cópia dentro da gaveta de meias por cinco luas novas; queime essa cópia da direita para a esquerda, embaixo do chuveiro. Tudo bem, exagerei; mas eu me lembro bem de que havia uma lista de pelo menos sete itens a serem cumpridos.

Junto com as correntes, chegavam promessas de bonança sem fim a quem as repassasse. Zé das Couves enviou a corrente e ganhou na loteria. João Leitão esqueceu de repassar a corrente e foi à falência. Desesperado, enviou cartas ao dobro de pessoas e - vejam só, que maravilha! - achou um poço de petróleo no meio do sertão. Mas o pior das correntes era a parte do agouro. Eu tremia diante da possibilidade de que pudéssemos morrer todos de uma vez só, se não passássemos o azar para o próximo.

Fico aqui imaginando como tudo isso começou. Alguém sabe me responder? Pensando de forma lógica, e supondo que correntes não se materializam do nada, só me resta concluir que alguém nesse mundo separou um tempo para escrever um texto destinado a - como é que eles dizem mesmo? - rodar o mundo todo por anos a fio. O autor devia gargalhar até a barriga doer, pensando em quanta gente ia passar aquela história sem pé nem cabeça para frente. Ah sim. E tem a parte em que eles diziam que a corrente nunca foi quebrada. Engano, companheiro. Chegou em mim, já era!

Nossa Senhora da Correntinha que me perdoe, o Instituto dos Desvalidos também. Que o Whatsapp passe a cobrar uma fortuna; que o Facebook fique preto com bolinha roxa; que todas as contas de e-mail do mundo sejam desativadas; pouco me importa. Não repasso corrente! Não vou dizer que nunca tenha feito isso. Houve um tempo em que eu era um pouco mais crédula, ou mais medrosa, vá saber. Mas sou uma pessoa regenerada, acreditem.

Se minha vida estaria melhor, caso houvesse repassado as correntes do finado MSN? Vá saber. Mas nesse ponto, tenho que concordar com Aslam - o Grande Leão de Nárnia: "dizer o que teria acontecido? Não, a ninguém jamais se diz isso."

Independente de ameaças ou bonanças, eu e correntes não nos damos bem. Não as repasso, nem arrasto. E fim de papo.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Aos mestres, com carinho



Num dos poemas que mais amo no mundo inteiro, Cummings disse "honra o passado, mas acolhe o futuro". Acho que esse é um meio-termo bastante aceitável, quando nos deparamos com grandes mudanças.

Acolher o futuro requer coragem. Caminhar para aquilo que não se conhece é um desafio para qualquer pessoa, porque temos ideias pré-concebidas do que enfrentaremos; assim como temos as histórias e experiências de outras pessoas para pensarmos a respeito. Quando o poeta falava sobre acolher, acredito que ele tinha em mente algo maior que simplesmente aceitar por não ter alternativa. Não! Acolher é permitir que o futuro chegue, sem crivá-lo de perguntas constrangedoras; é conhecê-lo aos poucos e não apenas suportá-lo como um hospede incômodo. Acolher é ser gentil, baixar a guarda e permitir que o futuro seja tão bom quanto possa ser. Isso exige muito de nós.

Para acolher o futuro precisamos de desapego, bom-humor, esperança e maturidade. É necessário serenidade para não ver um gigante em cada moinho por que passamos. E principalmente, precisamos acreditar no bem que virá. Acolher o futuro é, antes de mais nada, um exercício de fé.

Honrar o passado é exercício de gratidão. É uma maneira bonita de reconhecer o bem que recebemos; um jeito bacana de dizer "muito obrigada pelas lições". Honrar o passado não é fazer dele um lugar cor de rosa, nem desconsiderar as lições que doeram. Pelo contrário; honra seu passado aquele que ergue a cabeça, permite um sorriso aos lábios e vai em direção ao futuro, certo de ter consigo as ferramentas necessárias para bem viver.

É assim que me sinto: no momento exato para dizer que sim, sou muito grata por tudo o que aprendi e pelos tesouros que adquiri em termos de conhecimento, amizades e de valores humanos.

Deixo aqui registrada a minha gratidão a cada uma das pessoas por quem passei nesses últimos anos. Aprendi com cada um de vocês coisas que nenhum livro poderia ensinar.

Acolho o futuro que virá e prometo me esforçar para agir, trabalhar e viver bonito. Porque acredito firmemente que quem faz o melhor no futuro demonstra para sempre genuína gratidão ao passado.

Muito obrigada, de coração.
Beijos
Fê Coelho

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Levanta-te e anda, Brasil!



Ontem minhas filhas me perguntaram por que estava todo mundo nas ruas, brigando. Para responder à questão, falei brevemente sobre os impostos que pagamos e sobre o destino inapropriado que muitas vezes esse dinheiro recebe. Discorri um pouco sobre o que é corrupção e sobre a importância de se votar com consciência. Para elas, isso foi o bastante; para mim não.

Passei o dia todo refletindo, incomodada com pensamentos recorrentes acerca de como a gestão do país historicamente favorece uma minoria em detrimento da massa. E cheguei a uma pergunta: como vou explicar isso para as minhas filhas? Como vou dizer que vivo num país em que o dinheiro de quem ganha um salário mínimo vai parar na cueca de gente sem escrúpulos? Como vou explicar por que tanta gente morre nas filas dos hospitais, por falta de recursos, profissionais, remédios e - não vamos tampar o sol com a peneira - boa vontade? Como é que se explica o fato de termos pessoas vivendo abaixo da linha da miséria, enquanto obras são superfaturadas e BIlhões são desviados vá saber para onde?

Mas a pergunta que me incomodou mais foi "como deixamos isso acontecer?". Quero dizer, sempre soubemos que nossos impostos eram altos demais e que o retorno era muito pouco. Sempre soubemos que havia gente impune ditando as regras; assim como sabíamos que nossas escolas estavam em situação abaixo esperado. Sempre soubemos que os professores eram desvalorizados, que o cidadão está cada vez mais preso e a bandidagem está mais solta que o arroz da minha mãe. Por que permitimos?

Recordo-me das aulas de geografia na escola, quando tive um dos melhores professores por quem passei. Era uma figura ímpar, parecidíssimo com o Patropi, chamado Zé Pereira. Esse professor fez por mim algo que nunca vou poder agradecer propriamente: ele me ajudou a pensar um pouco melhor. Foi em suas aulas que ouvi falar de mais valia e pilantragem generalizada. E foram essas aulas que me fizeram olhar com novos olhos as fotografias das manifestações políticas por que o nosso Brasil passou. Confesso: depois do Zé Pereira, passei a sentir uma pontinha de inveja daquelas pessoas nas fotos em preto e branco.

Cheguei à conclusão de que aquelas pessoas tinham mais coragem do que eu; que tiveram voz e que por sua luta algumas coisas acabaram por mudar. E lembro-me de pensar que eu vivia em uma geração que não tinha assim, tanta graça.

E é por isso que estou orgulhosa de ver o povo indo às ruas: porque sempre imaginei que minha geração seria marcada por cuecas endinheiradas, contas no exterior e falcatruas no Congresso Nacional. Pensei que não teríamos nenhum capítulo nos livros de história, mas (delícia das delícias!) me enganei.

Espero que quando os levantes arrefecerem, não nos esqueçamos dos motivos pelos quais eles começaram. Torço para que o recado das ruas fique gravado no coração dos brasileiros, para que alguma mudança efetiva se processe. Espero sinceramente ver coisas práticas acontecendo, a honestidade virando moda e a consciência sendo despertada.

Estou orgulhosa do meu povo. Sim senhor! Fique aqui o recado: minha geração pode até ser aquela que desce até o chão; mas também sabe ir às ruas.

Levanta-te e anda, Brasil!

Fê Coelho




quinta-feira, 13 de junho de 2013

Crônica de Quinta: A Fé e a Escada




Disse Martin Luther King Jr., "Dê o primeiro passo com fé. Você não tem que ver toda a escada. Você só precisa dar o primeiro passo". Sabem de uma coisa? Eu acredito nele. Quem me conhece pessoalmente, quem acompanha meus dias sabe disso: andei vivendo pela fé. Subi degrau por degrau, uma escada enorme, cujo fim eu não tinha a menor ideia de onde ficava; mas subi. E acontece que cheguei ao final de um dos lances. Acredito que isso me dê um mínimo de propriedade para falar com vocês sobre um assunto delicado: a fé.

Não pretendo discutir doutrina, religião ou divindades. Quero falar apenas da fé - essa capacidade que temos de acreditar em algo que não é palpável, que não se pode ver ou provar. Quero falar dessa certeza que temos cá dentro do peito e que tantas vezes guia nossos passos. Falemos do primeiro degrau, quando não se vê a escada, mas tem-se a confiança de que ela está lá. Na maior parte das vezes não é fácil fazer isso. Permita-me o leitor, descartar as atrocidades que já foram cometidas em nome de crenças ou pela falta delas e concentrar-me nos efeitos que eu experimentei em função da fé.

De imediato, acreditar que a estrada vai - como diz a música da banda Los Hermanos - além do que se vê, me permitiu o consolo. Quando os dias são muito difíceis, é preciso ter algo que amenize a situação. A fé fez isso por mim. Nos momentos mais complicados, eu me recordava que nem por um segundo eu estava sozinha; havia alguém que olhava por mim e que trabalhava a meu favor. Crer fez com que eu tivesse a sensação de que cumpria passos para algo maior, como se tomasse um remédio amargo que faria passar uma dor crônica. Essa certeza de que havia um plano me sustentou, manteve meu sorriso e permitiu que eu subisse um degrau por vez. Eu não podia ver todo o caminho; mas a cada curva que se revelava, crescia a confiança de que dias melhores viriam. A isso, eu chamo esperança.

Viver pela fé me permitiu exercitar a paciência. Por mais que queiramos, nem sempre podemos apressar as coisas. Os melhores frutos são os que amadurecem a seu tempo. E eu tive que aprender isso. Aprendi também que se você está trabalhando por algo, sendo digno e verdadeiro, cultivando amizades valiosas e acreditando sem reservas, as chances de sucesso são enormes. Boas sementes dão bons frutos. O que precisamos entender é que elas necessitam do seu tempo para se fortalecerem e só então procurarem a luz do sol.

Ah! leitor, mas quando as coisas acontecem... Quando finalmente enxergamos o caminho que trilhamos e entendemos que não, nossa vida não foi um amontoado de dias aleatórios, esse é um dia feliz além da conta! Ter passado pelo crivo da fé me ajudou a saborear as vitórias. Ter acreditado tanto e, justamente por isso, batalhado incansavelmente, deu um sentido absolutamente novo a tudo o que fiz nos últimos anos.

Acho que é mais ou menos isso: um degrau por vez, acreditando que a escada está lá. Porque no final das contas a decisão de não desistir já é uma forma de ganhar.

Beijinhos
Fê Coelho.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta Aberta ao Meu Irmão Caçula



Não pedi por você. Nunca me perguntaram se eu queria um irmão menor, branquelo, de bochechas enormes e vivíssimos olhos escuros. Não checaram meu interesse em levar para casa um menino que ia roubar meu colo, pegar meus brinquedos, chorar o tempo todo e fazer os adultos falarem feito bobos. Ninguém quis saber a minha opinião, mas você foi pra casa assim mesmo. A barriga da mamãe sumiu e você apareceu. O jeito foi lidar com a situação.

Durante vários anos, tive um passatempo: implicar com você. Ah! vai dizer que não era bom?! Pobre dona Marlene, tendo que aturar um desenho do Tom & Jerry ao vivo, todos os dias. Era implicância demais, por motivo de menos. "Olha ele me olhando!"; "olha ele me encostando!"; "olha ele existindo! Não dá pra devolver?". Claro que também brincávamos, quando não estávamos brigando. Como nunca fui uma pessoa de muito mimimi, você era a chance de brincar de golzinho, corrida de tampinha e subir em árvore. Nunca te expliquei muito bem, mas mesmo àquela época, eu já te amava desesperadamente. É que esses conceitos são muito vagos para os corações infantis. Criança não precisa de tanta definição.

Prova de que, não, eu não queria te devolver, é o sentimento de proteção que sempre tive por você. Não sei bem como a gente explica certas coisas. Tem palavra que não aceita cair do pé. Embora eu gostasse muito de brigar contigo, esse era um direito só meu. "Não mexa com o meu irmão" - esse era o espírito. Sempre fui ruim pra brigar com outras pessoas, mas não me esqueço um dia que bateram em você na escola. Acho que poucas vezes eu consegui ficar tão brava até hoje. E assim se desenrolou uma história de estica e puxa, em que a gente cresceu, amadureceu, aprendeu a conversar e fortaleceu laços e amor. 

O tipo de amor que se tem por irmãos mais novos é engraçado. Ali tem um pouco de tudo: amor de amiga, amor de irmã mais velha, de irmã mais nova, de tiete e até de mãe. É bonito demais ver alguém que nem dentes tinha - que chorava se esquecia o dever de casa - crescer, se desenvolver e virar um Homem. E veja bem, não estou falando moço, nem rapaz. Estou dizendo Homem de verdade, do tipo íntegro, responsável e provedor. Estou falando do tipo de homem que eu admiro e que, sem nem saber, torcia para que você se tornasse. Como dizemos no nosso Querido Estado de Goiás, você não deitou com as cargas! Foi construindo um caminho admirável, se tornando sempre melhor. Bom poder dizer isso: tenho orgulho de você.

Sei que o que temos é um amor que nos une, que vai e volta. Sei que você também tem essa coisa de proteger. Há um dia específico em que você foi um pai. Tenho certeza de que você se lembra e quero que saiba que não me esqueço. Pois rasguemos a seda do mundo inteiro! Estou muito orgulhosa das suas conquistas, do futuro que você está construindo. Não li uma linha do que você leu, não chutei uma só pedra do caminho que você percorreu, mas permita-me pegar carona na sua felicidade.

Como eu disse pra Geo há uns dias, "te amo muito mais do que poderia caber num texto curto, escrito por uma pessoa de vocabulário reduzido".

Arrocha, Dinho!
Te amo.

Beijão
Nanda 
(ele não me chama de Fê Coelho, fazer o quê. rsrsrs)












terça-feira, 4 de junho de 2013

Lia



Da janela aberta, Lia observava a noite avermelhada de inverno. As nuvens desfilavam inatingíveis, tangenciando aqui e ali algum pensamento solto. Desligou todas as luzes, fechou os olhos, inspirou profundamente e permitiu que o ar frio trouxesse consigo a calma.

Sentia-se cansada, pesada de lembranças que não queria mais carregar. Sabia que seus dias eram o amontoado das escolhas que fizera, assim como o futuro era todo lacunas a serem preenchidas. E o Beto? Bem, ele era um idiota. Só isso.  

Abriu os olhos. Brincou com algumas lembranças ternas, como um bebê que admira um móbile. Os bebês crescem. Ela também crescera. E assim como os móbiles, aquelas memórias agora pareciam absolutamente fora de contexto.

A chaleira começou a chiar. O chá. A chaise. A blusa de lã em volta de si. A bebida quente. O gosto de maçã com baunilha. O Beto. Um idiota. As lembranças se desfazendo. A voz de James Blunt baixa e melodiosa no player. Um suspiro.

"Ah! vontade de ficar apaixonada!". Tomou mais um gole do chá. 
"Passou".

Fê Coelho

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Crônica de Quinta: Prato do dia, pra todo dia.



Costumo dizer, em muitas situações, que deveríamos ver nossa vida como quem observa do alto de uma montanha (bem distante, bem alto) um pequeno vilarejo cravado no vale entre os morros. O distanciamento faz admirar: ver com olhos compassivos as casinhas caiadas de branco, as ruas estreitas e o silêncio. O afastamento permite imaginar que o lugar é simplesmente pacato e bucólico. Olhar um vilarejo assim muito de perto faz ver os defeitos, as paredes descascadas, os buracos nas ruas, os cães vadios, os vizinhos brigando pela localização das cercas. Assim também nossa vida, quando vista com um certo grau de afastamento, parece bem mais encantadora.

Não acho que as diferentes formas de se ver a mesma situação sejam, em si, um problema. Pelo contrário: penso que temos várias lentes para avaliar os fatos, sensações, memórias e a vida como um todo, cabendo a cada um a escolha de qual delas será usada para ver o quê. Nossa forma de enxergar pode fazer de um mesmo fato alto catastrófico ou apenas mais um aprendizado; pode tornar uma memória algo que traga uma saudade daquelas gostosas, ou um lamento amargo - tudo depende do filtro que se usa.

O próprio tempo pode ser interpretado por meio de recortes e, nesse caso, talvez seja bom inverter o raciocínio do vilarejo entre morros. Andei pensando a esse respeito nos últimos dias e cheguei à conclusão de que, no que tange o tempo, a melhor lente é a de aumento. Prestamos um belíssimo favor a nós mesmos, quando nos concentramos no exato momento em que nos encontramos, deixando de lado os lamentos a respeito do passado e as angústias sobre o futuro. Por mais clichê que seja, isso simplesmente não entra na maioria das cabeças, a minha incluída: o único momento a respeito do qual pode-se fazer algo é o presente.

Retomando o raciocínio do vilarejo ao inverso, é mais fácil lidar com uma rachadura na parede do que com um povoado inteiro. É mais fácil silenciar os vizinhos agora, tapar um buraco na rua no instante seguinte, mandar as crianças para o banho depois, ajeitar um telhado em seguida e assim por diante. Nesse sentido, pouco adianta reclamar do todo: trabalhar para melhorar uma coisa de cada vez, vivendo apenas o momento em que se encontra pode ser uma forma muito mais viável de gastar o oxigênio disponível no planeta.

Na última semana, enquanto pensava sobre essa crônica, experimentei me fazer várias vezes a seguinte pergunta: "nesse exato instante, descontando o minuto anterior ou o que virá, como me sinto?". O resultado da experiência foi revelador. Na maior parte das vezes, a resposta era simplesmente "estou bem". Algumas vezes, é claro, eu estive cansada, preocupada, ou mesmo com raiva. Mas esses momentos foram a minoria. Por que, então, contaminar todos os outros instantes com os resquícios de uma minoria desagradável?

Estou tentando viver mais leve. Tenho me esforçado para ser eficiente no momento em que posso ser, deixando de lado o que foge ao meu controle.

Ser é mais bacana do que seria. Gostar é mais legal que gostava. Estar bem é melhor que (Pre)ocupada com aquilo que simplesmente não é palpável. O presente do indicativo acrescenta mais que o pretérito mais que perfeito. Entre vários sabores fictícios, eu escolho o prato do dia - que é real, meu e que posso apreciar como queira. Espero que funcione. Tanto para mim, quanto para vocês.

Beijinhos
Fê Coelho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Flora Bicho Grilo



As histórias da Galera Aqui de Casa, por algum motivo que não sei explicar, convencem as pessoas. Não é raro alguém vir me avisar que andou recebendo uma visitinha da Isaura ou do Seu Manoel. Pelo contrário: vira e mexe alguém me pede para buscar a Isaura de volta, ou informa que o Dr Ptolomeu - que pretendo apresentar a vocês em outra oportunidade - resolveu aparecer. Não sei bem o motivo de meus personagens terem caído no gosto dos amigos. Talvez seja apenas uma forma de se identificar com algo comum; talvez um jeito bem-humorado de lidar com o cotidiano. Fato é que a Galera só aumenta. Para cada mania, vontade, hábito ou o que quer que seja, surge um tipo novo. E é por isso que tenho o prazer de apresentar a vocês a Flora Bicho Grilo.

Flora Bicho Grilo é uma prima da Isaura, que conheci depois de uma amiga minha (gente de verdade, de carne, osso e maluquices) me falar de suas visitinhas. Flora é uma mocinha magra, de cabelos castanhos, enrolados e meio presos por uma trança frouxa de onde pendem minúsculas flores. Usa um vestido esvoaçante branco e tem o sorriso fácil das pessoas despreocupadas. Nasceu no interior, numa vila pequena daquelas com casinhas caiadas de branco, esquecida entre pastos, morros e rios. Não conheceu a cidade até os quinze anos, quando foi visitar uma madrinha sua. E devo dizer: sua primeira, segunda, terceira e milésima impressões não foram boas. Acontece que ela acha tudo muito cheio de concreto, sem cheiro de mato, sem barulho de grilo, sem brilho de estrela. Acha o fim do mundo, as pessoas ficarem engaioladas, para se proteger dos perigos dessa terra barulhenta e cheia de fumaça. A Flora simplesmente não se acostuma.

É por isso que ela procura alguns cantos que tenham gente calma, que não tenha tanta pressa. Ela gosta de jardim, de planta, bicho e música leve. E não costuma prestar muita atenção a um monte de coisas que a gente acha importante, como os horários, as contas, e os prazos. Se você estiver correndo e procurando desesperadamente a chave do carro, não tente pedir ajuda à Flora. Ela vai provavelmente te irritar com comentários sobre alguma florzinha em algum canto qualquer, ou sobre como você vai acabar infartando, vítima do stress e de como as pessoas fizeram da vida uma corrida desenfreada. E vai tentar te convencer de que talvez seja uma hora apropriada para adubar o jardim, ou podar uma planta, ou levar os cachorros para um passeio.

Em noite de lua, Bicho Grilo gosta de se deitar na rede e ficar quietinha, só olhando e sentindo a temperatura  cair de mansinho. Gosta de conversar sobre como seria bacana estar noutro lugar e de inventar histórias que não aconteceram. Flora é uma sonhadora, um espírito livre e difícil de se perceber - até porque Flora é fã das sutilezas. Ela se mistura na paisagem e deixa conosco apenas aquela vontade ligeira de estar num lugar melhor, mais calmo, cheio de vida e de paz.

Não entendo como pode, esses personagens irem tomando forma num imaginário coletivo que a gente lá vai construindo. O que sei, todavia, é que cada vez que um deles surge, um pouco mais de graça pula para os meus dias.

Gostei da Flora. Acho que vamos nos dar muito bem. Acredito que nossas conversas serão algo assim:
- Viu, Flora, aquela paineira toda florida?
- Vi não, mas o beija-flor que passou voando por aqui agorinha era uma graça. Pra onde será que ele foi?

E que os dias sejam de paz.

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Concede-me essa dança?



De todos os sentimentos que experimentamos ao longo da vida, um em particular me intriga sempre que o encontro: o medo. Dizem que ele é uma forma de alerta aprendida ao longo de infinitas transmissões de DNA, pelas gerações afora. Acredito. Juro que creio nessa explicação. Assim como acredito que nenhum sentimento é puramente mau - más são as escolhas que fazemos a partir do que sentimos. Eu explico.

Quando algo nos acontece, sentimentos são mobilizados a respeito desse fato; coisas que podem ser momentâneas, ou durar por muito tempo. Nossas reações podem ter um cunho positivo, quando geram atos construtivos ou o contrário, quando nos levam à destruição - de nós mesmos ou do outro. O que me impressiona no medo é essa ambiguidade que ele trás consigo. O temor pode ser tanto o que te protege, quanto o que te paralisa; pode ser o que impede ou impulsiona. Tudo depende da escolha, da forma de ver e encarar a vida.

Por que estou falando dessas coisas? Porque preciso pensar a respeito. Vamos aos fatos.

Todo mundo diz por aí que a pessoa precisa plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Fiz as três coisas, sendo a última a mais recente delas. E essa noite, enquanto conversava com uma amiga a respeito de como pretendo fazer o lançamento do livro, tomou-me de assalto um medo enorme. O coração acelerou, as mãos ficaram geladas e um iceberg resolveu fazer morada no meu pobre estômago. Em tese, não haveria motivo para temor, afinal de contas o lançamento de um livro é algo para se comemorar, certo? O que me atemorizou, entretanto, foi a possibilidade de fracasso. E se as pessoas não forem? E se não gostarem do livro? E se eu ficar sentada diante de uma mesa, acompanhada apenas do barulhinho dos grilos? E se? E se não? Acredito que o leitor já tenha passado por algo semelhante.

Pus-me então a refletir sobre o medo que eu sentia e, acreditem ou não, uma alegria enorme preencheu o meu coração. Percebi que o fato de estar atemorizada não significa que precise ficar paralisada. E compreendi algo ainda mais bacana: o medo do fracasso só aparece quando caminhamos na direção de algo importante para nós. Temer falhar é privilégio de quem está tentando, de quem está se movendo. Na zona de conforto não há desafios, medos, monstros ou riscos; mas não há louros. O medo da derrota é inerente a quem luta, a quem se joga nos sonhos. E isso é bom, porque confere ao dono do temor a escolha a respeito de como agir.

Reconhecer o que nos atemoriza é o primeiro passo, visto que não há luta justa contra o desconhecido. Depois disso, devemos compreender o motivo de temermos. Feito isso, vem a ação. Enfrentar é bonito, nobre e libertador. Enfrentar é dizer à vida que, sim, você concede a ela essa dança - mesmo que não saiba dançar, mesmo com medo de cair. Realizar é aceitar bailar com os sonhos, mesmo num ritmo desconhecido.

Ora, a vida é um baile que ocorre apesar de cada um de nós. Ela toda é movimento, ritmo e ciclos. E acontece. Simplesmente acontece. A questão fundamental é a escolha que fazemos entre dançar com ela ou observá-la sentados a um canto.

Se cair, levanta. Se der errado, tenta de novo. Se não for como o esperado, aprende, refaz e vai de novo. Vai com medo, mas vai. Dança sem saber o ritmo, mas dança. Vive, leitor! Baila com os sonhos. Vive!

Beijinhos
Fê Coelho.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta a um Vestibulando



Caro vestibulando.

Você, que talvez tenha à sua frente, numa gaveta qualquer ou quem sabe apenas no pensamento, um daqueles formulários para escolha do curso a que se vai candidatar - espere um momento antes de marcar o X. Gostaria de conversar um pouco contigo.

Sei o que disseram sobre essa escolha iminente: ela vai marcar sua vida como nada nunca marcou; vai definir o seu futuro; é um caminho para a vida toda; é algo que se pode mudar, caso queira. Preciso pedir algo, agora que estamos assim, conversando. Olhe bem para os quadradinhos à sua frente e reflita. Farei, então, uma pergunta: está pensando em marcar a opção "Enfermagem"? Se sim, temos muito o que conversar. Se não estiver, continue lendo essa carta assim mesmo- nosso assunto não para por aqui.

Talvez você precise saber que os profissionais de enfermagem são responsáveis pelo maior contingente de trabalhadores da área da saúde. E talvez precise pensar sobre o que isso quer dizer. Fazer parte da equipe com o maior número de membros dentro de um serviço significa que você vai ter que saber trabalhar em equipe. Vai ter que se virar num grupo heterogêneo, em que cada pessoa traz consigo uma história de vida e de formação. Você vai precisar saber dialogar, porque numa equipe de enfermagem nada se resolve sozinho. Algumas decisões - ou muitas, a depender de como você conduza as coisa - poderão ser tomadas; elas podem inclusive ser arbitrárias e contrariar a sua equipe, mas não vão te levar muito longe. Porque num plantão, a equipe é tudo. Perca a sua e terá perdido sua capacidade de realizar muito do que gostaria. E você precisa entender que não é fácil aprender essas coisas.

Se você pretende ser enfermeiro, compreenda que vai lidar com as mazelas do outro. Ele vai reclamar, vai chorar e sentir dor. Você vai lidar com o medo, o abandono, a velhice, a doença, a frustração e a esperança prolongada. Talvez você precise lidar com as perdas, talvez com com as vitórias. Em alguns momentos você é que vai perder, inclusive. Coisas vão sair errado. Planos vão se frustrar. E o fundamental é: você não pode permitir que isso lhe tire a doçura! Estou falando de uma batalha diária, contra tudo aquilo que nos despersonaliza, contra o que nos torna menos humanos. E sabe porque você vai ter que lutar? Porque dificilmente vai atender a uma pessoa só. Outros seres humanos estarão sob os seus cuidados e você vai precisar tratar a cada um conforme suas necessidades. Sorrisos são terapêuticos e será necessário aprender a distribuí-los.

E se você pretende terminar a sua faculdade, pendurar o diploma na parede da sala e dizer "dever cumprido", vou te pedir um favor: não marque o X no quadradinho que sinaliza a enfermagem. Se você não está disposto a estudar  muito, por favor, não se torne um enfermeiro. Sabe, essa coisa de ver a profissão apenas como sacerdócio funciona bem para comover, mas no dia a dia não basta ser amável. Seu conhecimento é o caminho que te permite ir além, sem vacilar. Entenda: conhecimento e empatia são indissociáveis num bom enfermeiro. Um não sobrevive sem o outro. Acho que isso é um dos pilares da tão almejada competência.

Por falar nisso, esqueci de te informar: se você se tornar enfermeiro, estará em contato com todas as outras equipes e precisará ser competente para lidar com cada uma delas. Você precisará de argumentos sólidos, bons motivos e de uma boa postura profissional.

E saiba que muitas vezes você será aquele que vai ficar, depois que todos se forem. Porque o enfermeiro é o profissional do cuidado, da continuidade, da constância.

Se depois de tudo dito, e entenda que muito ficou oculto, você ainda pensa em ser enfermeiro, seja bem-vindo. O tempo se encarregará de ensinar o que só se aprende atuando. Por outro lado, se decidiu não ser um profissional do cuidado, tome a reflexão para si. Observe a profissão de que eu falei e compreenda que, por trás de um bom dia, um banho, um curativo ou até mesmo um pedido de silêncio, existe um ofício embasado em conhecimento, competência, luta e incansável dedicação.

Meu abraço a todos os colegas enfermeiros nesse dia. Que vocês possam honrar e engrandecer sempre a profissão que abraçaram. Parabéns pela escolha!

Beijinhos
Fê Coelho

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Chico


Nem todos os personagens dariam boas pessoas; assim como nem todas as pessoas viram bons personagens. Todavia, vez em quando, calha de essas duas coisas se encontrarem e aí, meu amigo, é uma festa só! Conheci uma criatura assim, com pinta de personagem, essa semana. Seu nome? Chico.

O Chico é o dono de uma livraria situada na Universidade de Brasília (UnB) e, pelo que eu entendi, se a gente procurar direito, encontra uma daquelas plaquinhas de patrimônio nele. São, afinal, trinta e cinco anos na Universidade. Não tivemos muito tempo para conversar sobre a sua história; ele está o tempo todo atendendo alguém.  Mas nem precisava. Eu não fora ali atrás disso; queria mesmo era conhecer a pessoa, o personagem-Chico. E foi o que fiz.

Cheguei logo depois do almoço, dirigi-me ao balcão de informações e perguntei pela livraria do senhor Francisco. O guarda olhou para mim com uma cara engraçada, de quem não está entendendo muito bem. Precisei explicar: "estou procurando a livraria do seu Francisco - o que apareceu na televisão, há uns dias". Aí tudo fez sentido. "Ah! Você está procurando a livraria do Chico!" - disse-me ele. E saindo do seu posto, o guarda deu uns poucos passos e me mostrou a entrada do estabelecimento. Trata-se de uma sala pequena, com paredes cobertas por prateleiras abarrotadas de livros. Pelo que pude perceber, existe alguma catalogação; embora desconfie que a lógica de distribuição das coisas esteja prioritariamente na cabeça do livreiro. Há poucos bancos e, acredite, eles não ficam desocupados por muito tempo. As pessoas que observei entravam na livraria e acabavam ficando um bocadinho.

O Chico não estava lá. Esperei. E quando ele chegou, estava sorridente, apressado e com as mãos cheias de sacolas abarrotadas de livros.

Apresentei-me com um "Oi Chico. Sou Fernanda, a escritora que te ligou ontem, lembra?". Sua resposta não poderia ter sido mais original. Tirou de uma das sacolas um livro do Paulo Leminski, abriu numa página qualquer e me disse: "lê esse poema pra gente." Olhei para as pessoas dentro da pequena livraria e, sentindo que não tinha muita escolha, li. As pessoas aplaudiram e o livro passou para as mãos de outro frequentador, que foi aplaudido e seguido por mais uma leitura. "O Leminski ultrapassou um best seller cinzento em número de vendas no Brasil" - ele dizia - "vamos ler para comemorar!". E assim, todos os clientes que entravam na livraria liam um poema antes de saírem. Penduravam a conta, mas não a leitura.

Foi uma tarde excelente, com boa prosa, bons versos e muitas risadas. Isso me deixou feliz, mas as entrelinhas daquela tarde me encantaram muito mais.

Percebi que eu estava diante de um homem com origem muito simples e que fez sua história sobre um caminho de parágrafos e páginas. Entendi, mais uma vez, o poder que as palavras têm para fazer diferente a vida das pessoas e para aglutinar. Admirei a força que há por trás do trabalho que é feito com amor e saí levando comigo um pouco dessa energia boa, dessa vontade de construir, de realizar. Trouxe para casa um livro de poesias devidamente autografado pelo autor, Daniel Faria, e um bocado de paz interior - do tipo que se consegue quando se vê algo simples, sábio e - pela falta de palavra que descreva melhor - bacana (muito bacana!).

Despedi-me após prometer que voltava.
- Você vai voltar logo, não vai?
- Vou sim, Chico. Adorei conhecer a sua casa.

E sinto que nesse ponto, talvez tenha sido injusta: aquela não é a casa do Chico; é o seu castelo!


Beijinhos
Fê Coelho





sábado, 27 de abril de 2013

Em Paz



Existe uma sensação que de vez em quando me acompanha, chegada não sei bem de onde, nem por que motivo; uma coisa boa, que me faz um bem danado. Essa sensação vai chegando de mansinho, às duas da tarde de uma terça feira qualquer, ou às nove de uma segunda feira. Ela não escolhe dia ou hora. Só quer chegar.

Existe um sentimento que aparece de mala e cuia, vindo das profundezas do infinito, dum lugar que ninguém sabe onde fica. É uma sensação peregrina, que não gosta de fixar residência, mas que sempre volta a me visitar; e quando chega, espalha as malas pelo chão, encontra um vestido de algodão, chinelos de dedo e se faz em casa. Toma conta de tudo o que há em mim, abre meus olhos - janelas da alma - para deixar entrar as cores do dia; escancara meu sorriso - porta entreaberta - para deixar passar o que há de bom e me transforma outra vez.

Estou falando de uma sensação de que tudo vai bem, e de que tudo vai dar certo. Falo de um contentamento moderado e gostoso como lagartear num dia de inverno, quando o sol tempera aos poucos a frieza da noite e colore o dia com cores inesperadamente vivas.

Existe, sim, um sentimento que nos arrebata de mansinho; um que vem chegando aos poucos como criança que se enfia por baixo das cobertas dos pais. Existe, sim, essa sensação que vai crescendo dentro da gente e fazendo morada; uma que fique conosco enquanto tiver permissão para ficar.

Esses dias, resolvi perguntar seu nome, por não saber como classificá-la. "Não sei por que nome devo te chamar", eu disse. A sensação me piscou longos cílios  e brindou-me com um sorriso arrebatador ao responder "vocês, humanos, complicam muito as coisas". Nada disse, apenas olhou para o céu, espreguiçou-se longamente, suspirou e voltou a sorrir. Fiz o mesmo e descobri: o nome desse sentimento que anda me fazendo companhia esses dias é pequeno, simples e precioso ao extremo.

Quem fez morada aqui comigo, tornando meus dias mais bonitos; quem me faz sorrir sem motivo é uma sensação quentinha como ficar ao sol num dia de inverno. E esse sentimento atende pelo singelo nome de Paz!

Um bom final de semana a todos
Beijinhos,
Fê Coelho

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre Elefantinhos e Problemões



Desconfio que assim como eu, várias pessoas tenham se apaixonado pelo pequeno Dumbo - o elefantinho orelhudo, vítima de bullying e com vocação para acrobacias aéreas. O que não sei é se o filme provocou nos expectadores de maneira geral o mesmo efeito que causou em mim: o de passar a achar filhotes de elefante algo muito fofo. Eles parecem tão engraçadinhos e desprotegidos que dá vontade de pegar e levar pra casa. É exatamente o que fazemos com alguns aspectos de nossa vida: adotamos, protegemos e alimentamos hábitos, posturas e problemas que, exatamente como os elefantinhos, vão crescer e se tornar um problemão. Aconteceu comigo. Acontece com um monte de gente.

Quem nunca se pegou com aquele pensamento procastinador e - confessemos - meio covarde de deixar para depois? Existem algumas situações com as quais preferiríamos não lidar, seja porque nos é incômodo, porque não sabemos como resolver ou até porque não gostaríamos de dar um fim a elas. Então passamos um bom tempo vivendo como se o problema em questão não existisse, ou como se não passasse de um enfeite, um bibelô qualquer. Aí reside a encrenca toda: problemas não são bibelôs! Perrengues não são coisas estáticas, que podem ficar anos a fio relegadas a um canto, para depois serem resolvidas. Problemas são como filhotes de elefante que se criam na sala de casa e que cedo ou tarde vão acabar ocupando todo o espaço disponível - a menos que se dê a eles um destino apropriado.

Eu exemplifico. Com o advento da banda larga, o surgimento dos dispositivos móveis e toda essa parafernália tecnológica que eu falharia miseravelmente em descrever, surgiu a oportunidade da educação à distância - uma excelente pedida para quem tem o mínimo de disciplina. Confesso que não é a primeira vez que tento essa modalidade de ensino. A diferença é que agora vai! Não foi só um curso que ficou pelo caminho, sem que eu o terminasse. Das outras vezes, a procastinação - que era apenas um fofo e insistente bebê elefante - tornava-se adulta e impossível de se lidar, tal qual um elefante adulto e barulhento. O prazo acabava, a paciência também e lá se ia o meu tempo e o meu dinheiro pelo ralo - exatamente porque falhei em lidar com um problema enquanto ele era pequeno. É exatamente o que estou tentando fazer agora: dar um destino aos maus-hábitos, manias e perrengues enquanto posso lidar com eles.

Não quero dizer que seja fácil. A maior parte das vezes temos problemas de estimação - inseguranças, medos, hábitos, ciúmes, crenças e situações - dos quais não conseguimos nos livrar. Isso me faz lembrar de uma anedota que ouvi, não me recordo bem onde ou quando, e que narra a história de uma pessoa que atravessava um rio agarrada a uma pedra. À medida que a pessoa se afogava, os amigos gritavam para que ela soltasse a carga. A isso, ela teria respondido: "não posso, porque essa é a Minha Pedra". Em outras palavras: é o meu ciúme, o meu espaço, o meu medo, o meu emprego, o meu relacionamento, o meu desejo de salvar o mundo, a minha crença de que eu posso mudar as pessoas, e por aí vai. Afogamo-nos, mas não largamos. Deixamos que o problema cresça,  mas não o resolvemos.

A questão é que, assim como os elefantes, tudo o que alimentamos cresce e consome mais e mais de nós. O que é nocivo piorará; seja por questões práticas ou pela nossa inaptidão em resolver a situação. Os monstros embaixo da cama adquirirão mais escamas, os medos aumentarão, as mentirinhas e pequenas ilusões renderão grandes perdas. O essencial é ter coragem para reconhecer o que pode ser um bebê elefante - por mais fofo que seja, por mais gentil, desprotegido ou mesmo ameaçador que seja - e então desapegar. Porque em algum momento a gente aprende: algumas coisas são necessárias; outras não.

Beijinhos
Fê Coelho


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Crônica de Quinta: Seu Manoel e Eu



Acredito que a maioria das moçoilas que moram sozinhas conhecem a figura de quem pretendo falar. O senhor Manoel - que eu carinhosamente chamo de Seu Manoel, Maneco ou, se estiver com muita raiva, Mané - é da turma da Isaura. Trata-se de uma das criaturas imaginárias e palpiteiras que fazem parte da Galera Aqui de Casa.

No que se refere a pequenos reparos, nossa sociedade é praticamente unânime: isso é papel de homem! Daí decorrem batalhas homéricas entre donas de casa revoltadas com a capacidade dos maridos para procastinar e maridos embasbacados com o quanto as mulheres podem ser insistentes - especialmente quando eles já disseram que vão dar um jeito em tudo. Acontece, leitor querido, que nem todas as leitoras têm um marido com quem brigar ou uma figura masculina para quem fazer beicinho, prometer vantagens ou argumentar a cada vez que uma pia entope, um varal despenca ou uma lâmpada queima. E é nesse ponto da conversa que surge a figura do Seu Manoel.

Seu Manoel é um distinto senhor, lá pelos seus setenta anos de idade. Viúvo, teve que aprender como educar seus doze filhos, hoje dispersos por esse mundão velho e sem porteira. Desconfio que ele tinha uma veia inclinada às ciências humanas, porque quis viver a experiência de cuidar dos filhos, só pra saber se era possível. E foi. De alguma forma, isso transformou profundamente o sistema de crenças do Seu Manoel e fez dele uma espécie de feminista. Hoje ele se diverte fazendo visitas a mulheres que precisem fazer o que ficou rotulado como "coisa de homem". O objetivo é incentivá-las a serem fortes, independentes e bem-resolvidas. Tenho cá minhas dúvidas sobre a pureza das suas intenções. Todavia, continuemos.

Meu primeiro contato com o Maneco foi durante a faculdade, quando um ralo de banheiro entupiu. Considere, o leitor, que eu morava num apartamento dividido com outras três mocinhas. O ralo estava entupido. O banheiro não funcionava. Ninguém queria pôr a mão para resolver o problema (convenhamos que isso é nojento). Aí o Seu Manoel chegou, usando um paletó xadrez com napa nos cotovelos, um lenço no bolso, e os cabelos grisalhos cheios de brilhantina escondidos dentro de uma boina. Lembro-me de que ele sorriu, olhou no fundo dos meus olhos e disse "Mas fia, isso é facim demais de resorvê! Ocê bota um saco na mão, tira a tampinha do ralo e vai com fé. Bota a mão lá dentro e arranca as tranqueira tudo de lá. Aí depois bota a tampa e vai tomar banho. Té parece que tem dificurdade nisso..." .

É como eu digo, leitor, a Galera Aqui de Casa faz o que quer comigo. Fato é que eu desentupi o ralo e de lá pra cá o Seu Manoel decidiu investir no meu potencial. Já me ensinou a trocar lâmpada, calibrar pneu de carro, consertar varal, ajeitar a TV quando ela resolve chiar, entre outras coisas. Quando eu penso que não vou resolver algo, ele aparece do nada e dispara "deixa de bobagem, fia. Isso aí é facim demais de resolver".

O problema é que ele é meio confuso. Nem sempre sabe bem o que está fazendo. Já peguei o Seu Manoel procurando vídeo tutorial no Youtube e sites do tipo "faça você mesmo". Aí ele se justifica, dizendo que no tempo dele era tudo mais fácil, que as gerações seguintes complicaram tudo. Mas não desiste, o danado! Vai dando um jeitinho, tentando outra forma de argumentar até que me convence. A menos que a Dona Expedita apareça e diga que quer um picolé de limão. Nesses casos, ele me abandona com a chave de fenda na mão e foge, vá saber pra onde.

Não sei se ele é um feminista que busca incentivar as mulheres a expandirem suas habilidades, ou se é um machista querendo convencê-las a darem uma folga aos seus maridos. Seu Manoel é dessas figuras que a gente não entende bem, mas aceita. Até porque quando ele resolve aporrinhar, é pra valer. Disse e repito: sou uma alma fraca, leitor. Trocar a lâmpada não é divertido, mas ver o Seu Manoel explicar até tem a sua graça. E que se registre: a mulher que nunca deu ouvidos ao Maneco, que atire a primeira bolsa!

Beijinhos
Fê Coelho
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