quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Epifania da Jabuticaba

Jabuticaba tem gosto de infância. Foi essa a frase que me veio à mente ontem, no caminho de volta para Brasília, após sentir o sabor da primeira bolinha negra da estação.

Provavelmente, quem me conhece ou acompanha meus textos, já conseguiu perceber que eu tenho dessas coisas. De repente acontece alguma coisa e pronto! Eu simplesmente preciso escrever sobre aquilo. Vira uma agonia que não passa até eu por o pensamento em forma de palavras.

Voltemos à jabuticaba e à epifania. Quem assistiu ao filme Ratatouille, lembra-se de quando Anton Ego experimenta o prato de sua infância e volta imediatamente à sua antiga e simples casa, onde vivera dias aparentemente felizes. Pois foi exatamente isso que me aconteceu.

Bastou uma mordida e fui direto para lugares onde estive há alguns anos - sem especificidades, por favor. Lembrei-me, com uma precisão incrível, das fazendas que costumava visitar quando criança. Era como se sentisse a temperatura amena, o cheiro e o sabor das jabuticabas. Daquelas jabuticabas degustadas com paladar de criança, buscadas no pé com mãos pequenas e ágeis - ávidas por pegar as maiores e sabidamente mais doces bolotas. Recordei a preocupação infantil com a roupa que não poderia ficar manchada, mas que no final das contas já não contava mais.

E as lembranças foram se desdobrando: um banho de bica, uma manhã brincando num trator desligado, um passeio a cavalo, tardes na rede, chuva, cheiro de mato e de gado, noites de estrela, fogueira, acampamentos, a vida se modificando, crescer, direitos e responsabilidades adquiridos, o despertador, gestações, as crianças.

Ah, as crianças. Olhei para o banco de trás. La estavam elas, com seus sorrisos luminosos e seus olhinhos vivos. Comendo jabuticaba e estalando os lábios. Construindo memórias que as acompanharão pela vida toda.

Ocorreu-me que, de fato, a vida nos dá presentes a todo momento. Basta que estejamos atentos o suficiente para perceber. Como foi gostoso perceber que uma coisa tão simples como uma jabuticaba pode ser um ponto de intersecção entre as minhas memórias e as de minhas filhas. Como é gratificante perceber que, mesmo tendo nascido em séculos diferentes, sempre teremos algo em comum. E como é gostoso saber que a simplicidade da vida e a infalibilidade do tempo se encarregam de nos mostrar essas afinidades.

Porque um dia todo mundo percebe: Jabuticaba tem gosto de infância.


Beijinhos

1 comentários:

lsd.fabricio disse...

Até parece que o texto foi escrito por mim.
Realmente nostálgico.

Obrigado.

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