quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Aos Trinta Anos



Tenho cá comigo que as pessoas têm a mania de serem regidas por números redondos. Essa coisa das décadas provoca em nós uma sensação de mudança, como se passássemos de fase num jogo cujas regras ninguém entende muito bem. Aconteceu comigo. De novo.

Aos dez anos, embora não soubesse explicar, havia uma sensação de importância ingênua, uma excitação por usar o conteúdo de duas mãos pra dizer minha idade, como se isso fosse uma espécie de indicativo entre quem era criança e quem era muito criança. Aos vinte anos, eu me senti adulta. Céus, como eu me achava interessante, madura, pronta para dar conselhos e espanar pra todo mundo um monte de conceitos prontos que eu nem sabia de onde vinham. Deus sabe, e agora eu também, quanto engano há por trás dessa sensação de maturidade que a gente experimenta aos vinte. E chegaram os trinta. É nesse ponto que quero espichar a prosa.

A expectativa de fazer trinta anos me apavorou durante os dois que antecederam o fato. Fiquei muito preocupada com a passagem do tempo e seus desdobramentos, com o tempo que deixei pra trás, com as decisões que precisei (e ainda preciso) tomar e as consequências disso sobre a minha vida e a das pessoas ao meu redor. Nos dois últimos anos, me pressionei muito para acertar - afinal de contas, espera-se de uma mulher de trinta anos, no mínimo, que ela saiba o que fazer da vida, certo? Errado.

Nós temos o hábito de rotular as coisas, os feitos, e estabelecer padrões regidos cronologicamente por algum Big Bang invisível que fica alertando: hora de acordar, de se formar, de dar o primeiro beijo, de casar (ora, você A I N D A não se casou, querida? ), de ter filhos, estar milionário ou pelo menos ser o presidente de alguma empresa, de usar anti-sinais, fazer plástica, ter uma bolsa de marca, parar de chorar, ficar segura. Enfim. E nos acostumamos com essa pressão, como se ela fosse genuína, como se estivéssemos de fato devendo algo ao mundo em decorrência do passar do tempo. Claro que não se pode viver sem responsabilidade alguma ou sem nenhum senso de orientação, mas não sei até que ponto esse frenesi ajuda no processo.

Acontece que o tempo passou e cá estou: Uma Mulher de Trinta Anos. Como eu me sinto? Ótima! Acabei entendendo que se não tem como correr, melhor fazer, não? Essa frase foi de uma amiga/irmã, que passou pela experiência antes de mim. E quer saber? Ela está coberta de razão.

Aos trinta anos, tenho a consciência agudíssima de que nunca vou chegar ao patamar de maturidade dos meus pais, por exemplo. Até porque o tempo passa na mesma velocidade para todos nós e para eles começou antes. De modo que o quinhão que me resta é aproveitar o que posso aprender. Aí vem o pulo do gato: por mim, tudo bem! 

Aos trinta eu me conformei e entendi que algumas coisas eu já sei, outras não. Aprendi que algumas coisas é preciso tolerar, mas tenho aqui comigo uma lista enorme de situações que, sinto muito, mundo, mas não vou engolir de jeito nenhum. Entendi que cururu não é comprimido, mas às vezes precisa virar tira-gosto. Estou começando a descobrir que Sim e Não tem o mesmo peso, embora essa última seja muito mais difícil de dizer. Consegui olhar com mais humor para meus próprios defeitos e me perdoar por algumas escolhas, afinal de contas, foram elas que me trouxeram até aqui. Descobri o valor de se cultivar amigos e que muitas vezes só isso te livra de você mesmo. Entendi que somos nosso pior algoz e, paradoxalmente, nossa companhia mais importante. E que uma pessoa que não tolera estar só, está em péssima companhia.

Aos trinta anos, posso dizer que sei acender churrasqueira, trocar lâmpada, desentupir pias, ralos e companhia, arranho uma forma estranha de fazer fogueira, conserto varal, dirijo em estrada, abro vidro de palmito, cozinho um bocado de coisas, sei os princípios da troca de pneus, escrevo alguns textos, amo desveladamente algumas pessoas por quem valeria a pena morrer, entre outras coisas. Mas não mato baratas, ratos e companhia limitada; não tolero gente má, nem mentira, nem pessimismo. Não me alegro com a desgraça alheia. Não gosto de noticiário, nem de revista de fofoca. Não tenho saco pra gente arrogante e nem pra gente com cérebro de minhoca. 

Talvez eu esteja mais ácida, menos doce, menos ingênua, mais confiante, mais doida, vá saber. Fato é que o Temido Trintão veio como um presente maravilhoso, uma forma de promoção, um upgrade para uma versão melhor de mim. O bonde do tempo passou e eu literalmente me joguei lá dentro.

Melhor ir com a vida, que observá-la passando. Porque o tempo passa, meu bem. Isso é fato. A questão fundamental é: você embarca ou não?

Beijinhos
Fê Coelho





4 comentários:

PatyDeuner disse...

Fantástica a sua declaração avaliativa dos 30. Tive grandes problemas prévios com essa data, mas no fim é isso mesmo, cada ano que passa é um upgrade na vida.
Texto fabuloso!

P.s.tive as mesmas boas sensações quando fiz 40..vou esperar seu texto quando chegar lá ;)

Sueli Gallacci disse...

Fê!

Em resumo, vc descobriu que fazer trintinha não dói nadica de nada! E não dói mesmo. Nos dias de hoje confere charme à mulher e um ‘Q’ de desenvoltura. É um número redondo, cabe lembrar que formas esféricas representam a perfeição.

Se bem que acho que vc sempre será bela e charmosa aos 30, 40, 50...

Dentro de poucos dias estarei mais próxima da tua dobradinha, Jesus, Maria, José!!! rsrs. Isso sim começa a ficar preocupante, né, não? rsrs.

Vc está certíssima, vamos mergulhar de cabeça nesse bonde chamado vida e tratar de ser feliz; sem nos preocuparmos muito com o Sr. Tempo. É pura perda de Tempo rsrs.

Feliz 30 pra vc!

Bjokas.

Ah! És uma leonina! Eu sabia que havia muita similaridade comigo!!! rsrs

Tais Luso disse...

Ô, Fernanda, 30 aninhos? Pô, amiga, tenha piedade...
Se com seus 30 anos, linda desse jeito, escrevendo assim e mandando muita coisa pro espaço, daí pra frente é só viver!
Mais madura você está; mais decidida também... Daí pra frente é sempre procurar viver dentro de um certo equilíbrio.
Seu texto está lindo e seu recado está dado para quem está nessa faixa dos trintinha, dos 40, dos 50... É isso sempre.

Amiga, seu texto vale para todas as idades, para quem quiser ser feliz. Mas tenho algo mais ou menos em em comum com você: tenho fobia à baratas e todos os seus primos, mas MATO!!! E mesmo assim confesso que morrerei com essa fobia.

Grande beijo
Tais

Guigo em London disse...

kkkk Muito bom esse texto, apesar de eu não gostar desses momentos da vida "redondos" como se fossem marcos que delimitam nossos poderes de fazer ou revelando aquilo que é nossa Kriptonita!
Queria ver alguém fazendo um texto parecido aos 32 anos, 4 meses e 7 dias... nunca vi! kkkkkk
Mas tem uma frase sua que tem muito a ver comigo!
"mas tenho aqui comigo uma lista enorme de situações que, sinto muito, mundo, mas não vou engolir de jeito nenhum."
o pior que essa minha lista só cresce. Não sei se sou eu quem sou chato, ou se o mundo está ficando boçal demais pra mim...
Quero mais!

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